O Vigia do Tempo

 

A poesia de Sérgio Mattos

 Antônio Loureiro de Souza
(Membro da Academia de Letras da Bahia)

Sérgio Mattos não é mais um poeta novo. Novo no sentido de surgimento. Colaborando efetivamente na imprensa, participando de antologias e publicando livros, já se tornou conhecido. Conhecido e apreciado porque, embora jovem, não havendo atingido, ainda, os 30 anos, a sua poesia é cheia, replenada de uma intensa carga lírica e poucos não são os seus poemas onde predomina uma forma conceitual que a maioria dos aedos só consegue na maturidade. Simples, espontâneo, seguro na afirmação, com imagens surpreendentes pelo conteúdo estético, já pode ser havido a esta altura, pela crítica mais sisuda, como um poeta real, verdadeiro, e, não, um fabricador frascário de palavras alinhavadas ao jeito de poema. Integrando a denominada poesia nova, libertária, franca, aberta para a análise dos problemas universais, ele se situa entre os jovens que, na Bahia, levam a sério a tarefa, que vem de dentro de si mesmo, de transbordar emoções, contagiando o leitor com a força da sua criação artística, o que, no final das contas, é o fundamental para todos os vates, em todos os tempos. Se considerarmos que poesia, no seu sentido mais puro é, como definia Benedetto Croce, a expressão de um sentimento interior que aflora para transmitir uma emoção legítima, Sérgio Mattos, consubstanciando tal definição, se afirma poeta. Se há, na maioria da sua produção, um tom, não diríamos severo, mas sério, mesmo ao abordar temas aparentemente frívolos, é que, como afirmamos já, esse tomo de maturidade é uma característica natural e essencial da sua própria natureza criadora. Até mesmo o amor – fulcro onde se assenta toda a poesia universal, em todas as épocas – ele trata com um tom de reserva. A tônica amarga é rara em sua poética. Ficaria antes com a sentença de Álvaro Moreyra: "As amargas, não". É que, em sendo jovem, havendo, embora lutado pela vida. Para triunfar pelo estudo, pelo trabalho, sente-se que não é da sua formação espiritual e intelectual ver a vida em estado agônico, antes iluminada de sonhos e de beleza, onde ele esparge os seus versos como cânticos de uma alma ansiosa de perfeição.

Na primeira revista de poesias – Experimental-1, coletânea que reúne quatro poetas, inclusive Sérgio Mattos, publicada em 1968, vai, portanto, para quase dez anos, quando o poeta mal transpunha o limiar dos 20 anos, já se nota no poema "Metáfora –1", estes versos prenhes de inquietação:


Árvores que crescem
são forças revolucionárias

Alocuções de protesto?
- inconformismo...-
é o princípio da dinâmica.

Massa (encefálica) em movimento...reação de causa e efeito
Árvores que crescem
dão frutos secretos:
- elásticos e explosivos -

Não há contestar o sentido simbológico dado pelo poeta e a quase oculta mensagem que reveste o poema, explicado no próprio título, refletindo um sentido de libertação e de universalidade.
Um ano decorrido desse Experimental-1, surge o de número 2, igualmente enfeixando sete poetas, Sérgio inclusive. Surgem aí, novamente, outras metáforas. Esta, por exemplo:

Sonhos pseudos,
afirmação autômata,
delírio no pensar-ser
dos degraus da política.

Alguns, em linhas...
no nacionalismo fogem.

Outros,
na política pelejam
autodeterminando
a busca em afirmação
...

Será um poema hermético? Metafórico, sim. Jamais hermético. Ao jeito e ao modo, em alguns passos, de certos poemas de Fernando Pessoa. Se não têm, como os deste, a mesma grandeza, possuem uma força que é bem um índice de aproximação.
Ainda em Experimental-3, do mesmo ano, (1969), desta vez reunindo 11 aedos, todos em plena floração, Sérgio é menos simbológico. Embora apareça outra "metáfora", há este "Saudade", que é um grito, quase alucinado, de amor. Aí entram o sonho e o anseio. A suave angústia. A eterna espera do seu outro "eu" para uma integração recíproca. É o jovem de 21 anos amando a vida, amando o amor, desesperado pela ausência e sentindo o "gosto amargo de infelizes", de que nos fala Garret. Senão vejâmo-lo:


No rosto os restos, às régias
as pétalas, a vela e o fogo...
Assinalado no peito entristeci
no tempo e no leito espero
prosternado, sonolento, tua volta.

