A Televisão na Era da Globalização
 

TELEVISÃO E RELIGIÃO NO MERCADO GLOBAL: TV RECORD E REDE VIDA

Penha Rocha*

O sociólogo britânico Anthony Gyddens1 admite que a globalização pode ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa. Este é um processo dialético porque tais fatos locais podem se deslocar numa direção inversa às relações muito distanciadas que os modelam. A transformação local é tanto uma parte da globalização quanto a extensão das conexões sociais através do tempo e espaço. Assim, quem quer que estude as cidades hoje em dia, em qualquer parte do mundo, está ciente do que ocorre numa vizinhança local e tende a ser influenciado por fatores – tais como dinheiro mundial e mercado de bens – operando a uma distância indefinida da vizinhança em questão. Ou seja, as noções de espaço e tempo – categorias essencias, presentes na filosofia, ciência e arte –, quantidade e qualidade, entre outras, sofrerão transformações em seus significados. O cientista social Renato Ortiz lembra que é preciso estabelecer uma distinção entre internacionalização e globalização, já que às vezes esses termos são usados como sinônimos. Internacionalização não é um fenômeno novo e se refere ao aumento da extensão geográfica das atividades econômicas através das fronteiras nacionais e a globalização da atividade econômica é uma forma mais avançada e complexa da internacionalização.

A história da globalização parece começar a partir da Segunda Guerra com a criação do Banco Mundial (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento), em 1946, e este foi um dos primeiros sinais das mudanças na economia política internacional provocadas pelo cataclisma bélico vivido pela humanidade nos anos 40. Outros mecanismos para se operar em termos globais foram instalados nessa época, como o Fundo Monetário Internacional, o GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio) e a ONU (Organização das Nações Unidas). É importante ressaltar que o GATT foi substituído em 95, pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

A sociedade global tem como uma das características a transição do regime da economia planejada e centralizada. Um exemplo disso é o reatamento das relações diplomáticas dos Estados Unidos com o Vietnã depois de trinta anos, ou seja, após a derrota norte-americana na Guerra do Vietnã, que aconteceu no período de 1964 a 1975. Esta postura pode ser interpretada como uma atitude eminentemente econômica, já que o Vietnã é um dos mercados emergentes da Ásia e candidato a tigre asiático.

Em fevereiro deste ano, foi realizado, em Davos, na Suíça, o Fórum Econômico Mundial, e os líderes de cerca de mil empresas de grande porte admitiram que é preciso disseminar os benefícios futuros que poderão advir da globalização. Apesar do otimismo do senador democrata Bill Bradley, dos Estados Unidos, com os resultados do comércio internacional, do sistema financeiro e com a falta de inimigos políticos em termos de grandes países, dados do Programa das Nações para o Desenvolvimento (PNUD) mostram que cerca de dois bilhões de pessoas vivem em mais de cem países que, hoje, estão em piores condições do que há quinze anos. O secretário-geral da Federação Internacional de Empregados Comerciais, Profissionais e Técnicos, Philip Jennings, com base em Genebra, colocou em dúvida o sucesso da globalização na medida em que três bilhões de pessoas no mundo, de um total de quase seis bilhões, vivem com menos de US$ 2 por dia. Apesar disso, o líder da maior central sindical do planeta admite que as antigas respostas não funcionam mais. Esses números mostram que alternativas novas precisam ser encontradas o mais rápido possível para a questão do trabalho, já que a globalização é uma realidade de conquistas para a humanidade, mas que também produz exclusão e fragmentação social.

Frederic Jameson lembra que a força do conceito de mercado global está em sua estrutura “totalizante”, ou seja, em sua capacidade de nos oferecer um modelo da totalidade social.2 Ela nos proporciona uma maneira diferente de deslocar o modelo de Marx, do econômico para o político, e da produção para o poder e a dominação. Mas o deslocamento da produção para a circulação não é menos profundo ou ideológico, e tem a vantagem de substituir as representações arcaicas da fantasia que acompanhava o modelo de “dominação”, por representações de consumo.

