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A
Televisão na Era da Globalização
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ALEGORIAS
VIDEOGRÁFICAS: A COLAGEM COMO MÉTODO MNEMÔNICO
Natalício Batista
Jr.*
Os
modernos: onde tudo começou
O século XX nos
forçou ver. Ver o que é exaustivamente reproduzido
pelas fotografias, telas de cinema, pelos terminais de TV,
pinturas, cartazes, outdoors, computadores… Como se
todas as coisas fossem condenadas, antes de sua natureza
intelectiva, à brevidade e superficialidade do visível.
Tudo rapidamente se transforma em imagem, preenchendo as retinas
dos indivíduos. Hoje, a imagem videográfica parece atravessar
todas as atividades das artes visuais. Ela está no
cinema, no teatro, na animação, como na sala de visita e no
computador doméstico. Contudo, este prazer
de acompanhar imagens, de apreender mimeticamente o
mundo é antigo, vem das cavernas e teve no século XIX, após
as revoluções francesa e industrial, lado a lado com as trocas
capitalistas e oscilações do mercado.
Em nosso século, quando
uma imagem aparece, outra é apagada, obliterada, superada.
É o resultado de um mundo apaixonado pela mercadoria, pela
oferta de produtos em lojas, ruas e televisores. Uma contemporaneidade
fetichista, que, como viam os modernos, dotava os objetos
de uma dimensão simbólica, pois estes se disseminavam em cópias
e falsificações, que numa correspondência espiritual asseguravam
os indivíduos na instabilidade do mercado capitalista. É na
brecha de uma imagem e sua reposição que a memória dos indivíduos falha, vacila e
cria lapsos. Pois, para estarmos em dia
com a história pessoal ou coletiva, temos sempre que criar
mecanismos artificiais de memorização, de apreensão do visível:
tiramos fotografias, produzimos filmes, assistimos todos os
telejornais para estarmos atualizados.
A experiência do audiovisual (fotografia,
cinema e vídeo) tem
sido uma espécie de prótese ocular contra o esquecimento
dos objetos e fatos. Eles “lutam” para eternizar aquilo que
registram, mas, por outro lado, o apreendido
é logo esquecido, sendo substituído por uma outra imagem,
ou mesmo uma imagem daquela. Hoje, a imagem videográfica
aparece de certa forma
como grande protagonista desta história. Como um atravessador
das artes visuais,1
a colagem videográfica diferente da fotografia e do cinema,
agrupa fragmentos de meios distintos, sem reduzi-los, ou encadeá-los
numa narrativa lógica (montagem
einsenstaniana). Ou mesmo, não implica num saudosismo
fotográfico, de uma imagem para sempre distante, uma lembrança
fugidia. Para Bellour, o vídeo ao se utilizar do acervo das
belas artes, da fotografia, do cinema etc. em suas trucagens
e sobreposições eletrônicas, acaba renovando e levando adiante
a memória visual contemporânea. Pois, muitas imagens como
a da 1ª e 2ª guerras mundiais só foram disseminadas pela televisão, visto antes
já terem sido fotografadas e capturadas pelo cinema.
Ele fala, ainda, de uma dupla memória: um certo comprometimento
histórico do vídeo de acompanhar a experiência social, traduzi-la
e memorizá-la, sempre operando como espaço de passagens
entre uma antiga e uma nova mídia, ou entre as imagens que
ele próprio produziu. Se procurássemos um sentido, diríamos
que lutamos contra o esquecimento da última imagem e experiência
que passou. Vemos cada
vez mais imagens para talvez não termos certeza que
de fato esquecemos e que o tempo envelheceu. Cada nova imagem
traz em si uma outra, como também o signo de sua própria destruição.
Experiência
e memória
É bem verdade que a
modernidade alterou as relações pessoais entre os indivíduos,
reduzindo-as a uma artificialidade de
encontros sociais e ritmos de trabalho. Nas cidades, a agitação
gera desencontros entre as pessoas, bem como o mundo já não
se faz conhecer apenas pelos livros, ou histórias contadas.
Fragmentam-se as relações, aumentando os mecanismos de apreensão
dos objetos, pessoas e fatos.
