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A
Televisão na Era da Globalização
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REDE CULTURA
DE TELEVISÃO (RTC), UM MODELO ALTERNATIVO DE PROGRAMAÇÃO
Robson Bastos
da Silva*
Introdução
O tema televisão tornou-se
muito popular nestes últimos anos. O Brasil é um país que
possui um dos mais desenvolvidos sistemas televisivos do mundo.
As grandes redes interligam todo o território brasileiro,
com uma programação basicamente de entretenimento.
Com uma proposta diferenciada e procurando atingir
um público mais seleto, a Rede Cultura de Televisão (RTC),
uma emissora pública do Estado de São Paulo, privilegia a
qualidade na sua programação. Hoje, tem um modelo consolidado como
mídia, mas precisa estar preparada para a chegada de
novos canais, que irão aumentar ainda mais a concorrência
no setor.
A Rede Cultura será
o ponto central desta análise, baseando-se principalmente
na gestão do ex-presidente da Fundação
Padre Anchieta, jornalista Roberto Muylaert. A partir desse
período, a emissora abandonou sua imagem antiga de
estar atrelada aos governadores do Estado, e se transformou
em uma emissora pública,
com propostas concretas, visando veicular cultura e
informação. A proposta da pesquisa visa realizar uma discussão
sobre o papel que a televisão deve desempenhar em uma sociedade
como a nossa. O modelo adotado pela emissora serve de ponto
central para o desenvolvimento do estudo, pois comprova que
é possível fazer uma televisão inteligente e que privilegie
a qualidade ao invés da quantidade imposta pelo mercado publicitário.
Histórico
O sistema de televisão
educativa brasileiro foi criado nas décadas de 60 e 70 pelo
regime militar. O objetivo das emissoras era desenvolver a
cultura e a educação, utilizando o vídeo como recurso pedagógico.
No Estado de São Paulo, a Tevê Cultura, que inicialmente era
uma emissora privada, foi transformada em uma emissora educativa
com a criação da Fundação Padre Anchieta.
O desenvolvimento da mídia televisiva no
país, ocorrido após a década de 70, fez com que as
grandes redes comerciais tivessem uma grande aceitação e os
canais educativos deixassem de ser uma opção para o público.
No Brasil, acostumou-se a assistir televisão como entretenimento
e não como estimulador da cultura e informação em geral.
A Rede Globo é um exemplo
deste processo, já que, no início dos anos 60, era pouco conhecida
além do Rio e São Paulo.
Somente se expandiu quando passou a investir maciçamente em
uma produção voltada para a diversão, coincidindo com o início
do serviço de microondas fornecido pela Embratel. A
Globo não somente pretendia ser vista, mas desejava também
tornar-se um hábito popular. Após a consolidação como rede,
passou a ser um modelo de televisão no país e no exterior.1
A
nova imagem
A filosofia utilizada
por Muylaert era a de transformar a Cultura em uma emissora
pública, semelhante às suas congêneres internacionais, como
a BBC inglesa, PBS americana
ou NHK japonesa. A programação da Cultura tornou-se
mais informativa e menos educativa, diferente das demais tevês
educativas ligadas à Rede Brasil. A nova programação passou
a exibir séries produzidas no Brasil, ou no exterior, porém
voltadas para o público infantil e juvenil: documentários
com temas atuais e com uma abordagem jornalística diferente das emissoras comerciais. Com
o passar do tempo, a emissora foi aprimorando seus
objetivos, que ora se aproximavam do governo estadual, ora
pretendiam tornar-se mais independentes. A gestão de Muylaert rompeu
com esse processo e procurou empreender uma outra visão
de televisão.
Com essa nova postura,
a Cultura estava destinada a servir mais aos espectadores
do que aos governantes. Uma das funções do veículo seria a
de responder aos anseios dos formadores de opinião, que não
encontravam nas tevês comerciais nenhuma emissora com essa
proposta. Durante sua gestão, a emissora deixou de ser uma
emissora regional, e passou a transmitir a programação via
satélite para todo o país, tornando-se uma rede.