Fragmentação e massificação: a televisão em questão

A sociedade global que anuncia o século XXI está sendo solidificada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação, envolvendo as condições de informação, interpretação, decisão e implementação, por conta do aumento e da generalização das tecnologias da eletrônica. Considerada por alguns como o mais poderoso veículo de comunicação de massa, a televisão, criada há cinqüenta anos, passa por profundas transformações estéticas neste meio século de vida. Alguns já falam em uma nova televisão – a TV fragmentada, segmentada – com a proliferação dos canais a cabo presentes na maioria dos países e que têm como característica marcante a individualização da demanda, com programas específicos de esporte, cinema, informação e tantos outros. Por outro lado, a privatização da televisão européia, com a ajuda das novas tecnologias, extrapola o perfil nacional. Neste sentido é que individualização e globalização aparecem hoje como as duas linhas de fuga simétricas do futuro da televisão, diz Dominique Wolton.3

A televisão geralista – em prática desde o final dos anos 40 pelas grandes redes por broadcast –, com emissoras públicas e privadas, tem para alguns o mistério do caráter privado do consumo de uma atividade que continua a ser fundamentalmente coletiva. Wolton, árduo defensor da televisão geralista, argumenta que ela é adaptada à democracia de massa, no sentido de que visa a oferecer a todo mundo o maior número possível de programas, garantindo uma certa igualdade cultural.

Neste raciocínio admite-se que a dimensão social da televisão encontra-se nas duas características de sua imagem: a identificação e a representação, que não são particularidades da TV e sim de todas as imagens animadas. Talvez essas marcas sejam dimensionadas na televisão, por ser ela apontada como o principal instrumento de percepção da grande maioria da população, contribuindo para retratar e modificar as representações do mundo. É desta forma que a televisão entrelaçaria elementos como imagens e laço social, divertimento e espetáculo.

Como a TV de massa se constitui num laço social? Domique Wolton é categórico: “No fato de que o espectador ao assistir à TV, agrega-se a esse público potencialmente imenso e anônimo que a assiste ao mesmo tempo – estabelecendo assim, com ele uma espécie de laço invisível, especular e silencioso”.4 O conceito de laço social é formulado por Durkheim e pela escola francesa de sociologia, associado mais à questão institucional do que cultural. Mas, no caso da televisão, esse vínculo é mais tênue, na medida em que ela é uma atividade de lazer. Na verdade, o laço social tem dois significados básicos: o laço entre os indivíduos e o laço entre os diferentes grupos que compõem uma sociedade.

Quando falamos em imagem televisiva precisamos levar em conta a ação mútua que existe entre emissor, difusor e receptor. Sendo assim, a imagem é referência de um contexto e é isso que a diferencia do cinema, que possui estilo e estética particulares. A atividade de comunicação social atribuída à imagem da televisão geralista está no fato dela remeter-se a um quadro e a um contexto, e uma de suas contradições é de ser recebida num local privado que nos remete ao mundo público. Para quem acredita na função de comunicação social da televisão, é fundamental que seja estabelecido qual o espaço ocupado por ela na sociedade.

Um das críticas que a televisão genérica sempre sofreu foi juntar homogeneização (consumo em massa de uma mesma programação) e atomização, a escolha que fazem os telespectadores de participar ou não em suas casas, desses programas. Desde os seus primeiros anos de vida até a década de 70, a televisão foi rodeada por discussões a respeito dos parâmetros culturais e sociais que lhe serviriam de referencial. A partir dessa época, com o avanço das novas tecnologias, a TV começou a ficar sob o controle do discurso técnico. De certa maneira, a defesa da lógica técnica de McLuhan, talvez explique o sucesso do sociólogo canadense e de sua máxima “o meio é a mensagem”. O meio é a mensagem, diria McLuhan, porque ele cria a audiência mais adequada para isso.5 A mídia eletrônica cria uma audiência cujo humor variável é tão imprevisível quanto o tempo. Na verdade, a aldeia global pode ser entendida como um conceito técnico de televisão, e seu ideólogo tentou suprimir a complicada interpretação da imagem audiovisual para submetê-la a parâmetros técnicos já conhecidos. Um das questões polêmicas é que se a aldeia global existe no plano técnico, ela será possível também no plano econômico ou no cultural?

