A Televisão e as Políticas
Regionais de Comunicação

A utopia quiliástica da
Igreja Universal na TV


Penha Rocha

Mestranda em Comunicação e Semiótica da PUC/SP.


A utopia milenarista ou quiliástica do século XII, primeira forma de mentalidade utópica, cuja presença na área social exerce uma influência determinante sobre as mentalidades antiéticas, pode ser considerada como uma das fontes do pensamento contemporâneo. Ela prega o aqui e agora, portanto, privilegia o presente a partir dos acontecimentos da nossa vida cotidiana e possibilita que o homem tenha uma visão de modernidade, eliminando o mito do paraíso superior. O quiliasma viveu o seu apogeu na Idade Média, que era marcada por conflitos e decadência, provocando inquietações de natureza humana que buscavam compreensão externa. Segundo Karl Manheim,1 nesta época, as ideologias não se fixavam de maneira clara, nem sempre sendo possível classificar a posição social a que cada uma delas pertencia. Ao mesmo tempo, o teórico afirma que a experiência quiliástica é característica dos estratos mais baixos da sociedade e a ela estão ligados pregadores fanaticamente emocionais.

O sociológo Thomas Munzer, líder do movimento dos anabatistas – seita protestante que rejeita o batismo das crianças e rebatiza todos os seus adeptos, com o argumento de que eles o receberam antes do uso da razão – admite que o quiliasma e a revolucão social estão relacionados com a religião no que diz respeito às suas estruturas. Depois disso, é possível dizer que teve início a espiritualização da política com o "aqui e agora" começando a fazer parte da história. Neste mesmo período, aconteceram as tensões espirituais emergentes da mentalidade utópica da época, originada das baixas classes, que conquistam a sua consciência social. Junto a esses episódios, surge a política, no sentido moderno do termo, ou seja, a participação de toda a sociedade em busca de algum objetivo comum.

Manheim2 afirma que o otimismo quiliástico dos revolucionários deu origem à atitude conservadora da resignação e que talvez a única característica que identifique esta utopia seja a da atualidade absoluta. O profeta quiliasta Thomas Munzer diz: "Todos os profetas deveriam falar da seguinte forma: ‘assim fala o Senhor’ e não ‘assim falava o Senhor’ ".

O quiliasta está sempre de pé, esperando o momento adequado – não existe elaboração do tempo para ele –, e encara a revolução como um valor em si mesmo, não como uma maneira inevitável de se atingir um fim que possa ser alcançado de forma racional, mas como o único preceito criador do presente imediato. Mikhail Bakunin,3 revolucionário russo e importante teórico do anarquismo, acreditava que: "A vontade de destruir é uma vontade criadora. Não acredito em constituições ou leis. A melhor constituição me deixaria insatisfeito. Precisamos de algo diverso. De tempestade e de vitalidade e de um novo mundo sem leis e conseqüentemente livre". Na verdade, a mentalidade quiliástica está preservada no anarquismo revolucionário desde a decadência da Idade Média e a enxerga como uma única revolução.

A utopia qualiástica e seus seguidores quase sempre elimina todas as relações com as fases da história e de maneira freqüente é agressiva com o mundo e suas regras sociais, enxergando-o como resultado das satisfações da sua vinculação com o Kairos. Na mitologia grega, Kairos é o Deus da oportunidade. Paul Tillich4 possibilita uma versão cristianizada deste Deus quando diz: "Kairos é o tempo realizado, o momento do tempo invadido pela eternidade. Mas Kairos não é a perfeição ou a realização no tempo". De certa maneira, podemos dizer que a experiência quiliástica do presente elimina qualquer alternativa de se pôr em prática o desenvolvimento e, no entanto, nos possibilita diferenciar a qualidade do tempo.

Em algumas ocasiões, a mentalidade utópica racional nasceu da utopia quiliástica, porém pode ser a sua primeira adversária. Afinal, nem toda utopia racional corresponde à fé quiliástica, ao mesmo tempo em que nem toda utopia racional representa uma falta de consciência dos problemas políticos e sociais do mundo. Assim como a utopia liberal humanitária, segunda forma de mentalidade utópica, manifestou diferenças com o qualiasma.

