A Televisão na Era da Globalização
 

O LOCAL E O GLOBAL NO OLHAR TELEVISIVO; ESTUDO COMPARATIVO DA ESTÉTICA DOS TELEJORNAIS “EM CIMA DA HORA” , “INTERNATIONAL WORLD NEWS” E “JOURNAL”

Cláudia Bahia de Oliveira, Marta Campos de Quadros
e Nalú Alves Silveira*

Introdução: o olhar ampliado

A televisão tem sido considerada pelos mais diversos autores como o veículo de maior importância da contemporaneidade. Inserida no contexto da indústria cultural, é vista como um instrumento de informação rápida e certeira, uma forma extraordinária de educação plural e de socialização, detentora de um terrível poder de manipulação que dispersa a atenção, embota a sensibilidade e aliena as consciências à força de bombardear o receptor com imagens e sons em moto-contínuo. Sobre a tevê pode-se ainda afirmar que é “sem dúvida, o veículo da era eletrônica que maior penetração já obteve, introduzindo-se em todas as casas, entre todas as pessoas, praticamente em todos os cantos do planeta. A televisão hoje é parte do cotidiano, parte referencial da vida de quase todos os humanos”.1

Significando modernidade desde o seu surgimento, a tevê ampliou as suas possibilidades. Dentro do ambiente da convergência tecnológica, sua junção com o computador, atualizou o seu uso e lançou-a profunda e individualmente na missão de trazer o mundo ao ambiente do telespectador com velocidade e precisão, fazendo-o crer cada vez mais que as noções tradicionais de tempo e espaço estão superadas. “O zapper conectado é como um feiticeiro feliz porque, finalmente, eficaz: salta de um continente para outro em um piscar de olhos. Passando dos mapas mundi ao departamento de eletrodomésticos dos grandes supermercados. O planeta Terra foi, ao mesmo tempo, miniaturizado e domesticado.” 2 Esta constatação remete à infinidade de canais que, hoje, via cabo ou diretamente do satélite, podem ser acessados pelo telespectador.

Porém, um aspecto da televisão em especial nos chama a atenção: a sua matéria-prima, a imagem e o som traduzidos em linguagem que suporta o discurso verbal. Olhos nos olhos, o apresentador olha para quem o olha. Ele finge, disfarça, já que está lendo o seu texto, mas, segundo Debray, o efeito se encontra justamente aí: um olho que fixa sem ver, nos interpela diretamente, convocando-nos a aderir. Décio Pignatari vê nesta característica da televisão a sua atração e reafirma que quem assiste televisão em verdade também é assistido por ela.3

A linguagem televisiva realiza suas potencialidades dentro de contextos culturais específicos, dependendo inclusive do desenvolvimento de outras formas de comunicação. A plenitude de suas possibilidades se concretiza em longos planos descritivos, que localizam o espectador, ou em uma infinidade de cortes que bricolam a realidade em ritmo frenético, demonstração do domínio da tecnologia e da velocidade, características do mundo contemporâneo. Síntese e instantaneidade são cada vez mais marcas do discurso complexo televisivo, junção de fala e olhar, onde o verbal ou o imagético não valem em si mesmos. A fala pode ser mais ideológica, mais objetiva e eficaz para a informação, mas não possui o grau de envolvimento e impacto gerado pela imagem. Esta não desvenda imediatamente as significações de que é portadora. Os fatos não falam por si próprios; é preciso apresentá-los e comentá-los para situar as causas e os efeitos que lhes dão sentido pleno.4

Contudo, esta televisão que hoje conhecemos como veículo principalmente de informações e entretenimento, nasceu com um caráter geralista e, dependendo da sociedade, atrelada ao capital privado ou ao Estado.5 Sua evolução tecnológica não só gerou variadas formas de acesso, como também alterou a sua relação com os diversos públicos e a estética de seus produtos.

É adequado esclarecer que estética está aqui entendida como conhecimento a partir dos sentido, da percepção. Segundo Lúcia Santaella,6 a noção de estética historicamente tem seu senso comum ligado ao sentido do belo, entretanto, é derivada da palavra grega aisthesis, significando sentir a partir dos sentidos, rede de percepções físicas.

