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A Televisão
e as Políticas
Regionais de Comunicação
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A utopia quiliástica
da
Igreja Universal na TV
Penha Rocha
Mestranda em Comunicação
e Semiótica da PUC/SP.
A utopia milenarista ou
quiliástica do século XII, primeira forma de mentalidade utópica,
cuja presença na área social exerce uma influência determinante
sobre as mentalidades antiéticas, pode ser considerada como
uma das fontes do pensamento contemporâneo. Ela prega o aqui
e agora, portanto, privilegia o presente a partir dos acontecimentos
da nossa vida cotidiana e possibilita que o homem tenha uma
visão de modernidade, eliminando o mito do paraíso superior.
O quiliasma viveu o seu apogeu na Idade Média, que era marcada
por conflitos e decadência, provocando inquietações de natureza
humana que buscavam compreensão externa. Segundo Karl Manheim,1
nesta época, as ideologias não se fixavam de maneira clara,
nem sempre sendo possível classificar a posição social a que
cada uma delas pertencia. Ao mesmo tempo, o teórico afirma
que a experiência quiliástica é característica dos estratos
mais baixos da sociedade e a ela estão ligados pregadores
fanaticamente emocionais.
O sociológo Thomas Munzer,
líder do movimento dos anabatistas seita protestante
que rejeita o batismo das crianças e rebatiza todos os seus
adeptos, com o argumento de que eles o receberam antes do
uso da razão admite que o quiliasma e a revolucão social
estão relacionados com a religião no que diz respeito às suas
estruturas. Depois disso, é possível dizer que teve início
a espiritualização da política com o "aqui e agora"
começando a fazer parte da história. Neste mesmo período,
aconteceram as tensões espirituais emergentes da mentalidade
utópica da época, originada das baixas classes, que conquistam
a sua consciência social. Junto a esses episódios, surge a
política, no sentido moderno do termo, ou seja, a participação
de toda a sociedade em busca de algum objetivo comum.
Manheim2 afirma que o
otimismo quiliástico dos revolucionários deu origem à atitude
conservadora da resignação e que talvez a única característica
que identifique esta utopia seja a da atualidade absoluta.
O profeta quiliasta Thomas Munzer diz: "Todos os profetas
deveriam falar da seguinte forma: assim fala o Senhor
e não assim falava o Senhor ".
O quiliasta está sempre
de pé, esperando o momento adequado não existe elaboração
do tempo para ele , e encara a revolução como um valor
em si mesmo, não como uma maneira inevitável de se atingir
um fim que possa ser alcançado de forma racional, mas como
o único preceito criador do presente imediato. Mikhail Bakunin,3
revolucionário russo e importante teórico do anarquismo, acreditava
que: "A vontade de destruir é uma vontade criadora. Não
acredito em constituições ou leis. A melhor constituição me
deixaria insatisfeito. Precisamos de algo diverso. De tempestade
e de vitalidade e de um novo mundo sem leis e conseqüentemente
livre". Na verdade, a mentalidade quiliástica está preservada
no anarquismo revolucionário desde a decadência da Idade Média
e a enxerga como uma única revolução.
A utopia qualiástica
e seus seguidores quase sempre elimina todas as relações com
as fases da história e de maneira freqüente é agressiva com
o mundo e suas regras sociais, enxergando-o como resultado
das satisfações da sua vinculação com o Kairos. Na mitologia
grega, Kairos é o Deus da oportunidade. Paul Tillich4 possibilita
uma versão cristianizada deste Deus quando diz: "Kairos
é o tempo realizado, o momento do tempo invadido pela eternidade.
Mas Kairos não é a perfeição ou a realização no tempo".
De certa maneira, podemos dizer que a experiência quiliástica
do presente elimina qualquer alternativa de se pôr em prática
o desenvolvimento e, no entanto, nos possibilita diferenciar
a qualidade do tempo.
Em algumas ocasiões, a
mentalidade utópica racional nasceu da utopia quiliástica,
porém pode ser a sua primeira adversária. Afinal, nem toda
utopia racional corresponde à fé quiliástica, ao mesmo tempo
em que nem toda utopia racional representa uma falta de consciência
dos problemas políticos e sociais do mundo. Assim como a utopia
liberal humanitária, segunda forma de mentalidade utópica,
manifestou diferenças com o qualiasma.
