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A
Televisão e as Políticas
Regionais de Comunicação
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Indústrias culturais
no Mercosul:
televisão aberta
Alfredo Eurico Vizeu
Pereira Jr. e Karla Maria Müller
Mestres em Comunicação pela
FAMECOS/PUCRS.
INTRODUÇÃO
As indústrias culturais,
em especial a televisão, desempenham um papel central na construção
da sociabilidade contemporânea. São parte constituinte e um
dos principais atores de promoção do desenvolvimento do capitalismo
em uma economia globalizada.
A formação de blocos econômicos
é uma tendência mundial da organização do capital. Vivemos
uma nova fase do capitalismo onde o mundo é visto como a grande
"fábrica global" a que todas as outras formas de
organização social e técnica do trabalho, da produção e reprodução
ampliada do capital são submetidas.1
O Mercado Comum do Sul
Mercosul é um bloco de livre comércio que reúne
o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, com mais de 190 milhões
de consumidores e um PIB superior a 730 bilhões de reais,
com renda per capita de 3 mil e 700 reais.2 Os dois
maiores mercados comuns mundiais são o Tratado de Livre Comércio
da América do Norte, com 360 milhões de consumidores, e a
União Européia, com 320 milhões.
Em nosso trabalho tentaremos
fazer uma breve descrição de como a televisão aberta foi implantada,
desenvolveu-se e consolidou-se no Brasil, Argentina e Uruguai,
dentro de um modelo de desenvolvimento econômico e político.
Procuraremos traçar algumas semelhanças e particularidades
da televisão massiva nesses países.
O objetivo é refletir
sobre o papel dessa indústria cultural no Mercosul. A literatura
sobre o assunto, apesar da contribuição de alguns autores,
ainda é pequena. Nesse sentido, pretendemos com este estudo
contribuir para o amplo debate que a dimensão do tema está
a exigir.
MERCOSUL HOJE
O Mercado Comum do Sul
institui um processo de integração que tem como finalidade
a construção de um mercado comum. Essa meta apresenta alguns
elementos básicos: a eliminação das barreiras tarifárias e
não-tarifárias no comércio entre os países membros, adoção
de uma tarifa externa comum, coordenação de políticas macroeconômicas,
livre comércio de serviços, de mão-de-obra e de capitais.
A criação formal do Mercosul
foi em 1991 com o Tratado de Assunção. O período de transição
estendeu-se até 1994 e teve como característica o desenvolvimento
do programa de desgravação tarifária e a negociação dos instrumentos
de política comercial comum. Em janeiro de 1995 inicia-se
uma nova fase, qualificada como período de consolidação da
união aduaneira.3
As transações comerciais
entre os quatro países que fazem parte do acordo cresceram
três vezes nos últimos seis anos, atingindo cerca de 15 bilhões
de reais em 1995. Por exemplo, as vendas brasileiras aos três
parceiros do Mercosul aumentaram de um bilhão de reais em
1990 para seis bilhões este ano. Recentemente o acordo passou
a ser integrado por mais um "parceiro": o Chile.
A perspectiva é que a Bolívia também venha a fazer parte deste
mercado.4
Este mercado comum tem
um subgrupo de trabalho que estuda normas técnicas de telecomunicações,
cuja função é recomendar a implementação de normas e regulamentos
por meio de resoluções em nível de Mercosul.
Em 1994, na Associação
Latino-Americana de Integração (ALADI), foi firmado um convênio
relativo ao uso de estações geradoras e repetidoras de televisão.
É o primeiro acordo de alcance parcial acertado em matéria
de radiodifusão em virtude do qual se estabelecem zonas de
coordenação ou áreas geográficas dentro das quais seus signatários
são obrigados a condicionar a instalação e operação de serviços
de radiodifusão às disposições previstas no mesmo.5
INDÚSTRIAS CULTURAIS:
TELEVISÃO
O termo "indústria
cultural" foi usado pelos primeiros teóricos da Escola
de Frankfurt para designar o efeito dos media nas estruturas
sociais. Conforme Adorno, a indústria cultural ao pretender
a integração vertical de seus consumidores, não adapta seus
produtos ao consumo das massas, mas, em larga medida, determina
o próprio consumo. Preocupada com os homens apenas como consumidores
e empregados, a indústria cultural reduz a humanidade, em
seu conjunto, assim como cada um de seus elemementos, às condições
que representam seus interesses. Ela traz todos os elementos
característicos do mundo moderno e nele exerce um papel específico,
o de portadora da ideologia dominante, que dá o sentido a
todo o sistema.6
No final dos anos 70,
a expressão usada pelos autores ao se referirem à mercantilização
das formas culturais, determinada pelo surgimento das indústrias
de entretenimento na Europa e nos Estados Unidos no fim do
século XIX, começo do século XX, já não é mais suficiente
para designar o novo contexto da produção de bens culturais,
fabricados em escala industrial.