O homem da cidade grande
retratado por Walter Benjamin era um duelista da multidão,
acostumado às estocadas e choques. Ele tinha para Benjamin
mais consciência que memória, porque as surpresas das situações
cotidianas alteravam significativamente a sua sensibilidade.
É que no meio do tráfego urbano e da reprodutibilidade técnica,
os indivíduos desenvolveram mais a capacidade de percepção
do que lembrar. Pois,
na descontinuidade da vivência, o fortalecimento da
percepção através de próteses tecnológicas
(automóveis, locomotivas, telégrafos, máquinas industriais,
fotografias, cinema…) era imprescindível para interceptar
os choques, fortificando os sentidos do homem.
Mas, se o mundo moderno
concentrava-se na consciência
do imediato, a memória, base da experiência, perdia todo o
contato com a tradição e com isso transformava os indivíduos
em vítimas de uma “amnésia”.2
Como resultado, a experiência cultural (esse conjunto de conhecimento
e modificações que o exercício prático ou mental traz às faculdades,
que podem ser diretos ou intuitivos, não apenas racionais
dos indivíduos), ou melhor, a vida cotidiana, mune-se, se
arma cada vez mais de signos, simulacros os mais diversos
dos objetos do mundo.
Ser cidadão era conviver com a fugacidade
dos contatos sociais e principalmente, com a reposição
contínua de imagens
nas ruas, vitrines, jornais e revistas. Viver era também se
adaptar à congestão de nossas retinas, ao prazer provocado
pelas imagens, pelo
poder de vê-las e tocá-las em suas reproduções. Agora,
a tradição cultural – tanto a oral, contada pelos antepassados,
quanto a escrita pela história oficial – recebe a influência
de uma civilização entregue a suas alegorias, às teias de suas próprias imagens.3 Se na oralidade, o nome
como o ato de contar perpetuavam e atualizavam a memória
da comunidade e mesmo, na tradição ocidental da escrita, onde
a linearidade histórica do texto servia
de interpretações para as gerações futuras, o contemporâneo
imaginário social de fotografias, filmes e imagens eletrônicas
traz uma atividade mnemônica associada cada vez mais ao fluxo
irrestrito do inconsciente, da infância e do caráter emocional
das imagens.
É como se o memorialista
de hoje desse trégua ao que é dito, ou lido, assumindo a trama
de suas lembranças: algo já foi recordado em fotografias,
emoções já foram provocadas pelas imagens cinematográficas,
sem falar na paixão aurática pelos astros de cinema e programas de TV…
Memória é assim, como em Walter Benjamin, um conjunto
de impressões, que a solidão e imaginação do artista transformam
em imagens, que passam se cruzar na paisagem moderna. E quando
transforma em imagens, mais do que simbolizar ou conceituar
(a ação do homem de gênio), elas condensam
apropriações, referências de épocas e estilos diversos.
Para Benjamin, inspirado no poeta francês Charles Baudelaire,
esse memorialista tem os olhos da criança, aquela dos nervos
fracos e da sensibilidade, que a razão ainda não endureceu.4
É que os indivíduos e poetas vivem sob o signo da melancolia,
pois os objetos desvalorizados pela moda e publicidade continuam
a reivindicar significações. Não é à toa aparecer a figura
do colecionador no final do século XIX. Segundo Walter Benjamim,
é ele que tem um jeito próprio de organizar seus objetos.
Estes estão repletos de recordações. Seu trabalho e paixão
nos “põe em contato
com a desordem das lembranças, com a tensão interior
entre a ordem e a desordem”.5
Ele provoca uma descontextualização, que no desafio espaço-temporal
recoloca os objetos em
diferentes ordens de signicação, como a própria técnica de
alegorização barroca: deslocar os objetos. Porque deslocando,
os colecionadores e memorialistas apontam uma imaginação criativa,
não uma memória retrospectiva, mimética e biográfica. Eles
apreendem impressões infantis, percepções, como a própria
vivacidade do tempo. Benjamim ao evocá-los, intui uma modernidade, onde todos os materiais
congestionam a memória. Onde a criação é resultado
de uma tensão, de uma luta voluntária, que faça justiça a
todos os pormenores de uma multidão de sinais. Uma modernidade
que não significa a perda de seus mitos pelo progresso tecnológico
(Weber), mas que engendra fantasmagorias e sonhos.
