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Televisão na Era da Globalização
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TELEVISÃO
E RELIGIÃO NO MERCADO GLOBAL: TV RECORD E REDE VIDA
Penha Rocha*
O sociólogo britânico
Anthony Gyddens1
admite que a globalização pode ser definida como a intensificação
das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades
distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados
por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa.
Este é um processo dialético porque tais fatos locais podem
se deslocar numa direção inversa às relações muito distanciadas
que os modelam. A transformação local é tanto uma parte da
globalização quanto a extensão das conexões sociais através
do tempo e espaço. Assim, quem quer que estude as cidades
hoje em dia, em qualquer parte do mundo, está ciente do que
ocorre numa vizinhança local e tende a ser influenciado por
fatores – tais como dinheiro mundial e mercado de bens – operando
a uma distância indefinida da vizinhança em questão. Ou seja,
as noções de espaço e tempo – categorias essencias, presentes na filosofia,
ciência e arte –, quantidade e qualidade, entre outras, sofrerão
transformações em
seus significados. O cientista social Renato Ortiz lembra
que é preciso estabelecer uma distinção entre internacionalização
e globalização, já que às vezes esses termos são usados como
sinônimos. Internacionalização não é um fenômeno novo e se
refere ao aumento da extensão geográfica das atividades econômicas
através das fronteiras nacionais e a globalização da atividade
econômica é uma forma mais avançada e complexa da internacionalização.
A história da globalização
parece começar a partir da Segunda
Guerra com a criação do Banco Mundial (Banco Internacional
para Reconstrução e Desenvolvimento), em 1946, e este foi
um dos primeiros sinais das mudanças na economia política
internacional provocadas pelo cataclisma bélico vivido pela
humanidade nos anos 40. Outros mecanismos para se operar
em termos globais foram instalados nessa época, como o
Fundo Monetário Internacional, o GATT (Acordo Geral de Tarifas
e Comércio) e a ONU (Organização das Nações Unidas). É importante
ressaltar que o GATT foi substituído em 95, pela Organização
Mundial do Comércio (OMC).
A sociedade global
tem como uma das características a transição
do regime da economia planejada e centralizada. Um
exemplo disso é o reatamento das relações diplomáticas dos
Estados Unidos com o Vietnã depois de trinta anos, ou seja,
após a derrota norte-americana na Guerra do Vietnã, que aconteceu
no período de 1964 a 1975. Esta postura pode ser interpretada
como uma atitude eminentemente econômica, já que o Vietnã
é um dos mercados emergentes da Ásia e candidato a tigre asiático.
Em fevereiro deste ano, foi realizado, em
Davos, na Suíça, o
Fórum Econômico Mundial, e os líderes de cerca de mil empresas
de grande porte admitiram que é preciso disseminar os benefícios
futuros que poderão advir da globalização. Apesar do otimismo
do senador democrata Bill Bradley, dos Estados Unidos, com
os resultados do comércio internacional, do sistema
financeiro e com a falta de inimigos políticos em termos de
grandes países, dados do Programa das Nações para o Desenvolvimento
(PNUD) mostram que cerca de dois bilhões de pessoas vivem
em mais de cem países que, hoje, estão em piores condições do que há quinze anos.
O secretário-geral da Federação Internacional de Empregados
Comerciais, Profissionais e Técnicos, Philip Jennings, com
base em Genebra, colocou em dúvida o sucesso da globalização
na medida em que três bilhões de pessoas no mundo, de um total
de quase seis bilhões, vivem com menos de US$ 2 por dia. Apesar
disso, o líder da maior central sindical
do planeta admite que as antigas respostas não funcionam
mais. Esses números mostram que alternativas novas precisam
ser encontradas o mais rápido
possível para a questão do trabalho, já que a globalização
é uma realidade de conquistas para a humanidade, mas
que também produz exclusão e fragmentação social.