A televisão de massa passou a maior parte de sua vida sendo acusada de nivelar e emburrecer o espectador, exercendo total manipulação, principalmente nos países com diferenças sociais imensas e com forte concentração de renda, como o Brasil, por exemplo. Mas, já há quem defenda a inteligência do telespectador. Wolton acredita que a TV é um instrumento democrático fundamental e que o público não fica passivo diante de sua programação.6 Pelo contrário, consegue fazer uma avaliação do que lhe é transmitido. O argumento se baseia na seguinte lógica: quando assiste a um telejornal, o espectador exerce o seu papel de cidadão e assume uma postura crítica, mas o olhar dele será diferente se for um programa de entretenimento, de diversão. Nesta situação, ele pode ficar mais relaxado e descontraído.

A discussão neste momento da história da televisão é sobre quais os novos parâmetros que serão utilizados pela televisão como veículo de massa, na disputa com a TV a cabo, que trabalha com o binômio fragmentação e individualização. A queda de audiência do “Jornal Nacional”, da TV Globo – a menor dos últimos quatro anos – tem sido considerada como um período de transição para a desmassificação, para a segmentação. O fato é que em relação aos índices de 1993 o principal telejornal da quarta emissora do mundo perdeu 500 mil telespectadores só na Grande São Paulo.

Na verdade, o começo dos sistemas alternativos de TV paga aconteceu nas décadas de 50 e 60, mas não se acreditava muito que as pessoas iriam desembolsar determinada quantia por um divertimento que estavam habituados a receber sem gastar um tostão. A função do cabo era unicamente levar o sinal da TV por broadcast até os lugares onde a recepção fosse ruim. Les Brown, diretor do Centro para Comunicação, de Nova York, diz que precisamos estabelecer hoje de qual televisão estamos falando. De acordo com Brown, a televisão de massa ao mesmo tempo que exercia um fascínio em todos nós, também era vista com maus olhos, por conta da escravidão a que submetia uma nação inteira, criando uma sociedade estandardizada e homogeneizada.

Um momento importante para as mudanças que estão acontecendo na televisão foi o lançamento do primeiro satélite experimental de comunicações, em 1962. Apesar da TV chegar até o telespectador através do espaço sideral, tudo parecia apenas um avanço técnico, já que a TV por satélite aparentava ter vida curta, porque a transmissão tinha que ser feita num mínimo espaço de tempo.

A primeira TV a cabo regional norte-americana, HBO, surgiu em 1975 e rapidamente se consolidou num serviço nacional de programação, com filmes novos, sem cortes e sem comerciais. Na época, ela conseguiu mostrar que o telespectador estava receptivo em pagar por uma televisão diferente. Os defensores da TV fragmentada acreditam que existem dois motivos para que ela anunciasse o seu crescimento: a revolução nas tecnologias de distribuição de sinais e o desenvolvimento dos processos de digitalização. Em função do interesse do telespectador, foi dada a largada no começo da década de 80, para o cabeamento dos Estados Unidos. O significativo aumento do número de redes de cabos norte-americanas, em parte, deve-se ao acasalamento das tecnologias de cabo e de satélite. Em seguida, surgiram o vídeo-cassete, o decodificador de canais e o controle remoto, que contribuíram para uma nova fase da TV. O Brasil entrou no mercado da televisão por assinatura com mais ou menos quinze anos de atraso, mas teve a vantagem de se utilizar de tecnologias que já haviam sido testadas e usadas.

Os otimistas com relação ao sucesso da nova televisão argumentam que a TV genérica tenta falar de tudo para todo mundo e não fala nada de importante para ninguém. Já a TV tematizada descobre caminhos originais para a significação de seus objetivos, para a execução de sua linguagem e, enfim, para a sua relação com o usuário. Uma das hipóteses existentes, colocadas por alguns teóricos, é de que às vezes temos a impressão de estarmos passando de uma televisão massificante na ideologia e genérica no conteúdo para uma TV desmassificada e segmentada. Pode ser que em nenhum momento a televisão se tenha visto diante de uma revolução tão avassaladora, tanto em termos tecnológicos como estéticos. Aliás, durante seus cinqüenta anos de vida, a televisão foi marcada por alterações de ordem técnica, porém quase nenhuma de natureza estética.

