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A Televisão
e as Políticas
Regionais de Comunicação
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O videoclipe como
forma de experiência estética na comunicação contemporânea
Jeder S. Janotti
Júnior
Mestre em Multimeios (Unicamp),
professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal
da Bahia.
INTRODUÇÃO
O estudo das produções
imagéticas apresenta inúmeras dificuldades. Entre elas gostaria
de destacar a dificuldade de acesso ao duplo sentido ou à
"significação profunda" que as imagens midiáticas
carregam em seu interior. A análise, compreensão e produção
da videografia1 enfrentam uma série de dificuldades no processo
de passagem do campo imagético para o verbal e vice-versa.
Como um dos elementos
catalisadores da experiência cultural do universo simbólico
contemporâneo, o medium vídeo agrega aspectos plásticos
que não poderão ser totalmente compreendidos pela prática
do discurso verbal, mesmo levando em conta que só através
da escrita podemos adentrar nos labirintos da vivência imagética.2
Esse fato exerce uma enorme atração no estudo/produção dos
video-clipes, pois como falar dos aspectos visuais que transcendem
os códigos normativos das línguas naturais?
Para tentar deslocar
essa teia, o filósofo Paul Ricoeur recorta três campos teóricos
que de alguma forma tentam compreender as experiências humanas
que ultrapassam as fronteiras lingüísticas:
A psicanálise, por
exemplo, ocupa-se dos sonhos, de outros sintomas e objetos
culturais a eles afins como simbólicos de conflitos psíquicos
profundos. A Poética, por outro lado, se entendermos este
termo num sentido amplo, entende os símbolos como imagens
privilegiadas de um poema ou as imagens que dominam as obras
de um autor ou de uma escola de literatura, ou as figuras
persistentes dentro das quais toda uma cultura se reconhece
a si mesma, ou ainda as grandes imagens arquetípicas que
a humanidade enquanto todo ignorando as diferenças
culturais celebra.3
Mesmo reconhecendo que
Paul Ricoeur valoriza em suas palavras a interpretação e a
reflexão sobre experiências recortadas pelo conceito de símbolo,
seu pensamento nos ajuda a constatar a abertura de dois campos
por onde passam a experiência diante da imagem do vídeo:
a produção e o
olhar videográfico como formas expressivas que possuem a capacidade
de perfurar a linguagem cotidiana, inserindo-se no campo da
experiência estética;
o vídeo como um
medium de importância fundamental na construção das
formas expressivas da cultura contemporânea e assim retoma
e funcionaliza as famosas palavras de Marshall McLuhan: "O
meio é a mensagem".
Aqui é necessário virarmos
um pouco a discursividade acadêmico-reflexiva e analisarmos
os aspectos videográficos a partir de sua transformação material,
do recorte/seleção das imagens indiciais postadas diante das
lentes de uma câmera videográfica, a posterior "minutagem",
a edição e sua veiculação. Processo que tensiona e faz deslizar
a auto-reflexão imagética, sua produção de sentido e a interpretação
crítica mediada pelo signo verbal. Nesse sentido, a própria
grafia imagética das palavras quando utilizadas em um videoclipe,
por exemplo, tende a perfurar o caráter codificador das línguas
e valorizar a polissemia imagética da expressão gráfica como
stilus e "escrivinhação".
O videoclipe não tem mais
necessidade de se apegar aos esquemas narrativos tradicionais
que caracterizam os formatos clássicos do cinema, exigindo
que o público o perceba antes como um "espraiamento imagético",
do que como uma estrutura ordenada que permita uma significação
linear. De um modo geral essas formas expressivas não têm
como característica básica a necessidade de contar uma história.
Se o grande problema é
que essas manifestações só podem ser pensadas reflexivamente
por vias indiretas, ou seja: a tentativa acadêmica de interpretar
as imagens videográficas passa pela utilização de recursos
oriundos da "Galáxia de Gutemberg", parece que ainda
ficamos presos a uma dicotomia entre uma idéia de emissor/receptor
um tanto que antiquada, que colocaria o receptor não como
ator do processo comunicativo, e sim, como um espectador passivo.
Para sair dessa idéia da comunicação como um processo estanque
é necessário entendê-lo dentro da experiência comunicacional,
que coloca o receptor como um agente da produção de sentido,
pondo em xeque os conceitos de emissor/receptor.