Frederic Jameson lembra
que a força do conceito de mercado global está em sua estrutura
“totalizante”, ou seja, em sua capacidade de nos oferecer
um modelo da totalidade social.2
Ela nos proporciona uma maneira diferente de deslocar o modelo
de Marx, do econômico para o político, e da produção para
o poder e a dominação. Mas o deslocamento da produção para
a circulação não é menos profundo ou ideológico,
e tem a vantagem de substituir as representações arcaicas
da fantasia que acompanhava o modelo de “dominação”, por representações
de consumo.
Fragmentação
e massificação: a televisão em questão
A sociedade global
que anuncia o século XXI está sendo solidificada
pelo desenvolvimento dos meios de comunicação, envolvendo
as condições de informação, interpretação, decisão e implementação,
por conta do aumento e da generalização das tecnologias da
eletrônica. Considerada por alguns como o mais poderoso veículo
de comunicação de massa, a televisão, criada há cinqüenta anos, passa
por profundas transformações estéticas neste meio século de
vida. Alguns já falam em uma nova televisão – a TV
fragmentada, segmentada – com a proliferação dos canais a
cabo presentes na maioria dos países e que têm como característica
marcante a individualização da demanda, com programas específicos
de esporte, cinema,
informação e tantos outros. Por outro lado, a privatização
da televisão européia, com a ajuda das novas tecnologias,
extrapola o perfil nacional. Neste sentido é que individualização
e globalização aparecem hoje como as duas linhas de fuga simétricas
do futuro da televisão, diz Dominique Wolton.3
A televisão geralista
– em prática desde o final dos anos 40
pelas grandes redes por broadcast –, com emissoras
públicas e privadas, tem para alguns o mistério do
caráter privado do consumo de uma atividade que continua a
ser fundamentalmente coletiva. Wolton, árduo defensor da televisão
geralista, argumenta que ela é adaptada à democracia de massa,
no sentido de que visa a oferecer a todo mundo o maior número
possível de programas, garantindo uma certa igualdade cultural.
Neste raciocínio admite-se
que a dimensão social da televisão
encontra-se nas duas características de sua imagem: a
identificação e a representação, que não são particularidades
da TV e sim de todas as imagens animadas. Talvez essas marcas
sejam dimensionadas na televisão, por ser ela apontada como
o principal instrumento de percepção da grande maioria da
população, contribuindo para retratar e modificar as representações
do mundo. É desta forma que a televisão entrelaçaria elementos
como imagens e laço social, divertimento e espetáculo.
Como a TV de massa
se constitui num laço social? Domique Wolton é categórico:
“No fato de que o espectador ao assistir à TV, agrega-se a
esse público potencialmente imenso e anônimo que a assiste
ao mesmo tempo – estabelecendo assim, com ele uma espécie
de laço invisível, especular e silencioso”.4
O conceito de laço social é formulado por Durkheim e pela escola francesa de sociologia,
associado mais à questão institucional do que cultural.
Mas, no caso da televisão, esse vínculo é mais tênue, na medida
em que ela é uma atividade de lazer. Na verdade, o laço social
tem dois significados básicos: o laço entre os indivíduos
e o laço entre os diferentes grupos que compõem uma sociedade.
Quando falamos em imagem
televisiva precisamos levar em conta a ação mútua que existe
entre emissor, difusor e receptor.
Sendo assim, a imagem é referência de um contexto e
é isso que a diferencia do cinema, que possui estilo e estética
particulares. A atividade de comunicação social atribuída
à imagem da televisão geralista está no fato dela remeter-se
a um quadro e a um contexto, e uma de suas contradições é
de ser recebida num local privado que nos remete ao mundo
público. Para quem acredita na função de comunicação social
da televisão, é fundamental que seja estabelecido qual o espaço
ocupado por ela na sociedade.