Para Mattelart, as teorias
sobre a indústria cultural como sistema globalizado e sobre
o Estado como entidade metafísica não prevêem a dimensão histórica,
ou seja, a articulação dos media ao conjunto das contradições
e estruturas onde estão inscritos.
Em 1978, um documento
elaborado pelo Conselho da Europa introduz o conceito de indústrias
culturais:
(
) o conceito
é assumido pela nova situação de concorrência entre as políticas
culturais tradicionalmente conduzidas pelo Estado, que atingem
públicos restritos, e os meios de produção e difusão para
um público de massa, cada vez mais ligados ao mercado internacional.7
Apesar de reconhecermos
que as indústrais culturais funcionam da mesma forma como
qualquer outra indústria, numa sociedade de livre mercado,
ela apresenta especificidades em relação às demais indústrias.
Uma delas é que em contraposição a outros produtos industriais,
cada mercadoria cultural tem um valor de uso ligado à personalidade
dos criadores ou trabalhadores que a conceberam.
Atualmente, a característica
mais forte das indústrias de bens culturais e comunicação
é a concentração de recursos econômicos, financeiros e tecnológicos.
Essa concentração passa por cima de fronteiras geográficas
e políticas, adquirindo um poder muito mais efetivo que muitos
estados nacionais.8
Entre as indústrias culturais,
a televisão ocupa um lugar de destaque neste fim de século:
Vivemos, hoje, em sociedades
em que a difusão de formas simbólicas através dos meios
eletrônicos se tornou um modo de transmissão cultural comum
e, sob certos aspectos, fundamental. A cultura moderna é,
de uma maneira cada vez maior, uma "cultura eletronicamente
mediada", em que os modos de transmissão orais e escritos
foram suplementados e até certo ponto substituídos
por modos de transmissão baseados nos meios eletrônicos.9
Neste sentido, a televisão
é uma indústria cultural que tem participação decisiva na
formação das identidades e no crescimento econômico dos países.
Em alguns países da América Latina ela foi implantada no início
da década de 50. A partir dos anos 60 começa a penetração
sistemática do capital estrangeiro através do controle e domínio
do capital internacional neste novo setor e pelos contratos
que escamoteiam a legislação desses países:
A penetração do capital
estrangeiro neste setor foi possível com o grande desenvolvimento
alcançado por esse setor nos países hegemônicos como os
Estados Unidos, originando excedentes econômicos que exigiam
novos mercados para sua aplicação.10
A partir desta perspectiva,
buscaremos mostrar como se deu o desenvolvimento da televisão
em países do Mercosul Brasil, Argentina e Uruguai
com base nas profundas transformações políticas e econômicas
pelas quais vêm passando nos últimos anos. Procuraremos nos
deter em alguns aspectos: legislação, modelo de radiodifusão,
fontes de arrecadação e concentração geográfica.
As considerações que faremos
têm por finalidade tentar contextualizar esses fatores. Estes
itens serão apresentados de uma forma simplificada, já que
o objetivo aqui é trazer alguns dados que possibilitem o mapeamento
de certa forma superficial da situação do sistema
televisivo nesses países.
Na pesquisa realizada,
os dados disponíveis sobre a indústria cultural televisão
aberta no Paraguai não foram suficientes, em nosso
entendimento, para incluir esse país no presente estudo.
