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A Televisão
e as Políticas
Regionais de Comunicação
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A imagem televisiva
e a cultura esportiva:
um olhar sobre esta parceria
Vera Regina Toledo
Camargo
Mestre pela Unicamp, professora
da ESEF (Jundiaí), pesquisadora estagiária do LABJOR/Unicamp,
doutoranda em Comunicação pela Universidade Metodista de São
Bernardo.
A comunicação televisiva
é um fator muito presente em nossa sociedade contemporânea
e, aliada ao fenômeno esportivo, muitos paradigmas que satisfaziam-nos
vão desaparecendo e cedendo espaços para o surgimento de novos.
É necessário um olhar muito mais atento a esta parceria.
A aproximação destas duas
áreas do conhecimento humano é muito importante, pois existe
um fenômeno que necessita ser estudado, o esporte, que atinge
grandes audiências, em qualquer veículo de informação, assim
como a função e o desempenho da mídia audiovisual nas veiculações
de imagens esportivas geradas em virtude de uma transmissão,
ou então, através de um programa esportivo. É importante analisar
estes dois produtos da sociedade de consumo.
O ponto central desta
reflexão é a análise da imagem televisiva e as publicidades
e propagandas pessoais, presentes na construção da imagem
do ídolo, do herói esportivo, passando também pela figura
do político, que veiculando suas imagens na televisão, querem
ser identificados, consumidos, e assim atingirem o inconsciente
coletivo dos indivíduos
A comunicação é um elemento
vital nesta sociedade pós-moderna. Com os avanços das tecnologias
comunicacionais, associados ao desenvolvimento da sociedade,
as imagens e símbolos televisivos ganham destaque a cada dia
no imaginário coletivo dos indivíduos, constituindo-se em
um dispositivo muito utilizado pelos publicitários e programadores
de televisão, para atingirem seus objetivos: o público consumidor.
Desde a década de setenta,
a televisão vem conquistando seu lugar de destaque entre os
meios de comunicação. Provavelmente essa ascensão ocorreu
em virtude desta possuir uma nova maneira de ver o mundo,
acompanhar a evolução da sociedade, o que não ocorreu em relação
aos outros mídias.
A imagem de um acontecimento
presente na mídia audiovisual traz com o noticiário da noite,
ou então com a transmissão de qualquer evento, uma nova maneira
de informar, voltada para o espetáculo e o entretenimento.
As informações presentes assumem a característica de um show,
mesmo as manchetes dos telejornais que trazem a fome, a seca,
os movimentos dos sem-terra, assim como a morte, numa característica
de um show, o show da vida.
Cenas de violência e massacre
também não passam desapercebidas. A morte de PC Farias ficou
pautada na mídia. A cada edição de um telejornal, ou uma reportagem
especial, novas informações faziam com que o telespectador
tentasse desvendar todo o crime. O que ficou mais evidenciado
foram as características presentes na informação do acontecido,
caracterizando-se como uma novela global, mas, também, com
todos os ingredientes do programa interativo "Você decide".
A televisão é, por excelência,
o maior divulgador dos fenômenos esportivos entre as mídias.
Com esse status conferido, esta tem a primazia na divulgação
das informações e notícias, ou seja, é o meio comunicacional
mais procurado, pela sua estrutura e também em virtude dos
seus recursos audiovisuais. Esta sua hegemonia é por possuir
uma comunicação muito mais rápida e diversificada de imagens,
com um movimento muito mais dinâmico, mais ágil e mais trabalhado
em detalhes.
A informação de um fato
ganha mais movimento com a sua imagem veiculada pela TV, mas
também esta promove a velocidade de tudo. Vejamos as transmissões
esportivas, veiculadas pela imagem televisiva, têm um ritmo
alucinante. Será que estamos passando por uma nova categorização
do fator tempo? Uma descaracterização do fenômeno esportivo?
Ou, mais uma vez, os interesses dos patrocinadores e da programação
televisiva alteraram as regras do jogo esportivo?