Dentro da ótica desse
trabalho, uma das dificuldades de fugir a esse círculo vicioso
é justamente uma divisão um tanto arbitrária entre a poiesis
( a produção) e a experiência estética; neste sentido, é imperioso
a adoção de processos transtradutores que permitam e incentivem
a desterritorialização das fronteiras entre estes dois momentos
da videografia contemporânea, permitindo pensar produções
imagéticas reflexivas e experiências acadêmico-comunicacionais
videográficas.
O VIDEOCLIP E A
VIDEOEXPERIÊNCIA
A música pop se transformou
substancialmente depois do advento do videoclipe e de suas
implicações mercadológico-comunicacionais, como observa o
jornalista Cosmo Landesman:
The rock video began
life in the 1970s as nothing more than a promotional device
to sell records. They were fun to watch, but nobody took
them seriously untill Queens Boehmian Rhapsody
video was realized in 1975. Suddenly, hither to sane people
started to claim that rock videos werent just musical
ads they were Works of Art.4
Em 25 anos o videoclipe
se colocou como uma nova modalidade de expressão comunicacional
dentro do aparato televisivo, provocando uma modulação nas
formas e produções de sentido do imaginário contemporâneo,
além é claro, de toda uma refuncionalização do mercado fonográfico.
Nos anos 80 o vídeo começou a ser visto como a imagem artística
de nosso tempo,5 com estreitas implicações não só no mundo
televisivo, como no cinema e até nos modos de criação da música
pop.
O videoclipe carrega
consigo as possibilidades da fruição musical e da imagem não
como representação, mas como uma associação de sensações caleidoscópicas.
A imagem assume o status de impura (ou suja) se comparada
à pureza (ou limpeza) da sonoridade fora do imbricamento imagético.
Este fator nos leva a compreender a própria dinâmica da música
pop, como coloca Sean Cubbit:
Popular Song
and its typically songs and not instrumentals that have
dominated the pop market is forged in a dialetic
between clashing cultures and musical forms: diatonics pushing
against the modal forms of blues and European folk music,
the linear time of melody clashing with the circular time
of rhythm, industrial modes of production in conflict with
cultural traditions that antedate them, audience demands
for a recognizable formula faced with an equal demand for
novelty.6
Mas, um problema crucial
surge ao longo da história do vídeo, ou talvez seja melhor
dizer ao longo da afirmação da cultura pop como forma de expressão
estética: mas o videoclipe é arte? Novamente nos debatemos
com uma questão que permeia os media desde o advento
da fotografia, conforme observou Walter Benjamin em famoso
ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica.
Dentro da perspectiva deste trabalho, o questionamento não
é se os video-clipes são objetos de arte ou não, até porque
geralmente quando se levanta essa questão se pensa numa concepção
de arte ligada ao campo das chamadas "belas artes"
e portanto longe dos questionamentos levantados pelo medium
videográfico. O que interessa aqui é questionar como a produção
de sentido (seja ela na realização do produto ou em sua fruição)
pode se manifestar como experiência estética. Até porque apesar
de não possuirmos o distanciamento necessário para delimitarmos
especificamente o que vem a ser precisamente arte nos dias
de hoje, a maioria dos videomakers querem ser denominados
artistas. O que demonstra a enorme necessidade dos operadores
da cultura pop de serem reconhecidos dentro dos moldes da
chamada "alta-cultura" sem se darem conta do paradoxo,
e porque não dizer, do conservadorismo que tal postura expressa.
ROCK COMO OPERADOR
ESTÉTICO
O rock contemporâneo exerce
um papel catalisador dentro do universo visual da cultura
videoclipe, transcendendo a denominação "gênero musical"
e abrindo possibilidades de vivências e partilhas de sentimentos
diante do mundo contemporâneo.
Fugindo às análises tradicionais
que procuram encarcerar o rock como uma música pobre
ou alienante, ou aos pretensos conhecedores que subdividem
os estilos e classificam a produção pop hodierna como repetitiva
e conservadora, esse projeto é focado no universo imagético,
na produção/fruição/reflexão do videoclipe, espaço este que
permite aos operadores estéticos uma vivência simbólica longe
da linearidade dos espaços normativos da sociedade e sua extrema
racionalização.
Como expressão e produto
nascido na esfera da cultura midiática, a música rock
é permeada pela abundância sígnica: sejam verbais, musicais,
imagéticos ou híbridos. Essas formas expressivas produzem
sentidos específicas ao universo da cultura pop, que dentro
do contexto urbano contemporâneo se diferenciam e afirmam
seu território, seja o território físico dos shows,
lojas de discos, locais de agrupamento, ou o espaço midiático
ancorado na MTV.