Reconhecendo que as imagens/sons veiculados pela tevê, por mais fantasiosos que sejam, são sempre reais para o telespectador e estão sendo vistas/ouvidos como no mundo real; e que sua relação com a imaginação é direta e global, quase sem mediações, semelhante à situação da fala e muito diferente da imaginação reflexiva mediada pela palavra escrita,7 decidimos ver/ouvir a televisão sem o verbal. Nossa opção é, então, ver a televisão enquanto prolongamento do olhar através de equipamentos eletroeletrônicos e movimentos, onde as imagens do cotidiano são recriadas tanto por quem as produz quanto por quem as assiste. Nosso objetivo, de caráter ainda exploratório e de aproximação com o objeto, é mapear através da imagem e som televisivos, as gramáticas propostas pelos emissores dos telejornais dentro de um contexto globalizado, focalizando principalmente os elementos que podem apontar para o global ou o local.

Para percorrermos este caminho, nos amparamos na pesquisa bibliográfica, recuperando aspectos pertinentes à televisão e linguagem televisiva, à globalização, à estética e às lógicas de recepção. A partir da escolha como objeto, dos telejornais – entendidos como programas de estrito caráter jornalístico diário, compostos a partir de notícias gerais – emitidos via cabo, para a cidade de Porto Alegre, mapeamos as emissoras que veiculavam tal formato. A amostra era excessiva e foi, portanto, necessário redimensioná-la, colocando um outro critério: o telejornal deveria estar inserido na programação de emissora que tivesse como característica a veiculação de notícias por 24 horas. Escolhemos três canais – Deutsch Welle, Cable News Network (CNN) e Globo News – que cumpriam estes requisitos e, ao mesmo tempo, representavam três universos sócio-político-econômicos e culturais distintos: Alemanha, Estados Unidos da América e Brasil.

Para procedermos à análise foram utilizados três edições consecutivas, na mesma data, dos telejornais “Journal”, “International World News” e “Em Cima da Hora”, todos com trinta minutos de duração. Como metodologia de trabalho, assistimos a cada um dos telejornais, nas suas três edições. Constatamos a identidade de estrutura entre as várias edições dos diferente telejornais, o que nos levou a descrever por inteiro uma das edições de cada programa, a primeira veiculada, e posteriormente proceder observações relativas às diferenças encontradas nas demais.

Olhando o contexto

O mundo chega até nós,e já não é mais preciso que nos desloquemos para entrar em contato com suas mais diversas cores, tons, formas e conteúdos. O globo não é mais uma nebulosa figura astronômica, mas um território habitável, concreto, em que todos nos entrelaçamos. Enquanto cidadãos do mundo, os elementos globais nos interpelam, invadem nossas vidas, nos constrangem ou nos libertam, compondo a mobília de nosso cotidiano que se ergue sem paredes. A televisão é parte deste contexto, pois traz a todo momento, com um simples apertar de tecla, instantaneamente, imagens do outro lado do mundo, ou mesmo histórias fantásticas e imaginárias para a nossa sala de jantar.8

Estas mudanças radicais em que o mundo está inserido são descritas através das mais diversas metáforas que procuram interpretar o nosso destino planetário. Elas, a exemplo da aldeia global de McLuhan são conceitos expressivos que surgem como códigos de acesso à compreensão de um cenário que a cada segundo parece mais indescritível.

Na base das transformações que constituem o alicerce da grande revolução estão as economias, com sua história baseada na lógica de que produzir mais para um consumo cada vez mais intenso é o segredo do progresso. É assim que as sociedades deixam de guiar seus sistemas econômicos pela lei do livre mercado, passando a construir a si mesmas como grandes mercados em que o vínculo social se forma, antes do que tudo, pelo intercâmbio de bens, serviços e produtos, determinando relações contratuais e exclusivamente individuais.

A globalização da economia já é uma realidade, da mesma forma que a tentativa de equalização de interesses em rota de colisão. No entanto, é impossível negar a eminência de novos tensionamentos provocados pela redisposição das camadas sócio-econômicas nacionais e a busca de acordos de alcance e ação internacionais. O que nos interpela hoje é uma internacionalização do capital levada às últimas conseqüências. A produção, distribuição e consumo de bens e serviços perderam suas conotações específicas. Os conglomerados transnacionais, a um baixo preço de custo, vendem as mesmas coisas, da mesma maneira, e em todos os lugares, a partir de uma estratégia mundial. Os produtos se desterritorializam, e é a universalidade das mercadorias que garante o elo entre as diversidades existentes nas diferentes regiões do globo. O processo de globalização, que tem origem na economia e causa a relativização da identidade nação-corporação, tem outros reflexos, pois, segundo Nestor García Canclini, “supõe uma interação funcional das atividades econômicas e culturais dispersas, bens e serviços gerados por um sistema com muitos centros no qual é mais importante a velocidade com que se percorre o mundo do que as posições geográficas a partir das quais se está agindo”.9

Ainda que a modernidade assinale a dificuldade de se localizar a centralidade das coisas, não implica a ausência de poder ou sua partilha em termos democráticos. Pelo contrário. As relações de autoridade, ao se anestesiarem com a descentralidade, adquirem outra abrangência. Renato Ortiz antevê a problemática e argumenta: “A civilização mundial, ao nos situar em outro patamar da história, traz com ela desafios, esperanças, utopias, mas engendra também novas formas de dominação. Entendê-las é refletir sobre as raízes de nossa contemporaneidade”.10 Essa faceta levantada pelo sociólogo brasileiro aponta a dualidade da globalização. O mesmo processo que produz interdependência e integração ocasiona desigualdades, tensões e antagonismos.