Um das críticas que a televisão genérica
sempre sofreu foi juntar homogeneização (consumo em
massa de uma mesma programação) e atomização, a escolha que
fazem os telespectadores de participar ou não em suas casas,
desses programas. Desde os seus primeiros anos de vida até
a década de 70, a televisão foi rodeada por discussões a respeito
dos parâmetros culturais e sociais que lhe serviriam
de referencial. A partir dessa época, com o avanço das novas
tecnologias, a TV começou a ficar sob o controle do discurso
técnico. De certa maneira, a defesa da lógica técnica de McLuhan,
talvez explique o sucesso do sociólogo canadense e
de sua máxima “o meio é a
mensagem”. O meio é a mensagem, diria McLuhan, porque ele
cria a audiência mais adequada para isso.5
A mídia eletrônica cria
uma audiência cujo humor variável é tão imprevisível quanto
o tempo. Na verdade, a aldeia global pode ser entendida como
um conceito técnico de televisão, e seu ideólogo tentou
suprimir a complicada interpretação da imagem audiovisual
para submetê-la a parâmetros técnicos já conhecidos. Um das
questões polêmicas é que se a aldeia global existe no plano
técnico, ela será possível também no plano econômico ou no
cultural?
A televisão de massa
passou a maior parte de sua vida sendo acusada de nivelar
e emburrecer o espectador, exercendo
total manipulação, principalmente nos países com diferenças
sociais imensas e com forte concentração de renda, como o
Brasil, por exemplo. Mas, já há quem defenda a inteligência
do telespectador. Wolton acredita que a TV é um instrumento
democrático fundamental e que o público não fica passivo diante
de sua programação.6
Pelo contrário, consegue fazer uma avaliação do que lhe é
transmitido. O argumento se baseia na seguinte lógica: quando
assiste a um telejornal, o espectador exerce o seu papel de
cidadão e assume uma postura crítica, mas o olhar dele será
diferente se for um programa de entretenimento, de diversão.
Nesta situação, ele pode ficar mais relaxado e descontraído.
A discussão neste momento
da história da televisão é sobre quais os novos parâmetros
que serão utilizados pela televisão como veículo de massa,
na disputa com a TV a cabo, que
trabalha com o binômio fragmentação e individualização. A
queda de audiência do “Jornal Nacional”, da TV Globo – a menor
dos últimos quatro anos – tem sido considerada como um período
de transição para a desmassificação, para a segmentação. O
fato é que em relação aos índices de 1993 o principal telejornal da quarta emissora
do mundo perdeu 500 mil telespectadores só na Grande
São Paulo.
Na verdade, o começo
dos sistemas alternativos de TV paga aconteceu nas décadas
de 50 e 60, mas não se acreditava muito que as pessoas iriam
desembolsar determinada quantia por um divertimento que estavam
habituados a receber sem gastar um tostão. A função do cabo
era unicamente levar o sinal da TV por broadcast até os
lugares onde a recepção fosse ruim. Les Brown, diretor
do Centro para Comunicação, de Nova York, diz que precisamos
estabelecer hoje de qual televisão estamos falando. De acordo
com Brown, a televisão de massa ao mesmo tempo que exercia um fascínio
em todos nós, também era vista com maus olhos, por
conta da escravidão
a que submetia uma nação inteira, criando uma sociedade estandardizada
e homogeneizada.
Um momento importante
para as mudanças que estão acontecendo na televisão foi o
lançamento do primeiro satélite experimental de comunicações,
em 1962. Apesar da TV chegar até o telespectador através do
espaço sideral, tudo parecia apenas um avanço técnico, já
que a TV por satélite aparentava ter vida curta, porque a transmissão
tinha que ser feita num mínimo espaço de tempo.
A primeira TV a cabo
regional norte-americana, HBO, surgiu em 1975 e rapidamente
se consolidou num serviço nacional de programação, com filmes
novos, sem cortes e sem comerciais. Na época, ela conseguiu
mostrar que o telespectador estava receptivo em pagar por
uma televisão diferente. Os defensores da TV fragmentada acreditam
que existem dois motivos para que ela anunciasse o
seu crescimento: a revolução nas tecnologias de distribuição
de sinais e o desenvolvimento dos processos de digitalização.