O crítico marxista Frederic
Jameson5 faz ressalvas ao pensamento utópico e diz que embora
ele tenha aparência benigna, se não totalmente ineficaz é,
na verdade, bastante perigoso e pode nos levar, entre outras
coisas, aos campos stalinistas, aos "massacres"
da Revolução Francesa que por sua vez nos levam de volta imeditamente
para o pensamento sempre vital de Edmund Burke.6 Afinal, ele
foi o primeiro a nos alertar que certamente surgiria a partir
das tentativas humanas de se intrometer e de transformar a
tessitura orgânica da ordem social existente. Jameson diz
também que o medo ou a ansiedade da utopia é um fenômeno concreto,
ideológico e psicológico, que exige uma investigação sociológica
específica. A própria linguagem da utopia é geralmente conhecida
como uma palavra em código, para designar a transformação
sistêmica da sociedade contemporânea.
Voltando à utopia milenarista,
é importante lembrar que ela pregava exatamente o contrário
da Igreja Católica, já que o paraíso aponta para a sublimação
do desejo, enquanto a utopia aparece como a possível realização
dos desejos. Para a Igreja, existe a fruição do presente com
a expectativa do futuro, hipótese renegada pelos quiliastas,
cujo espírito consistia em uma força que se propaga e se manifesta
por nosso intermédio. Na realidade, a querela entre modernos
e antigos que começa no século XII vai até o século XVIII.
A segunda forma de mentalidade
utópica, a idéia liberal humanitária, também como o milenarismo,
surgiu do conflito com a ordem existente, tem como postulado
a teoria de que a técnica um dia vai acabar com o trabalho
e com isso tenta nos levar a um processo civilizatório. Desta
forma, a revolução deixa de ser um processo de ruptura e reaparece
como um desenvolvimento.
Na prática, o liberal
não desfaz as relações com o presente e o imediato do quiliasma,
porém sua atitude fundamental se baseia na aceitação da cultura
e preza pela postura ética nos assuntos humanos, ao contrário
dos milenaristas, que protegidos por uma "capa"
racionalista ameaçaram de maneira histórica e social o liberalismo.
Esta nova utopia não era originária dos estratos baixos da
sociedade, como o milenarismo, e sim, dos médios. Pode-se
dizer que a idéia liberal deu expressão a um dos mais importantes
períodos da história moderna, já que predominava o espírito
do iluminismo que tinha o objetivo de livrar os homens do
medo e fazer deles pensadores. Adorno7 comenta que o iluminismo
queria livrar o mundo do feitiço, e tinha como pretensão dissolver
os mitos e anular a imaginação, por meio do saber.
A idéia conservadora
terceira forma de mentalidade utópica não tinha nenhuma
utopia. Ela apareceu sem disposição de teorizar e refletir
o processo histórico, já que acreditava que a liberdade interna
deveria submeter-se ao código moral estabelecido. A próxima
utopia a surgir foi a socialista comunista quando a estrutura
econômica e social da sociedade virou realidade. Aliás, a
caracaterística fundamental desta utopia é o sentimento de
determinismo, ao contrário do sentido de indeterminação histórica
do milenarismo. Então, no percurso da experiência quiliástica
foi fatal o conflito entre Marx e Bakunin, ele deu fim ao
utopismo quiliástico e viu concretizar-se a revolução marxista.
A Igreja Universal do
Reino de Deus, integrante do neopencostalismo, é um exemplo
típico da orgia quiliástica medieval, na medida em que o bispo
Edir Macedo, mentor da seita, trabalha com a revolução do
prazer já, ou seja, com o aqui e agora. Fundada há dezoito
anos no Brasil, a Universal tem três milhões de fiéis, 2.000
templos, está presente em 46 países, com um patrimônio em
torno de 400 milhões de dólares e é considerada uma das maiores
multinacionais brasileiras. Na França, a organização religiosa
está instalada há dois anos, voltada para os mais de um milhão
de imigrantes portugueses que vivem em território francês.
Edir Macedo é proprietário
da Record, terceira rede de televisão brasileira com concessão
própria do País, e pode ser considerada uma poderosa igreja
eletrônica. São 22 emissoras e sessenta repetidoras que permanecem
24 horas no ar e é estimado como o maior negócio do grupo.