A globalização configura a sociedade universal como uma forma de sociedade civil mundial, promovendo o deslocamento das coisas, indivíduos e idéias, desenraizando uns e outros. A liberdade se traduz na capacidade de seleção de mercadorias, enquanto a identidade se revela em cada escolha. Cabe ao sujeito singular e coletivo produzir e reproduzir as condições materiais e espirituais de sua subordinação e eventual dissolução.

Canclini avalia a transmutação dos cidadãos em consumidores, sugerindo que a raiz desse processo reside nas diferenças na apropriação de bens, que, no passado, eram compensadas pela igualdade de direitos abstratos.11 Além disso, a redefinição dos sensos de pertencimento e identidade, orientados cada vez menos segundo lealdades locais ou nacionais, reduz o conceito de comunidades de cidadãos ao de comunidades transnacionais ou desterritorializadas de consumidores. Os indivíduos integram grupos mundiais de acordo com seus gostos estéticos e as mercadorias que consomem. Essas metamorfoses de tempo e espaço que operam rupturas marcantes ou progressivos deslizamentos de sentidos levaram Armand Mattelart12 a evidenciar uma tendência de substituição da ideologia do progresso pela ideologia da comunicação, gênese que encontrou no paradigma McLuhan um dos mais notáveis defensores e propagadores. O canadense, já na década de 70, convidava a humanidade a tecer algumas considerações sobre o tema da planetarização. Em 1974, ele escrevia que à velocidade do instante, os espectadores se transformam em atores, produtores, ao invés de consumidores.

Os modernos meios eletrônicos de que McLuhan é contemporâneo, sobretudo o rádio e a televisão, e sua linguagem própria baseada na imagem ampliavam as possibilidades de comunicação entre todos os habitantes do globo, num mundo cada vez mais comprimido, tribalizado pelas redes eletrônicas da informação.

Os computadores, máquinas de reprodução facsimilar, satélites, monitores tecem os fios da aldeia em que interagem negociadores, planejadores, empenhados na engenharia de produção de bens e estratégias de reprodução do consumo em alta escala. Esses meios de comunicação, informação ou locomoção não só reduzem distâncias mas abrem os horizontes para indivíduos e coletividades. A livre circulação de coisas, gentes e idéias, em âmbitos regional, nacional e mundial incita perspectivas de deslumbramento diante de ilimitadas ofertas. A lógica vertical e anônima com que esses meios diagramam os vínculos invisíveis entre as populações prende e liberta os indivíduos em sua condição de espectadores do show cotidiano sucedâneo da experiência da vida, das tensões, dos movimentos, da história.

Essa virtualidade da mídia emana justamente da associação com corporações desterritorializadas que ampliam seu papel de entretenimento e informação vinculando-o a estratégias econômicas. É por meio de linguagens aparentemente neutras que isso ocorre, envolvendo palavras, imagem, som, forma e movimento, portanto a partir das condições e possibilidades de representação e imaginação. Essa parceria entre capital e informação mais uma vez condiz com o igualmente global predomínio do interesse das classes dominantes, que se reflete na eficácia e expansão da indústria cultural. As produções televisivas e cinematográficas são os ícones por excelência de uma cultura-mundo, com suas narrativas fabricadas a partir de mitos inteligíveis a espectadores de qualquer ponto do planeta. Inserindo-se nesta lógica cultural, as políticas culturais transmutam-se em processos de montagem multinacional, articulação flexível de traços que qualquer consumidor, de qualquer país, religião e ideologia, pode interpretar.

Com a homogeneização das necessidades e mercados sob a pressão das novas tecnologias, a cultura é também redimensionada em paradoxos que contrapõem a unidade e autenticidade à hibridização e desforra. Os padrões de uniformidade que remodelam os hábitos locais, subordinando-os a estilos mundializados de trabalhar, se vestir e se distrair, desagregam as culturas tradicionais, ao passo em que instituem novas conexões eletrônicas.