Em função do interesse do telespectador, foi dada a largada
no começo da década de 80, para o cabeamento dos Estados Unidos.
O significativo aumento do número de redes de cabos norte-americanas,
em parte, deve-se ao acasalamento das tecnologias de cabo
e de satélite. Em seguida,
surgiram o vídeo-cassete, o decodificador de canais e o controle
remoto, que contribuíram para uma nova fase da TV.
O Brasil entrou no mercado da televisão por assinatura com
mais ou menos quinze anos de atraso, mas teve a vantagem de
se utilizar de tecnologias que já haviam sido testadas e usadas.
Os otimistas com relação
ao sucesso da nova televisão argumentam que a TV genérica
tenta falar de tudo para todo mundo e não fala nada de importante
para ninguém. Já a TV tematizada descobre caminhos originais
para a significação de seus objetivos, para a execução de sua linguagem
e, enfim, para a sua relação com o usuário. Uma das
hipóteses existentes, colocadas por alguns teóricos, é de
que às vezes temos a impressão
de estarmos passando de uma televisão massificante na
ideologia e genérica no conteúdo para uma TV desmassificada
e segmentada. Pode ser que em nenhum momento a televisão se
tenha visto diante de uma revolução tão avassaladora, tanto
em termos tecnológicos como estéticos. Aliás, durante seus
cinqüenta anos de vida, a televisão foi marcada por alterações
de ordem técnica, porém quase nenhuma de natureza estética.
A programação é um
elemento fundamental tanto na TV aberta como na TV fragmentada.
Na televisão geralista, para agradar a diferentes públicos,
ela constrói uma grade de ofertas, com possibilidades de gerar
várias expectativas. É a idéia do “menu” conceituada por Wolton.
Ele considera que a programação na televisão temática
pode ser também o “tapa-sexo”. Na prática, a diferença está
entre programação e edição, ou seja entre o “menu” e o “a
la carte”. A edição está mais próxima do programa raro, particular,
que cada telespectador opta em assistir sem que tenham relação
uns com os outros.
Pelo menos, em um ponto
a maioria dos pesquisadores concorda:
a programação é um trunfo para o debate da função e o conhecimento
a que se determina esse elemento que concentra e muda
a televisão. Em outras palavras, a programação tem sido considerada
como o “bode expiatório”, por alguns que creditam a ela todos
os equívocos da televisão, baseados nos
seguintes elementos: maneira pela qual é concebida, forma
como é distribuída e o conteúdo que ela carrega. Por isso,
profetizam que o poderoso veículo de comunicação
de massa está com os seus dias contados.
A televisão apareceu no Brasil por intermédio
do empresário Assis Chateaubriand, no início dos anos 50.
Ele era proprietário dos Diários Associados, um conglomerado
de rádio, jornal e TV, com sede em São Paulo, e a televisão
no Brasil teve, desde o começo, uma situação absolutamente
particular na América Latina, em função da sua
importância social, cultural e política. Ao contrário
da TV européia, baseada no modelo estatal e que nos primeiros
anos de vida foi popular, a TV brasileira ancorada no setor
privado e com influências do modelo norte-americano, no período
de 1955 a 1964 era prioridade da elite, já que poucos dispunham
de um aparelho receptor. Alguns pesquisadores admitem
que nesse período começava
a função da televisão como laço social no país. A fase de
verdadeira expansão da TV entre 1964 e 1975 coincide com o
regime militar, quando, segundo Dominique Wolton, os militares
usaram a televisão, mas não dominavam sua influência e não
controlavam a recepção.