Apesar dos pastores receberem de 2% a 10% de arrecadação de
cada templo e o aumento das contribuições dar direito a valiosos
prêmios, o chefe da Universal não paga impostos, porque as
atividades religiosas estão incluídas na isenção fiscal.
No dia 22 de dezembro
de 1995, uma fita de vídeo amador foi ao ar pelo "Jornal
Nacional", da TV Globo, mostrando reuniões e encontros
dos pastores da Universal que comprometem o bispo Edir Macedo,
com denúncias de que a seita usou dinheiro de drogas e praticou
fraude fiscal para enriquecer, acumulando empresas de comunicação
e outros tipos de negócios desde 1977, quando se separou da
Igreja Pentencostal. O episódio refletiu na Europa e nos Estados
Unidos. O jornal New York Times publicou em suas páginas
(27 dez. 1995) as imagens trazidas a público, pelo pastor
dissidente Carlos Magno de Medeiros, nas quais Macedo aparece
instruindo outros pastores a atrair a admiração dos fiéis
para tomar-lhes dinheiro e o pastor Honorilton Gonçalves é
flagrado com gestos obscenos.
Na verdade, os vídeos
mostram também os pregadores, entre eles, o bispo Macedo,
fazendo caretas e contando os dólares doados em um templo
de Nova York, ao lado de Honorilton Gonçalves e de Marcelo
Crivella; depois, divertindo-se no mar de Angra dos Reis,
litoral sul do Rio de Janeiro, balneário freqüentado por artistas
e estrelas de Hollywwod quando estão no Brasil. As imagens
foram feitas durante uma convenção da seita, realizada em
um dos mais luxuosos hotéis da região.
Na época, a mídia nacional
e a internacional divulgaram que Carlos Magno teria sido testemunha
de um empréstimo de US$ 1 milhão do cartel de Cáli à Universal,
para ajudar na compra da TV Record. Enquanto isso, Macedo
admitiu que não pediria desculpas, por não ter cometido crime
algum e relatou que, apesar das denúncias do seu desafeto
Magno, exibidas pela TV Globo, os seguidores da seita atenderam
aos apelos dos pastores na campanha de Natal, para depositarem
"uma expressão de sua fé" em envelopes distribuídos
nos templos de todo o País, com os dizeres: "1996, um
ano de ouro".
O bispo Macedo comentou
que: "Em dez anos a Igreja Universal se estendeu por
todo o mundo e o senhor Roberto Marinho, proprietário das
Organizações Globo, está com raiva, com ira, porque nós adquirimos
uma rádio FM em São Paulo, na qual ele queria colocar os seus
programas. O prédio estava também reservado para abrigar US$
55 milhões em equipamentos para a Igreja Católica".
Os pastores e seguidores
da Universal parecem ter adotado a teologia da prosperidade,
diz o sociológo Ricardo Mariano, da USP, autor da tese Neopentecostalismo:
os pentecostais estão mudando. Eles inovaram nos usos
e costumes e, principalmente, na maneira de encarar a vida
terrena. Nos cultos da seita os pregadores costumam dizer:
"Deus não nos criou para termos uma vida miserável na
terra". Nos programas de televisão a prosperidade financeira
é incentivada de maneira enfática, adaptando-a às promessas
da sociedade de consumo e aos apelos de lazer criados pela
indústria cultural.
O bispo Honorilton Gonçalves,
um dos dirigentes da Universal e que aparece em um dos vídeos
que foi ao ar pelo "Jornal Nacional", explicou aos
fiéis, durante um culto realizado em Brasília, em dezembro
do ano passado, as imagens em que ele e outros pastores são
mostrados em comemorações íntimas usando dinheiro da igreja.
"Éramos crianças, a Universal estava apenas começando",
argumentou Honorilton. Sem mostrar nenhum constrangimento,
o pregador cantou, dançou, arrecadou dinheiro e pediu aos
fiéis para "não darem ouvidos à TV Globo".