Uma cultura mundializada não implica o aniquilamento das outras manifestações culturais. Ela coabita e se alimenta delas. Estas passam a ser transterritorializadas e multilíngües, estruturando-se pela lógica dos mercados, consumindo uma cultura produzida em escala industrial. Essa produção, que tem elaborado por décadas símbolos transnacionais, criou o que Ortiz13 denomina cultura internacional-popular, uma espécie de memória coletiva composta por fragmentos de diferentes pontos do globo. Impregnada por um repertório de signos constantemente disponível, ela permite que os consumidores sejam capazes de acessar um imaginário multilocalizado que a televisão e a publicidade reúnem, sem deixar de estarem inscritos em algum resquício de memória nacional. Personagens, imagens, situações, veiculadas pela publicidade, televisão e cinema constituem-se em substratos dessa memória.

As gramáticas do olhar: encontros e desencontros do olhar tradicional, moderno e pós-moderno

Se antes foi possível colocar a televisão como um apêndice tecnológico que possibilita aos homens estabelecerem contato, sobrepondo-se às esferas antes limitantes do tempo e do espaço,14 agora é possível, através da imagem, tentar estabelecer o lugar desde onde este mesmo homem trava suas trocas simbólicas.

Jesús Martín-Barbero15 afirma que a comunicação se converte em espaço estratégico desde onde se pode pensar os bloqueios e as contradições que dinamizam as sociedades a meio caminho entre um subdesenvolvimento acelerado e uma modernização compulsiva. Este espaço se constitui de elementos tanto trazidos pelos processos de globalização/mundialização quanto pela emergência de sujeitos sociais e identidades culturais novas ao nível local. Esta constatação é viável a partir de um movimento que nos coloca frente ao deslocamento da análise a partir dos meios para a análise a partir das mediações, enquanto usos simbólicos e articulações entre práticas de comunicação e movimento sociais em diferentes temporalidades e matizes culturais, no cotidiano. É nele que se estabelece a experiência que se refere ao vivido, fazendo-nos sentir a nossa inserção no mundo. É então a partir desta lente que deslocamos nosso olhar do meio televisão para o espaço de mediação da mensagem televisiva enquanto junção do olhar, do falar e do ouvir, no caso: o telejornal.

Dentro deste contexto é possível, então, afirmar que o receptor possui referenciais subjetivos e objetivos que influem na sua apreensão da mensagem. Ele fará, com base naquilo que conhece, a identificação das rotas de leitura da mensagem propostas pelo produtor. Entretanto, esta recepção não se dá de uma forma passiva. O espectador agirá sobre as rotas, propondo novos e individuais caminhos de leitura, o que tensiona esta relação, já que a recepção das mensagens está no plano discursivo, sendo portanto construída a partir de um jogo de articulações e estratégias dentro da própria linguagem em nível de ambos os pólos: o produtor e o receptor.16 Este tensionamento, que está no nível dos códigos, é chamado de contrato de leitura, e as rotas propostas, de gramáticas, pois são articulações de elementos que possibilitam a formulação de sentido. Este processo somente é possível se ancorado num universo comum de entendimento, antevendo um mesmo campo de significação.

Uma primeira aproximação com a estética estabelecida pelos telejornais analisados – “Journal” (J), “International World News” (IWN) e “Em Cima da Hora” (ECH) – nos possibilitou obter pistas sobre o padrão observado. Elas nos levam a classificá-los, de acordo com suas características, como olhar tradicional, olhar moderno e olhar pós-moderno, respectivamente.

O olhar tradicional, identificado no J, telejornal veiculado por uma emissora européia, inserida no ambiente cultural germânico, reveste-se de aspectos peculiares às narrativas tradicionais. Planos longos e descritivos, apresentadores mais humanizados por não seguirem aquilo que Debray,17 referindo-se aos corpos em um estúdio de televisão, denomina efígies, “simulacros sociais ou sinalizações permutáveis utópicas sem eira nem beira. Corpos sem carne, sem linhas”, cujo olhar não penetra o espaço, simplesmente desliza, fingindo ver o que não vê, determinando uma relação de olhares não mais física, mas puramente ótica.

A não presença explícita do narrador/repórter também reafirma o olhar tradicional no J. O relato é impessoal. O repórter está no local do fato, a tudo assiste, sem evidenciar a sua presença. A sua ausência o torna presente através do fato narrado. Os movimentos de câmera – geralmente travelings lentos –, assim como os enquadramentos reforçam a linearidade desta narrativa. O olhar é decifrador, toma o seu tempo para dar a conhecer. Há ainda uma quase ausência de trilhas e cortes sucessivos. O discurso visual do J tenta seduzir o espectador pelo conhecimento e contextualização da matéria e não pela demonstração de destreza técnica – efeito clipping – ou apelo ao emocional.