O crítico marxista Frederic Jameson5 faz ressalvas ao pensamento utópico e diz que embora ele tenha aparência benigna, se não totalmente ineficaz é, na verdade, bastante perigoso e pode nos levar, entre outras coisas, aos campos stalinistas, aos "massacres" da Revolução Francesa que por sua vez nos levam de volta imeditamente para o pensamento sempre vital de Edmund Burke.6 Afinal, ele foi o primeiro a nos alertar que certamente surgiria a partir das tentativas humanas de se intrometer e de transformar a tessitura orgânica da ordem social existente. Jameson diz também que o medo ou a ansiedade da utopia é um fenômeno concreto, ideológico e psicológico, que exige uma investigação sociológica específica. A própria linguagem da utopia é geralmente conhecida como uma palavra em código, para designar a transformação sistêmica da sociedade contemporânea.

Voltando à utopia milenarista, é importante lembrar que ela pregava exatamente o contrário da Igreja Católica, já que o paraíso aponta para a sublimação do desejo, enquanto a utopia aparece como a possível realização dos desejos. Para a Igreja, existe a fruição do presente com a expectativa do futuro, hipótese renegada pelos quiliastas, cujo espírito consistia em uma força que se propaga e se manifesta por nosso intermédio. Na realidade, a querela entre modernos e antigos que começa no século XII vai até o século XVIII.

A segunda forma de mentalidade utópica, a idéia liberal humanitária, também como o milenarismo, surgiu do conflito com a ordem existente, tem como postulado a teoria de que a técnica um dia vai acabar com o trabalho e com isso tenta nos levar a um processo civilizatório. Desta forma, a revolução deixa de ser um processo de ruptura e reaparece como um desenvolvimento.

Na prática, o liberal não desfaz as relações com o presente e o imediato do quiliasma, porém sua atitude fundamental se baseia na aceitação da cultura e preza pela postura ética nos assuntos humanos, ao contrário dos milenaristas, que protegidos por uma "capa" racionalista ameaçaram de maneira histórica e social o liberalismo. Esta nova utopia não era originária dos estratos baixos da sociedade, como o milenarismo, e sim, dos médios. Pode-se dizer que a idéia liberal deu expressão a um dos mais importantes períodos da história moderna, já que predominava o espírito do iluminismo que tinha o objetivo de livrar os homens do medo e fazer deles pensadores. Adorno7 comenta que o iluminismo queria livrar o mundo do feitiço, e tinha como pretensão dissolver os mitos e anular a imaginação, por meio do saber.

A idéia conservadora – terceira forma de mentalidade utópica – não tinha nenhuma utopia. Ela apareceu sem disposição de teorizar e refletir o processo histórico, já que acreditava que a liberdade interna deveria submeter-se ao código moral estabelecido. A próxima utopia a surgir foi a socialista comunista quando a estrutura econômica e social da sociedade virou realidade. Aliás, a caracaterística fundamental desta utopia é o sentimento de determinismo, ao contrário do sentido de indeterminação histórica do milenarismo. Então, no percurso da experiência quiliástica foi fatal o conflito entre Marx e Bakunin, ele deu fim ao utopismo quiliástico e viu concretizar-se a revolução marxista.

A Igreja Universal do Reino de Deus, integrante do neopencostalismo, é um exemplo típico da orgia quiliástica medieval, na medida em que o bispo Edir Macedo, mentor da seita, trabalha com a revolução do prazer já, ou seja, com o aqui e agora. Fundada há dezoito anos no Brasil, a Universal tem três milhões de fiéis, 2.000 templos, está presente em 46 países, com um patrimônio em torno de 400 milhões de dólares e é considerada uma das maiores multinacionais brasileiras. Na França, a organização religiosa está instalada há dois anos, voltada para os mais de um milhão de imigrantes portugueses que vivem em território francês.

Edir Macedo é proprietário da Record, terceira rede de televisão brasileira com concessão própria do País, e pode ser considerada uma poderosa igreja eletrônica. São 22 emissoras e sessenta repetidoras que permanecem 24 horas no ar e é estimado como o maior negócio do grupo. Apesar dos pastores receberem de 2% a 10% de arrecadação de cada templo e o aumento das contribuições dar direito a valiosos prêmios, o chefe da Universal não paga impostos, porque as atividades religiosas estão incluídas na isenção fiscal.

No dia 22 de dezembro de 1995, uma fita de vídeo amador foi ao ar pelo "Jornal Nacional", da TV Globo, mostrando reuniões e encontros dos pastores da Universal que comprometem o bispo Edir Macedo, com denúncias de que a seita usou dinheiro de drogas e praticou fraude fiscal para enriquecer, acumulando empresas de comunicação e outros tipos de negócios desde 1977, quando se separou da Igreja Pentencostal. O episódio refletiu na Europa e nos Estados Unidos. O jornal New York Times publicou em suas páginas (27 dez. 1995) as imagens trazidas a público, pelo pastor dissidente Carlos Magno de Medeiros, nas quais Macedo aparece instruindo outros pastores a atrair a admiração dos fiéis para tomar-lhes dinheiro e o pastor Honorilton Gonçalves é flagrado com gestos obscenos.