Ela conseguiu se sobressair
mais do que as televisões educativas
estaduais, que estavam acostumadas a reproduzir apenas
o sistema educacional vigente. Criou um novo conceito no país,
fazendo com que as demais emissoras educativas procurassem
se adequar a uma nova realidade. A Cultura lançou novos programas,
adquiriu algumas séries importadas e permitiu que as tevês
educativas retransmitissem a sua programação, deixando de
ser apenas uma emissora e se transformando em rede nacional.
A RTC possui uma estrutura
diferenciada, pois, ao mesmo tempo que é autônoma politicamente,
depende de recursos financeiros do governo do Estado para
manter sua produção. Para se tornar uma emissora totalmente
independente economicamente, é necessário alcançar
um patamar de eficiência que a fará concorrer com as tevês
comerciais. Por este motivo, precisa crescer ainda mais, para
conseguir total autonomia. Neste ponto é que reside o grande
dilema da emissora, pois não pode crescer a qualquer
custo. Precisa adotar um planejamento estratégico muito
cuidadoso, pois seu público, em grande parte composto de formadores
de opinião, é bastante crítico e está sempre atento para as
mudanças do mercado.
O grande desafio que
a Cultura tem pela frente, além das redes convencionais, são
as tevês especializadas nacionais e internacionais. Estas
emissoras são transmitidas a cabo, ou via satélite, no Brasil,
pelo Grupo Abril e pela Rede Globo. Elas já começaram, através da TV A e da
NET-Multicanal, a disputa pelo mercado. Este novo serviço
tem grandes chances de se popularizar mais rápido do que ocorreu,
quando do início da televisão, na década de 50. A nova fase
precisa ser gerenciada pela Cultura de forma profissional
e competente, para que não se perca público. É necessário
criar novas parcerias, sem que mude a personalidade através
da sua programação.
Uma das alternativas
para a Cultura, frente à nova fase que
se inicia na tevê brasileira, seria a continuação do modelo
de jornalismo que a emissora está realizando. Os documentários são uma forma de trabalhar com o
jornalismo denominado holístico e imparcial dentro
do possível. Este caminho favorece e demonstra o chamado “New
Journalism” americano, tão famoso na década de 60 e hoje
disseminado através dos livros. As demais emissoras
não investem neste tipo de linguagem, apesar de realizarem
seus documentários. Isto ocorre devido ao timing comercial
ao qual estão submetidas. Realizam apenas uma produção superficial
e subjugada às leis do mercado publicitário, pontuadas pelos
comerciais.
A Cultura não tem interesse
em educar no sentido tradicional. Sua preocupação principal
está voltada para o seu público-alvo,
por isso possui programas dirigidos e com temas mais
“elaborados”. Dentro dessa proposta, está o jornalismo, que
através dos documentários produzidos ou veiculados pela emissora,
discute temas sociais, dando uma nova dinâmica e linguagem
diferente das emissoras comerciais. Os temas são apresentados
de forma holística, mas sem que se perca o caráter profissional
e mercadológico.
A visão instrumental
por muito tempo, foi um dilema para a Rede, que teve de optar
entre a necessidade de produzir programas voltados para as
classes mais humildes ou produzir programas que interessassem
às elites culturais. A Cultura, como outras emissoras, passava
por problemas de identidade interna e externa, devido ao regime
militar. As contradições da sociedade refletiam no veículo,
como é próprio das empresas ligadas à indústria cultural.
No sistema capitalista,
existem duas naturezas que fazem parte do processo social
das empresas de comunicação: a primeira está ligada à informação
que leva ao lucro e cumpre com seu papel dentro do capitalismo;
enquanto que a segunda é a deformação desta informação, resultando
em manipulação e poder dos dirigentes.2
Não sendo uma empresa privada, a Cultura transformou sua matéria-prima
– educação, cultura e informação – em moeda ideológica, repassando
o pensamento dominante da época. A Cultura continuou atrelada aos governadores que
vieram após Laudo Natel e somente perdeu o vínculo
de emissora “chapa branca” no final de 1986.
O momento possivelmente
mais produtivo da Cultura começou nessa fase – final do governo
Montoro (1986) –, com
a indicação à presidência da Fundação Padre Anchieta do jornalista
Roberto Muylaert. Este, um homem de mercado, procurou
dar uma nova dinâmica à emissora, desvinculando-a o
máximo possível do governo. Para isso, necessitava haver independência financeira, tendo em vista
que era totalmente dependente do orçamento estatal.
