A Televisão na Era da Globalização
 

DESAFIOS DA TELEVISÃO BRASILEIRA NA ERA DA DIVERSIFICAÇÃO

Edgard Rebouças*  

(...) a concorrência, longe de ser automaticamente geradora de originalidade e de diversidade, tende muitas vezes a favorecer a uniformidade da oferta, da qual se pode facilmente se convencer ao comparar os conteúdos dos grandes semanários ou das cadeias de rádio ou TV de vasta audiência.

Pierre Bourdieu

 

A televisão brasileira passa por um grave momento de transição. Corre o risco de se confundir no emaranhado de inovações tecnológicas por que passa o setor em esfera mundial. E o que tem a perder nesse jogo é algo muito caro, conquistado ao longo de 47 anos de vida: sua qualidade e respeito internacional. No entanto, não temos aqui a pretensão de profetizar nada a respeito do futuro da televisão no Brasil. Apesar do excessivo número de discursos pós-modernos e integrados, e da persistência de alguns apocalípticos, quando o tema envolve avanços tecnológicos, em nossa sociedade fin-de-sciècle, fica muito difícil traçar parâmetros em uma projeção de longo prazo.

O ser humano da terceira onda é muito volúvel e adaptável às novas mudanças que o envolvem. Fazer, pois, uma análise, por mais superficial que seja, sobre o futuro de algo ao mesmo tempo tão importante para a sociedade como fluido e mutável, como é o caso da televisão, arrisca a tornar-se ultrapassada ou contraditória em questão de, não falamos mais de décadas ou anos, mas de meses. Por isso, não zombem deste texto quando o estiverem lendo dentro de alguns poucos anos, como é feito com os antigos filmes de ficção científica reprisados nas sessões da tarde ou nas madrugadas de vários canais de TV a cabo e mesmo nas TVs abertas.

A televisão brasileira é uma das mais avançadas do mundo em termos de qualidade de seus produtos, não é à toa que exporta telenovelas para todos os cantos do planeta e fatura até vendendo seu know-how, como é o caso do sucesso internacional obtido pela Rede Globo com o programa “Você Decide”. Mas em televisão se reinventa muito também, desde os modelos norte-americanos de programas de auditório ou religiosos, passando pelo telejornalismo e chegando, por quê não, em sua principal bandeira: as telenovelas. No Brasil, a máxima – parafraseando Lavoisier e Chacrinha – de que em comunicação nada se cria, tudo se copia foi e é levada quase que ao pé da letra por todas as emissoras ao longo de 47 anos.

E está claro que diante da velocidade com que evoluem os sistemas de comunicação no mundo, os empresários brasileiros não iriam querer ficar de fora, perdendo assim o bonde da história. Os proprietários dos veículos de comunicação no Brasil têm acompanhado os acontecimentos com olhos atentos. Como todo o setor, nos mais variados países do mundo, a cautela é grande quando o assunto é investimento em novas tecnologias, mesmo porque no atual estágio de desenvolvimento e disputa de empresas norte-americanas e japonesas não há a mínima garantia de que o que é novidade hoje continue o sendo amanhã.

Com a tendência impulsionada pelos avanços tecnológicos de criação, em um futuro não muito distante, de um híbrido que reúna televisão aberta, a cabo e via satélite, Internet, telefone, fax, aparelho de som, correio, rádio, banco eletrônico, menu de restaurante e computador em um só aparelho; e ainda diante das fusões que estão sendo realizadas pelas grandes corporações internacionais dos mais variados setores das comunicações, o planejamento estratégico das empresas brasileiras as coloca no caminho de uma inter-relação nas áreas de telecomunicações, radiodifusão e informática.

Navegar é preciso, viver também é preciso. E no atual momento por que passa a televisão brasileira, o que parece mais importar é a forma, enquanto que no que diz respeito ao conteúdo, o barco vai ficando à deriva

Trajetória rumo ao topo do mundo

Neste texto teremos a oportunidade de discutir os desafios da televisão brasileira para o próximo milênio, mas, antes de entrarmos nas perspectivas do que tende a vir a ser a televisão no Brasil nos próximos anos, é necessária uma breve viagem no tempo para que o leitor menos atento possa compreender melhor o que aconteceu nos 47 anos de vida dessa senhora que tanto participa da vida dos brasileiros.