A programação é um elemento fundamental tanto na TV aberta como na TV fragmentada. Na televisão geralista, para agradar a diferentes públicos, ela constrói uma grade de ofertas, com possibilidades de gerar várias expectativas. É a idéia do “menu” conceituada por Wolton. Ele considera que a programação na televisão temática pode ser também o “tapa-sexo”. Na prática, a diferença está entre programação e edição, ou seja entre o “menu” e o “a la carte”. A edição está mais próxima do programa raro, particular, que cada telespectador opta em assistir sem que tenham relação uns com os outros.

Pelo menos, em um ponto a maioria dos pesquisadores concorda: a programação é um trunfo para o debate da função e o conhecimento a que se determina esse elemento que concentra e muda a televisão. Em outras palavras, a programação tem sido considerada como o “bode expiatório”, por alguns que creditam a ela todos os equívocos da televisão, baseados nos seguintes elementos: maneira pela qual é concebida, forma como é distribuída e o conteúdo que ela carrega. Por isso, profetizam que o poderoso veículo de comunicação de massa está com os seus dias contados.

A televisão apareceu no Brasil por intermédio do empresário Assis Chateaubriand, no início dos anos 50. Ele era proprietário dos Diários Associados, um conglomerado de rádio, jornal e TV, com sede em São Paulo, e a televisão no Brasil teve, desde o começo, uma situação absolutamente particular na América Latina, em função da sua importância social, cultural e política. Ao contrário da TV européia, baseada no modelo estatal e que nos primeiros anos de vida foi popular, a TV brasileira ancorada no setor privado e com influências do modelo norte-americano, no período de 1955 a 1964 era prioridade da elite, já que poucos dispunham de um aparelho receptor. Alguns pesquisadores admitem que nesse período começava a função da televisão como laço social no país. A fase de verdadeira expansão da TV entre 1964 e 1975 coincide com o regime militar, quando, segundo Dominique Wolton, os militares usaram a televisão, mas não dominavam sua influência e não controlavam a recepção.

TV Record

O auge do triunfo tecnológico da TV brasileira aconteceu entre os anos de 1975 a 1988, quando o Brasilsat se expande por quase todo o país e cerca de 60% do mercado publicitário é destinado para o veículo. Foi nessa época, em 1989, que a Rede Record, com sede em São Paulo, foi comprada pelos evangélicos da Igreja Universal do Reino de Deus, precisamente pelo mentor da seita, bispo Edir Macedo. A partir desse período, o carro-chefe da programação da rede foram os programas religiosos, além de noticiários, filmes, esporte, games etc. Edir Macedo aumentou rapidamente o patrimônio do Canal 7 que contava com apenas três emissoras. Hoje, a rede do bispo chega a 39 emissoras, entre próprias e afiliadas, somando 247 retransmissoras em todo o país. Em 95, a Record comprou sofisticados equipamentos e inaugurou sua nova sede no bairro da Barra Funda, onde funcionaria a TV Jovem Pan, uma emissora UHF aberta. Edir Macedo fez um investimento em torno de trinta milhões de dólares, que reúne vinte ilhas de edição em sistema Betacam, um ônibus de externa com link – conexão entre terra e satélite – considerado um dos mais modernos do mundo.

No começo deste ano, Edir Macedo, que é investigado pela Interpol e pela justiça brasileira, chegou de Los Angeles, nos Estados Unidos, onde mora há três anos, disposto a colocar realmente a Record – uma televisão geralista – a serviço da seita. Ele está preocupado com a perda de adeptos. A estratégia para a recuperação de fiéis pela Igreja Universal do Reino de Deus é usar ao máximo sua televisão. A arrecadação da seita teria caído de R$ 1 bilhão de reais ao ano, no início de 1990 para R$ 420 milhões em 96. O projeto é manter as igrejas abertas até à meia-noite. A partir daí o “trabalho de assistência espiritual” permanente aos fiéis é feito em programas ao vivo, até às oito horas da manhã, como “Palavra de Vida”, “Jesus Verdade” e “Despertar da Fé”. Neste primeiro semestre de 97, a Record estreou com um núcleo de dramaturgia – três minisséries já foram ao ar: “A Filha do Demônio”, “O Olho da Terra” e “O Direito de Vencer”. São programas que reforçam os valores morais da família, evitando qualquer cena que possa ser considerada como violenta, de linguagem vulgar ou de sexo.