A solução não seria tão simples, pois no Decreto-lei de 28/2/67,
artigo 12, item 1, existe a proibição das tevês educativas
conseguirem patrocínio: “A TV Educativa não tem caráter comercial,
sendo vedada a transmissão de qualquer propaganda direta ou
indireta, bem como o patrocínio dos programas transmitidos,
mesmo que nenhuma propaganda seja feita através dos mesmos”.
A proibição havia sido feita na época dos militares, tendo
recebido possivelmente, segundo Muylaert, uma ajuda das emissoras
comerciais.3
Apesar da proibição expressa, a Fundação
Roquete Pinto, órgão
responsável pelas tevês educativas do governo federal,
recebia os chamados apoios culturais e, por esse motivo, a
Cultura montou uma estratégia de marketing para angariar
apoios, que poderiam colaborar na qualidade
da programação. O momento acabou sendo propício, pois
o governo federal havia aprovado algumas leis de incentivo
à cultura, como a “Sarney” e “Rouanet”, que colaboravam diretamente
com as produções culturais e permitiam um investimento da
iniciativa privada nas emissoras educativas.
A estratégia de marketing
cultural, tão nova na época no país, utilizava vários pontos
de que a Cultura dispunha. Eles são os seguintes:
1)
a emissora possuía uma imagem positiva perante o mercado;
2)
os anunciantes deveriam ser poucos e os produtos com
credibilidade no mercado;
3)
o público atingido pela tevê era selecionado e o custo
do produto anunciado teria um preço reduzido,
pois iria para o ar somente a vinheta com o nome do
anunciante.
Essa experiência foi
inovadora no país, mas comum em outros países, como Estados
Unidos, Inglaterra e França. Em muitos casos, como nas emissoras
públicas norte-americanas, o apoio cultural chega a atingir
50% do orçamento. Na Cultura, a verba aumentou em 15% o faturamento.
Serviu para renovar a programação, trazendo séries importadas
e motivar a producão nacional. Segundo Muylaert,4
a Cultura é a maior emissora do Brasil que compra programas
no exterior, principalmente europeus, japoneses
e latino-americanos.
A mudança de imagem
da Cultura começou a ocorrer quando deixou para trás o papel
de mera emissora educativa, e passou a adotar a postura de
tevê pública, tão comum nos países desenvolvidos. Elas não
pertencem ao estado e nem tampouco são comerciais. Geralmente, são
administradas pela comunidade ou associações e prestam
serviço à sociedade. São mantidas com doações, financiamentos
ou por voluntários. Como primeira experiência de uma emissora
pública, a Cultura foi pioneira e acabou investindo na programação
infantil para conseguir ter uma aceitação de público. Isto
ocorreu com vários programas. Porém, o mais significativo
foi o Projeto Ra-tim-bum, pelo qual ela recebeu vários prêmios
nacionais e internacionais.
Para atingir o público
além do Estado de São Paulo, era necessária a utilização de
um canal de satélite, o que já vinha sendo tentado desde 1986.
Várias dificuldades foram colocadas para que a autorização
fosse dada. Por diversas vezes, Muylaert foi a Brasília e
conversou com ministros e políticos, sem que houvesse uma
solução para o fato. Por causa de alguns convidados do programa
Roda Viva, como Leonel Brizola e Lula da Silva, o assunto
não foi levado à frente, sendo que a Cultura teve de esperar
até o governo do ex-presidente Itamar Franco para receber
a autorização da Embratel. A partir daí, deixou de ser uma
emissora regional que, às vezes, era retransmitida pelas emissoras
educativas, e entrou na era da globalização, transformando
sua marca para Rede Cultura de Televisão.
A audiência da Cultura,
em 1993, era de 50% nas classes A e B, 30% na C e 20% na classe
D. Para ele, a emissora não deveria cair na armadilha de apresentar
apenas uma programação voltada para a classe dominante, mas
ter um compromisso com as outras pessoas. Para Muylaert,5
seu desafio era buscar
o denominador comum entre bom gosto e o entretenimento para
atingir camadas maiores da população, como a Globo conseguia
tão bem. Ao se analisar a linha de produção da Cultura,
percebe-se nitidamente a opção pela programação qualitativa
de nível educacional e cultural.