Tudo, portanto, é lembrado
através dos envolvimentos que tivemos com certas imagens.
Tudo é submetido à lógica do
entretenimento e da diversão disseminada pela cultura de massa.
Não que a oralidade e a escrita deixem de constituir representações e vozes, mas é que um indivíduo
imerso numa cidade labiríntica de cartazes, painéis
eletrônicos, fachadas e principalmente sendo ele um cidadão-espectador,
o que de fato poderia se lembrar? Qual mecanismo que melhor
ajuda suas recordações?
Sem dúvida são perguntas
amplas, que encontram respostas na variedade de revivals
e saudosismos da atualidade. Remakers de filmes, a
regravação digital de músicas e composições do passado, a
revalorização das fotografias em preto e branco com o uso
de procedimentos antigos de revelação. Na moda, há a volta
de peças do vestuário antigo, como a arquitetura e decoração
ressuscitam materiais, formas e móveis. Mas, é o vídeo quem
mais cruza imagens, que devolve legitimidade a outras já esquecidadas
do cinema, fotografia e pintura.
Seja ele talvez, o que mais atualiza a memória visual, pois
precisa sempre de imagens pré-gravadas para suas transmissões,
como se sempre se inspirasse no espírito do colecionador barroco.
Memória
da matéria: o alegorista e o colecionador
Se a matéria era para
o pensamento cartesiano, o fracasso,
pois recuperava o tempo, a infância, o inconsciente e o antigo,
a colagem videográfica só confirma a vitória dos últimos.
Se a meta iluminista do controle da natureza, do esclarecimento
e da verdade encontraram pela montagem clássica quase uma
metáfora, a colagem se aproximaria do poeta-alegorista,
e mesmo do colecionador com sua paixão barroca.
O poeta-alegorista
é sem dúvida Charles Baudelaire, fala Walter Benjamin. Sua
mercadoria poética sofre a própria experiência do choque,
da degradação das coisas. Mas é como alegorista e mímico,
que ele se arma, se muni de uma certa inautenticidade, de
pura aparência. “ Ele lança mão de uma simulação lúdica, travando
a luta – de antemão perdida – contra o aparato da degradação
”.6
Porque a alegoria,
essa profusão e condensação enfática de
fragmentos, era a própria expressão da dialética: expansão
e ausência de liberdade, dispersão e acúmulo
de pormenores. Em O drama barroco alemão, Walter
Benjamin vê a fonte de inspiração alegórica no duelo do desejo
da eternidade e a consciência aguda da precariedade do mundo.
Enquanto o símbolo ressalta o sentido eterno e direto
daquilo que nomeia ou apresenta, a alegoria persiste
(...) na temporalidade e na
historicidade para construir significações sempre transitórias.
(...) insiste na sua não-identidade essencial, porque a linguagem
sempre diz outra coisa (allo-agorein)
que visava, porque ela nasce e renasce somente dessa fuga
perpétua de um de um sentido último. A linguagem alegórica
extrai sua profusão de duas fontes que se juntam num mesmo
rio de imagens: da tristeza, do luto provocado pela ausência
de um referente último; da liberdade lúdica, do jogo que tal
ausência acarreta para quem ousa inventar novas leis transitórias
e novos sentidos efêmeros.7
E quando Benjamin reinterpreta
a alegoria barroca, esta recebe
o signo da caducidade e da fragmentação. Ela era utilizada
por Baudeleire poeta, como o mecanismo moderno de superar a desvalorização dos objetos pela
moda e publicidade. E mais, era o sinal de uma crise
nas artes (principalmente plásticas)
provocada pelo desenvolvimento tecnológico e pelo fortalecimento
do capital industrial.
Ao traduzirem essa
dialética barroca na paisagem urbana, Charles Baudelaire e
Walter Benjamin encontram o glamour e a decadência, lado a lado. Seus textos
não reivindicam o progresso, nem o compromisso de um
projeto utópico de cidade ou história. Para eles, o importante
era o presente e suas várias aparências.
O papel do alegorista
e do colecionador é aqui, fundamental.