A modernidade nos parece o conceito mais adequado ao IWN que mostra a tecnologia em cena, mas não a utiliza com freqüência excessiva. Os apresentadores, sem uma beleza ou juventude extremada, aparentam tranqüilidade, segurança e conhecimento, no seu posicionamento frente às câmeras. Microfones identificados, assim como a presença do repórter na cena do fato são valorizados como recursos nobres de narrativa. Contudo, os planos não trocam com excessiva rapidez, obedecendo uma certa regularidade. A música serve de pontuação onde possa contribuir com a matéria. Pode-se constatar a presença de matérias especiais, levando a crer que exista uma preocupação com o humano onde quer que ele esteja. O discurso visual do IWN não é linear. Permite-se criatividade e ousadia na movimentação de câmeras no estúdio, metasignificando os elementos tecnológicos, emblemáticos da linguagem televisiva. Este aspecto fica bastante evidente nas voltas de intervalos, quando em substituição a vinhetas tecnológicas. Há sempre um encontro entre o contemporâneo e o tradicional como elemento de ruptura, característico da modernidade.

Já o ECH recria no próprio cenário elementos de descontração, através da simulação de diálogos e do estabelecimento de uma suposta intimidade entre os dois apresentadores. Homem e mulher, os apresentadores são sempre jovens e considerados belos. O cenário caracteriza-se pela multiplicidade de elementos: ambiente de redação ao fundo, bancada em primeiro plano, logotipo da emissora como cenário. Linhas se cruzam com insistência, sempre em diagonais e formando Ns. As vinhetas, geralmente com característica tecnológica, são bastante usadas. As matérias são mais curtas, com vários cortes na edição e ambientam o espectador com a presença constante e documentada do repórter no local do fato. A música é marcante e as características de show de notícias ficam evidenciadas. Todos os elementos se interseccionam em superexposição, levando-nos ao pós-moderno.

Um elemento em especial chama atenção: símbolo maior da globalização,18 o globo terrestre tem presença marcante nos três telejornais. Girando ou estático, com efeitos especiais ou em simples arte, no cenário ou em vinhetas, lá está ele, geralmente em azul e branco. Nos logotipos dos telejornais ou das emissoras, o globo terrestre ganha destaque. O IWN associa imagens do globo ao seu nome, já que tem como objetivo noticiar acontecimentos em todo o mundo (world). Já o ECH associa a imagem do globo terrestre à letra N de notícia, bem como ao nome da emissora que o produz (Globo) e ao olho estilizado em forma de esfera presente no logotipo da emissora. Entretanto, o J utiliza-se do globo terrestre plano, sem efeitos, como se tivesse sido recortado e colado, mas lhe atribui, rápida e simultaneamente um significado de localização, pois o corte seguinte referencia sobre ele algum fato.

Outro aspecto que podemos resgatar como signo de globalização é a utilização da cor azul. Mesclada ao branco ou ao amarelo dourado, no caso específico do J; ou mesmo ao vermelho, nos cenários e vinhetas do IWN e do ECH, o azul está presente como cor predominante. Sua utilização vai além da utilidade técnica, o azul aparece associado a elementos espaciais onde o globo terrestre está localizado. É o além das fronteiras presente em cena.

A estrutura dos telejornais se assemelha bastante. Distribuídas em blocos, as notícias são apresentadas em reportagens com sonoras e várias fontes, em notas lidas pelo apresentador no estúdio, cobertas ou não por imagens ou em boletins feitos por repórteres no local do fato. A reportagem é o espaço específico que localiza os grupos e possibilita a expressão da contradição do local e do global. O início dos três telejornais contempla a apresentação das manchetes da edição em uma espécie de menu – notas rápidas acompanhadas de imagens e trilha. A síntese da edição é feita da mesma forma. Neste momento estes telejornais se utilizam de diferentes formas de varreduras para deslocar as imagens da tela.

Uma aproximação de nosso olhar e começamos a ver o que de diferente, e portanto mais localizado, existia em cada uma das amostras. No caso do J chama a atenção a limpeza do estúdio no que respeita ao espaço onde se desenvolvem as cenas. A bancada é simples. Semicircular, ela não envolve o apresentador mas simbolicamente, o público. Ao fundo, três janelas compõem o cenário. Duas delas localizadas nas extremidades do conjunto, em azul claro, lembram um céu com nuvens, coberto de pequenos retângulos brancos. A janela central, onde, ao iniciar o programa, aparece o mapa mundi e o nome do telejornal compondo o logotipo, abre-se e são mostradas reportagens, artes, animações e mapas com algumas localidades destacadas. Este elemento do cenário também é utilizado para dar passagem ao mundo através de comentaristas e entrevistados que se encontram em outras localidades. O J não exibe a tecnologia como símbolo de contemporaneidade no ambiente da notícia.