O estilo começou a
partir da sua gestão, tendo continuidade pelo atual presidente,
o jornalista Jorge da Cunha Lima – ex-secretário de Cultura
no governo Franco Montoro e ex-presidente da Fundação Cásper
Líbero.
Segundo Cunha Lima,
em recente entrevista, a Cultura é a única emissora pública
do mundo que disputa audiência com
as tevês comerciais. Atualmente, ela mantém oito horas de
programação em 3º lugar, quatro horas em 4º e duas em 2º lugar.
Segundo ele, a emissora pública tem o compromisso com o cidadão.
Por isso, deve persistir a busca pela qualidade da programação,
buscando uma nova linguagem.6
A intenção das emissoras
comerciais é agradar ao gosto popular, sem, às vezes, serem popularescas.
Segundo Muylaert, quando ele assumiu a Fundação Padre Anchieta,
eram produzidos documentários que interessavam a determinados
grupos da emissora. “Era um programa gravado em um haras particular,
que ressaltava a linhagem dos animais e as virtudes dos potros
de determinada raça que iriam a leilão, mencionando, inclusive,
os valores envolvidos.” Muitas mudanças tiveram de ser feitas para que a emissora deixasse
a imagem oficial do governo. Um dos grandes projetos
ocorreu na área do jornalismo.
“O jornalismo era anódino e bocejante. (...) As notícias tinham
o estilo de programa de rádio, onde o locutor pode se estender
em cada assunto, de preferência bajulando o governo estadual”,
afirma Muylaert.7
Diversas alterações
culminaram na reversão da antiga programação
sem grandes atrativos, para uma nova fase mais criativa
e profissional. A Cultura passou a investir em uma linha de produção diferente. Procurou parceiros
na iniciativa privada, como a Fiesp (Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo), bancos e empresas, que
colaboraram através dos chamados “apoios culturais”, propiciando
a criação de novos programas e buscando uma identidade.
Para isso, seria necessário
abolir definitivamente o lado “oficial”. Era necessário contratar
novos profissionais que desenvolvessem
projetos adequados ao papel de emissora pública. A busca por
uma programação voltada para a qualidade era um dos
objetivos centrais. Foram à procura do melhor produto nos
mercados internacionais. Segundo Muylaert,8
a Cultura, em 1993, era a emissora brasileira que comprava
maior quantidade de programas de vários países do mundo, procurando
o que há de mais importante em termos de boa programação, na Europa Ocidental e Oriental,
Japão, Estados Unidos e América Latina.
A Cultura buscava conquistar
um novo público, mais elitizado, das classes A e B, o que
possibilitaria e viabilizaria a idéia dos “apoios culturais”.
No jornalismo, a mudança foi radical. O espaço aumentou, com
a criação do “Jornal da Cultura”, “Repórter Eco”, “Roda Viva”,
“Metrópolis”, “Opinião Nacional”, entre outros. A emissora
investiu muito, chegando a criar o programa “Cultura Geral”
e produzindo diversos
documentários, como: “Leituras de um Analfabeto”, “Jânio
Quadros”, “Os Índios da Amazônia Ocidental” e “Estrada das
Lágrimas, 1.400”, entre outros.
O estilo tradicional
de transmitir educação pela tevê, foi modificado e passou
a exibir programas culturais, com objetivos
educativos. Ela se tornou uma emissora voltada para a sociedade
e não para o mercado. A forma de educação tradicionalmente
utilizada pelas tevês educativas dos estados foi modificada,
sem perder de vista a função social de uma emissora pública.
O público-alvo não
precisaria mais de aulas de alfabetização ou de supletivo.
Eles eram formadores de opinião, profissionais liberais e
estudantes com elevado grau de informação. Era necessário
descobrir um novo caminho para prender esses espectadores, com criatividade e sem
abrir mão da qualidade. Não poderiam seguir o exemplo das
emissoras comerciais, que apresentavam programas de
auditório, telejornais fragmentados ou novelas repetitivas.
A RTC teria de ir em busca do exemplo das tevês públicas européias
ou americanas, mas não poderia esquecer que estava atuando
em um país do terceiro mundo.