A cultura esportiva assume
um papel muito relevante, influenciando e interferindo na
sociedade. Percebemos estes fatos nos aspectos comportamentais,
na maneira de falar, assim como as adoções das gírias e dos
jargões presentes no discurso do esporte, e que estão incorporadas
no cotidiano das pessoas.
Para Jones,1 a programação
da televisão européia mudou muito sua característica com os
canais via satélite, especializados em esportes. Estão em
pleno crescimento, conforme aumenta o interesse dos telespectadores
por programas especializados. Existem vários canais especializados
em esportes, mas o pioneiro no mundo foi a ESPN (Entertainment
and Sport Programming Network), que emite sua programação
por satélite e a cabo. Foi fundado em 1979 nos EUA por Getty
Oil Company, mas, em 1984, esta companhia foi vendida à Capital
Cities/ABC.
Jones acredita que a ESPN
foi direta ou indiretamente responsável pela fundação dos
canais europeus como o Screensport (Reino Unido), TV Sport
(França), Sport Kanal (Alemanha) e Sport Net (Holanda). Acredito
que este fenômeno aconteceu também no cenário da mídia audiovisual
brasileira, pois os empresários nacionais descobrem somente
agora, nos anos noventa, que é necessário acompanhar esses
novos tempos. Já possuímos dois canais especializados em esportes:
Sportv (ligado à Globosat) e ESPN Brasil (ligado à TVA), que
enviam suas imagens via satélite ou a cabo. Mais três companhias
estão em fase de preparação para transmitirem suas programações.
Os elementos esportivos
estão presentes no meio comunicacional televisivo brasileiro
e este soube aproveitar-se do objeto esporte. Esta parceria
rende grandes índices de audiência para as emissoras. Os patrocinadores
atingem também seu público-alvo, os consumidores dos produtos
esportivos. Nas transmissões esportivas vemos placas, faixas
e painéis, estrategicamente colocados no ângulo de visão da
TV. As camisetas dos atletas esportivos não têm mais espaços
para o seu próprio nome, porque estes estão reservados para
o nome dos patrocinadores. São outdoors ambulantes.
O esporte ou as práticas
esportivas também estão presentes na telenovela, quer na forma
de cenário de uma academia, ou um personagem representando
um professor de educação física, no telejornal ou em uma transmissão
esportiva.
Toda transmissão esportiva
é um espetáculo. Analisamos o esporte mais em evidência no
momento, ou seja o basquete da NBA, a liga de basquete americano,
estes sim, souberam aproveitar e muito bem os recursos e a
parceria com os patrocinadores, propagandas e publicidades.
A TV brasileira percebeu este rico mercado e está investindo
grandes somas, haja visto a diversificação dos programas esportivos
e as transmissões dos jogos presentes na programação televisiva.
O voleibol saiu na frente
aproveitando-se da popularidade dos atletas que a cada jogo
ganham o status de artistas. O marketing esportivo
transporta para bonés, camisetas e outros artigos a figura,
os nomes e o símbolo do ídolo esportivo. É justamente neste
momento que o ídolo esportivo ganha a fama. Edmundo, jogador
de futebol, ganhou uma marca personalizada da mídia esportiva,
pela sua característica de indisciplinado e atitudes anti-desportistas,
ganhou o nome de "Animal". Mas, este soube, através
de seu agente, capitalizar esse momento e o transformou em
um animal por bola, e fome de gols. Hoje ele detém a marca
que gerou a sua grife, fazendo o maior sucesso, gerando grandes
lucros, e o movimento do bad boy está cada vez mais
em evidência.
Os jogos olímpicos e copas
do mundo de futebol atraem a atenção de milhares de telespectadores
que querem assistir às disputas, e estas aproveitam todos
os trunfos para estarem na mídia. Neste momento, quero apontar
as ideologias e nacionalismos presentes, quer através de uma
promoção, um sorteio, ou um programa especial, fazendo com
que o público identifique-se e torça pelo sucesso de seu país,
assim como a imagem evidenciada do esporte, contribuindo desta
forma com a ascensão da prática esportiva em todo o mundo.