O padrão do elemento humano no J diferencia-se dos demais. Repórteres, apresentadores e comentaristas não são jovens. Todos brancos, de pele clara, a variante é a cor dos cabelos e dos olhos, possibilitando a identificação com o seu público. Homens e mulheres repartem o vídeo, mas não são contempladas representações visuais de outras etnias. O apresentador não olha apenas para o telespectador, constantemente baixa os olhos para o roteiro. Não é pelo olhar direto do apresentador que é requisitada a adesão do público. Este aspecto se radicaliza quando o apresentador vira quase de costas para o espectador em conversa com o comentarista à janela, desde outra localidade.

A contextualização geográfica parece ser uma preocupação constante no J. Além da utilização dos mapas, as matérias contam com takes mais longos e descritivos, ambientando o fato ocorrido. Ainda quando o comentarista ou o entrevistado é visualizado pela janela do cenário, às suas costas aparece o local de onde está falando. Esta ênfase se constrói como uma articulação do global com o local, já que somente aqueles que conhecem o lugar serão capazes de assumí-lo como parte da sua aldeia. Aqueles que não o conhecem, necessitarão do apoio do verbal para reconhecê-lo, como coloca Rocco19 quando comenta a ausência da validade de significação universal da imagem. Para aqueles, então, esta será a imagem da aldeia do outro que chegou magicamente até mim.

Se a predominância das cores de identificação da emissora – o azul e o amarelo dourado – é observada nas capas de microfones que aparecem sempre nas coletivas, no logotipo do programa e nas vinhetas; isto não acontece na indumentária dos apresentadores e comentaristas. O logotipo da Deutsch Welle talvez seja o mais simples. Em branco, com as iniciais DW sublinhadas por uma linha mais grossa, permanece fixo durante todo o jornal no canto inferior direito do vídeo. A preocupação com a identidade do telejornal e da emissora aparece através da forma de creditar os trabalhos: sempre em GC branco aplicado sobre uma tarja azul. O logotipo do telejornal também é utilizado permanentemente como forma de assinalar a presença da emissora para o zapper desavisado. O J por ser apresentado em edições com idiomas diferentes, apresenta uma peculiaridade quanto ao áudio: uma segunda voz traduz as sonoras em língua alemã para o espanhol e inglês. No J não aparece a utilização de voz por telefone.

Três aspectos marcam as reportagens no J: a ausência do repórter em cena, a captação de sonoras em coletivas e o tratamento sonoro em trilhas e característica. Nas três edições que analisamos, o repórter aparece somente enquanto voz. Os únicos dois repórteres que são mostrados aparecem rapidamente, em boletins sobre assuntos aparentemente especiais. Quanto à característica do programa, mescla a música eletrônica com acordes que utilizam timbres lembrando instrumentos sinfônicos. Moderada, a música compõe sutilmente a cena como mais uma integrante da cena. A marcação da troca de bloco também inclui a mesma trilha e é quase imperceptível.

Do close up sobre o J é possível ampliar um pouco o olhar, e em zoom-out enquadrar o ECH e o IWN para verificar o que há de comum entre eles. O primeiro elemento está na vinheta de abertura, bastante trabalhada tecnologicamente e com uma característica eletrônica e ritmo marcado. Ambos usam o colorido e formas geométricas sobrepondo-se. Entretanto, no IWN a velocidade do globo, que gira num astrolábio, é diminuída para a entrada do nome do telejornal e a apresentação do seu mundo. No ECH as formas geométricas ganham precisão transformando-se nas letras N e O que constam no nome do telejornal.

O segundo elemento de identidade está no cenário: a utilização do nome da emissora como elemento de cena e redações informatizadas ao fundo. O IWN, a exemplo do que já foi constatado no J, transmite uma sensação de amplitude espacial. O azul também predomina. No cenário o elemento de ruptura é o apresentador: um homem de aproximadamente 40 anos, que veste traje tradicional em caramelo e branco. Também à semelhança do J há somente um apresentador em cena. O segundo apresentador aparecerá em outro estúdio, referindo-se a uma temática específica – o esporte.