TELEVISÃO NO MERCOSUL
No Brasil, a televisão
aberta foi inaugurada em 1950. A primeira emissora a entrar
em funcionamento foi a TV Tupi Difusora, pertencente aos Diários
Associados, cujo proprietário era Assis Chateaubriand. Ele
era dono de uma grande fatia do mercado brasileiro dos meios
de comunicação, chegando, na sua melhor fase, a possuir 36
emissoras de rádio, 34 jornais e 18 canais de televisão. A
formação deste oligopólio, de certa forma, confirma a tendência
da economia dos anos 50.11
Desse período até o golpe
militar, em 1964, temos uma forte predominância do capital
nacional no sistema televisivo. A partir de então, observa-se
a entrada de investimentos estrangeiros na indústria da informação,
mostrando que a internacionalização do mercado brasileiro
também marca a norte-americanização da indústria cultural,
especialmente no setor de televisão. Também há uma integração
do mercado consumidor brasileiro, tendo como área de dependência
o eixo RioSão Paulo.
A ditadura militar brasileira
durou mais de vinte anos, de 1964 a 1985. Resumindo esta etapa
da vida no nosso país, podemos dizer que politicamente foi
caracterizado pela repressão dos direitos civis, censura à
imprensa, com forte impacto sobre a cultura e a sociedade.
Nesta segunda fase, temos o declínio dos Associados, ascensão
e queda da TV Excelsior e o surgimento da Rede Globo de Televisão
que firma acordos com o grupo norte americano Time-Life.12
Por outro lado, o País
começa uma nova etapa dentro da reestruturação capitalista.
Segundo Sérgio Mattos,13 o crescimento econômico do País neste
período foi centrado numa rápida industrialização baseada
em tecnologia importada e capital externo, enquanto os veículos
de comunicação de massa, principalmente a televisão, passaram
a exercer um papel de difusores de bens duráveis e não-duráveis.
Nesta fase o Estado desempenha
um papel decisivo no desenvolvimento e regulamentação dos
meios de comunicação de massa. Em 1965, é criada a Embratel
que inicia toda uma política modernizadora para as telecomunicações.
Nesse mesmo ano, o Brasil associa-se ao Sistema Internacional
de Satélite Intelsat. No ano de 1968, é inaugurado
o sistema de microondas que permite a interligação de todo
o território nacional.14 A televisão brasileira, em especial
a Rede Globo, nascida junto com a ditadura militar, de uma
maneira geral, apoiou o novo regime:
A TV Globo converteu-se
na versão televisiva do capitalismo dirigido pelo Estado.
A TV Globo manteve-se fiel a suas origens no curso de quase
toda a ditadura. Proporcionava uma boa informação sobre
as atuações do regime militar, como o desastroso programa
de colonização da Amazônia com a Transamazônica e a vitória
brasileira no campeonato mundial de futebol, em 1970, no
México. A transmissão pela TV Globo de outros acontecimentos
e vitórias que motivavam o orgulho nacional foi um elemento
importante no controle e manipulação ideológicos da sociedade
brasileira.15
Com o passar do tempo,
o regime vai se desgastando. No começo de 1985 todas as emissoras
brasileiras de rádio e televisão transmitiam ao vivo a eleição
de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. A TV Globo transmitiu
à nação a mensagem de concentrar-se em praças públicas. As
multidões vibraram com o fim da ditadura militar:
Os meios de comunicação
de massa e especialmente a TV Globo haviam dado legitimidade
ao novo regime, ao mesmo tempo, a TV Globo havia garantido
sua própria legitimidade ante os olhos da opinião pública.
Uma nova TV Globo havia nascido com a nova república. (
)
Os novos dirigentes do Brasil tinham muito que agradecer
aos meios de comunicação, mas haveriam de vê-los, a partir
de então, como uma força política, nova e poderosa.16
Atualmente a televisão
brasileira passa por uma fase de maior competitividade entre
as grandes redes, num contínuo avanço em direção ao mercado
internacional:
Numa síntese do que
é o modelo brasileiro de televisão, podemos dizer que ela
é organizada em redes como nos Estados Unidos e tem produção
centralizada no eixo RioSão Paulo. Ela tornou-se o
meio de comunicação hegemônico no país nas últimas décadas
e é financiada indiretamente pela publicidade. Algumas dessas
redes, especialmente a Globo, tornaram-se exportadoras de
programas ou de difusão em alguns países europeus
17
O sistema brasileiro é
constituído de redes: canais privados, públicos e estatais.