Muitas pesquisas estão sendo realizadas sob esta ótica, a
análise da influência da televisão na prática esportiva. Estas
disputas são também um marco na história das inovações tecnológicas,
nos meios de comunicação, em especial a televisão. Os satélites,
vídeos, computadores e as câmeras especiais foram acionados,
para que o público tenha a melhor transmissão esportiva.
Somos ingênuos em acreditar
que a imagem veiculada pela TV mostra apenas uma informação,
ou a transmissão esportiva de uma disputa. Existem sim, e
é preciso ficar atento, as manipulações. Há uma adoção de
ideologias, assim como as tendências a padrões de comportamento,
evidenciados pela disputa esportiva. Percebe-se nitidamente
também a interferência na linguagem dos locutores. Estes recursos
são utilizados pelas emissoras na disputa em busca do point
de audiência, e assim conquistarem o público, que identifica-se
com as características dos programas esportivos.
Para Vilches,2 as dimensões
políticas e econômicas presentes na televisão são cada vez
mais evidentes. Os valores sociais e culturais, unindo com
os políticos e econômicos, se convertem em uma das dimensões
mais importantes geradas pela televisão.
Em seus estudos, Requena3
aponta a sedução dos locutores televisivos dirigida aos telespectadores.
Segundo este mesmo autor, o mecanismo de sedução se desenvolve
todo ele no imaginário. Não há como diferenciar entre uma
fala verdadeira de algo ficcional. Sempre está presente o
aspecto da ambigüidade no discurso do locutor.
Aumont diz que: "O
tamanho da imagem, o enquadramento, o close estão entre os
elementos fundamentais que determinam e especificam a relação
que o telespectador vai poder estabelecer com a televisão".4
Desta forma há uma relação estabelecida de proximidade, de
posse e até de fetichismo.
A criatividade e as inovações
tecnológicas são fatores primordiais para que determinada
emissora seja reconhecida e identificada pelo seu público.
O SBT, canal do apresentador Sílvio Santos, percebeu que a
notícia deveria ser colocada no ar no momento exato em que
ela acontecia, e seguindo o padrão norte-americano de jornalismo,
importou o noticiário "Aqui e agora", que a cada
edição mostra as mais cruéis imagens, atingindo altos índices
de audiência. Há público para tudo
Um outro recurso também
muito utilizado é veicular junto aos meios de comunicação,
a imagem pessoal. Sempre foi um interesse e também um recurso
muito utilizado pelos grandes estrategistas e políticos. Hitler,
por ocasião das Olimpíadas de Berlim em 1936, presenteou os
participantes com um material de propaganda e divulgação nazista.
Ele também tinha um agente que coordenava a sua imagem, e
o associava sempre ao sucesso e ao progresso. Tudo foi muito
bem planejado para criar a idolatria junto ao povo alemão.
Fernando Henrique Cardoso
viajou, logo após ser eleito presidente do Brasil, aos EUA,
para melhorar e apresentar a nova imagem do Brasil junto à
comunidade internacional, mostrando a todos a evolução e o
progresso de um país de terceiro mundo. Afinal, desta vez,
um intelectual chega ao poder. Este foi o marketing
proposto pela sua equipe de assessores.
Grant, o ator inglês,
que sempre representou papéis de bom rapaz, foi flagrado com
uma prostituta. Foi um escândalo. A mídia noticiou o caso
exaustivamente. Será que não estava tudo preparado para virar
um sensacionalismo e promover o seu novo filme, que estava
sendo lançado nos EUA na mesma época? Coincidência ou não,
deste destaque na mídia, os lucros foram para a prostituta
que até participou de um comercial de roupas íntimas para
a televisão brasileira. O filme de Grant bateu todos os recordes
de bilheteria nos EUA.
A notícia ou a informação
de um ídolo sempre rende muitas cifras. As revistas e magazines
mais vendidas no Brasil são aquelas cujas reportagens são
especializadas na vida dos ídolos ou astros da televisão.
Nos EUA há uma certa credibilidade
na investida da imagem pessoal, sendo assim proliferam as
agências de consultoria de imagem. É um recurso muito utilizado
pelo diretor de uma empresa, um agente financeiro, políticos
e até esportistas, que querem melhorar suas imagens. O mesmo
pode acontecer com um produto ou objeto, que precise de uma
certa credibilidade, é vinculado a uma pessoa de prestígio.