Eles reconhecem a cidade como escrita polifônica, de combinações
de fragmentos e resíduos. Nas ruínas e alegorias do
passado, esconde-se o repertório, não apenas pessoal, mas
coletivo, mitológico e histórico. Era a própria formação do
modelo de historiografia barroca.
O que se quer delinear
é a possibilidade de aproximações: uma vídeo-colagem como
composição alegórica do tempo. Sob esse método, a colagem
no vídeo se transforma numa espécie de “viagem ao passado”.
São fragmentos e lembranças de matérias, que além das associações
pessoais (o espectador e seu repertório), trazem o que há
de histórico e coletivo – como a trajetória da imagem no
Ocidente. Mas, é entre
a experiência particular e a coletiva, que o vídeo aparece.
Algo como uma microcomposição de interpretantes.
Ora, se a colagem guarda
escondida esse alegorista é porque no vídeo queremos mais
dissonâncias: fragmentos, detalhes
inacabados de matérias. E retornando o memorialista benjaminiano,
seu texto era a consciência biográfica e histórica do presente,8
assim como no vídeo: seu compromisso com a atualização da
imagem. Daí a matéria (imagem) ser pura tensão no vídeo: é
ao mesmo tempo tempo fragmento (um pormenor significante),
mas também passagem para outra natureza matérica, quem sabe
maior (sem dúvida a própria arbitrariedade do signo). O que
importa aqui, não é necessariamente o que recordar, mas a
tessitura da recordação.
Se o mundo cartesiano,
geometricamente confortável e assimilável, se deixou flagrar
em jogos e desencontros em uma Rua de Mão Única, como
escreveu Walter Benjamim, o contemporâneo é muito mais congestionado.
É porque na obsessão de traduzir seu pensamento, sua verdade
e Razão, o homem cartesiano se perdeu em imagens, e como resultado,
restou o esquecimento das figuras, rostos,
paisagens e lugares.
A
colagem videográfica: esquecimento e memória
Se cada mecanismo plástico
consegue condensar uma fratura de tempo, ou mesmo de uma época,
não é novo que o vídeo (e suas extensões) seja, hoje, essa
espécie de reflexo compulsivo de práticas e inteligências
contemporâneas. A atualidade não se deve apenas à técnica,
ou à máquina em si. O vídeo traz inevitavelmente uma revisão
teórica, e mesmo perceptiva das imagens no mundo moderno.
É como se nele a fotografia, o cinema, a pintura e
todas as demais representações visuais questionassem sua natureza
constitutiva, aparecendo sempre sob uma transversalidade.
Trocando em miúdos: no vídeo as demais artes se despem
da natureza ontológica, pois são sempre rasura, trucagem,
efeito especial, sobreposição.
A colagem videográfica
é um bom exemplo desta destituição ontológica da imagem. Ela
é um termo apropriado das vanguardas experimentais como o
dadaísmo, o futurismo (a colagem tipográfica italiana) e o cubismo,
que provocava uma desconstrução no dogma perspectivo
renascentista. Ao relacionar
vídeo e colagem não se quer reduzi-lo a tal mecanismo enunciativo.
Podemos ainda verificar peças videográficas, que apresentam
narrativas e enunciações lineares.
Com o vídeo, a colagem não apenas exagera
sua potência enganosa, ela também reata cada fragmento
ou trecho de imagem à natureza de sua origem. Como se na tela
fossem apenas deixados traços e vestígios de uma possível
imagem-mãe. Aqui, o que importa é a possibilidade
de estabelecermos um mecanismo de memória. Espécies
de “recordações”, de “imagens-lembranças” que aparecem no cruzamento
das imagens, entre uma e outra. Uma memória coberta de impressões,
que cruza não apenas um repertório pessoal, mas coletivo.
A colagem numa edição
videográfica libera o produto final
(de ficção, jornalístico, ou artístico) de uma possível explicação
universal. Não se trata de uma direção, ou educação dos sentidos
pela articulação quase métrica de imagens e detalhes, rumo a uma precisão semântica, de
um sentido fechado e pré-articulado, final, formal
– fílmico.9
Há, pelo detalhe na
colagem, a memória da realidade matérica de origem. Como se
as imagens sempre atualizassem
a presença de imagens e objetos anteriormente apresentados
e percebidos. Uma tela que guarda aproximações com o alegorista
barroco. A aparente desordem ou desorganização
estrutural e sintática das imagens no vídeo significam antes,
justaposições que definem intervalos: tempo e memorizações.
