1 - DEPOIMENTO SOBRE MINHA POESIA

 Sérgio Mattos

 

 

         Vivo numa época na qual quem tem ousadia, quem corre riscos pode dar certo. Vivo numa época em que as oportunidades são múltiplas e os valores incertos. Tudo pode depender da simpatia de um grupo ideologicamente afinado que pode endeusar ou destruir um artista seja ele da palavra, dos pincéis ou das notas musicais. Com a mesma facilidade, também, podem incensar quem, às vezes, não merece.

A verdade é que tenho corrido os riscos de meu tempo de vida, sobrecarregado pela necessidade de ser um cidadão produtivo para garantir a sobrevivência. Renunciando ao lazer pelo trabalho, ou pela dedicação à pesquisa e ao ensino. Renunciando a horas de sono em troca do prazer da leitura e, principalmente, do processo de aprendizagem eterna do construir poemas, unindo sensibilidade e observações racionais, buscando transmitir de maneira direta, simples e comunicativa o meu recado. É nesta procura que tenho experimentado todas as formas de comunicar pela poesia.

           Tenho procurado retirar os poemas dos livros, colocando-os em poster-poemas ilustrados, pois o poema também pode ser admirado nas paredes, como obra de arte, ou nas telas dos microcomputadores por meio da Internet. Tenho buscado também dar outra vida aos poemas, que estão sendo musicados, permitindo uma comunicabilidade extraordinária. A popularização do poeta e do poema interpretado por atores tem sido uma constante nas performances, nas quais  podemos reencontrar, nos recitais e leituras públicas de poemas, a tradição oral da poesia. Esta tem sido uma busca consciente, na qual não temo vir a ser criticado ou classificado por quem costuma fazer juízo de valor.

         Estes processos de difusão poética ampliam a relação do produto final do poeta, a idéia-poema, com o leitor que assim interage com o poeta/poema e recria vivências dentro de seu próprio mundo. O poeta e o poema devem provocar este momento de reconstrução perante o leitor. O poeta deve provocar o leitor fazendo com que ele encontre, no fundo de sua alma, o sentimento perdido, a sensibilidade embrutecida, fazendo-os aflorar, despertando lembranças e desejos. Se isso acontece, creio, o poeta deixou de ser aquele ser que produz solitariamente, aquele ser hermético cujo fruto só está ao alcance  de  uns poucos leitores dentre os quais existem alguns que fingem ter percebido a mensagem  por modismos ou para serem  aceitos nos círculos que freqüentam, aparentando possuir uma cultura que, muitas vezes, não passa de uma fina camada de verniz adquirida nas orelhas de livros.   

Acredito que a poesia tem de ter um caráter universal para permanecer. Ela deve estar acima da política e das ideologias. Ela tem de apresentar os valores comuns a todos os homens, independente de época, como disse Baudelaire “a poesia é a distância reencontrada” e a esta definição acrescento que a poesia é a soma de todas as fases da vida, com suas descobertas, vivências e valores que transformam a criança de hoje no adulto de amanhã. O poeta tem de dominar as palavras e com elas adestrar suas emoções, pois como disse João Cabral a poesia é “o laboratório da linguagem”.  O poeta é o artista/criador capaz de captar a poesia presente no andar de uma mulher, no vôo de um pássaro, nos elementos da natureza e transmitir toda a felicidade e a beleza que a vida nos oferece.

         Há quem aponte que minha poesia não é engajada, nem eu acredito que a poesia e o poeta tenham que ter a responsabilidade de salvar o mundo. Mas, o poeta deve registrar seu tempo e realizar a busca incessante da verdade sem ter de transigir ideologicamente.  O poema é o instrumento de que o poeta se utiliza no seu papel de conquista da realidade.

Há quem diga que escrevo prosa em forma de poesia. Entretanto, no meu entender, minha poesia não pode ser rotulada. Ela nasce livre e depende do momento poético em que esteja vivendo. Indo de encontro a Mário Quintana e a João Cabral de Melo Neto que são contra a datação em poesia, meus poemas sempre foram datados para que se possa constatar o mundo real no momento da criação. São datados para que o leitor possa perceber os altos e baixos do processo poético ao longo das fases da vida, para que o leitor possa interagir com a vivência e a experiência do poeta, do ser vivente.