Durante a celebração chamou
a mulher e o filho ao palco para se explicar, apesar de não
achar necessário. "Aquelas imagens são antigas",
referindo-se às cenas em que o filho de um pastor o abraça
pelas costas e o acaricia no peito: "o bispo Marcos,
que hoje está em Nova York, fez aquela brincadeira por trás,
quando tinha apenas vinte anos", disse Honorilton, que
também é mostrado em uma imagem quando entrevista o deputado
federal e pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, Laprovita
Vieira, do PPB do Rio de Janeiro. Eles conversam sobre a compra
de uma empresa em Caxias, munícipio fluminense, pelo "caixa
dois". Para mostrar que é um homem de família, Honorilton
afirmou que nunca viaja sem a mulher. "Sem ela, sou um
legume", comentou o bispo.
Na maioria das vezes,
no Brasil e nos Estados Unidos, a prática da conduta moral
dos pastores não tem coincidido com o discurso. O comportamento
transgressor já causou o afastamento de conceituados líderes
evangélicos dos púlpitos. O episódio mais marcante aconteceu
em 1988 e envolveu um dos pregadores mais populares dos Estados
Unidos, o pastor Jimmy Swaggart. Na época, a rede de televisão
ABC noticiou que ele mantinha encontros sexuais permanentes
com uma prostituta por mais de um ano. Swaggart admitiu o
adultério diante de mais de sete mil fiéis, durante um culto
em Louisiana.
Como no caso envolvendo
a cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus no Brasil, o
escândalo Swaggart foi trazido à tona também por um ex-pastor,
Marvin Gorman, que abandonou a Assembléia de Deus depois de
aceitar publicamente as acusações de imoralidade que Swaggart
e outros líderes evangélicos lhe faziam. Dois anos depois,
mandou para a rede ABC fotos em que Swaggart um dos
pastores mais intransigentes com a conduta moral era
flagrado entrando e saindo de um motel com uma prostituta
Em março de 89, um ano
depois, a modelo Deborah Murphree, então com 28 anos
o pastor tinha 52 assinou contrato com a revista masculina
Penthouse, onde, além de posar nua, contou e mostrou
o que o pastor lhe pedia nos encontros secretos, pelos quais
ele pagava, segundo ela, cinqüenta doláres, na época. Apesar
de ficar proibido de pregar para os fiéis durante um ano pelo
comando da Assembléia de Deus, o pastor desafiou a decisão
e voltou a se apresentar na televisão meses depois. Foi expulso
da igreja e criou uma nova seita.
Em São Paulo, em novembro
de 95, o pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Melquíades
Borges de Almeida, foi condenado a oito anos e nove meses
de prisão por ter abusado sexualmente de um deficiente físico
mental. O pastor era casado e pai de três filhos. A decisão
foi do juiz da 1ª Vara de Lorena, Sidney Tadeu Banti.
Machado de Assis,8 há
pouco mais de um século, escreveu o conto "A igreja do
Diabo", que reúne textos, segundo o próprio Machado,
que "não são especialmente do dia, ou de um certo dia",
talvez daí a atualidade da obra, principalmente para refletir
sobre o vídeo exibido e visto na TV Globo por, no mínimo,
sessenta milhões de telespectadores, em horário nobre da televisão
brasileira, quando o bispo Edir Macedo é visto pilotando um
caiaque e ensinando aos seus discípulos a arte do ganho fácil.
Na verdade, o texto machadiano
trata menos da religiosidade e mais da condição humana e sua
esperteza vã. Talvez, a partir desse episódio seja possível
a comparação entre a ficção de Machado e o texto apresentado
na TV Globo: "Conta um velho manuscrito beneditino que
o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja.
Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se
humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem
organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada".
A partir dessa decisão,
o Diabo parte para a prática: "Terei a minha missa, com
vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e
todo o demais aparelho eclesiástico (
). Há muitos modos
de afirmar; há só um de negar tudo. Dizendo isto, o Diabo
sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico
e varonil".
Parece que há alguma semelhança
entre a fala do Diabo e a do bispo Edir Macedo. Vamos relembrar
alguns dos conselhos dele no vídeo: "O pastor tem que
ser super-herói para os fiéis. Se você mostrar aquela coisa
chocha, o povo não vai confiar, não vai dar nada para você
(
). Tem que pedir, tá me entendendo? Quem embarcar nessa
vai ser abençoado; quem não embarcar não vai. Quem quiser
dar, dá. Amém. Quem não quiser, não dá. Mas tem um montão
que vai dar. Você tem que ser o super-herói do povo. Tem que
ser o valente, o machão!"