TV
Record
O auge do triunfo tecnológico
da TV brasileira aconteceu entre os anos de 1975 a 1988, quando
o Brasilsat se expande por quase todo o país e cerca de 60%
do mercado publicitário é destinado para o veículo. Foi nessa
época, em 1989, que a Rede Record, com sede em São Paulo,
foi comprada pelos evangélicos
da Igreja Universal do Reino de Deus, precisamente
pelo mentor da seita, bispo Edir Macedo. A partir desse período,
o carro-chefe da programação da rede foram os programas religiosos,
além de noticiários, filmes, esporte, games etc. Edir Macedo
aumentou rapidamente o patrimônio do Canal 7 que contava com
apenas três emissoras.
Hoje, a rede do bispo chega a 39 emissoras, entre próprias
e afiliadas, somando 247 retransmissoras em todo o país. Em
95, a Record comprou sofisticados equipamentos
e inaugurou sua nova sede no bairro da Barra Funda,
onde funcionaria a TV Jovem Pan, uma emissora UHF aberta.
Edir Macedo fez um investimento em torno de trinta milhões
de dólares, que reúne vinte ilhas de edição em sistema Betacam,
um ônibus de externa com link – conexão entre terra
e satélite – considerado um dos mais modernos do mundo.
No começo deste ano,
Edir Macedo, que é investigado pela Interpol e pela justiça
brasileira, chegou de Los Angeles, nos Estados Unidos, onde
mora há três anos, disposto a colocar
realmente a Record – uma televisão geralista – a serviço da
seita. Ele está preocupado com a perda de adeptos.
A estratégia para a recuperação de fiéis pela Igreja Universal
do Reino de Deus é usar ao máximo sua televisão. A arrecadação
da seita teria caído de R$ 1 bilhão de reais ao ano, no início
de 1990 para R$ 420 milhões em 96. O projeto é manter as igrejas
abertas até à meia-noite. A partir daí o “trabalho de assistência
espiritual” permanente aos fiéis é feito em programas
ao vivo, até às oito horas da manhã, como “Palavra de Vida”,
“Jesus Verdade” e “Despertar da Fé”. Neste primeiro semestre
de 97, a Record estreou com um núcleo de dramaturgia – três
minisséries já foram ao ar: “A Filha do Demônio”, “O Olho
da Terra” e “O Direito de Vencer”. São programas que reforçam
os valores morais da família, evitando qualquer cena que possa
ser considerada como violenta, de linguagem vulgar ou de sexo.
A Record exibe diversos
tipos de programas comuns a uma
televisão broadcasting, ou seja, uma TV aberta, de
comunicação de massa, mas além da dramaturgia com temas
religiosos, tem apostado também em programas esportivos. Em
96, exibiu os campeonatos de futebol alemão, italiano, espanhol,
japonês, Copa da França, Copa Itália e Copa Inglaterra, entre
outros. Os recursos tecnológicos usados pela emissora possibilitam
montagens tão elaboradas quanto as dos melhores filmes. Com
relação ao maior investimento da emissora, que são os programas
da madrugada – exibidos no horário de meia-noite às oito da
manhã –, a edição é aquela considerada particular,
ligada à transmissão direta, como conceitua Arlindo Machado.
É justamente este tipo que delimita a fronteira entre a edição
cinematográfica e a televisual.
Teoricamente, um evento televisual
transmitido ao vivo poderia ser tomado por uma única câmera
em ação contínua. Poderia, se a eventualidade dos incidentes
próprios da transmissão direta não obrigasse o diretor a se
garantir com outras câmeras, para poder escolher a melhor
tomada entre várias opções. Ora, se a escolha de cada tomada
se dá no paradigma de quatro ou cinco opções simultâneas e
não no sintagma narrativo de uma ação decupada em planos,
conclui-se que, a qualquer momento, qualquer das imagens tem
igual probabilidade de entrar no ar.7
Apesar de estar em
sintonia com a evolução tecnológica de última geração, a Record
não possui uma home page na Internet, rede mundial
de computadores. Até o momento, a emissora conta apenas com um endereço eletrônico
colocado à disposição dos usuários.