A Record exibe diversos tipos de programas comuns a uma televisão broadcasting, ou seja, uma TV aberta, de comunicação de massa, mas além da dramaturgia com temas religiosos, tem apostado também em programas esportivos. Em 96, exibiu os campeonatos de futebol alemão, italiano, espanhol, japonês, Copa da França, Copa Itália e Copa Inglaterra, entre outros. Os recursos tecnológicos usados pela emissora possibilitam montagens tão elaboradas quanto as dos melhores filmes. Com relação ao maior investimento da emissora, que são os programas da madrugada – exibidos no horário de meia-noite às oito da manhã –, a edição é aquela considerada particular, ligada à transmissão direta, como conceitua Arlindo Machado. É justamente este tipo que delimita a fronteira entre a edição cinematográfica e a televisual.

Teoricamente, um evento televisual transmitido ao vivo poderia ser tomado por uma única câmera em ação contínua. Poderia, se a eventualidade dos incidentes próprios da transmissão direta não obrigasse o diretor a se garantir com outras câmeras, para poder escolher a melhor tomada entre várias opções. Ora, se a escolha de cada tomada se dá no paradigma de quatro ou cinco opções simultâneas e não no sintagma narrativo de uma ação decupada em planos, conclui-se que, a qualquer momento, qualquer das imagens tem igual probabilidade de entrar no ar.7

Apesar de estar em sintonia com a evolução tecnológica de última geração, a Record não possui uma home page na Internet, rede mundial de computadores. Até o momento, a emissora conta apenas com um endereço eletrônico colocado à disposição dos usuários.

A salvação da família: TV Record e Rede Vida

A ascenção social sempre foi a estratégia dos programas religiosos da TV Record. Nos últimos tempos, a emissora mudou. Trabalha no sentido de ter o perfil de uma televisão dirigida para a família. As entrevistas do programa “Palavra de Vida”, que faz parte do pacote da madrugada, são todas conduzidas para a reafirmação dos valores morais da família e da importância da sua manutenção num mundo sem regras e com tantas “perversões”, como eles costumam denominar o homossexualismo, por exemplo, conversando num clima de persuasão e culpa com pessoas que um dia estiveram nessa vida, dizem os pastores que comandam o programa. Aliás, esta pode ser uma maneira clara de atrair os considerados “marginalizados” numa sociedade preconceituosa, para formarem uma família, considerada como a salvação deste final de século. Em tempos de crise das utopias, ela parece ser um dos poucos elos de agregação e união.

Apesar do aparente conservadorismo transmitido por todo o conjunto, pastores-apresentadores-comunicadores da Record entrevistam médicos sobre a impotência masculina, vasectomia e suas conseqüências para o homem. O clima é agradável, leve, descontraído, coloquial e com um ritmo ágil. Normalmente, cerca de cinco pastores comandam o “Palavra de Vida”, com observações e depoimentos de fiéis intercalados, comentam os fax que recebem de telespectadores e conversam também com as pessoas pelo telefone. Sempre apresentando soluções para os problemas e para as dificuldades vividas pela família. Ao final de cada história, as alegrias e os prazeres de viver familiarmente são sempre relembrados para conquistar novos fiéis, ou seja, telespectadores. Aliás, essa é uma característica dos programas religiosos da Record, eles são feitos para telespectadores, usuários e não para fiéis.

Rede Vida

Preocupada com o avanço das seitas evangélicas e com o fato delas ocuparem cada vez mais espaço na mídia, principalmente na televisão, a Igreja Católica resolveu fazer parceria com o empresário de comunicação de São José do Rio Preto, José Monteiro dos Santos, e comprou a TV UHF Rede Vida, o canal da família, inaugurada em 95. No começo, a emissora dava sinais de que estava sendo dirigida pela ala progressista da Igreja. Hoje, é evidente em sua programação a presença dos carismáticos, considerados como o setor conservador da Igreja Católica. A Associação do Senhor Jesus, por exemplo, que produz seis programas para a emissora – “Louvemos o Senhor”, “Anunciamos Jesus”, “Deus Abençôe”, “Com Maria”, “A Palavra de Deus” e “Boas Notícias” – é administrada pelo padre Eduardo Dougherty, líder da Renovação Carismática no Brasil. Ela é uma produtora de vídeo e distribuidora de livros, fitas cassetes, CDs e está localizada em Valinhos, no interior de São Paulo. Segundo o padre Eduardo, os custos desses programas são pagos com o dinheiro proveniente de doação mensal dos sócios – cerca de cinco mil. De acordo com ele, as contribuições são apenas simbólicas.