Na verdade, os vídeos mostram também os pregadores, entre eles, o bispo Macedo, fazendo caretas e contando os dólares doados em um templo de Nova York, ao lado de Honorilton Gonçalves e de Marcelo Crivella; depois, divertindo-se no mar de Angra dos Reis, litoral sul do Rio de Janeiro, balneário freqüentado por artistas e estrelas de Hollywwod quando estão no Brasil. As imagens foram feitas durante uma convenção da seita, realizada em um dos mais luxuosos hotéis da região.

Na época, a mídia nacional e a internacional divulgaram que Carlos Magno teria sido testemunha de um empréstimo de US$ 1 milhão do cartel de Cáli à Universal, para ajudar na compra da TV Record. Enquanto isso, Macedo admitiu que não pediria desculpas, por não ter cometido crime algum e relatou que, apesar das denúncias do seu desafeto Magno, exibidas pela TV Globo, os seguidores da seita atenderam aos apelos dos pastores na campanha de Natal, para depositarem "uma expressão de sua fé" em envelopes distribuídos nos templos de todo o País, com os dizeres: "1996, um ano de ouro".

O bispo Macedo comentou que: "Em dez anos a Igreja Universal se estendeu por todo o mundo e o senhor Roberto Marinho, proprietário das Organizações Globo, está com raiva, com ira, porque nós adquirimos uma rádio FM em São Paulo, na qual ele queria colocar os seus programas. O prédio estava também reservado para abrigar US$ 55 milhões em equipamentos para a Igreja Católica".

Os pastores e seguidores da Universal parecem ter adotado a teologia da prosperidade, diz o sociológo Ricardo Mariano, da USP, autor da tese Neopentecostalismo: os pentecostais estão mudando. Eles inovaram nos usos e costumes e, principalmente, na maneira de encarar a vida terrena. Nos cultos da seita os pregadores costumam dizer: "Deus não nos criou para termos uma vida miserável na terra". Nos programas de televisão a prosperidade financeira é incentivada de maneira enfática, adaptando-a às promessas da sociedade de consumo e aos apelos de lazer criados pela indústria cultural.

O bispo Honorilton Gonçalves, um dos dirigentes da Universal e que aparece em um dos vídeos que foi ao ar pelo "Jornal Nacional", explicou aos fiéis, durante um culto realizado em Brasília, em dezembro do ano passado, as imagens em que ele e outros pastores são mostrados em comemorações íntimas usando dinheiro da igreja. "Éramos crianças, a Universal estava apenas começando", argumentou Honorilton. Sem mostrar nenhum constrangimento, o pregador cantou, dançou, arrecadou dinheiro e pediu aos fiéis para "não darem ouvidos à TV Globo".

Durante a celebração chamou a mulher e o filho ao palco para se explicar, apesar de não achar necessário. "Aquelas imagens são antigas", referindo-se às cenas em que o filho de um pastor o abraça pelas costas e o acaricia no peito: "o bispo Marcos, que hoje está em Nova York, fez aquela brincadeira por trás, quando tinha apenas vinte anos", disse Honorilton, que também é mostrado em uma imagem quando entrevista o deputado federal e pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, Laprovita Vieira, do PPB do Rio de Janeiro. Eles conversam sobre a compra de uma empresa em Caxias, munícipio fluminense, pelo "caixa dois". Para mostrar que é um homem de família, Honorilton afirmou que nunca viaja sem a mulher. "Sem ela, sou um legume", comentou o bispo.

Na maioria das vezes, no Brasil e nos Estados Unidos, a prática da conduta moral dos pastores não tem coincidido com o discurso. O comportamento transgressor já causou o afastamento de conceituados líderes evangélicos dos púlpitos. O episódio mais marcante aconteceu em 1988 e envolveu um dos pregadores mais populares dos Estados Unidos, o pastor Jimmy Swaggart. Na época, a rede de televisão ABC noticiou que ele mantinha encontros sexuais permanentes com uma prostituta por mais de um ano. Swaggart admitiu o adultério diante de mais de sete mil fiéis, durante um culto em Louisiana.