A
salvação da família: TV Record e Rede Vida
A ascenção social sempre
foi a estratégia dos programas religiosos da TV Record. Nos
últimos tempos, a emissora mudou. Trabalha no sentido de ter
o perfil de uma televisão dirigida para a família. As entrevistas
do programa “Palavra de Vida”, que faz parte do pacote
da madrugada, são todas conduzidas para a reafirmação dos
valores morais da família e da importância da sua manutenção
num mundo sem regras e com tantas “perversões”, como eles
costumam denominar o homossexualismo, por exemplo, conversando
num clima de persuasão e culpa com pessoas que um dia estiveram
nessa vida, dizem os pastores que comandam o programa. Aliás,
esta pode ser uma maneira clara de atrair os considerados
“marginalizados” numa sociedade preconceituosa, para formarem
uma família, considerada como a salvação deste final de
século. Em tempos de crise das utopias, ela parece ser um
dos poucos elos de agregação e união.
Apesar do aparente
conservadorismo transmitido por todo o conjunto, pastores-apresentadores-comunicadores
da Record entrevistam médicos sobre a impotência masculina,
vasectomia e suas conseqüências para o homem. O clima é agradável,
leve, descontraído, coloquial e com um ritmo ágil. Normalmente,
cerca de cinco pastores comandam o “Palavra de Vida”, com
observações e depoimentos de fiéis intercalados, comentam
os fax que recebem de telespectadores e conversam também com
as pessoas pelo telefone. Sempre apresentando soluções para
os problemas e para as dificuldades vividas pela família.
Ao final de cada história, as alegrias e os prazeres de viver
familiarmente são sempre relembrados para conquistar novos
fiéis, ou seja, telespectadores. Aliás, essa é uma característica
dos programas religiosos da Record, eles são feitos para telespectadores,
usuários e não para fiéis.
Rede
Vida
Preocupada com o avanço
das seitas evangélicas e com o fato
delas ocuparem cada vez mais espaço na mídia, principalmente
na televisão, a Igreja Católica resolveu fazer parceria com
o empresário de comunicação de São José do Rio Preto, José
Monteiro dos Santos, e comprou a TV UHF Rede Vida, o canal
da família, inaugurada em 95. No começo, a emissora dava sinais
de que estava sendo dirigida pela ala progressista da Igreja.
Hoje, é evidente em sua programação a presença dos carismáticos,
considerados como o setor conservador da Igreja Católica.
A Associação do Senhor Jesus, por exemplo, que produz seis
programas para a emissora – “Louvemos o Senhor”, “Anunciamos
Jesus”, “Deus Abençôe”, “Com Maria”, “A Palavra de Deus” e
“Boas Notícias” – é administrada pelo padre Eduardo Dougherty,
líder da Renovação Carismática no Brasil. Ela é uma produtora
de vídeo e distribuidora de
livros, fitas cassetes, CDs e está localizada em Valinhos,
no interior de São Paulo. Segundo o padre Eduardo,
os custos desses programas são pagos com o dinheiro proveniente
de doação mensal dos sócios – cerca de cinco mil. De acordo
com ele, as contribuições são apenas simbólicas.
Os programas da Associação do Senhor Jesus
– a maioria é ao vivo – são tipicamente de auditório,
usando recursos também da comunicação arcaica, como o líder
e a platéia. Ao contrário da Record, eles apresentam uma direção
confusa, um aúdio comprometedor, enfim um estilo
amador, que lembra o início da televisão nos anos 50.
Aliás, este é o perfil em geral da Rede Vida como emissora,
além de deixar muito evidente a questão da fé como comércio.
Talvez, essa seja uma diferença básica entre os programas
religiosos da Record e da Rede Vida. A televisão de
Edir Macedo capitaliza a fé de uma forma mais profissional
e estratégica, enquanto os católicos deixam mais claro a falta
de sutileza e mostram que ainda estão longe de saber usar
a TV como mídia. Eles parecem fazer uma TV para fiéis e não para
telespectadores.