Ao contrário do que ocorreu na maioria dos países europeus, a televisão brasileira nasceu no berço do capital privado. Graças aos sonhos de um empresário do setor de comunicações, Assis Chateaubriand.1 E, de seus primeiros gritos em 18 de setembro de 1950 até hoje, ela não fez mais do que alimentar esse capital. Um aspecto bem característico no Brasil é que os que controlam os meios de comunicação não são grandes grupos de empresas anônimas, cujos interesses são basicamente comerciais, mas sim grupos familiares – Marinho, Civita, Bloch, Abravanel, Saad, Frias, Macedo, Mesquita, Sirotsky, Nascimento Brito e alguns outros espalhados pelo país – que controlam cerca de 90% de tudo que é visto, ouvido e lido por mais de 150 milhões de pessoas, sete dias na semana e 24 horas por dia.

Em um estudo sobre a televisão no Brasil, o professor da Universidade Federal da Bahia, Sérgio Mattos, divide esse desenvolvimento histórico em quatro etapas, levando em conta aspectos sociais, econômicos e culturais.2

A primeira delas é a que ele chama de “elitista”, que vai de 1950 a 1964, quando a televisão, pelo fato de um aparelho custar quase o preço de um automóvel, nos primeiros anos, não passava de um brinquedo de luxo das elites. Sua programação era basicamente uma transposição dos programas de sucesso das rádios, ilustrados por imagens destorcidas e embaçadas.

Apesar de a estrutura das emissoras ser familiar, a maioria dos programas era patrocinada por empresas multinacionais que atuavam no país. O forte da programação eram as telenovelas, adaptadas do rádio; os telejornais; também com o mesmo formato do rádio; e os shows humorísticos, comandados pelas estrelas do rádio. Enfim, a televisão não era mais do que um grande rádio com imagens. E é a isso que se credita o grande sucesso que o veículo obteve no Brasil.

Para se ter uma idéia do que representa esse fenômeno em números, basta analisar os dados da última Pesquisa Nacional de Domicílios, realizada em 1995 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nos quase 39 milhões de lares do país, fazendo um levantamento de quantos são equipados com determinados aparelhos domésticos.

     Quantidade

Utensílio ________ ______ _de lares     __    %

Telefone   _______________ 8.682.749   ____  22,3

Fogão       ____________ 37.554.280 _ _____ 96,4

Refrigerador _ _ ________29.149.373 ________74,8

Freezer       __________  5.994.169    ______5,4

Rádio        ____________34.606.922________ 88,8

Televisão   ___________  31.576.938   _____ 81,0

Total de domicílios      38.969.714        100,0

Fonte: PNAD 95/IBGE

Os números mostram que a quantidade de lares com aparelhos de televisão no Brasil é mais do que onze vezes a população do Espírito Santo. Mas, mesmo assim, continua perdendo para o rádio, o que não quer dizer – contrariando a visão de alguns teóricos – que o rádio continua sendo o mais abrangente instrumento de comunicação de massa. Vale lembrar que o número de rádios em uma casa é maior do que o número de televisores. Por outro lado, a pesquisa não se refere ainda à quantidade de aparelhos de rádio instalados em automóveis. Mas deixando essa série de considerações estatísticas de lado – já que dão margem até para um outro trabalho –, voltemos a esse extenso parêntese que foi aberto. Segundo os dados do IBGE, isso sim nos interessa mais, o número de lares com aparelhos de televisão no Brasil é maior do que os que têm refrigeradores, e quase quatro vezes maior do que o número de redidências com linhas telefônicas. Fecha o parêntese.