O imaginário da cultura
videoclipe é um aglutinador da pulsão escópica juvenil. O
ritmo binário, marcado e forte, que começa a se delinear nos
primórdios do rock se afirma como uma transferência
energética (libido) para uma outra forma de atuação: a música
e o imaginário videoclipe.
Não se trata de mistificar
o videoclipe e a cultura pop. O rock diante deste olhar
não é uma música barulhenta e repetitiva, e sim uma sonoridade
que participa da expressão comunicacional da cultura contemporânea.
O SUPORTE VIDEOGRÁFICO
A imagem videográfica
se inscreve como produção, medium e produto semiótico.
É no encontro entre esses eixos que se exprime a experiência
de sentido diante do videoclipe; mas, como assinala Régis
Debray:
(...) a história da
arte trata das técnicas de fabricação, dos efeitos de estilo
e de escola; a iconologia ou a semiologia tratam do aspecto
simbólico das obras (esclarecendo a imagem por seu meio
intelectual, ou por análise interna das formas); a história
das mentalidades há de tratar das influências e do lugar
das imagens na sociedade. Assim funciona a divisão do trabalho
acadêmico: por abstração e decupagem dos planos de realidade,
desarticulação cientificamente necessária, mas que tem como
inconveniente escamotear as charneiras que os unem.7
Como só pode participar
da experiência videográfica o que é transmitido e midiatizado,
o suporte e a produção material adquirem um papel fundamental
na reflexão sobre o imaginário contemporâneo, ressaltando
que a produção de sentido pressupõe um imperativo técnico.
Não é mais possível abordar as imagens contemporâneas unicamente
pelo viés conceitual, nem deixá-las vagar em um instrumentalismo
que empobrece ainda mais o "espraiamento imagético contemporâneo".
O conceito (ou a interpretação) deve funcionar antes de tudo
como um mediador entre o campo das idéias (geral) e os fenômenos
em suas manifestações sensíveis (particular). Mas geralmente
o que se verifica hoje no campo da pesquisa em Comunicação
Social é uma valorização do campo logocêntrico mais do que
sobre as possibilidades imagéticas. Os pixels televisivos
e suas significações não são entidades destacáveis. Como o
apertar do clic fotográfico não é separável do pensamento.
A produção de um videoclipe
é uma forma de produzir sentido, de vivenciar a experiência
comunicacional, na qual o imaginário é chamado a compartilhar
formas expressivas que não se reduzem ao habitus, a
serialidade cotidiana. A experiência videográfica nos abre
outros horizontes de expectativa, desnudando também a perenidade
do que usualmente denominamos "real". Com sua fluidez
e dinamismo, o videoclipe, "desenraizamento" que
permite não só uma partilha imagética dentro da "aldeia
global", como uma reflexão midiológica e um espelhamento
de nossas tradições, já que a informação visual pressupõe
uma experiência comunicacional sensível em nosso próprio "território".
O "método midiológico"
permite romper com um raciocínio que parece permear as discussões
acadêmicas no âmbito da compreensão dos meios imagéticos contemporâneos:
o abismo entre a reflexão (estética) e a produção (técnica).
Como lembra o filósofo Gianni Vattimo:
Quando falamos de civilização
da técnica, no sentido mais amplo e "ontológico"
a que alude a noção heideggeriana de Gestell, temos
de compreender que aquilo a que aludimos não é apenas o
conjunto dos aparelhos técnicos que mediam a relação do
homem com a natureza, facilitando-lhe a existência através
de todo gênero de utilização das forças naturais. Embora
esta definição da tecnologia valha em geral para todas as
épocas, ela revela-se hoje demasiada genérica e superficial:
a tecnologia que domina e modela o mundo em que vivemos
é certamente feita de máquinas ainda entendidas no sentido
tradicional do termo, que fornecem os meios para "dominar"
a natureza externa: mas é sobretudo definida e de modo essencial,
por sistemas de recolha e transmissão de informações.8
É imperioso ficar sempre
atento às possibilidades de diálogo entre a conceituação e
os dispositivos técnicos, para assim repensar inclusive a
didática universitária que ainda insiste em separar disciplinas
ditas "teóricas" e "práticas". Atendendo
também para os perigos do "tecnicismo", já que a
técnica possibilita as criações, mas não as produz.
O que importa quando se
pensa a produção de sentido tanto no âmbito da produção imagética,
quanto da produção de sentido diante das imagens é justamente
o entendimento de que a técnica pressupõe um sujeito, renovando
o próprio "contexto" perceptivo. Até porque quando
o sujeito vivencia uma experiência de sentido diante de uma
imagem videográfica ele também está produzindo imagens e o
produtor strictu-sensu experimenta significações, e
conseqüentemente, sentidos.