Mas Sérgio Mattos teria que deixar as antologias, as publicações experimentais para aparecer, só, em livro. Há um pequeno hiato de 4 anos, afora publicações isoladas, esparsas nos jornais. E surge, então, o seu Nas Teias do Mundo, com penetrante prefácio de Carlos Eduardo da Rocha e orelha de Guido Guerra. Já se nota, então, nos versos do autor, uma nova dimensão, uma outra valoração na construção poemática. Repetiríamos Guido quando assevera: Experimental revelou-nos um excelente aprendiz de poeta: Sérgio Mattos. E o aprendiz se fez poeta". Mas, mesmo aprendiz, ele já nasceu, para lembrarmos a lírica portuguesa, um fidalgo aprendiz... Querem ver uma mostra ao acaso?

Já não existe
noite sem luz
- tudo está claro –

Já não existem
a rua sem movimento
e o movimento nas praias
- Queria Ter paz para todos -

Já não existem
lágrimas nos olhos
e paz nos corações
- tenho lágrimas para todos –


Pois não temos aí um instante de ternura, de otimismo, de beleza universalista? É o poeta sazonado. Amadurecido, embora em plena juventude.
Em 1974, volve o poeta à antologia e participa de Cinco Poetas Contemporâneos, com lúcida apresentação de Jorge Calmon, que salienta, a certo trecho: "E é bom, é confortante testemunhar que, nestes duros dias, presentes, ainda há poetas, que cantam, que sonham, que sabem extrair do material da vida, imagens de otimismo, mesmo quando sentidas da dúvida e da amargura".

Vem, depois, (1975) Retina, igualmente antologia. E Sérgio aí está presente com versos como estes:

Senti o poema
Somei os sentimentos,
mas não o escrevi:
Era perfeito demais para existir...

Escreveu-o, sim. E como! Dando-nos uma mensagem, algo cética embora, de que, assoberbado pelos sentimentos, não os pôde transmitir. Mas fê-lo, ainda assim, porque disse o que lhe nalma palpitava, embalde a inquietação e a terna angústia...
Agora aparece O Vigia do Tempo. Título bem achado. Lembra aquela famosa assertiva de Schopenhauer: "É nas obras dos poetas que se há de estudar uma época". Porque o poeta, o vate, enfim, na significação lata da palavra, é o eterno vigia do tempo. Desde as mais prístinas eras tem sido assim. É assim, hoje. Sê-lo-á, também, no futuro, até a consumação dos evos. Vigia permanente do tempo e, dentro nele, da humanidade, como todo o seu cortejo de ânsias e de dores, de ambições e de angústias, de ternura e de amor, de contrastes e confrontos, de dúvidas e de afirmações, onde o poeta aparece para cantar, e, no seu canto, simbolizar um sentimento coletivo e universal. E é por isso que ele vê a Musa assim:

E eis que, pela vidraça,
sem nenhum disfarce,
eu a vi cheia de graça.

O Vigia do Tempo é livro para ficar. O seu conteúdo é repleto de versos conceituosos, afirmativos, carregados de uma experiência surpreendente nesse moço que ainda vai fazer 30 anos. Eis aí, em rápidas pinceladas, o que podemos dizer da poesia de S

Sérgio Mattos, numa breve retrospecção da sua criação artística desde os seus primeiros poemas. Uma coisa, no entanto, podemos assegurar, dentro, é óbvio, das nossas limitações: Sérgio Mattos é um poeta que dia a dia mais se afirma e que evolui para um esteticismo cada vez mais apurado. É um poeta que ama a vida e sabe cantá-la com profundo amor. Por isso, através dos seus poemas, transmite o que sente, captado da própria vivência.

 
 

SUMÁRIO

A poesia de Sérgio Mattos / Desafio / Pedido / Psiu da Silva / Nunca seria demais / Poeta da província / Previsão / Divagando / A musa / Transtorno / Uma tarde no parque / Natal por segundo / Poema reportagem / O que sou? / Jatopress / Reminiscência / Água corrente / Navegando / Canhões de Amaralina / Censura / Kohoutek / A vaga / Urbanizado / Verso diluído / Verticalidade / Poluição / Valor (in)verso / Suicídio triste / Perfeição / Incoerência / Pureza anônima / Te Amarei sem pânico / De uma visão utópica / O sorriso de Paula