Como no caso envolvendo a cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus no Brasil, o escândalo Swaggart foi trazido à tona também por um ex-pastor, Marvin Gorman, que abandonou a Assembléia de Deus depois de aceitar publicamente as acusações de imoralidade que Swaggart e outros líderes evangélicos lhe faziam. Dois anos depois, mandou para a rede ABC fotos em que Swaggart – um dos pastores mais intransigentes com a conduta moral – era flagrado entrando e saindo de um motel com uma prostituta

Em março de 89, um ano depois, a modelo Deborah Murphree, então com 28 anos – o pastor tinha 52 – assinou contrato com a revista masculina Penthouse, onde, além de posar nua, contou e mostrou o que o pastor lhe pedia nos encontros secretos, pelos quais ele pagava, segundo ela, cinqüenta doláres, na época. Apesar de ficar proibido de pregar para os fiéis durante um ano pelo comando da Assembléia de Deus, o pastor desafiou a decisão e voltou a se apresentar na televisão meses depois. Foi expulso da igreja e criou uma nova seita.

Em São Paulo, em novembro de 95, o pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Melquíades Borges de Almeida, foi condenado a oito anos e nove meses de prisão por ter abusado sexualmente de um deficiente físico mental. O pastor era casado e pai de três filhos. A decisão foi do juiz da 1ª Vara de Lorena, Sidney Tadeu Banti.

Machado de Assis,8 há pouco mais de um século, escreveu o conto "A igreja do Diabo", que reúne textos, segundo o próprio Machado, que "não são especialmente do dia, ou de um certo dia", talvez daí a atualidade da obra, principalmente para refletir sobre o vídeo exibido e visto na TV Globo por, no mínimo, sessenta milhões de telespectadores, em horário nobre da televisão brasileira, quando o bispo Edir Macedo é visto pilotando um caiaque e ensinando aos seus discípulos a arte do ganho fácil.

Na verdade, o texto machadiano trata menos da religiosidade e mais da condição humana e sua esperteza vã. Talvez, a partir desse episódio seja possível a comparação entre a ficção de Machado e o texto apresentado na TV Globo: "Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada".

A partir dessa decisão, o Diabo parte para a prática: "Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico (…). Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo. Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil".

Parece que há alguma semelhança entre a fala do Diabo e a do bispo Edir Macedo. Vamos relembrar alguns dos conselhos dele no vídeo: "O pastor tem que ser super-herói para os fiéis. Se você mostrar aquela coisa chocha, o povo não vai confiar, não vai dar nada para você (…). Tem que pedir, tá me entendendo? Quem embarcar nessa vai ser abençoado; quem não embarcar não vai. Quem quiser dar, dá. Amém. Quem não quiser, não dá. Mas tem um montão que vai dar. Você tem que ser o super-herói do povo. Tem que ser o valente, o machão!"

Enquanto isso, prossegue Machado de Assis em seu conto: "Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele [o Diabo] dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força. E concluía: ‘muitos homens são canhotos, eis tudo’ ".

Na época das denúncias que envolveram a seita, o Ministério da Justiça requisitou as fitas de vídeo em que o bispo Edir Macedo ensina os pastores a tirarem dinheiro dos fiéis. Representantes do governo admitiram que: "Os detentores de concessões públicas devem ter um comportamento irrepreensível perante a sociedade. É difícil entender uma pessoa que se intitula bispo, ajoelhado diante de um saco de dinheiro, em atitude debochada".

A questão das concessões públicas no Brasil, pode-se dizer que é, no mínimo, polêmica e incoerente. O deputado Milton Temer, do PT do Rio de Janeiro, que faz parte da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara, revela que a legislação brasileira não dispõe de qualquer brecha para que o Congresso ou o Ministério das Comunicações cassem rádios ou televisões. Da forma em que vigora a lei, as concessões são intocáveis.

A série de imagens veiculadas no dia 22 de dezembro de 1995, pela TV Globo, foi filmada, pelo pastor dissidente Carlos Magno, em 1990. Na pregação em que aparece no vídeo, Edir Macedo diz que vale até jogar a Bíblia no chão como forma de persuadir os fiéis e confessa que ele mesmo já fez isso diante da TV, no ínicio da carreira nos Estados Unidos. Em outro trecho, Macedo instrui os discípulos a não serem humildes: "Você tem que chegar e se impor. Se você não quiser ajudar, Deus vai ajudar outra pessoa. Se quiser bem, se não quiser que se dane. Ou dá ou desce", diz o bispo, numa reunião de fim de semana com o alto escalão da igreja, onde demonstra ser um verdadeiro mestre do marketing econômico e religioso.