Como o cinema modificou
nossa experiência de espaço/tempo diante do mundo, assim também
opera o vídeo, mas não no sentido de uma história linear em
que a videografia se sobreporia à imagem cinematográfica,
e sim em uma dinâmica onde o vídeo absorve certas potencialidades
do cinema e vice-versa, colocando então novas possibilidades
e horizontes de expectativa na relação com a realidade sensível.
NOTAS
1. Utilizo aqui o termo
videografia como o campo da produção técnica e de sentido
das imagens que utiliza como recursos de realização/difusão
os suportes oriundos da tecnologia televesiva; mas devo
reconhecer a fragilidade do termo dentro da perspectiva
de que existe uma experiência aquém/além do nível verbal
nas imagens contemporâneas, e o termo apesar da operacionalidade
é derivado da idéia de grafia e portanto dá idéia de uma
possível "escrita" do vídeo.
2. Ao menos como proposta
de projeto de pesquisa ou relatório acadêmico (os famosos
memoriais).
3. Paul Ricouer, Teoria
da interpretação, trad. Artur Mourão, Lisboa, Edições
70, 1987, p. 65.
4. Cosmo Landesman,
"But is it Art?", The Sunday Times, 28
jan. 1996, caderno "The Culture", p. 15.
5. Cf. Arlindo Machado,
A arte do vídeo, São Paulo, Brasiliense, 1988.
6. Sean Cubitt, Timeshift
on video culture, Londres, Routledge, 1990.
7. Régis Debray, Vida
e morte da imagem, trad. Guilherme Teixeira, Petrópolis,
Vozes, 1993.
8. Gianni Vattimo, A
sociedade transparente, trad. Hossein Shooja e Isabel
Santos, Lisboa, Relógio DÁgua, 1992.
BIBLIOGRAFIA
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imagem. Campinas: Papirus, 1993.
ANCHESHI, Giovanni,
et alii. Videoculturas de fin de siglo. Madri: Ediciones
Cátedra, 1990.
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BENJAMIN, Walter. Magia
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1985.
CANEVACCI, Massimo.
Antropologia da comunicação visual. São Paulo: Brasiliense,
1990.
CUBBIT, Sean. Timeshift
on video culture. London: Routledge, 1991.
DEBRAY, Régis. Manifestos
midiológicos. Petrópolis: Vozes, 1995.
.Vida
e morte da imagem. Petrópolis: Vozes, 1993.
INGLIS, Fred. Media
theory, an introduction. Oxford: Blackwell, 1993.
JANOTTI JR., Jeder S.
Heavy metal: o universo tribal e o espaço dos sonhos.
Campinas: Unicamp, 1994, mimeo (dissertação de mestrado
em Multimeios).
LANDESMAN, Cosmos. "But
is it Art?". The Sunday Times, 28 jan. 1996,
"The Culture", p. 15.
LEÃO DE MELLO, Leonardo.
O diabo é o pai do rock. Salvador: UFBA/Depto. de
Comunicação, 1995, mimeo (ensaio apresentado como conclusão
da disciplina Estudos Orientados).
MACHADO, Arlindo. A
arte do vídeo. São Paulo: Brasiliense, 1990.
MACHADO, Arlindo. Máquina
e imaginário. São Paulo: Edusp, 1993.
MAFFESOLI, Michel. O
tempo das tribos. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
1987.
McLUHAN, Marshall. Os
meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo:
Cultrix, 1988.
ROSS, Andrew & ROSE,
Tricia. Microphone fiends youth music & youth culture.
London: Routledge, 1994.
VALVERDE, Monclar. A
experiência da comunicação. Salvador: UFBA/Departamento
de Filosofia, 1995, mimeo (tese de doutorado).
WATTS, Harris. On
Camera. São Paulo: Summus, 1990.
Sumário
Apresentação
Introdução
Brasil e Uruguai: duas visões
de regulamentação da TV
Indústrias
culturais no Mercosul: televisão aberta
Análise
comparativa entre duas emissoras de televisão regionais situadas
na Baixada Santista
A
produção independente na televisão do interior: o caso de
Bauru
O
videoclipe como forma de experiência estética na comunicação
contemporânea
A
utopia quiliástica da Igreja Universal na TV
A
imagem televisiva e a cultura esportiva: um olhar sobre esta
parceria
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