Foi nos anos 60 que o poder tradicional das famílias detentoras do oligopólio da comunicação brasileira conheceu sua mais grave ameaça. O empresário Roberto Marinho, um dos membros do restrito clube, então proprietário de um dos maiores jornais do país (O Globo) e de uma rede de estações de rádio em vários estados, assinou secretamente, em 1962, um contrato com o grupo norte-americano Time/Life Inc. para a instalação de uma rede de televisão no Brasil sob os modelos da NBC e da ABC.

A possibilidade de um confronto entre o tradicional modelo familiar de administração dos meios de comunicação com a potência do capital norte-americano3 criou uma rede de inimigos em torno do grupo Globo. O conflito se agravou com o início das transmissões da TV Globo, em abril de 1965.

Com a desculpa de que a cultura brasileira não poderia ser dominada pelo capital estrangeiro, o Congresso Nacional instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o caso Globo-Time/Life. O senador João Calmon ergueu a bandeira das acusações, mas, atrás de seus argumentos nacionalistas em defesa da Constituição existiam suas funções de presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e de Televisão (Abert) e a de diretor do grupo dos Diários Associados, de propriedade de Assis Chateaubriand.

O ex-diretor de programação da TV Globo, Walter Clark, conta que “o Time/Life, na verdade, tinha financiado a construção do prédio do Jardim Botânico [sede da TV Globo] e a compra de câmeras, videoteipes [sic] e equipamentos de estúdio”.4 Após a CPI, os norte-americanos, insatisfeitos de verem seus nomes associados a casos obscuros, pararam os investimentos. Atualmente, o Grupo Globo mantém associações com empresas dos gigantes da comunicação Silvio Berlusconi (Finninvest) e Rupert Murdoch (News Corp.).

Independente da posição do grupo Time/Life, o governo militar, em 1967, deu fim à CPI. Eram necessários aliados nos meios de comunicação para ajudar a esconder o período mais negro que assolava o país, com uma ditadura que duraria 21 anos, e a Globo soube muito bem fazer seu dever de casa. Quem não seguia o ritmo da banda era obrigado a abandonar o mercado, como o exemplo da TV Excelsior, fundada em 1959 e cassada em 1970.5

Estamos agora na fase a que Sérgio Mattos e Sérgio Caparelli chamam de “populista”, que vai de 1964 a 1975. Esse período é marcado pelos incentivos e subsídios dados pelo governo para a importação de equipamentos para as emissoras e pela ampliação do sistema de telecomunicações, o que permitiu a expansão das redes nacionais de televisão. Em troca, vinha a garantia do apoio às medidas governamentais.

E, para atender a um público que se multiplicava a cada dia, as emissoras recorreram a uma programação mais popular sustentada no modelo “telenovelas/seriados norte-americanos/shows de auditório”.

A terceira fase é a do “desenvolvimento tecnológico”, que vai de 1975 a 1985, quando as emissoras passaram a se preocupar mais com a qualidade de seus produtos, principalmente a Rede Globo, que instituiu até um chamado “padrão Globo de qualidade”, seguido pelas demais empresas, já que as inovações fizeram com que o gosto do telespectador ficasse mais refinado.

É durante essa fase que a produção de telenovelas ganha mais força. E como a indústria cinematográfica nacional não conseguira sobreviver à ditadura, os ícones de sustentação do imaginário popular eram construídos pela televisão. É dessa época que vem o que se registra até hoje: um grande ator ou atriz só é reconhecido no Brasil se fizer telenovela. O mesmo acontece com diretores e técnicos.6

A quarta fase por que passou a televisão brasileira, segundo Sérgio Mattos, foi registrada de 1985 a 1990. Ao mesmo tempo que o país atravessava uma transição política, com o fim da ditadura militar, uma nova Constituição e a eleição de um presidente da República pelo voto direto, a televisão se viu também em um momento de “transição e expansão internacional”. No que diz respeito a seus laços com o poder, no entanto, nada foi mudado, muito pelo contrário, passou a exercer seus serviços em favor daqueles políticos que mais se afinavam com os interesses dos grupos de comunicação.7 Essa fase é marcada também por uma melhor gestão na exportação da produção nacional, com a ampliação do mercado consumidor de telenovelas para mais de 80 países.8

Em um dado momento, a Globo passa a ser considerada a quarta maior televisão do planeta, só perdendo para as norte-americanas ABC, CBS e NBC, sem contar a japonesa NHK, que pode ser considerada como hour-concours.