Os programas da Associação do Senhor Jesus – a maioria é ao vivo – são tipicamente de auditório, usando recursos também da comunicação arcaica, como o líder e a platéia. Ao contrário da Record, eles apresentam uma direção confusa, um aúdio comprometedor, enfim um estilo amador, que lembra o início da televisão nos anos 50. Aliás, este é o perfil em geral da Rede Vida como emissora, além de deixar muito evidente a questão da fé como comércio. Talvez, essa seja uma diferença básica entre os programas religiosos da Record e da Rede Vida. A televisão de Edir Macedo capitaliza a fé de uma forma mais profissional e estratégica, enquanto os católicos deixam mais claro a falta de sutileza e mostram que ainda estão longe de saber usar a TV como mídia. Eles parecem fazer uma TV para fiéis e não para telespectadores.

A Rede Vida é administrada oficialmente pelo Instituto Brasileiro de Comunicação, uma entidade que se diz sem fins lucrativos, com sede em São Paulo. Mas, os estúdios da emissora ficam em São José do Rio Preto e hoje ela tem uma receita em torno de 600 mil dólares, segundo José Monteiro, vice-presidente do INBRAC. Ao contrário da TV Record, que reserva a madrugada para os programas religiosos, a Rede Vida sai do ar à meia-noite. Os sinais desta televisão estão sendo transmitidos para todo o país, através das estimadas cinco milhões de antenas parabólicas existentes em território nacional. Além disso, a emissora pode ser sintonizada pelos sistemas de TV a cabo.

 Com a chegada do papa João Paulo II ao Brasil, em outubro próximo, para o Segundo Encontro Mundial com as famílias, deverão estar funcionando os transmissores das cidades de Maceió, Campo Grande, Cuiabá, Belém, Boa Vista, Porto Alegre, Palmas e Macapá. A televisão dos católicos possui hoje canais de up link analógico e digital, alugados da Embratel, que possibilitam que as transmissões sejam geradas de qualquer ponto do Brasil, para a sede em São José do Rio Preto e de lá “linkadas” para todo o país.

 Tentando dinamizar a grade de programação, a Rede Vida tem colocado no ar programas de estúdio, como o da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), onde temas polêmicos, como a situação carcerária no país, são discutidos. A saúde é uma das pautas também em evidência na emissora.

Ao contrário da TV Record, que não está na Internet, a Rede Vida já coloca à disposição do usuário algumas informações na rede a respeito de sua programação. Enquanto isso, a TV a cabo americana, que também trabalha na mesma linha, The Family Channel, tem várias home pages, com informações gerais, inclusive com a programação da semana. Ela é uma das mais respeitadas TV a cabo dos Estados Unidos, com uma programação dirigida para o entretenimento da família. A audiência é estimada em 66 milhões de casas, que representam aproximadamente 69% dos aparelhos de televisão domésticos. Mas, a história da The Family Channel começa um pouco antes. Há 35 anos, Pat Robertson inaugurou a emissora Christian Broadcasting Network, que começou como UHF e passou em pouco tempo para uma televisão aberta. A missão deles, segundo Robertson, é preparar os Estados Unidos, as nações do Oriente Médio, América do Sul e de outros países para a vinda de Jesus Cristo e o estabelecimento de Deus na Terra. Outra proposta de Pat, presente em todas as emissoras de sua rede, dentro da história da família, é semelhante à televisão de Edir Macedo e da Igreja Católica que também trabalham com a seguinte trilogia: reza, cura e salvação.

Embora a Rede Record, a Rede Vida e a The Family Channel usem o mesmo elemento – a família e seus valores – para montarem suas programações, algumas diferenças entre as emissoras são evidentes: por exemplo, os programas religiosos dirigidos para as crianças que a TV norte-americana exibe diariamente. “Como Você Soletra Deus” é um exemplo. Segundo a emissora, crianças de diferentes raças, religiões e formações compartilham sobre os maiores mistérios da vida. Eles oferecem momentos surpreendentes sobre Deus e a importância da fé, expressando suas dúvidas, esperanças e sonhos. Cristianismo, Judaísmo, Islamismo e Hinduísmo são examinados, discutidos. A nova família, mostrada pelo programa, enfatiza as normas comuns a mensagens de boa vontade.