No último caso, as televisões são fundações vinculadas às
Secretarias de Estado de Educação e Cultura. Os canais privados
controlam 98% da audiência em todo o país e estão divididos
da seguinte forma: redes nacionais: Globo, com seis emissoras
próprias e 79 afiliadas ou associadas, e SBT, com oito emissoras
próprias e 62 afiliadas; redes quase-nacionais: Bandeirantes,
nove emissoras próprias e 55 afiliadas, Manchete, cinco próprias
e 33 afiliadas; e quase-redes: Record, com duas emissoras
próprias e sete afiliadas. A Rede Globo detém 80% da audiência
nacional, absorve 77 a 80% de todos os investimentos publicitários
destinados à televisão e 60% do total dos investimentos canalizados
através de agências do Brasil, que é o sétimo mercado publicitário
mundial. É a quarta maior rede privada do mundo.18
A legislação básica que
regulamenta o rádio e a televisão no Brasil é a Lei nº 4.117,
de 27 de agosto de 1962, mais conhecida como Código Brasileiro
de Telecomunicações. Ela qualifica os serviços de radiodifusão
como de interesse nacional e com uma finalidade educativa
e cultural. Um decreto-lei de 1991 consolida todas as concessões
de rádio e televisão em vigor inclusive os canais que são
cabeças de rede, consagrando a ampliação do prazo de concessões
de televisão para quinze anos.
De acordo com Guimarães
e Amaral, de um modo geral, o Ministério das Comunicações
não controla nem a propriedade dos canais nem a estruturação
e constituição das redes. Não existem, por exemplo, mecanismos
que assegurem o cumprimento das normas legais que limitam
as concessões a cinco canais de VHF em todo o território nacional
por pessoa jurídica e dois canais por estado.
Entendemos que os dispositivos
constitucionais não são impedimento para a necessária liberalização
da televisão brasileira, que pode ser alcançada com o concurso
da legislação ordinária e de medidas administrativas de
regulação. Neste sentido, é necessária a revisão do Código
Brasileiro de Telecomunicações.19
Até a conclusão deste
trabalho, a discussão sobre mudanças na legislação ainda estava
em debate no Congresso Nacional.
Já na Argentina, a televisão
surgiu em 1929, mas somente em 1948 o governo realmente interessou-se
em instalá-la, tornando-a monopólio de caráter público, do
mesmo modo como funcionava o sistema de radiodifusão nacional.
Esta era uma filosofia peronista. Em 1951, iniciam-se as transmissões
regulares.
O crescimento da tevê
foi espetacular na Argentina. Em 1953, havia 40 mil domicílios
com aparelhos de televisão, tornando-se o país com maior porcentagem
de aparelhos receptores do continente.
Com a queda de Perón,
em 1955, começa o processo de permissão à iniciativa privada
de receber concessões de canais de televisão. Depois desse
período, os canais argentinos vincularam-se a cadeias estrangeiras
americanas, criando-se assim, uma dependência tanto na produção
de filmes e programas como em relação a equipamentos e tecnologias.20
Nos anos 60, a televisão
argentina cresce graças às cadeias norte-americanas e à participação
de industriais, comerciantes e latifundiários. Em meados desta
década, começou uma transformação nas relações de propriedade
na indústria televisiva do país. Empresários argentinos, ligados
ao setor de comunicação, buscaram formar conglomerados nacionais
com vocação de multimídia, centrados na produção e emissão
televisiva. O momento coincide com a passagem de ações das
redes de televisão norte-americanas (NBC, ABC e CBS) para
os empresários locais.
Por volta de 1973, o governo
retira das mãos da iniciativa privada os canais de televisão,
passando-os às mãos do Estado. As empresas deviam altas somas
ao fisco. Este foi um dos argumentos usados pelo governo argentino
para não renovar as licença dos três principais canais de
televisão da capital, um de Mar del Plata e outro de Mendonza.
As forças armadas, que
detiveram o poder na Argentina entre 1976 e 1983, foram os
principais artífices em conivência com os setores mais
reacionários da sociedade civil do desmantelamento
industrial e da maior crise deste país. Um dos setores atingidos
foi o de telecomunicações, provocando uma desaceleração em
seu crescimento.
Todo o aparato ideológico
massivo ficou sob o controle da Secretaria de Informação Pública,
dependente da Junta Militar. Os canais converteram-se em feudos
particulares das Forças Armadas, ou seja, cada uma das armas
apropriou-se de um canal de televisão. Como pano de fundo,
permeia todo este processo a chamada ideologia de segurança
nacional.
