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DESAFIO
Escreve com silencioso espanto
Meus dedos possuem um sentimento comum:
Eles procurar as formas simples.
Minha ânsia e segredos repousam
em minhas mãos
– estoque de reflexos sentimentais –
Os mistérios foram sugados
e minha pena é minh’alma.
Quem poderá deter a vida
que corre em minhas mãos?
PEDIDO
Ao jardineiro pedem a rosa.
Ao juiz pedem a justiça.
Ao poeta pedem a verdade.
Por que se pede uma rosa
quando de sabe que fora do pé
pouco ela viverá?
Por que se pede justiça
quando se sabe que o devedor
ainda em vida pagará?
Por que se pede a verdade
quando todos sabem pedir
e poucos sabem dar?
PSIU DA SILVA
Pobres farrapos
que à noite tremem.
Pobres de vós
porque o vento é frio
e a chuva cai.
Teu nome? Não sei.
Talvez Chico, talvez Xavier,
Psiu da Silva
ou um João ninguém qualquer.
NUNCA SERIA
DEMAIS
Gostaria um dia
de fazer o tempo parar
e colocar tudo no lugar:
ninguém sofreria jamais
e o amor nunca seria demais.
Se este dia chegar,
todos vão se abraçar,
todos vão se amar,
todos vão ouvir o lamento do mar.
(fevereiro/1976)
POETA DA PROVÍNCIA
O poema nasceu na província
– E agora, poeta, que te resta?
O desafio de uma escolha somente:
Sepulta, envergonhado, teus versos
ou lance, no mundo, a semente.
(setembro/1974)
PREVISÃO
Os versos provincianos do poeta
um dia conhecerão o mundo:
- Lançarei todos eles ao mar.
(dezembro/1975)
DIVAGANDO
Por não Ter uma árvore
onde gravar teu nome,
com fumaça
o escrevi no espaço.
E com graciosidade
ele percorreu os cantos da Cidade,
como num conto de fadas:
cheio de Liberdade.
(Zurich, fevereiro/1976)
A MUSA
E eis que, pela vidraça,
sem nenhum disfarce,
eu a vi cheia de graça.
(novembro/1974)
TRANSTORNO
No passar do tempo
cavalo-de-pau de criança
virou filme de televisão.
(julho/1975)
UMA TARDE NO PARQUE
Domingo
colhi flores
e libertei poemas
ao correr entre balanços,
gangorras e crianças.
(dezembro/1974)
COMPOSIÇÃO ALCOÓLICA
Um
Zum
Zum-zumbido
sabido abriu meu peito
entornado de cachaça
e tudo virou fumaça...
(março/1974)
NATAL POR SEGUNDO
Nasceu menino...
Morreu no espinho.
Brilhou estrela,
mostrando o caminho...
Partiram de longe,
José e Maria.
Nasceu menino,
na estrebaria.
Há PAZ em 24 horas?
Não, mas em cada segundo
nasce um menino no mundo.
POEMA REPORTAGEM
Para Florisvaldo Matos
Fato
Vida
Preço
– notícia -
Nota?
Cheia
feia ou
Colorida
- técnica -
Notícia Técnica
fome-cheia
vida-morta:
é manchete,
vejam a nota...
(1968)
O QUE SOU?
Sou o ano da meia-noite
ou o demônio da madrugada?
O anjo que anuncia o amor
e a liberdade
ou o demônio dilacerador
de corações e agente da maldade?
Sou um homem à procura de libertinagem
ou um poeta em busca de liberdade?
(1977)
JATOPRESS
O boato do passado,.
O encontro da esquina
e a curiosidade, transformaram
a notícia em necessidade.
Do comunicado amigo
ou de qualquer aviso
uma notícia há de surgir,
rica de fatos e cheia de pressa.
Ela envelhece depressa
– É necessidade consumida,
no jornal e televisão,
no supermercado e na lotação.
(outubro/1974)
REMINISCÊNCIA
A infância passa
A saudade fica
A infância passa
não volta...
A saudade chega,
não passa....
ÁGUA CORRENTE
Num poço profundo
aprisionei água corrente,
maculando sua pureza.