O jornalismo sério, objetivo e apartidário
foi uma escolha feita pela presidência da Fundação, que teve
de enfrentar graves problemas com políticos ou pessoas
interessadas em que a Cultura permanecesse como antes.9
O caminho seguido foi uma atitude de maturidade da emissora,
que passou a investir bastante nesta área. A produção jornalística,
durante o período de Muylaert, demonstrou grande preocupação
em utilizar uma área privilegiada do jornalismo,
que é a produção de documentários.
Um exemplo foi a produção do vídeo “Estrada
das Lágrimas, 1.400”. A reportagem foi feita na favela
de Heliópolis, zona sul de São Paulo, em 1991. O programa
inicia em uma segunda-feira e vai até o domingo, demonstrando
a rotina semanal local. A inovação ocorreu com o fato da equipe
alugar uma casa de alvenaria – considerada de classe média
em Heliópolis –, mudando-se literalmente, com equipamentos
e toda a infra-estrutura necessária, para realizar as matérias
no local de trabalho. Durante uma semana, a repórter-apresentadora
Márcia Cunha procurou abordar as diferentes atividades, carências
e problemas que as pessoas enfrentam como moradores de um
local carente.
A Rede Cultura, na
sua nova fase como tevê pública, investiu bastante no segmento
infanto-juvenil. O programa mais premiado da emissora foi
o “Castelo Ra-Tim-Bum”, que recebeu diversos prêmios internacionais
e nacionais, sendo considerado o melhor programa infantil
produzido por uma emissora de televisão em 1994. Este segmento
levou a Cultura a ganhar o prêmio “International Emmy
Awards Gala”, do UNICEF,
em 1995. Estiveram concorrendo 2.000 emissoras de rádio e
tevê de 145 países, com suas melhores programações sobre o
Dia Internacional da Criança na TV, e a Cultura foi
a melhor classificada.
A programação infantil
foi o grande impulso para que a Cultura conquistasse um novo
público e conseguisse se aproximar do mercado infantil. O
sucesso do “Castelo Ra-Tim-Bum” foi tão grande que a editora
Companhia das Letrinhas se interessou em lançar vários livros
com os personagens do programa. A Cultura, como dona dos direitos
autorais, fez um acordo com a editora para que os lucros fossem
divididos entre as partes. Outros produtos foram lançados
no mercado, utilizando a marca do “Castelo”, como CD-ROM,
fitas de vídeo e brinquedos.10
A Cultura também investiu nos seriados,
tendo lançado, em 1.994, 23 episódios da série “Confissões
de Adolescente”. Com trinta minutos de duração cada um, os
programas tiveram a direção de Daniel Filho e eram baseados
na peça e livro de Maria Mariana, uma adolescente
que se autobiografou.
Também em 1994, a emissora
realizou uma co-produção com o extinto Banco Nacional e o
diretor Cacá Diegues, de quatro curta-metragens com 26 minutos
cada um. Os filmes fazem parte do projeto “Veja esta Canção”
e foram baseados em músicas de Chico Buarque, Jorge
Ben Jor, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Cada curta
retrata uma história diferente, baseada na letra de cada uma
das músicas. Os filmes custaram R$ 255 mil, tendo sido pagos
pela emissora e o Banco Nacional. A audiência atingiu
em média 4,5 pontos (179.055 domicílios), o que para a Cultura
foi considerado um bom índice.
É uma atitude pioneira
da Rede em realizar uma parceria entre cinema, televisão e
empresa privada. O objetivo do projeto é demonstrar que os
dois meios podem colaborar com a cultura do país. O combalido
cinema brasileiro, que quase acabou durante o governo Fernando
Collor de Mello, pode encontrar na experiência da Cultura
uma saída oportuna e inteligente para os dois lados.