O descontrole econômico,
conseqüência dos governos militares, foi a herança legada
ao governo radical de Alfonsín que tomou posse em 1983. O
novo regime democrático encontrou um país com graves problemas
sociais, políticos, ilhado culturalmente e exausto economicamente.
Nesse governo, um dos
fatores tecnológicos que permitiram a retomada do desenvolvimento
da televisão argentina foi o incremento da retransmissão de
sinais via satélite, implantada desde 1969.
Alfonsín começa um plano
de reprivatização dos canais televisivos que prossegue no
governo Menem, dentro de um processo de privatização e de
reforma do Estado, com a liquidação de empresas públicas e
dos meios audiovisuais. As transformações anunciam o fim de
uma tradição estatista imposta há cinqüenta anos por Perón
e agora enterrada pelo seu próprio partido que está no poder.21
O modelo argentino de
televisão não é muito diferente dos demais países da América
Latina, onde predomina o sistema comercial de radiodifusão
norte-americano. A indústria televisiva, cuja fonte de renda
é a iniciativa privada (anunciantes), concentra-se na capital,
Buenos Aires.
O quadro geral da televisão
argentina, de 1985 em diante, não teve grandes modificações:
seis canais estavam nas mãos do Estado Nacional, cinco dos
estados provinciais, dois de universidades e trinta emissoras
do setor privado.22 Este último tornou-se mais forte com a
privatização iniciada em 1989 de emissoras comerciais que
anteriormente dependiam do Estado os canais 11 e 13
da capital federal.
Quanto às leis de radiodifusão,
regulamentam o setor a Lei nº 22.285/80 e a nº 23.696/89.23
A legislação argentina prevê que o serviço é de interesse
público, concedido pelo Estado a pessoa física ou jurídica,
sem limite de propriedade, no entanto não é permitida a concentração
regional. O conteúdo dos programas deve ser de educação e
cultura e os autores nacionais têm preferência. A entidade
que fornece as concessões para televisão, cuja duração da
licença é de quinze anos, é o CONFER Comité Federal
de Radiodifusión. Entre outras coisas, ele privilegia as dublagens
argentinas e protege os direitos autorais.
No Uruguai, a televisão
chegou em 1955. Nesta época, encontrava-se em decadência o
modelo de desenvolvimento da economia baseado na exportação
agrícola. O fim desse modelo, que possibilitou um elevado
padrão cultural e econômico (o país chegou a ser chamado a
"Suíça da América"), influenciou nas condições culturais
e políticas da sociedade. A estabilidade política do país
é abalada.
Segundo Elizabeth Fox
e R. Faraone,24 o sistema televisivo uruguaio inicia com três
canais comerciais, organizados com capital nacional em associação
com redes de televisão norte-americanas. Mais adiante, em
1973, foi criada uma quarta emissora, de propriedade do SODRE
Servicio Oficial de Difusión Radioeléctrica (atualmente
Servicio Oficial de Difusión, Radio, Televisión y Espectáculos).
Diferente dos outros
países do Cone Sul, a implantação da ditadura militar no Uruguai
foi em câmara lenta. As Forças Armadas estabeleceram um calendário
de entrega do poder:
(
) os militares
uruguaios estabeleceram um calendário rígido, cujo primeiro
passo seria o plebiscito, com eleições primárias em 1982
e eleições nacionais em 1984. Diferente também dos outros
três países Brasil, Chile e Argentina a ditadura
uruguaia não foi exclusivamente militar, mas cívico-militar,
com os civis, no governo de Pacheco Areco, pretendendo uma
hegemonia sobre os militares e desembocando na renúncia
de Bordabery. A hegemonia do poder militar que se seguiu
manteve civis em postos-chaves da administração: de junho
de 1973 a agosto de 1981, todos os presidentes foram civis.25
O plano dos militares
foi atrapalhado pela derrota das Forças Armadas no plebiscito
da reforma constitucional em 1980. A situação começa a mudar
e o regime dá sinais de fragilidade. O governo sofria uma
derrota na primeira vez em que se submetia à busca da legitimidade
através de uma eleição. O País entra em uma nova fase democrática
que se segue até os dias de hoje.
A legislação de radiodifusão
em vigor no Uruguai é disciplinada pelos decretos-leis nº
14.670/ 77 e nº 15.671/ 84. O governo uruguaio é quem dá as
concessões para os canais de televisão que, segundo a Constituição
do País, podem ser explorados pela iniciativa privada ou pelo
poder público. Não existe definição de orientação e objetivos
de radiodifusão.