Como resultado, uma ordem e interpretação sempre a
compor-se, a partir do (re)fluxo de imagens.
Sendo identificada
com ruído, caos, acúmulo desordenado de fragmentos e informações
de uma cultura mestiça e midiática, a colagem videográfica
não deve conduzir-nos à exigência de um significado totalizante,
de uma intencionalidade apriorística de um velho sujeito cartesiano.
Depois de vermos um
vídeo experimental, uma vídeoart, uma vídeo-instalação,
ou até mesmo parte da programação de uma TV comercial, resta-nos…
não sabemos bem ao certo. Sob um esforço, somos capazes
apenas de apontar trechos, sons, fragmentos de imagens e obras
conhecidas ou não. É como se uma leitura formal do texto fosse
sempre impedida, sufocada por um efeito de dispersão e, até
mesmo distração, que nos faz vacilar e oscilar no fluxo
de imagens. Uma descrição seria sempre vaga, abstrata, quase
rudimentar.
Cada fragmento de uma
edição videográfica frusta qualquer
tentativa de interpretação tradicional. Sistematicamente
falando, a leitura de uma colagem no vídeo é bloqueada sempre
que se estabelecer um sentido fixo, ou definitivo ao que se
vê. Não estamos mais no domínio da consagração do projeto
subjetivo (de autor) e formal do cinema tradicional, que pensa
o mundo, tematiza-o, conceitua e o devolve como filme. De
fato, o que se plasma no vídeo é a natureza do signo interpretante
da obra. Diferente da montagem, identificada com o produto
(um tema, que foi decupado, filmado e montado), a
colagem é essa permutabilidade enunciativa. Tudo não passa
de um processo.
Com a noção de interpretante
(um signo que interpreta outro, já sendo um outro), a obra
são estágios de interpretações
rumo a um signo final inatingível, mas que pode ser logicamente
determinado pela natureza de seu próprio objeto. Ou seja,
“todo interpretante, pela mediação do signo, é também mediatamente
determinado pelo objeto”.10
Por isso, justifica-se
que as as interpretações não podem ser reduzidas a
um mero subjetivismo, ou a um efeito psicológico.
De fato, a colagem
não reivindica valores morais, como no cinema clássico. Não
há uma intenção semântica bem estruturada, nem iluminista
e pedagógica, que reate fragmentos, ou imagens em conceitos
e significados, dignificando a obra. Não há nem mesmo, o objetivo
de torná-la inteligivelmente aceita. Há pelo contrário, a
usurpação de valores universalistas ou totalizantes.
A colagem, ao se apresentar
como uma sintaxe desordenada – (a)fluxo de imagens – de fragmentos,
ambiciona trazer a matriz, ou objeto primeiro, a que cada
fragmento alude. Para Philadelpho Menezes,11 o método colagístico
apresenta uma contraposição à natureza racionalizante
e intelectualizante da montagem. O autor acrescenta, ainda,
que essa espécie de simultaneidade informacional confere à
obra uma condição sensorialista e até sinestésica. Os materiais
dispostos constituem traços, uma natureza indicial,
e mesmo icônica.
Porque ao mesmo tempo
que se faz traço, o fragmento na colagem pode também falsificar,
ou esquecer sua matéria de origem. Melhor falarmos de uma
memória (lembranças e lapsos) da matéria. É a própria
exposição de natureza interpretante: uma disposição de sinais
visuais que refletem caleidoscopicamente, mais sinais, mais
imagens, mais signos.
E essa condição interpretante
é sempre transitória. Ela é uma semiose: troca e captura de
signos. Um sinal, ou qualquer elemento na tela submetido a
uma rotação exaustiva de repetição, ofuscamento e mesmo, dilatação,
não permanece muito tempo como um interpretante primário.