A prática de datar os poemas, desta forma, independe do tempo que levou para ser construído, independe das lapidações que tenha sofrido. Ao ser concluído, preservo o poema tal como foi criado na época, na forma e no conteúdo.  Quanto à prática de datação, há quem prefira identificar o número de versões de um mesmo poema, que pode ser trabalhado ao longo do tempo ou por uma simples exigência da maturidade do próprio poeta. A verdade é que, por um motivo ou outro, vários artistas continuam lapidando suas preciosidades em busca de atingir a perfeição, mas isto não precisa ser escondido do público leitor, principalmente quando os poemas aparecem modificados em novas edições. Contrário a esta prática, prefiro conservá-los como foram criados, registrando, na data, o contexto, a realidade e o sentimento do momento.

Assim sendo, diria que minha poesia nasce naturalmente como fruto da dedicação e depuração artesanal,     sem a pretensão de querer atingir os requintes e habilidades de versejadores como Teodoro de Banville.  Ela é espontânea quanto à naturalidade e à simplicidade, não quanto ao ato de surgir plena e perfeita como um resultado de arrebatadora inspiração metafísica, em que não acredito. Ela é despojada de disfarces, mas sempre que possível procuro recheá-la com doses de ironia.

Não faço poesia hermética. Procuro a simplicidade das palavras para comunicar minha mensagem, optando assim por um ritmo poético mais livre e amplo. Quase toda a minha produção apresenta-se em versos livres. Essencialmente, considero-me um eterno aprendiz de poeta lírico.

         Tenho buscado um estilo próprio do produzir poemas, mas percebo, claramente, a influência do jornalismo diário neste processo. Na produção poética procuro a mesma comunicação direta e simples tentada no jornalismo, visando dar o meu recado de maneira correta e objetiva. É claro que, apesar deste direcionamento bastante diferenciado, alguém poderá identificar influências de A ou de B.  Li tudo e continuo lendo e  relendo sem qualquer preconceito, pois para mim poesia é como uma bíblia, cada vez que lemos um poema, podemos descobrir, sentir ou apreender algo novo que não havia sido percebido na primeira leitura.

Impossível seria enumerar todos, mas ao longo dos anos, tenho lido clássicos, parnasianos, modernistas e contemporâneos. Destaco alguns dos meus poetas preferidos, não necessariamente nesta ordem: Eliot, Pound, Maiacovski, Neruda e Pessoa.  Augusto dos Anjos, Castro Alves, Jorge de Lima, Gregório de Mattos, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Vinícius, Drummond, João Cabral, Quintana e Manuel Bandeira. Não citarei meus contemporâneos e poetas locais, que admiro, para evitar omissões.

A poesia pode ser feita sem rima e métrica, pois as fórmulas foram abolidas desde o modernismo. Mas o poeta pode rimar, sem metrificar. Ele pode criar em versos livres e sem formas fixas, transformando o espírito poético. O impulso poético existe independente de rima ou de métrica. Particularmente, gosto das rimas nos versos, como marcadores de compasso sonoro e tenho perseguido esta rima desmetrificada,  principalmente quando, em micro-versos ou quase haicais, misturo a fórmula proposta por Guilherme Almeida quanto à rima, desprezando, entretanto, a métrica, quando não desprezo as duas.

 Adaptando o haicai à nossa tradição poética, Guilherme Almeida propôs, mantendo o ritmo estrófico ternário, uma estrutura de versos de cinco/sete/cinco sílabas métricas, com duas rimas unindo o primeiro com o terceiro verso e outra interna no segundo verso, ocupando a segunda e a última sílaba. Na verdade, ele criou um modelo para o haicai em português, que nada tem a ver com o haiku japonês.