Paulo Maluf, prefeito
da cidade de São Paulo, contratou uma dessas agências porque
queria melhorar a sua imagem junto aos seus eleitores. Após
muitos estudos e considerações, encontraram um caminho: realizar
uma corrida, a I Maratona da Cidade de São Paulo. O percurso
traçado fez com que os participantes passassem em frente às
obras realizadas pelo prefeito, e com a transmissão da Rede
Globo, foi garantia de sucesso, pois até o comentarista fez
as devidas relações das obras com o esporte. Na segunda edição
dessa disputa esportiva, o sucesso também ficou evidente,
segundo a Assessoria de Imprensa da Prefeitura Municipal de
São Paulo.
Quando Ayrton Senna ganhava
uma corrida, levantava um dos braços, não somente com o gesto
de comemorar a vitória, com a mão cerrada ou então segurando
a bandeira do Brasil. Ele tinha um patrocinador muito forte,
e as pessoas que assistiam às imagens geradas pela televisão
necessitavam ver este ícone publicitário. Mesmo após sua morte,
sua marca rende grandes lucros. Por isso é necessário estar
sempre na mídia. Uma ex-namorada, um filho, ou então a revistinha
em que o Seninha é ainda o ídolo, rendem muito ao grupo Senna.
O caso J.P. Simpson também
rendeu lucros, e a mídia soube aproveitar-se do acontecido.
O julgamento teve a duração de um ano. Os noticiários e programas
de entrevistas estavam voltados para o caso. Afinal, era o
julgamento de um rei, o rei do esporte americano. Livros foram
lançados, um filme contando a vida e a carreira do ídolo,
até a sua acusação. O juiz do caso ganhou fama, a promotora
virou sex symbol, os jurados foram a programas televisivos.
Enfim, tudo virou lucro.
Marcelino Carioca, jogador
de futebol da equipe paulista Corinthians, o segundo time
do Brasil de maior torcida, sabe muito bem aproveitar sua
imagem, e o faz junto a um assessor, que agenda compromissos,
comerciais, dirige seus comportamentos, falas, enfim, é o
atleta que está mais em evidência na programação esportiva
televisiva. No último jogo disputado, ele tirou seu uniforme,
ficando somente de sunga, e doou à torcida. Seria um gesto
de pura doação ou devoção? A mídia divulgou em manchete o
ato heróico do atleta esportivo.
Desde a Grécia antiga
os grandes atletas eram eternizados pelos seus atos ou conquistas,
através de estátuas, de canções ou histórias de feitos, contadas
pelos homens mais velhos das aldeias, como exemplo para a
geração mais nova. Era a característica da memória do povo.
Contemporaneamente, a memória de uma sociedade ou povo, assim
como os fatos e acontecimentos heróicos, são veiculados pelas
imagens televisivas. E esta caracteriza-se como a memória
da nossa sociedade dos anos noventa
NOTAS
1. E. Daniel Jones, "Medios
de comunicación deportivos: la situación española en el
contexto internacional", Cadernos de Comunicación,
Tecnología y Sociedad, Madrid, nº 38, jun./ag. 1994.
2. L. Vilches, La televisión:
los efectos del bien y del mal, Espanha, Paidós, 1993.
3. J.G. Requena, El
discurso televisivo: espetáculo de la posmodernidad,
Cátedra, Madrid, 1995.
4. J. Aumont, A imagem,
Campinas, Papirus, 1995.
Sumário
Apresentação
Introdução
Brasil e Uruguai: duas visões
de regulamentação da TV
Indústrias
culturais no Mercosul: televisão aberta
Análise
comparativa entre duas emissoras de televisão regionais situadas
na Baixada Santista
A
produção independente na televisão do interior: o caso de
Bauru
O
videoclipe como forma de experiência estética na comunicação
contemporânea
A
utopia quiliástica da Igreja Universal na TV
A
imagem televisiva e a cultura esportiva: um olhar sobre esta
parceria
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