Enquanto isso, prossegue
Machado de Assis em seu conto: "Nada mais curioso, por
exemplo, do que a definição que ele [o Diabo] dava da fraude.
Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era
a força. E concluía: muitos homens são canhotos, eis
tudo ".
Na época das denúncias
que envolveram a seita, o Ministério da Justiça requisitou
as fitas de vídeo em que o bispo Edir Macedo ensina os pastores
a tirarem dinheiro dos fiéis. Representantes do governo admitiram
que: "Os detentores de concessões públicas devem ter
um comportamento irrepreensível perante a sociedade. É difícil
entender uma pessoa que se intitula bispo, ajoelhado diante
de um saco de dinheiro, em atitude debochada".
A questão das concessões
públicas no Brasil, pode-se dizer que é, no mínimo, polêmica
e incoerente. O deputado Milton Temer, do PT do Rio de Janeiro,
que faz parte da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação
e Informática da Câmara, revela que a legislação brasileira
não dispõe de qualquer brecha para que o Congresso ou o Ministério
das Comunicações cassem rádios ou televisões. Da forma em
que vigora a lei, as concessões são intocáveis.
A série de imagens veiculadas
no dia 22 de dezembro de 1995, pela TV Globo, foi filmada,
pelo pastor dissidente Carlos Magno, em 1990. Na pregação
em que aparece no vídeo, Edir Macedo diz que vale até jogar
a Bíblia no chão como forma de persuadir os fiéis e confessa
que ele mesmo já fez isso diante da TV, no ínicio da carreira
nos Estados Unidos. Em outro trecho, Macedo instrui os discípulos
a não serem humildes: "Você tem que chegar e se impor.
Se você não quiser ajudar, Deus vai ajudar outra pessoa. Se
quiser bem, se não quiser que se dane. Ou dá ou desce",
diz o bispo, numa reunião de fim de semana com o alto escalão
da igreja, onde demonstra ser um verdadeiro mestre do marketing
econômico e religioso.
O bispo Macedo surge nas
cenas gravadas pelo ex-aliado e hoje inimigo, Carlos Magno
de Miranda, revelando a sua versão sobre o sucesso da Universal
e a compara com a Igreja Católica: "O padre é humilde
e ninguém dá nada por ele, fica com aquela maneira assim [encolhe
os ombros, cruzando os braços] e nós vamos lá e botamos para
quebrar, viramos cambalhota, é isso aí! Nós não podemos ter
medo".
O Instituto Superior de
Estudos da Religião ISERJ estima que entre dízimos
e ofertas, a arrecadação diária da Igreja Universal do Reino
de Deus em todo o País, deve ficar entre R$ 1 milhão e R$
1,5 milhão. O dinheiro proveniente dos dois mil templos é
depositado em grandes bancos e depois centralizado no Banco
de Crédito Metropolitano que faz parte da holding
do bispo Macedo , com agências no Rio e em São Paulo.
Com a repercussão internacional
das imagens veiculadas pela TV Globo, o Poder Judiciário recebeu
diversas ações de fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus,
querendo recuperar bens e dinheiro doados em nome da fé. Pelo
menos um dos ex-adeptos da seita, o advogado Grigore Avram
Valeriu, já foi comunicado pela Justiça, em junho de 96, de
que o bispo Macedo terá que devolver a metade dos bens doados
para o templo da Abolição, no Rio, pelo advogado, entre eles
oito apartamentos, três lojas, carros e jóias. Quando fez
a doação, Valeriu acreditava que obteria a graça de dobrar
seu patrimônio.
Apesar de todos os envolvimentos
do bispo Edir Macedo com as justiças brasileira e americana
ele é investigado há cerca de um ano pela Interpol
, os seus projetos evangélicos para 1996 seriam basicamente
dois: primeiro, investir cada vez mais na igreja eletrônica,
ou seja, nos programas de televisão, principalmente no Nordeste,
região estratégica para a seita na área de comunicação. Três
emissoras de TV deveriam ser compradas em, pelo menos, três
capitais: Recife, Fortaleza e Natal. A outra preocupação do
bispo seria ampliar a atuação da Universal do Reino de Deus
no terreno político, com a pretensão de eleger, pelo menos,
duzentos vereadores em todo o País. No programa "25ª
hora" levado ao ar no dia 28 de dezembro de 1995, na
Rede Record, o pastor Ronaldo Didini disse: "No ano 2000
seremos maioria evangélica no País. Já em 96, teremos vários
vereadores eleitos e, em 98, teremos um Congresso com pessoas
cristãs e probas".