O ECH apresenta no cenário uma bancada em cinza com a lateral rosada na diagonal direita. Na diagonal esquerda existe uma espécie de parede telada em tom amarelado. Sobre ela encontramos um laptop. Ao fundo, além da redação onde pessoas se movimentam, existe uma espécie de vidro azulado onde estão projetados dois globos terrestres superpostos com anéis num efeito de espelhamento. Unindo estes dois segmentos do cenário aparece o nome da emissora em vermelho e prata. Todo o cenário é trabalhado em ângulos retos, reiterando a presença da letra N. O ECH conta ainda com a presença de dois apresentadores que são enquadrados em planos sempre fechados e frontais. A composição do vídeo nega a sensação de espacialidade: excesso de elementos e significações com planos fechados dão uma idéia de bricolage, fragmentação.

Visualmente, os telejornais IWN e ECH são bem trabalhados. Contudo o IWN, mesmo com diferentes movimentos de câmeras e enquadramentos, tem um extremo cuidado com a aparência. Tudo parece estar no devido lugar, perfeito. O apresentador não entra em interação com o público. Os enquadramentos de estúdio obedecem um padrão consagrado pelo telejornalismo mundial: planos fechados em close up20 e em plano próximo. No ECH, os planos obedecem sempre o padrão consagrado, não havendo, contudo, exercícios de criatividade e ruptura com o formal. Pela intimidade aparentada entre os dois jovens apresentadores, tem-se a sensação de que a formalidade e o cuidado podem ser rompidos a qualquer momento. Os apresentadores entram em interação com o público, sorriem, conversam entre uma matéria e outra. Há um clima de cumplicidade e satisfação entre eles, o público e o que foi mostrado pelas imagens.

A tecnologia expressa no vídeo é outro ponto de contato entre o IWN e o ECH. Gráficos animados, artes bem cuidadas e GCs trabalhados são marcas da tecnologia em favor de elementos de identidade visual que remetem ao global. Através destes formatos ambas as emissoras explicitam sua preocupação com o fato de mostrarem-se contemporâneas enquanto produto em um mercado que exige qualidade. A marca reiterada nos microfones, logotipos na tela, cenários e vinhetas deve ser imediatamente assimilada pelo público e a identidade visual é o caminho mais curto para a agilização da conquista de novos consumidores.21 Ainda considerando os recursos tecnológicos, é preciso salientar que as vinhetas constituem capítulo à parte. No IWN, reforçam o caráter de modernidade da emissora. Exemplarmente cuidadas quanto a cores, movimentos e som, recebem uma colocação de destaque dentro da gramática visual do programa, sendo parcimoniosamente usadas. As matérias e as fontes são uniformemente creditadas.

No ECH, entretanto, se o cuidado é o mesmo, o uso é exaustivo. Todos os segmentos de informação especializada recebem vinheta própria e colorido diferenciado, fugindo dos padrões de cor da emissora. Invariavelmente todos têm trilha, movimento e a reafirmação do global – globos em fusão parcial com outras imagens temáticas. Os GCs acompanham a mesma exaustão. Contudo, o cuidado não é tão grande assim, há matérias e fontes que não são creditadas. Também nesta questão de tecnologia há um exagero, uma reiteração de um suposto padrão de qualidade.

Ainda três aspectos não poderiam deixar de ser comentados, principalmente porque articulam mais diretamente os níveis global e local: a repetição de informações, a moda na indumentária e as informações climáticas. Relativamente às informações, foi possível constatar em toda a amostra que há uma constante repetição de matérias nas edições de um mesmo dia. A atualização é feita na maioria das vezes através da relocalização da mesma matéria e pela inclusão de uma ou duas matérias novas por edição. O canal 24 horas notícia é em realidade 24 horas as mesmas notícias. Quanto à moda nos telejornais, ou também podemos falar da indumentária, há um padrão consagrado de vestir, enfeitar-se e pentear-se que nos possibilita especular sobre o fato de que todos os apresentadores de TV e repórteres freqüentam as mesmas lojas, o mesmo cabeleireiro e o mesmo joalheiro, apesar de viverem em lugares e culturas distintas.

Nosso terceiro e último olhar comum faz referência às previsões climáticas. Há para este segmento específico um tratamento visual e hierárquico de destaque. Nele são apresentadas as previsões e temperaturas para cidades do mundo inteiro, contemplando as grandes metrópoles e todos os continentes, relativizando a sua utilidade direta, já que as informações locais não são privilegiadas. Estes quadros reúnem em si mesmos os vários signos da globalização: a figura do globo terrestre, o enfoque mundializado da informação, a preocupação ambiental do planeta como um todo.