Seguindo este modelo, identificado por muitos como sendo um micro-soneto parnasiano, Guilherme Almeida oferece aos poetas que o utiliza uma oportunidade de exibir sua perícia técnica. Tenho utilizado, em micro-poemas, o exercício desta rima proposta por Guilherme e esta é uma prática extremamente trabalhosa e desgastante, mas ao mesmo tempo um desafio e um risco que traz satisfação também.

 Alguns leitores, talvez,  por desconhecerem a proposta, podem achar que estamos apenas brincando com as palavras, abusando do seu valor fonético ou praticando um jogo verbal. Não sei se vale a pena tentar explicar o poema pelo poema, entrar numa discussão estéril, pois a aliteração e assonância são recursos naturais de todo e qualquer processo poético.

         Em minha produção poética, procuro internalizar cada verso. E assim, pensamento e vida se interpenetram no poema.  Observo o cotidiano em busca de identificar um sentido poético. Acredito que o poema deve procurar atingir o leitor, despertando nele associações e lembranças, permitindo-lhe navegar nas entrelinhas (ou entre versos) recriando suas próprias situações e vivências, fechando um círculo de comunicação entre o poeta e o leitor.

         Em síntese, procuro fazer uma poesia que é uma espécie de celebração do cotidiano. Com uma linguagem simples, sem falsos apelos de sublimidade, procuro falar do homem e de suas aflições, do amor, dos sonhos, decepções e das nossas aspirações. Não abuso de recursos metafóricos nem de adjetivos desnecessários. Procuro realizar um trabalho intelectual pragmático: dar o meu recado objetivamente e o meu testemunho lírico a respeito de nosso tempo.

         Assim entendo a poesia e assim procuro construir meus poemas.

         Neste livro estão reunidos poemas que integram nove livros que produzi ao longo de minha caminhada. Oito deles já publicados e o último, Restantes, com poemas inéditos de várias épocas. A publicação desta reunião de poemas, Essência Poética, se deve ao fato de estarmos comemorando 45 anos desde a publicação do primeiro poema em letra de forma.

2 - MINHA ARTE

 

O poema

é arte nata,

Artesanato.

 

O poema

é arte, de fato.

Artefato.

 

A poesia

é meu estandarte.

Minha arma, minha arte.

Passo a passo, a faço,

procurando ocupar espaços,

registrando o dia-a-dia,

sem dogmatismo ou maneirismo,

sem máscara ou palhaços.

Meus versos

são lançados,

visando a todos atingir,

como se fossem estilhaços

cheios de verdade e emoção.

                                      (1988)

3 - ESTANDARTE

 

Que os poetas

façam a Revolução da Canção,

que usem as flores, as palavras

e os poemas como armas

da libertação.

Que os poetas cantem

o amor, a  liberdade

e usem a verdade

como estandarte

na luta contra a alienação.

                                      (1979)

4- SINFONIA CAMPESTRE

 

Hoje ouvi uma sinfonia
que ninguém jamais ouviu:

Admirando o bailado
das borboletas voando
tracei linhas imaginárias no espaço,
como uma verdadeira pauta musical.
Transformei em ritmo e compasso
aquele vôo silencioso e magistral.
E, por encanto, as borboletas
em notas coloridas se transmutaram.
De dó em dó, de flor em flor,

Lá no campo, consegui ouvir e sentir
a cor da música que tocavam.

(1988)

5 - ROSAS

 

A flor que é rosa

é a flor de todas as cores

a flor de todas as flores.

 

A rosa amarela é rosa.

A rosa branca é tão rosa

quanto a rosa vermelha.

A rosa rosa é poesia

e a rosa preta, criada

pela indústria da fantasia,

representa a síntese, a prosa.

                                       ((1988)

6 - REFLEXÕES

                            

Debruçado em lembranças,
esquecidas da infância,
encontro semelhanças
de hoje e a mesma ausência.

 

Ausência de pendência
quando contrafeito,
vencido na própria ciência,
restando mágoas no peito.

 

Peito cheio de presença,
de exuberância intelectual,
mas que não alcança
uma platéia espiritual.