No Congresso Nacional,
a maior parte dos projetos apresentados pelos seis deputados
eleitos pela Igreja Universal do Reino de Deus, segue os interesses
de Edir Macedo. A legislação de telecomunicação é um assunto
prioritário para os parlamentares da organização religiosa,
que controla a Rede Record. O deputado Laprovita Vieira apresentou
em 95, emenda constitucional permitindo que "entidades
não lucrativas" participem do capital social de emissoras
de rádio e TV. Se aprovada, possibilitaria que a Universal
registrasse oficialmente sua participação na Record. Laprovita
Vieira é o deputado que aparece em vários momentos ao lado
do bispo Edir Macedo nos vídeos exibidos pela TV Globo.
NOTAS
1. Karl Manheim, Ideologia
e utopia, Rio de Janeiro, Guanabara, 1986.
2. Manheim, op. cit.
3. Mikhail Bakunin,
Federalismo, socialismo e anti-teologismo, São Paulo:
Cortez, 1988.
4. Paul Tillich, The
religious situation, ed. inglesa, Nova York, 1932.
5. Frederic Jameson,
Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio,
São Paulo: Ática, 1996.
6. Edmund Burke, Reflexões
sobre a revolução em França, Brasília, Ed. UNB, 1983.
7. Theodor Adorno, Teoria
estética, São Paulo, Martins Fontes, 1970.
8. Machado de Assis,
Obra completa, vol. 1, Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1994.
BIBLIOGRAFIA
ADORNO, Theodor. Teoria
estética. São Paulo: Martins Fontes, 1970.
ASSIS, Machado de. Obra
completa. vol. 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.
BAKUNIN, Mikhail. Federalismo,
socialismo e anti-teologismo. São Paulo: Cortez, 1988.
"BISPO" diz
que tudo era brincadeira. Jornal do Brasil, Rio de
Janeiro, 25 dez. 1995, p. 3.
BURKE, Edmund. Reflexões
sobre a revolução em França. Brasília: Ed. UNB, 1983.
FALSO Reino de Deus
é desmascarado. O Globo, Rio de Janeiro, 23 dez.
1995, p. 9.
JAMESON, Frederic. Pós-modernismo:
a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo:
Ática, 1996.
MANNHEIM, Karl. Ideologia
e utopia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
MEDEIROS, Alexandre,
e RAMOS, Monica. "Procura-se deputado. Laprovita Vieira,
estrela do vídeo, só volta em 1996". Jornal do Brasil,
Rio de Janeiro, 25 dez. 1995, p. 4.
NASCIMENTO, Gilberto.
"O tesouro do bispo". Isto É, São Paulo,
27 dez. 1995, p. 21-24.
PASTERNAK, Pessis Guitta.
Do caos à inteligência artificial (entrevistas).
São Paulo: Ed. UNESP, 1992.
QUANDO a prática não
coincide com o discurso. O Globo, Rio de Janeiro,
24 dez. 1995, p. 14.
ROCCO, Maria Tereza
Fraga. Linguagem autoritária; televisão e persuasão.
São Paulo: Brasiliense, 1989.
STERENBERG, Leila. "Ecos
do escândalo chegam ao exterior". O Globo, Rio
de Janeiro. 27 dez. 1995, p. 4
TILLICH, Paul. The
religious situation. Ed. inglesa. Nova York, 1932.
TREVISAN, Cláudia. "
Novos Crentes valorizam riqueza material".
Folha de S. Paulo, São Paulo, p. 1-9.
Sumário
Apresentação
Introdução
Brasil e Uruguai: duas visões
de regulamentação da TV
Indústrias
culturais no Mercosul: televisão aberta
Análise
comparativa entre duas emissoras de televisão regionais situadas
na Baixada Santista
A
produção independente na televisão do interior: o caso de
Bauru
O
videoclipe como forma de experiência estética na comunicação
contemporânea
A
utopia quiliástica da Igreja Universal na TV
A
imagem televisiva e a cultura esportiva: um olhar sobre esta
parceria
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