Em 1995, ela realizou
o segundo projeto, produzindo o longa-metragem “Sombras de
Julho”. A obra baseia-se no livro homônimo do autor Carlos
Herculano Lopes. O custo total da produção foi de R$ 384 mil e mais
uma vez a Cultura entrou em parceria com o Banco Nacional.11
Um dos maiores problemas
da emissora estava ligado à transmissão dos sinais na cidade
de São Paulo, onde muitos bairros não conseguiam receber a
imagem. O impasse foi solucionado em março de 92, quando foram
investidos US$ 5,5 milhões para aquisição de uma nova antena,
situada no bairro do Sumaré. A emissora não conseguia atingir
os locais mais distantes do centro, situados na zona leste
da capital. Para Roberto Muylaert, então presidente da Fundação
Padre Anchieta, a instalação da nova antena se tornou um marco
para a tevê, que passou da situação de emissora “invisível”
para o segundo lugar em alguns horários.12
No início do governo
Mário Covas, a Cultura vira notícia em todos os grandes jornais
da capital. Desta feita, não é para anunciar a nova programação,
mas para debelar uma crise
financeira por que passa a emissora. Tendo recebido um Estado
praticamente falido, o chefe do Executivo realiza cortes drásticos
no orçamento estadual, afetando todas as áreas,
desde saúde, educação e a própria Rede. Os cortes foram
graves e afetaram a produção e gastos com pessoal.
O orçamento anual da
Cultura de R$ 57 milhões foi reduzido para R$ 35 milhões,
cabendo à emissora cobrir a diferença
entre receita e despesa. O fato gerou a demissão de 250 funcionários
inicialmente e a possibilidade de mais 400, se o problema
não fosse solucionado. A emissora possui atualmente
1.700 funcionários. O Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta
precisava encontrar uma solução rápida para o problema, tendo
em vista que o mandato de Roberto Muylaert havia terminado
e seria necessário escolher um novo presidente. O novo presidente
tomou posse em junho de 95 e pediu ao governo do Estado uma
trégua de 120 dias para se colocar a par da situação. Assegurou
inicialmente que não mudaria a programação voltada
para crianças e adolescentes e não começaria nenhum projeto
sem uma parceria da iniciativa privada. Ao falar sobre os
planos para a área de jornalismo, afirmou que o departamento
passaria por um “ajuste conceitual, com a notícia mais voltada
para o lado interpretativo e menos noticioso”.13
A crise fez com que
a emissora cancelasse vários planos, como a produção de documentários,
e novos programas infantis, inclusive uma nova versão do sucesso
do “Ra-Tim-Bum”, que seria ambientado em uma fazenda. O governador
Mário Covas, em entrevista em junho de 95,
disse que a Cultura recebia dinheiro demais do Estado,
sendo ela própria culpada
pela incapacidade de gerar receita própria. Fez críticas
severas à emissora, afirmando que “até uma criança, com todo
aquele equipamento faturaria mais”. Covas explicou que,
desde 1991, a receita vem diminuindo em relação ao valor que é repassado pelo governo. E que a estimativa
para 95 era de R$ 1,2 milhão de receita contra R$ 54,495
milhões de despesas.
Criticou a folha salarial da Fundação, apesar de não interferir
na administração da instituição. E finalizou explicando que
não podia repassar mais nada.14
Para Cunha Lima, a
solução está na reengenharia administrativa e na comercialização
de alguns produtos e dos seus estúdios. A emissora vende cópias
VHS de seus programas, aluga os estúdios para gravação, explora
a marca do “Castelo” e está em busca de novos anunciantes.
Conclusão
A proposta de discutir
a Rede Cultura visava exatamente
analisar e avaliar o momento em que a emissora se encontra
atualmente. Era necessário documentar esta fase, pois existe
uma grande carência de informação e documentação no país sobre os meios de comunicação. A experiência
que a emissora está passando, nestes últimos dez anos,
demonstra que existem mercado, profissionais e espectadores
dispostos a consumir sua produção.
A RTC fez “escola”, sendo copiada pelas
emissoras educativas de todo o país. Deixou para trás
o lado instrumental da educação e buscou criar novas linguagens
que pudessem atingir as pessoas diretamente. Conseguiu quebrar
o tabu da educação televisiva brasileira. Por muitos anos,
o meio não explorava o seu potencial. Aulas enfadonhas
eram veiculadas e os alunos obrigados a assisti-las sem nenhuma
motivação. A Cultura demonstrou, através da programação
voltada para as crianças
e adolescentes, que é possível falar a sua linguagem, utilizando
seus símbolos e captando sua atenção.
Este trabalho procurou
pontuar qual era o papel de uma emissora pública em relação
aos documentários e aos programas de informação. A verticalização
da sociedade também é representada nos meios de comunicação.