Aprendendo a ver

Educar-se para olhar e ver merece muito cuidado, pois em dado momento é quase impossível identificar os limites do pensamento proposto pelo produtor da mensagem e o seu próprio pensamento, devido à familiaridade e cumplicidade que se estabelece. A imagem absorve, envolve e não explica.

A primeira consideração a fazer diz respeito aos elementos utilizados na construção do discurso visual a partir das marcas globais. As imagens do globo terrestre, sempre acompanhadas do azul, simbolicamente remetem aos aspectos da diluição das fronteiras e à ênfase no mundo como totalidade imersa na velocidade e na tecnologia. No telejornal ECH, mais do que no J e no IWN, a tecnologia, a velocidade e a fragmentação estão radicalizadas na gramática da exaustão, do super exposto e da simulação da intimidade que envolve, simula empatia e faz com que na sala de jantar ou no quarto de cada um, o mundo entre pela janela, pela porta, num simples apertar de tecla. Entretanto, é justamente esta característica neobarroca que torna, guardadas as proporções, o visual do local chamado Brasil.

Um outro aspecto a observar é a diferenciação que o olhar tradicional do J estabelece, a partir da comparação com os dois outros telejornais. O local é mais visível aparentemente, já que identificam-se pistas e para consagrá-las com validade seria necessário verificar uma amostra maior, reconhecer a sua situação de tevê pública que tem como objetivo justamente requalificar a comunidade alemã perante as outras comunidades, mesmo que seja no campo de disputa global. Contudo há indícios menos evidentes dos padrões globalizados, em todos os aspectos comentados.

A descoberta mais significativa fica por conta dos planos e enquadramentos, elementos considerados dentro da técnica televisiva, os mapas de vôo para o olhar. Aqui constatamos a transgressão do estabelecido. O que chamamos plano próximo é a unanimidade no universo dos enquadramentos. Este plano enquadra o apresentador na altura do estômago ou cotovelos, às vezes aparecendo parte da bancada, não coincidindo com aqueles descritos na bibliografia específica.

Para finalizar, é preciso considerar que local e global aparecem articulados e são lidos dentro de cada contexto diferentemente. Ainda que tenhamos tentado nos distanciar, fundamentar com outros olhares, parametrar a nossa visão, somos um olhar cultural inserido em um universo definido. Outras rotas de leitura podem talvez ser identificadas, tomando-se outros ângulos referenciais. O olhar é mutante e pousa muitas vezes sobre um mesmo objeto, desvendando sempre uma face diferente. O global é movediço no visual, se disfarça, mas mantém a mesma estrutura. O local, entretanto, se ressignifica no cotidiano, tempo presente, não absoluto, mas que se renova a cada dia, na forma de outro presente, conjugando o factual e o subjetivo, dentro do que Ortiz22 chamou de cultura nacional popular.

Bibliografia

ALMEIDA, Milton José de. Imagens e sons: a nova ordem oral. São Paulo: Cortez, 1994 (Col. Questões da Nossa Época, vol. 32).

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* Cláudia Bahia é jornalista e mestranda da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS); Marta Campos de Quadros é jor-nalista, mestranda da PUC-RS, professora da PUC-RS e da Universidade Luterana do Brasil; Nalú Silveira é jornalista e mestranda da PUC-RS.

1 Maria Thereza Fraga Rocco, Linguagem autoritária: televisão e persuasão, p. 17.
2 Régis Debray, Vida e morte da imagem: uma história do olhar no Ocidente, p. 296.
3 “O paleolhar da televisão”, em: Adauto Novaes et alii, O olhar.
4 Souchon, em: Maria Thereza Fraga Rocco, op. cit., p. 15.
5 Dominique Wolton, Elogio do grande público: uma teoria crítica
da televisão.
6 Estética: de Platão a Peirce.
7 Milton José de Almeida, Imagens e sons: a nova ordem oral.
8 Rosa Maria Bueno Fischer, O mito na sala de jantar, p. 12.
9 Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização, p. 17.
10 Mundialização e cultura, p. 159.
11 Op. cit.
12 Comunicação mundo: história das idéias e das estratégias.
13 Op. cit.
14 Lúcia Santaella, Cultura das mídias.
15 De los medios a las mediaciones: comunicación, cultura y hegemonía.
16 Antônio Fausto Neto, “A deflagração do sentido; estratégias de produção e de captura da recepção”, em: Mauro Wilton Sousa (org.), Sujeito, o lado oculto do receptor.
17 Op. cit., p. 311.
18 Ortiz, op. cit.
19 Op. cit.
20 Sebastião Squirra, Aprender telejornalismo: produção e técnica.
21 Canclini, op. cit.
22 Op. c
it.


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