Já o pesquisador Ciro Marcondes Filho, professor da Universidade de São Paulo, divide a evolução da televisão brasileira em apenas duas fases – dos anos 50 aos 70, que ele chama de “surgimento e rejeição”, e a partir dos anos 80, que é chamada de “supremacia e autocentramento”. Dentro de seu conceito de “segunda fase”, podemos ver que considera que esse momento ocorre a partir da mudança de posição das emissoras de não mais somente retransmitir fatos, não mais servir como meio, mas como produtora cultural.9 Ele cita inclusive Umberto Eco, quando este diz que a televisão transforma-se de “um veículo de fatos (considerados neutros) em um aparato para a produção de fatos, de espelho de realidade a produtor de realidade”. Esse é um retrato fiel da televisão brasileira nesse período.

A partir de 1990 podemos dizer que a televisão no Brasil entrou em seu quinto momento, que chamaremos de a “fase da globalização”. A partir daí as preocupações com a influência das produções norte-americanas passam a ser colocadas de lado, já que há um reconhecimento por parte do telespectador e do mercado de que a produção nacional é de alta qualidade. Mas isso não basta para conter a enxurrada de emissões diversificadas que chega com a entrada das TVs a cabo nas grandes cidades. Os mesmos efeitos da segmentação da televisão que foram registrados nos Estados Unidos na década de 70, se repetem no Brasil com uma defasagem de vinte anos.

O curioso é que isso parece não preocupar, em um primeiro momento, os proprietários e programadores das emissoras generalistas. Em certos pontos, a prepotência do brasileiro faz com que cometa erros quase que irreparáveis no futuro. Os mantenedores do oligopólio das comunicações no país apostaram nas dificuldades econômicas e sociais da população como fator de garantia da fidelidade às redes nacionais em broadcasting. De fato, não houve o anunciado boom da TV a cabo como ocorreu na América do Norte e na Europa dos anos 80, mas o público formador de opinião, que teve acesso ao cabo ou às antenas parabólicas de banda C, passou a ficar mais seletivo e crítico em relação às emissões das TVs abertas.

Os dados ainda não são alarmantes, no entanto já estão fazendo pensar melhor os responsáveis pelas redes nacionais – Globo, Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), Manchete, Bandeirantes e Record. Em uma pesquisa realizada na cidade de São Paulo em agosto de 1996, junto a assinantes de TV a cabo, o número de pessoas que passaram a assistir menos à TV generalista é de 9,5%, enquanto 3,6% assistem menos a telenovelas.

As emissoras começam a se ver em um ponto de transição, mas o que seria um grande problema em outros países, no Brasil é solucionado da mesma forma como o poder é tratado desde os tempos da colônia. Rapidamente os grandes grupos de comunicação obtiveram uma série de facilidades governamentais para a obtenção de autorizações para operarem as TVs a cabo e retransmissões via satélites. Se associaram a grupos internacionais de TV por assinatura, mantendo um capital de 51% das ações (limite mínimo estabelecido por lei) e todos continuam felizes para sempre. A diversificação das comunicações, ou como alguns preferem chamar: “convergência”, encontrou seu jeitinho brasileiro.

Interatividade como saída?

Quando o ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger, falava, em seu texto “revolucionário” de 1970, “Baukasten zu einer Theorie der Medien”,10 de uma espécie de caixa de ferramentas para construir uma nova teoria democrática da comunicação, não imaginava que no fundo estava escrevendo certo por linhas tortas. Para Enzensberger, a concepção de um modelo democrático de televisão naquela época, preencheria o espaço deixado pela falta de uma teoria e uma prática marxista sobre o assunto.11 Sua proposta era centrada sobre a abordagem de “integração” ou de “recuperação” da razão pública perante a “manipulação” da mídia. Ele elaborou, dessa forma, dois esquemas opostos de utilização da televisão:

Uso repressivo                                Uso emancipador

Programa de controle centralizado                                Programas descentralizados

Um transmissor, muitos receptores                                Cada receptor, um transmissor em potencial

Imobilização de indivíduos isolados                                Mobilização das massas

Atitude passiva do consumidor                                Interação dos participantes (feedback)

Processo de despolitização                                Processo de aprendizagem política

Produção feita por especialistas                                Produção coletiva

Controle por proprietários                                Controle socializado por burocratas ou auto-organizações

 

Algum tempo depois, ele próprio reconheceu a fragilidade de seu modelo e mudou de opinião em textos menos “revolucionários”. A característica ingênua dessa concepção de Enzensberger começava pela ilusão de que com a troca do controle dos meios de comunicação seus conteúdos seriam “melhorados” ou “humanizados”. A mídia democratizada “passaria a ser uma ‘técnica de socialização de novos conteúdos ideológicos’ e essa técnica seria revolucionária em si mesma”.12

Dessa forma, Hans Magnus Enzensberger propunha, com sua auto-organização, a abordagem de uma comunicação onde cada um fosse, ao mesmo tempo, emissor e receptor. Mas, se observarmos a afirmação de Jean Baudrillard,13 de que as trocas no ato de comunicar não podem ser feitas por meio do diálogo e que os meios de comunicação de massa acarretam uma “não-comunicação”, a teoria emancipadora de Enzensberger chegaria a um impasse,14 pelos menos naquela época.

Mas o impasse permanece, e se torna até mais complexo quando, no fundo, podemos ver que a teoria do ensaísta corre o risco de vir a dar certo, graças às possibilidades tecnológicas vislumbradas para os próximos anos. O instrumento ideal para ampliar qualquer reflexão é a eminente união da televisão com o computador, que alguns teóricos mais integrados já estão chamando de telecomputer ou mesmo teleputer. O paradoxo está no fato de que um dos mais reacionários profetas sobre os meios de comunicação, George Gilder, venha, vinte anos depois, ratificar as pretensões de um dos mais apocalípticos pensadores do anos 60 e 70 na busca de uma democratização da televisão. O discurso do ex-assessor de Ronald Reagan e George Bush, famoso por suas posições contra os movimentos sociais, de negros e feministas, em seu livro de 1990, Life after television, parece ter sido escrito pelo próprio Enzensberger de anos atrás:

As redes de computadores respondem a todas as características humanas que as redes de TV desafiam. Elas permitem a interatividade de pessoa para pessoa, em lugar de transmissões top-down. Em vez de poucos “canais”, as redes de computadores oferecem tantas conexões potenciais quantas são as máquinas interligadas à rede. Em vez de um sistema em que poucas “estações” despejam imagens em milhões de terminais burros em tempo real, as redes de computador põem o cliente no comando, sem aceitar passivamente o que está no “ar”, mas procurando ativamente o que lhe interessa e até moldando as preferências do cliente.15

E volta a atacar mais adiante: “A força da microeletrônica acabará com todos os monopólios, as hierarquias, as pirâmides e as redes de poder da sociedade industrial estabelecida”.16

Gilder ainda usa como base de suas afirmações uma declaração do hoje megaempresário, dono da Microsoft, Bill Gates, datada de 1985, explicando porque preferia investir no ramo da informática: “A televisão é um entretenimento passivo. Estamos apostando que as pessoas querem interagir, escolher caminhos diferentes e obter feedback da máquina sobre o que realmente aprenderam”.17

O que tanto Gilder, como Gates parecem não levar em consideração é que a passividade do ser humano não se dá somente pela falta de opções, mas pela falta de um espírito participativo e empreendedor. E quando transportamos isso para o Brasil vemos que as afirmações de Baubrillard, sobre o fato de a sociedade estar “à sombra da maioria silenciosa”, permanecem mais vivas do que nunca. E não é a simples aquisição de um aparelho interativo, como esse possível “telecomputador”, que vai alterar o estado de passividade do receptor.