Durante o regime militar, na década de 60, a mídia eletrônica
conquistou enorme importância, interligando o país
de norte a sul, mas criou um
novo sistema que favoreceu aos empresários do setor, que passaram
a controlar a informação para a população. A tevê ganhou um grande impulso e as redes se formaram,
levando a ideologia
dominante, verticalizando ainda mais o sistema. Eles
viram na televisão o grande salto para a educação em massa,
sem nenhuma preocupação com o conteúdo ou a recepção.
A tevê possui uma riqueza
simbólica. Consegue atingir de forma igual jovens e idosos.
Seus signos mexem com o interior das pessoas. Estão próximos
dos acontecimentos e relatam
com autoridade. O jornalismo ainda detém, por parte dos
espectadores, um certo grau de respeito, pois, caso contrário,
as pessoas não o assistiriam todos os dias. Ele tornou-se
um verdadeiro ritual, como Pross afirma.
A fase que a Cultura enfrentou, com problemas
de caixa, é vista como uma ameaça para o seu modelo
de produção. A demissão de centenas de funcionários causou
uma perda de fôlego, não na produção atual, mas nos programas
que seriam lançados no futuro. Ela tem de criar mecanismos
para se manter livre dessas influências de mercado. É necessário
torcer e agir para que não decaia a qualidade.
O desafio é grande,
porque a concorrência, a cada dia, mais aumenta, com o lançamento
de novos canais e programas. Isto tudo cria novas expectativas
para o público, principalmente quem tem mais informação, que
irá experimentar a novidade. Um dos caminhos que a televisão
está seguindo é o da segmentação. Este deve abrir possibilidades
para os grupos organizados elaborarem um trabalho, visando
ajudar as pessoas da sua região. Essa segmentação abre espaço
para os canais comunitários de tevê, que – inclusive no Brasil
– podem ser usados por qualquer grupo que tenha uma proposta
para o vídeo.
A Cultura precisa ter
sensibilidade para analisar o mercado, não esquecendo que
também está inserida nesse processo. Não existe meio termo
com o sistema. Ou a empresa viabiliza
produtos que se adequem a ela, ou estará condenada a
ficar à margem da comunicação. Muitas experiências no país
fizeram com que emissoras superassem problemas de capital
ou falta de público.
Por outro lado, a emissora
demonstrou um novo fôlego ao resolver sair ao mercado em busca
de recursos. Foram buscar onde havia capital, ou seja, com
a indústria, bancos e grandes empresas. Todos têm algo a falar
ou a divulgar sobre seus
produtos ou serviços. O que a emissora fez foi coordenar as
vontades e colocar no ar a imagem desses “colaboradores”.
Esse ímpeto e visão empresarial é o que a tevê pública deve
ter. Não é necessário que apenas os canais abertos tenham
direito às verbas publicitárias. Elas devem estar à disposição
de quem demonstre competência e criatividade para lançar idéias
novas. A emissora pública não deve é se submeter ao jogo de interesses, que, muitas vezes, estão
juntos das grandes contas publicitárias. Não pode abrir
mão do seu ideal e das propostas que norteiam a educação.
* Doutor em Comunicação
e Semiótica PUC-SP, professor da Universidade de Taubaté (UNITAU)
e Universidade Santa Cecília (Unisanta), de Santos.
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1
Carlos Eduardo Lins da Silva, Muito além do Jardim Botânico.
2 Ciro Marcondes Filho,
O capital da notícia: jornalismo como produção social da
segunda natureza.
3 Marketing cultural
e comunicação dirigida, p. 216.
4 Op. cit., p. 216,
218 e 219.
5 Op. cit., p. 223.
6 Revista Imprensa,
maio 1996, p. 12.
7 Op. cit., p. 227
e 226.
8 Op. cit., p. 219.
9 Muylaert, op. cit.
10 O Estado de S.
Paulo, caderno 2, 13 abr. 1995, p. G14.
11 Folha de S. Paulo,
cad. Ilustrada, 11 jan. 1995, p. 5-3.
12 Folha de S. Paulo,
cad. TV Folha, 8 nov. 1992, p. 7.
13 Jornal da Tarde,
13 mai. 1995, p. 6).
14 Folha de S. Paulo,
cad. TV Folha, 11 jun. 1995, p. 6.
Introdução
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