Uma pessoa não pode ser
titular total ou parcial de duas ou mais freqüências em cada
uma das três bandas de radiodifusão (OM, FM e televisão),
nem de mais de três freqüências no total nas três bandas.
Estão aptos a receber concessões uma pessoa ou grupos, com
um limite de canais. As licenças ou autorizações não têm prazo
de duração estabelecido. A princípio é vetada a transmissão
de programação em outro idioma.
Para Ronald Pais Bermúdez,26
a legislação necessita de um exame profundo e completo que
permita a atualização dos textos existentes, precedida de
uma ampla discussão da sociedade.
Na verdade, segundo Juan
Martín Posadas,27 ex-presidente do SODRE, os meios de comunicação
têm poder sobre o Estado, constituindo um sistema fechado,
dominado por poucas empresas.
Os canais do interior
do Uruguai, ligados a redes da capital, produzem pouca programação
local. De acordo com Luciano Alvarez,28 a televisão uruguaia
está mal distribuída pelo território nacional, inclusive recebendo
nas fronteiras forte influência das televisões argentina e
brasileira. A concentração das emissoras é na capital, Montevidéu.
A televisão a cores chega no Uruguai somente em 1980. Em rápido
crescimento, o uso das antenas parabólicas é ainda incipiente.
O sistema televisivo uruguaio
é constituído por 23 estações e duas redes. O Sistema Nacional
de Televisión, canal oficial, alcança quase todo o território
nacional, mas não tem uma programação competitiva. Já a Red
Uruguaya de Televisión cobre parte do território e possui
19 canais no interior. Existem três zonas de influência: a
zona de influência de Montevidéu, que atinge a zona sul do
Uruguai, a mais populosa; a zona de influência argentina,
que atinge o litoral uruguaio; a zona de influência brasileira,
nas fronteiras oeste e noroeste, que recebe a televisão brasileira.
A televisão uruguaia atinge
92% dos lares. Seu modelo de comunicação é baseado no sistema
de mercado. A televisão pública financia-se indiretamente
pela publicidade ao alugar seus espaços a produtores privados.
A maioria dos programas apresentados é estrangeira e os uruguaios
não possuem, de maneira geral, preparo profissional nesta
área.29
CONCLUSÃO
A reflexão sobre as indústrias
culturais e Mercosul ainda é bem recente. Ao final deste trabalho,
procuramos levantar algumas considerações sobre a televisão
massiva que acreditamos contribuirão para o aprofundamento
do debate e a realização de novas pesquisas.
O modelo televisivo privado-comercial,
predominante nos três países, reserva ao Estado a mera função
de dar concessões e "fiscalizar" o mercado. Entendemos
que, mais do que isso, cabe ao Estado o papel de estimular
o debate e traçar políticas públicas que garantam o desenvolvimento
democrático do setor. Sendo assim, um dos fatores a ser considerado
é a revisão das legislações vigentes no Brasil, Uruguai e
Argentina com a finalidade de adequá-las ao novo quadro.
Outro fator a ser discutido
é a desigualdade entre as indústrias culturais dos países.
Isso já se faz sentir nas fronteiras. Por exemplo, uma boa
parte do pequeno território uruguaio tem zonas de influência
das televisões brasileira e argentina. As diferenças também
podem levar à hegemonia de um dos países. É o caso da televisão
aberta no Brasil que se distingue dos demais por possuir um
sistema de redes, com o visível monopólio da Rede Globo, o
que pode vir a ser um entrave na liberalização do setor.
Uma questão que também
não pode ser deixada de lado nessa discussão é a convergência
tecnológica televisão a cabo e satélite que
já vem se desenvolvendo de forma diferenciada nesses três
países. Mas, isso é assunto para um próximo trabalho.
As mudanças que se anunciam
na estrutura comunicativo-cultural em conseqüência da integração
devem estar entre as principais preocupações do processo.
Sem dúvida, os estudos sobre a televisão aberta nos países
que compõem o Mercosul podem contribuir para que o acordo
não seja meramente econômico, mas, mais do que isso, implique
na integração cultural e social desses povos.
NOTAS
1 Octávio Ianni, Teorias
da globalização, 2ª ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
1996, p. 17-18.