 

Espiritual devido ao divino
impulso dirigido ao perfeito.
Um movimento lento, próprio do destino,
cujo conceito percebo e aceito.

 

Aceito o sentido dramático
da vida, o desejo imaginário,
a monotonia ou o estático
ato de refletir o inventário.

 

Inventário desconcertante
do processo de sedução
à vaidade, falsamente importante,
e que só conduz ao sonho em vão.

 

Sonho em vão é ser baralho
descartado. É pensar como inseto.
É ter vida de espantalho
e querer permanecer cego.

 

Cego é ser reduzido
a acreditar no que não sente.
É não se fazer ouvido.
É não dizer o que lhe vem à mente.

 

A mente do poeta que presume
é iluminada pela novidade
do poema dito, em alto volume,
defendendo o que é verdade.

 

Verdade, mesmo dura,
deve ser revelada com arte
na literatura, na pintura, com a ternura
da poesia, que na vida, é o tudo da parte.

                                                        (1999)

7 - DESEJOS

 

Há o desejo de estar na multidão,
sentir a companhia e matar a solidão.

Há o desejo de anoitecer o tempo
enquanto por dias o mar contemplo.

 

Há o desejo de cruzar a madrugada,
amando, com os sentidos em revoada.

 

Há o desejo de reencontrar amores idos,
sentir odores e ouvir sussurros de tempos perdidos.

 

Há o desejo de percorrer lembranças
de cada amanhecer do tempo de criança.

Há o desejo de entardecer, revoando
pedras, prédios, mar e rios, amando.

 

Há o desejo infantil de reencontrar
meus heróis lidos e poder novamente sonhar.

 

Há o desejo de fazer germinar em teu peito
um amor de lua prateada e transformar a relva em leito.       

 

  (1999)

8 - BEIJO

 

Teu beijo

tem sabor de vida

e cheiro de madrugada.

Teu beijo é terno,

me aquece.

Teu beijo é inspiração,

me enlouquece.

Teu beijo é descoberta

e criação.

Teu beijo merece

muito mais que uma simples poesia.

                                               (1992)

9 - LIÇÃO DE VIDA

 

Já não posso ser gente:

minha vida é programada,

minha agenda é pressionada.

A criatividade

já não é uma habilidade,

O que fazer perante esta passividade?

 

Já não posso aceitar

o espaço que me é dado

nesta sociedade massificada.

Quero criar poemas

como quem respira

e com a naturalidade de quem ama.

- Quero que todos aprendam a defender

a solidariedade humana.

                                               (1978)

11- CHAMA DE AMOR

                                    

Como fogo, arde
o amor em parte
de mim. Sutil arte,
que une e reparte.
 

Temido e ardente,
o amor inocente,
convertido, sente
ser resistente.
 

Escrevo de leve:
quem ama cresce,
enobrece e enriquece.
 

De amor padeço
De amor careço
Sinto e reconheço

                  (1999)

13 - RIO


 

Todo poeta tem um rio!
Quanta falta faz um rio
na poesia de quem nasceu
no litoral?
Sinto falta de um rio que não tive,
cruzando a cidade,
carregando todo o mal,
trazendo e levando felicidade
ou o bem daquele que o mereceu.
Sinto do rio a falta de suas magias,
de suas enchentes e correntes
dos sonhos poéticos e fantasias.
Não tenho um rio
Não tive um rio
Tento criar um rio,
mas na lembrança da minha infância
tenho muita maresia,
maré de vazante, maré de enchente.

Iemanjá levando presente...

                                     (1998)

14 - POVO      

 

Não quero sentir a solidão

e a distância de meu povo.

Não quero sentir medo nem ver

o medo que o povo sente.

Quero sentir o povo unido.

Quero vê-lo de mãos dadas,

construindo um mundo sem fome,

sem guerras e cheio de rosas.

Quero ver o povo sendo povo.

 

Que aqueles que vivem da ilusão,

ouvindo o seu próprio eco,

desçam dos tronos porque a alegria

dos reis, imperadores e ditadores

só existe na fantasia.