A Rede Vida é administrada
oficialmente pelo Instituto Brasileiro de Comunicação, uma entidade
que se diz sem fins lucrativos, com sede em São Paulo. Mas,
os estúdios da emissora ficam em São José do Rio Preto
e hoje ela tem uma receita em torno de 600 mil dólares, segundo
José Monteiro, vice-presidente do INBRAC. Ao contrário da
TV Record, que reserva a madrugada para os programas
religiosos, a Rede Vida sai do ar à meia-noite. Os
sinais desta televisão estão sendo transmitidos para todo
o país, através das estimadas cinco
milhões de antenas parabólicas existentes em território nacional.
Além disso, a emissora pode ser sintonizada pelos sistemas
de TV a cabo.
Com a chegada do papa João Paulo
II ao Brasil, em outubro próximo, para o Segundo Encontro
Mundial com as famílias, deverão estar funcionando os transmissores
das cidades de Maceió, Campo Grande, Cuiabá, Belém, Boa Vista,
Porto Alegre, Palmas e Macapá. A televisão dos católicos
possui hoje canais de up link analógico e digital,
alugados da Embratel, que possibilitam que as transmissões
sejam geradas de qualquer ponto do Brasil, para a sede em
São José do Rio Preto e de lá “linkadas” para todo o país.
Tentando dinamizar a grade de programação,
a Rede Vida tem colocado no ar programas de estúdio, como
o da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), onde temas polêmicos,
como a situação carcerária no país, são discutidos. A saúde
é uma das pautas também em evidência na emissora.
Ao contrário da TV
Record, que não está na Internet, a Rede Vida já coloca à
disposição do usuário algumas informações na rede a respeito
de sua programação. Enquanto isso, a TV a cabo americana,
que também trabalha na mesma linha, The Family Channel, tem várias home pages,
com informações gerais, inclusive com a programação
da semana. Ela é uma das mais
respeitadas TV a cabo dos Estados Unidos, com uma programação
dirigida para o entretenimento da família. A audiência
é estimada em 66 milhões de casas, que representam aproximadamente
69% dos aparelhos de televisão domésticos. Mas, a história
da The Family Channel começa um pouco antes.
Há 35 anos, Pat Robertson inaugurou a emissora Christian Broadcasting Network, que começou como
UHF e passou em pouco tempo para uma televisão aberta.
A missão deles, segundo Robertson, é preparar os Estados Unidos,
as nações do Oriente Médio, América do Sul e de outros países
para a vinda de Jesus Cristo e o estabelecimento de Deus na
Terra. Outra proposta de Pat, presente em todas
as emissoras de sua rede, dentro da história da família,
é semelhante à televisão de Edir Macedo e da Igreja Católica
que também trabalham com a seguinte trilogia: reza, cura e
salvação.
Embora a Rede Record,
a Rede Vida e a The Family Channel
usem o mesmo elemento – a família e seus valores – para montarem
suas programações, algumas diferenças entre as emissoras são
evidentes: por exemplo, os programas religiosos dirigidos
para as crianças que a TV norte-americana exibe diariamente.
“Como Você Soletra Deus” é um exemplo. Segundo a emissora,
crianças de diferentes raças, religiões e formações compartilham
sobre os maiores mistérios da vida. Eles oferecem momentos
surpreendentes sobre Deus e
a importância da fé, expressando suas dúvidas, esperanças
e sonhos. Cristianismo, Judaísmo, Islamismo e Hinduísmo
são examinados, discutidos. A nova família,
mostrada pelo programa, enfatiza as normas comuns a mensagens
de boa vontade.