O bispo Macedo surge nas cenas gravadas pelo ex-aliado e hoje inimigo, Carlos Magno de Miranda, revelando a sua versão sobre o sucesso da Universal e a compara com a Igreja Católica: "O padre é humilde e ninguém dá nada por ele, fica com aquela maneira assim [encolhe os ombros, cruzando os braços] e nós vamos lá e botamos para quebrar, viramos cambalhota, é isso aí! Nós não podemos ter medo".

O Instituto Superior de Estudos da Religião – ISERJ – estima que entre dízimos e ofertas, a arrecadação diária da Igreja Universal do Reino de Deus em todo o País, deve ficar entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão. O dinheiro proveniente dos dois mil templos é depositado em grandes bancos e depois centralizado no Banco de Crédito Metropolitano – que faz parte da holding do bispo Macedo –, com agências no Rio e em São Paulo.

Com a repercussão internacional das imagens veiculadas pela TV Globo, o Poder Judiciário recebeu diversas ações de fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus, querendo recuperar bens e dinheiro doados em nome da fé. Pelo menos um dos ex-adeptos da seita, o advogado Grigore Avram Valeriu, já foi comunicado pela Justiça, em junho de 96, de que o bispo Macedo terá que devolver a metade dos bens doados para o templo da Abolição, no Rio, pelo advogado, entre eles oito apartamentos, três lojas, carros e jóias. Quando fez a doação, Valeriu acreditava que obteria a graça de dobrar seu patrimônio.

Apesar de todos os envolvimentos do bispo Edir Macedo com as justiças brasileira e americana – ele é investigado há cerca de um ano pela Interpol –, os seus projetos evangélicos para 1996 seriam basicamente dois: primeiro, investir cada vez mais na igreja eletrônica, ou seja, nos programas de televisão, principalmente no Nordeste, região estratégica para a seita na área de comunicação. Três emissoras de TV deveriam ser compradas em, pelo menos, três capitais: Recife, Fortaleza e Natal. A outra preocupação do bispo seria ampliar a atuação da Universal do Reino de Deus no terreno político, com a pretensão de eleger, pelo menos, duzentos vereadores em todo o País. No programa "25ª hora" levado ao ar no dia 28 de dezembro de 1995, na Rede Record, o pastor Ronaldo Didini disse: "No ano 2000 seremos maioria evangélica no País. Já em 96, teremos vários vereadores eleitos e, em 98, teremos um Congresso com pessoas cristãs e probas".

No Congresso Nacional, a maior parte dos projetos apresentados pelos seis deputados eleitos pela Igreja Universal do Reino de Deus, segue os interesses de Edir Macedo. A legislação de telecomunicação é um assunto prioritário para os parlamentares da organização religiosa, que controla a Rede Record. O deputado Laprovita Vieira apresentou em 95, emenda constitucional permitindo que "entidades não lucrativas" participem do capital social de emissoras de rádio e TV. Se aprovada, possibilitaria que a Universal registrasse oficialmente sua participação na Record. Laprovita Vieira é o deputado que aparece em vários momentos ao lado do bispo Edir Macedo nos vídeos exibidos pela TV Globo.


NOTAS

1. Karl Manheim, Ideologia e utopia, Rio de Janeiro, Guanabara, 1986.

2. Manheim, op. cit.

3. Mikhail Bakunin, Federalismo, socialismo e anti-teologismo, São Paulo: Cortez, 1988.

4. Paul Tillich, The religious situation, ed. inglesa, Nova York, 1932.

5. Frederic Jameson, Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio, São Paulo: Ática, 1996.

6. Edmund Burke, Reflexões sobre a revolução em França, Brasília, Ed. UNB, 1983.

7. Theodor Adorno, Teoria estética, São Paulo, Martins Fontes, 1970.

8. Machado de Assis, Obra completa, vol. 1, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994.


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TREVISAN, Cláudia. " ‘Novos Crentes’ valorizam riqueza material". Folha de S. Paulo, São Paulo, p. 1-9.


Sumário

Apresentação Introdução Brasil e Uruguai: duas visões de regulamentação da TV Indústrias culturais no Mercosul: televisão aberta Análise comparativa entre duas emissoras de televisão regionais situadas na Baixada Santista A produção independente na televisão do interior: o caso de Bauru O videoclipe como forma de experiência estética na comunicação contemporânea A utopia quiliástica da Igreja Universal na TV A imagem televisiva e a cultura esportiva: um olhar sobre esta parceria