– Que todos sejam apenas povo

                                     (1979)

15 - QUARESMA

 

 

No passado,

foi grave

o ato

e o fato

da morte de Jesus.

 

Cristo foi julgado,

torturado

e carregou sua cruz.

 

No presente,

a cruz nossa de cada dia

é a tabuleta de greve

que o operário,

o Cristo-diário,

carrega torturado

em busca de melhor salário.

                            (1987)

16 - PEDIDO

 

Ao jardineiro pedem a rosa.
Ao juiz pedem a justiça.
Ao poeta pedem a verdade.
Por que se pede uma rosa
quando de sabe que fora do pé
pouco ela viverá?

Por que se pede justiça
quando se sabe que o devedor
ainda em vida pagará?

Por que se pede a verdade
quando todos sabem pedir
e poucos sabem dar?

(1975)
 

18 - O ESPELHO E O VAPOR

 

No espelho embaciado,
pelo vapor do chuveiro elétrico,
esbocei, com a ponta do dedo
– como quem tenta sentir
o veludo da pétala de uma rosa –,
dois olhos críticos.

 

Antes que pudesse o desenho completar
o vapor aos primeiros traços apagou.

– Meu desenho nenhuma resistência ofereceu.
         Não desejo aos meus poemas
         igual existência.
         Que digam!  Que lutem!  Que chorem!

           Que sejam da vida a essência.

                                                              (1977)

20 - SERTÃO

 

No meu sertão

a vida é traquejada

e as mãos são calejadas.

Aqui estou longe da fumaça

das grandes cidades

e perto da simplicidade

das vaquejadas.

Com o surgir do sol nascente

o canto dolente

do vaqueiro rompe a preguiça costumeira

de todo amanhecer inocente

desta terra, onde ainda se pode sentir

alegria em ver brotar a semente,

sentir a força do vento,

saber o valor da chuva

e morder o talo do capim verde.

                                               (1979)

22 - POETA BAIANO


Ser baiano, é ser poeta, é ser singular.
É sentir o particular,
o subjetivo e o abstrato.
Ser poeta é ser intermediário,
fonte e destinatário.
Ser poeta na Bahia é transformar o particular
em linguagem universal.

                            (1997)
 

24 - QUE MUNDO É ESTE

 

O medo está presente nas esquinas,
atrás das barbas por fazer
e das maquilagens berrantes.
O homem já teme a própria sombra.
Que  medo é este, poeta?

Como será este bicho papão, para que possamos
armar uma barricada, juntar as mãos
e enfrentá-lo confiando na coragem do vizinho?

Que medo é este que aterroriza o homem,
a inteligência e esmaga o que de mais
sublime existe que é a liberdade?

Será que os homens se perderam entre os monstros
criados pela própria imaginação?
Até quando suportarão os grilhões
que sufocam a criação
e nos obrigam a negar o que acreditamos
e a dizer o que não queremos?

                            (1977)

26 - EPITÁFIO

 

Da umidade
da terra fértil
tentarei ouvir
o som da trombeta
e o apogeu da humanidade.

Tentarei fertilizar
o solo onde rosas
haverão de florescer
para serem dadas
aos casais de namorados
que tentam redescobrir o amor.

                                   (1978)  

10 - QUESTIONAMENTO

 

Senhores!

Seria o branco a pureza que procuro

entre tarjetas, nas sarjetas,

nas saletas escuras

dos sebos sem rótulo, nem selo?

 

Senhores!

Não há luz na sarjeta.

Seria o poema a chama

ou o preço da fama?

(1989)

12 - MOMENTOS

 

         I

Graça há na mistura de raças.
Robusto corpo e lindo busto
atiça paixões esta mulata.

         II
Nata beleza de mulata.
Altiva, rebolante e instintiva,
mata e gera vontade insensata.

 

         III
Princesa desnuda e acesa
– imagina a menina –
com destreza acabar a tristeza.