– Ela fugiu em nuvem branca
e, como chuva, pura retornou...
(maio/1974)
NAVEGANDO
Fiz um barquinho com o papel
onde escrevi meus sentimentos.
Quando a chuva chegou
ele navegou
pelas alagadas ruas da Cidade
– com a chuva perdi meus sentimentos –
CANHÕES DE AMARALINA
Para Ruy Espinheira Filho
De Rui, Marinha
me apetece.
Gostaria que fosse minha
tão bela poesia, que enternece.
Lendo seus versos,
transparecem as ondinas,
a areia fina
e os canhões de Amaralina.
(maio/1974)
CENSURA
Amor
Dança
Pensamento:
Amordaçamento.
(1977)
KOHOUTEK
Que sua figura
não profane o templo poético
nem o poeta perca a verdade.
Que nos labirintos do Universo
sua luz não sirva de aventura
nem seja dogma de nova Era.
Que se luz sirva para eliminar
as sombras dos homens.
Que a doçura insidiosa
de sua imagem popular
litúrgica e pouco vista,
devolva aos homens
a dignidade que foi ultrajada
e nos deixe aquele gostinho
de PAZ que o mundo está esquecendo.
A VAGA
Na vida imprevista
encontrei versos e sorrisos,
dúvidas, dívidas
e a promessa d’uma vaga no Paraíso.
Não encontrei, é fato,
uma vaga adequada
para o carro comprado
a perder de vista.
URBANIZADO
O poeta urbano
já não canta, chora.
Chora o sino, o apito,
o grito e o hino,
a quermesse e a prece,
a pressa e o stress.
(outubro/1974)
VERSO DILUÍDO
Numa rua deserta achei um verso
Para não perdê-lo na palma da
mão
o escrevi.
Uma chuva sem importância
lavou minha mão e diluiu meu verso
que correu no asfalto e sumiu.
VERTICALIDADE
No crescimento vertical
de uma cidade
Sepulta-se a humildade
do homem universal.
Chorei pingos de inspiração
pela falta de humanidade
desta vida teatral...
POLUIÇÃO
Pleno de medo e encanto
cheirei um lírio partido,
jogado, perdido no canto
daquele jardim, de espinhos
e rosas, à beira do caminho.
Palpitando seu perfume aspirei
e o olfato do poeta,
já poluído, nada sentiu...
VALOR
(IN)VERSO
Passa, passa
passarinho.
Se você já não tem
medo de espantalho,
de quem o homem sente medo?
(julho/1975)
SUICÍDIO TRISTE
Piu, piu, piu.
Um filhote de sanhaço
tentou solitário um vôo
em direção ao sol.
Caiu num tacho de mel.
Mel, melado, melaço.
Coitado do sanhaço,
morreu
de tanto mel que bebeu.
PERFEIÇÃO
Para Guido Guerra
Senti o poema
somei os sentimentos
mas não o escrevi:
Era perfeito demais para existir...
INCOERÊNCIA
Plantei uma roseira
e os botões de rosa brotaram.
Para que uma roseira plantei
se a vida de espinhos está cheia?
PUREZA ANÔNIMA
Para Julieta Isensée
Dos píncaros
brotam as fontes
d’água fresca.
Beberei desta transparência
na esperança
de restituir a minh’alma
a pureza anônima
da primeira batida de meu coração...
TE AMAREI
SEM PÂNICO
Convém amar
enquanto vivo
frágil mortal
sem forças para pensar.
Amarei sem fúria,
como quem não tem
pressa e sussurrando,
como quem pede perdão.
Te amarei sem pânico,
tranqüilamente...
(1971)
DE UMA VISÃO
UTÓPICA
Para Jorge Amado
O sol matutino libertou-se
com seus raios fulgurantes
e matei minha sede
na floresta da sabedoria.
Bebi a seiva de suas árvores
e criei raízes
na terra impoluída.
(dezembro/1973)
O SORRISO
DE PAULA
Um sorriso
comprido
sem artifício
nem vício.
Um sorriso
puro,
de encanto,
de criança.
É o sorriso
que tenho na lembrança
nos momentos distantes,
na hora do abraço
do encontro e do cansaço.
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