Logo ele será desalojado, transferido, substituído, até mesmo
subordinado a um novo conteúdo imagético.12
Teríamos sempre um
zapping, que não deixaria entender, gravar imagens
em nossa memória, ou mesmo dizer o que elas
significaram? A colagem estaria, então, condenada a uma mera
brincadeira, um simples recurso de estilismo? Se a imagem
perdeu o elo com o sagrado a partir da reprodutibilidade técnica,
se perdeu uma transcendência, é porque agora sua única
segurança é ela mesma. Ela é antes sua própria sagração. É
neste aspecto que a colagem videográfica, no compasso dessa
naturalidade artificial, não reivindica nenhuma síntese temática.
É como se a colagem trabalhasse na negação da montagem
clássica
do cinema, que tanto nos impressiona. Ela é um mecanismo
típico de espectadores acostumados com os
choques da cidade e surpresas visuais, com a desordem de nossas
lembranças, que tentam a todo momento resistir ao tempo através
de técnicas mnemônicas como o vídeo.
Mas, embaixo desse
agitado conglomerado de informações, sinais e esquecimentos,
sobraram uma visão e memória labirínticas. Condição feita
de citações, de lembranças e objetos
aparentemente desconectados. Essa talvez seja a explicação
para o saudosismo, revivals e nostalgias do espírito
pós-moderno.13 Pois, mergulhados em
tantos clichês, nada mais nos choca. Resta ao homem
reforçar o que existe de repertório.
Se o vídeo é a novidade em questão, se suas
imagens são sempre jovens, rápidas e aceleradas, ao contrário
do esquecimento, há também atualizações. Raymond Bellour14
fala de uma história das artes e imagens em constante revisão.
Ver e estar no vídeo talvez sintetize duas faces de uma moeda
– esquecimento e memória. Estas não podem ser pensadas separadamente,
constituem o próprio fruir do tempo. Só temos
desvios, só vemos imagens de imagens. O vídeo talvez recupere
esses estados, estabelecendo tempo e memória. Ele, por
princípio, já poderia dizer muita coisa.
* Jornalista,
mestrando em Comunicação e Semiótica (PUC/SP) e professor
das Faculdades Sant’Anna (São Paulo).
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BENJAMIN, Walter. “A
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técnica”. Em: ————. Obras escolhidas – Magia e técnica,
arte e magia. Vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1985, p.
165-196.
BOLLE, Willi. Fisiognomia
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CONNOR, Steven. Cultura
pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo. São
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GAGNEBIN, Jeanne Marie.
“Origem da alegoria, alegoria da origem”. Folha de S. Paulo,
9 dez. 1984, cad. Folhetim, p. 8-10.
————. “Baudelaire,
Benjamin e o moderno”. Folha de S. Paulo, 7 out. 1989,
cad. Letras, p. 4-6.
————. História e
narração em Walter Benjamin. São Paulo:
Perspectiva, 1994.
JAMESON, Fredric. Pós-modernismo
– a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo:
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LE GOFF, Jacques. História
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SANTAELLA, Maria Lúcia.
Teoria geral dos signos – semiose e autogeração. São
Paulo: Ática, 1995.
Notas:
1
Raymond Bellour, Entre-imagens; foto, cinema e vídeo.
2 Cf. Sérgio Paulo
Rouanet, “Por que o moderno envelhece?”.
3 Cf. Jacques Le Goff,
História e memória.
4 Cf. Jeanne Marie
Gagnebin, “Baudelaire, Benjamin e o moderno”.
5 Olgária Matos, “Desejo
de evidência, desejo de vidência: Walter Benjamin”, em: Adauto
Novaes (org.), O desejo, p. 301.
6 Cf. Willi Bolle,
Fisiognomia da metrópole moderna, p. 130.
7 Cf. Gagnebin, História
e narração em Walter Benjamin, p. 45.
8 Willi Bolle, op.
cit.
9 Philadelpho Menezes,
A crise do passado; modernidade, vanguarda, metamodernidade.
10 Maria Lúcia Santaella,
Teoria geral dos signos – semiose e autogeração, p.
86.
11 Philadelpho Menezes,
op. cit., p. 124.
12 Cf. Fredric Jameson,
Pós-modernismo – a lógica cultural do capitalismo tardio.
13 Steven Connor, Cultura
pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo.
14 “A dupla-hélice”,
em: ————, Imagem-máquina – a era das tecnologias do virtual.
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