 

         IV

Quando passa na noite escura
nexo não há no sexo
que desperta, apenas loucura.

 

         V

Nua sob a luz da lua,
vaidosa, sem enfeites, é perigosa:
Desperta a vontade crua.

 

 

         VI

Colírio de beleza, tu és o delírio
disperso que me cega no universo
do desejo, liberando um cheiro de lírio.

 

         VII

Espanto! Mostravas, através do manto,
perfumado, entre coxas, teu pecado.

Santo não era, mas não tive acesso a tanto.

 

         VIII

Gemido teu em meu ouvido
cala no peito minha fala,
meu sentido, ó fruto proibido.

                  

     IX

Ao desfilar me deixas agitado,
oh! divina mulher-menina.

Delicada, incentivas o amor alucinado.

 

         X

Ousadia em pleno dia:
despida apareceu a prometida.
Queria, entretanto, só companhia...

 

 

         XI

Sigilo é dado a quem busca asilo,
ternura e aconchego junto a ti, ó doçura
de odores. Contigo vejo tudo a cores.
 

         XII

Escondidos, porém percebidos,
segredos teus geram medos
percebidos nos carinhos concedidos.

 

         XIII

Delicada morena, vejo-te semeada.
Desejada e também invejada.
Amada e ao mesmo tempo rejeitada.

 

         XIV

Por merecimento ou por atrevimento
profundo, busco o prazer de um segundo.
Intento realizado por pensamento.

 

         XV

Ninfeta perigosa! Tua silhueta,
estimulante, inspira o desejo ardente
de te ver sem a tua camiseta.

 

         XVI

Humana, porém ages como tirana.

Teu império provoca adultério.

És soberana, mas tua fama, engana.

 

XVII

Insano, mas pecar é humano.
Gesto desonesto, porém manifesto.
Dano no pecar não há, só engano.

                                     (1999)

17 - O QUE SOU?

 

Sou o anjo da meia-noite
ou o demônio da madrugada?

O anjo que anuncia o amor
e a liberdade
ou o demônio dilacerador
de corações e agente da maldade?

Sou um homem à procura de libertinagem
ou um poeta em busca de liberdade?

                                               (1977)

19 - EXORCISMO

 

Exorcizei de meu íntimo
todo amor acumulado
numa sensação espasmódica,
oscilando as vértebras
num bailado de alcova
capaz de remover montanhas.

Semeei as profundezas
orgânicas e perpetuei
em segundos de felicidade, a espécie.

(1978)  

21 - ASAS PARA  AMAR

 

Um dia colocarei asas
em teu vestido branco

E como anjo poderás
flutuar no espaço e
bordejar, como colibri, sugando
das bocas que queiras
o néctar que necessitas
para alimentar teu amor.

 (1978) 

23 - IDEOLOGIA

 

Em tempo de patrulhamento

político ou ideológico

sempre mantive meu pensamento

isento e lógico,

procurando o bom senso.

 

Afinal, não nasci máquina,

não nasci trem, com vocação para andar em linha,

nem tampouco, acreditem,

vagão, para pensar em bloco.

                                       (1991)

25 - CONSUMO

 

 

Vivo na contradição

de um tempo devotado ao consumo,

onde a televisão é o novo deus das massas,

a nova Meca, para onde são dirigidas

as atenções dos telepecadores

como numa penitência religiosa.

 

Vivo na contradição

de um tempo devotado à manipulação,

onde a propaganda

violenta a dignidade humana,

impondo normas e costumes padronizados.

– Até o amor foi estereotipado

e esta ditadura de símbolos fálicos

permanece impune.

                            (1979)

27 - MUSA DA PRAIA

 

Passo a passo, passas
no escasso espaço
da praia. Pés descalços,
desfilas entre sargaços,
ao alcance dos braços,
que tentam de prender, como se fossem laços
de aço,
todos querendo de ti pedaços.

Sob o intenso mormaço
deste mês de março,
tu és a musa inspiradora dos traços
dos artistas e dos versos
de todos os poetas dispersos
no universo.

                            (1999)