2 Elba Cristina Lima Rêgo,
"O processo de integração no Mercosul", Revista
do BNDES, nº 3, jun. 1995, p. 192.
3 Sérgio Abreu e L. Florêncio
e Ernesto Henrique F. Araújo, Mercosul hoje, São Paulo,
Alfa-Ômega, 1995, p. 49-50.
4 Revista Veja,
São Paulo, 3 jul. 1996, p. 110-111.
5 Héctor O. Amengual,
La radiodifusión en el Mercosur, Montevidéu, Cátedra
Unesco/Universidade Católica de Montevidéu, 1995, p. 1-7.
6 T.W. Adorno, "Indústria
cultural", em: Gabriel Cohn (org.), Comunicação e
indústria cultural, São Paulo, Nacional, 1971, p. 287-295.
7 Armand Mattelart, Comunicação-mundo;
história das idéias e das estratégias, Petrópolis, Vozes,
1994, p. 229.
8 Octavio Getino, Las
industrias culturales en la Argentina; dimensión económica
y políticas públicas, Buenos Aires, Colihue, 1995, p.
23.
9 John B. Thompson, Ideologia
e cultura moderna teoria social crítica na era dos
meios de comunicação de massa, Petrópolis, Vozes, 1995,
p. 297.
10 Sérgio Caparelli, Televisão
e capitalismo no Brasil, Porto Alegre, L&PM, 1982,
p. 13.
11 Idem, op. cit., p.
21-22.
12 Sobre o acordo ver:
Sérgio Caparelli, op. cit., p. 24-30; Daniel Herz, A história
secreta da Rede Globo, Porto Alegre, Tchê, 1987.
13 Um perfil da TV
brasileira (40 anos de história: 1950-1990), Salvador,
ABAP-BA e A Tarde, 1990, p. 13-14.
14 Renato Ortiz, A
moderna tradição brasileira cultura brasileira e indústria
cultural, 5ª ed., São Paulo, Brasiliense, 1994, p. 117-118.
15 César Guimarães e Roberto
Amaral, "La televisión brasileña: una rápida conversión
al nuevo orden", em: Elizabeth Fox, Medios de comunicación
y política en América Latina, México, Gustavo Gili, 1989,
p. 159-160.
16 Idem, op. cit., p.
171.
17 Sérgio Caparelli, As
mudanças na televisão brasileira, Brasília, Compós/Mimeo,
1995, p. 5.
18 César Guimarães e Roberto
Amaral, op. cit., p. 66-67.
19 Idem, "Red Globo:
de la macroencefalia a la metástasis. Qué televisión, qué
democracia? Una reforma mínima de la TV brasileña", Voces
y Cultura, nº 6, jan./jun. 1994, p. 77-78.
20 Daniel Jones, "De
Perón a Alfonsín (1951-1989). El despegue frustrado de la
televisión argentina", Voces y Cultura, nº 1,
jan./jun. 1990, p. 57-70.
21 R. Horvath, "Reforma
del Estado y liquidación de emisoras. Privatizar las comunicaciones:
la modernización menemista", Voces y Cultura,
nº 1, jan./jun. 1990, p. 71-78.
22 Octavio Getino, op.
cit., p. 186.
23 D. Loretti, El derecho
a la información, Buenos Aires, Paidos, 1995, p. 139-144.
24 "Comunicación
y política en el Uruguai", em: Elizabeth Fox, op. cit.,
p. 184-193.
25 Gonzales apud
Sérgio Caparelli, Ditaduras e indústrias culturais no Brasil,
na Argentina, no Chile e no Uruguai, Porto Alegre, Ed.
Universidade/UFRGS, 1989, p. 93.
26 (Org.), Industrias
culturais en el Uruguai, Montevidéu, Arca, 1995, p. 10-30.
27 "El papel del
estado con respecto a la televisión en Uruguai", em:
Ronald Pais Bermúdez (org.), op. cit., p. 31-36.
28 "Breve panorama
de los medios de comunicación en el Uruguay", em: Ronald
Pais Bermúdez (org.), op. cit., p. 41-43.
29 Luciano Alvarez, op.
cit., p. 47.
Sumário
Apresentação
Introdução
Brasil e Uruguai: duas visões
de regulamentação da TV
Indústrias
culturais no Mercosul: televisão aberta
Análise
comparativa entre duas emissoras de televisão regionais situadas
na Baixada Santista
A
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