A política de marketing
da The Family Channel, num país com tantos problemas raciais,
como os Estados Unidos, é respeitável. O programa “Atrás de
todo Retrato de Família há
uma Estória”, exibido aos domingos, é considerado um sucesso
na América. Dentro da série “História Negra do Mês”,
de Donald Thornton,
por exemplo, um negro que trabalhava com escavação
e a mulher como faxineira, colocou na cabeça e no coração
que formaria as seis filhas em medicina. Depois de muita luta,
é claro, a família negra consegue alcançar o sucesso.
O roteiro do programa é baseado num original escrito
pela matricarca Yvonne Thornton. Neste programa
podemos observar algumas semelhanças com as minisséries
apresentadas pela Record e nos programas da Rede Vida: não
apresentam cenas de violência, sexo ou de uma linguagem mais
cotidiana, irreverente. Quase sempre a autoridade paterna
é abolutamente respeitada, pelo bem da família.
Além do perfil de televisões
para a família, a Record e a The Family Channel são semelhantes
também na cobertura, incentivo
e produção de programas dedicados ao esporte. Sem dúvida,
a TV segmentada americana apresenta um produto final mais
sedutor, dirigido a um público específico, como é de
se esperar de um veículo que trabalha com a desmassificação
e individualização. Na maioria das vezes, eles são
feitos para adolescentes e apresentam entrevistas com atletas
famosos e especialistas que mostram jogos e vários tipos de
modalidades esportivas importantes para a saúde, livrando
os jovens das drogas. Já a Rede Vida não tem interesse em
apresentar programas sobre esporte, principalmente futebol,
segundo a direção da emissora.
A polêmica sobre quais
serão os rearranjos usados pela TV geralista para enfrentar
a concretização da nova televisão – a segmentada – levará
ainda algum tempo em discussão. Frederic Jameson afirma que,
com o desaparecimento da última utopia socialista-comunista e a falta
de uma utopia no mundo contemporâneo, de certa forma
abriu-se uma lacuna para o surgimento de novas religiões e
com isso vivemos o auge da crise, uma das características
da globalização.8
Num país eminentemente católico, como o Brasil, uma herança
deixada pelos portugueses, o sentido coletivo
dos cultos ainda permanece. Talvez, por isso, o bispo
Edir Macedo, proprietário da TV Record, apesar de lançar mão
das tecnologias de última geração em sua televisão, ainda
a usa como um púlpito. Pode ser que ele queira sempre uma
televisão de comunicação de massa, com sinal broadcasting.
Essa é uma das possibilidades porque a Record, dona de um
patrimônio considerável, não tenha tido interesse, pelo menos
até agora, em colocar informações a respeito da Igreja Universal
do Reino de Deus e da programação de sua televisão na rede
mundial de computadores.
Por sua vez, a TV UHF
Rede Vida, apesar de já estar na Internet, dá a impressão
que tem como objetivo atingir também
os ditos marginalizados, seduzindo-os para constituírem
uma família. Mas, a programação, em sua grande parte é dirigida
para a conhecida e tradicional família católica de classe
média. Nas duas emissoras, a família aparece como um grande
tema, possivelmente para conquistar novos fiéis. Numa sociedade
cada vez mais complexa, heterogênea e dispersiva, a
idéia de família pode ser um elo de agregação, de união.
O exemplo das três
televisões – Record, Rede Vida e The Family Channel – parece
provar que religião, família e televisão é um trinômio indispensável
na solidificação da capitalização e comercialização da fé.
*
Penha Rocha é jornalista, professora da FAAP e mestranda em
Comunicação e Semiótica da PUC/SP.
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Notas:
1
As conseqüências da modernidade,
p. 69-70.
2 Pós-modernismo;
a lógica do capitalismo tardio, p. 15.
3 Elogio do grande público; uma teoria
crítica da televisão, p. 179-206.
4 Op. cit., p. 107-110.
5 Marshall McLuhan e Brauce R. Powers, The
global village, p. 28-30.
6 Op. cit., p. 43-77.
7 Arlindo Machado,
A arte do vídeo, p. 104-106.
8 Op. cit., p. 88-89.
Introdução
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