A política de marketing da The Family Channel, num país com tantos problemas raciais, como os Estados Unidos, é respeitável. O programa “Atrás de todo Retrato de Família há uma Estória”, exibido aos domingos, é considerado um sucesso na América. Dentro da série “História Negra do Mês”, de Donald Thornton, por exemplo, um negro que trabalhava com escavação e a mulher como faxineira, colocou na cabeça e no coração que formaria as seis filhas em medicina. Depois de muita luta, é claro, a família negra consegue alcançar o sucesso. O roteiro do programa é baseado num original escrito pela matricarca Yvonne Thornton. Neste programa podemos observar algumas semelhanças com as minisséries apresentadas pela Record e nos programas da Rede Vida: não apresentam cenas de violência, sexo ou de uma linguagem mais cotidiana, irreverente. Quase sempre a autoridade paterna é abolutamente respeitada, pelo bem da família.

Além do perfil de televisões para a família, a Record e a The Family Channel são semelhantes também na cobertura, incentivo e produção de programas dedicados ao esporte. Sem dúvida, a TV segmentada americana apresenta um produto final mais sedutor, dirigido a um público específico, como é de se esperar de um veículo que trabalha com a desmassificação e individualização. Na maioria das vezes, eles são feitos para adolescentes e apresentam entrevistas com atletas famosos e especialistas que mostram jogos e vários tipos de modalidades esportivas importantes para a saúde, livrando os jovens das drogas. Já a Rede Vida não tem interesse em apresentar programas sobre esporte, principalmente futebol, segundo a direção da emissora.

A polêmica sobre quais serão os rearranjos usados pela TV geralista para enfrentar a concretização da nova televisão – a segmentada – levará ainda algum tempo em discussão. Frederic Jameson afirma que, com o desaparecimento da última utopia socialista-comunista e a falta de uma utopia no mundo contemporâneo, de certa forma abriu-se uma lacuna para o surgimento de novas religiões e com isso vivemos o auge da crise, uma das características da globalização.8 Num país eminentemente católico, como o Brasil, uma herança deixada pelos portugueses, o sentido coletivo dos cultos ainda permanece. Talvez, por isso, o bispo Edir Macedo, proprietário da TV Record, apesar de lançar mão das tecnologias de última geração em sua televisão, ainda a usa como um púlpito. Pode ser que ele queira sempre uma televisão de comunicação de massa, com sinal broadcasting. Essa é uma das possibilidades porque a Record, dona de um patrimônio considerável, não tenha tido interesse, pelo menos até agora, em colocar informações a respeito da Igreja Universal do Reino de Deus e da programação de sua televisão na rede mundial de computadores.

Por sua vez, a TV UHF Rede Vida, apesar de já estar na Internet, dá a impressão que tem como objetivo atingir também os ditos marginalizados, seduzindo-os para constituírem uma família. Mas, a programação, em sua grande parte é dirigida para a conhecida e tradicional família católica de classe média. Nas duas emissoras, a família aparece como um grande tema, possivelmente para conquistar novos fiéis. Numa sociedade cada vez mais complexa, heterogênea e dispersiva, a idéia de família pode ser um elo de agregação, de união.

O exemplo das três televisões – Record, Rede Vida e The Family Channel – parece provar que religião, família e televisão é um trinômio indispensável na solidificação da capitalização e comercialização da fé.

* Penha Rocha é jornalista, professora da FAAP e mestranda em Comunicação e Semiótica da PUC/SP.

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Notas:

1 As conseqüências da modernidade, p. 69-70.

2 Pós-modernismo; a lógica do capitalismo tardio, p. 15.

3 Elogio do grande público; uma teoria crítica da televisão, p. 179-206.

4 Op. cit., p. 107-110.

5 Marshall McLuhan e Brauce R. Powers, The global village, p. 28-30.

6 Op. cit., p. 43-77.

7 Arlindo Machado, A arte do vídeo, p. 104-106.

8 Op. cit., p. 88-89.

 


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