Longe de querermos afirmar que tal mudança de comportamento em relação à televisão, seja ela um instrumento de uso pessoal ou coletivo, não vá ocorrer no Brasil. Mas não podemos ser levianos em profetizar que isso se passe como uma revolução, movendo telespectadores a deixarem de simplesmente assistir a suas telenovelas para interagir com elas. Processos como esse são lentos, ainda mais em um país subdesenvolvido que conta com mais de trinta milhões de analfabetos.

Com a garantia de que o padrão de qualidade de seus produtos e a fidelidade da audiência serão mantidos, ao menos pelos próximos cinco anos, a ordem agora nas empresas de comunicação é investir na transição para a próxima fase da breve história da televisão brasileira: a da “diversificação”.

Neste momento, após a febre da globalização, os detentores do oligopólio voltam seus planos estratégicos na direção de uma inter-relação com os demais agentes desse ágil mercado. Os grupos familiares estão sendo obrigados a associarem-se com bancos, construtoras, fundos de pensão de empregados de estatais, novos ricos e principalmente com empresas internacionais de telefonia e de informática. Grandes consórcios estão sendo formados para que consigam garantir um espaço nos futuros conglomerados de diversos setores das comunicações. Com isso, empresas que trabalhavam exclusivamente com televisão generalista pretendem diversificar suas atividades nas áreas de telefonia móvel e fixa, miniparabólicas, TV a cabo, MMDS, satélite, Internet, pagers, fibra óptica, rastreamento de rodovias, enfim, toda uma gama de produtos e serviços que tendem a se unificar até a virada do milênio.

A disputa maior fica por conta do grupo da família Civita com o da família Marinho. Em algo que poderia ser chamado de “Guerra nas Estrelas à brasileira”, durante um período de pouco mais de um ano – do final de 1995 a meados de 1996 – foram registradas altíssimas transações logísticas, políticas e financeiras que passaram desde a abertura de galerias subterrâneas em 16 bairros do Rio de Janeiro até uma festa para 100 convidados em Cape Canaveral, na Flórida, para o lançamento de um foguete de última geração. O primeiro exemplo citado é relativo ao acordo da NET Brasil – braço da Rede Globo para a TV por assinatura – com a prefeitura da emburacada e empoeirada Cidade Maravilhosa para cabear regiões com população entre as de maior poder aquisitivo do país. O segundo, se refere ao lançamento do satélite Galaxy III-R, no qual a TVA – do Grupo Abril (Civita) – tem parceria com a Multivisión, do México, a Venevisión, da Venezuela, e a Hughes Communications. Como não conseguiu ir por terra, o Grupo Abril optou pelo espaço para chegar aos lares dos brasileiros, utilizando a recém-criada tecnologia de transmissão direct-to-home (DTH).

Para não ficar de fora dessa corrida espacial, a Rede Globo se apressou em fechar um acordo milionário com a News Corporation, de Rupert Murdoch, a mexicana Televisa e a TeleCommunications Inc. (TCI) para a utilização do Pan AmSat 3, também com o objetivo de oferecer ao usuário a possibilidade de receber seus sinais de TV por assinatura diretamente do satélite com o auxílio das miniparabólicas de 60 centímetros de diâmetro. Mas essa movimentação não se passou somente na esfera dos gabinetes dos empresários, envolveu também uma série de aventuras e desventuras espaciais.18 A opção pelo PanAmSat 3, com apenas quatro transponders – o Galaxy III-R tem 12 para a TVA –, teve que ser adotada por causa da explosão do moderno Intelsat 708, segundos após seu lançamento, em 14 de fevereiro de 1996. O mais bem equipado PanAmSat 4, que também já estava no espaço, para o azar do Grupo Globo, não oferecia potência suficiente para ter suas imagens captadas no Brasil, já que sua órbita estava programada para ficar estacionada sobre o Oceano Índico.

A NET/Sky apostava até recentemente no aperfeiçoamento dos compressores de imagem, o que possibilitaria uma oferta de 32 canais, e no lançamento do PanAmSat 6, previsto para ir para o espaço, inicialmente em dezembro de 1996, adiado para maio de 1997, e que só deve mesmo ser lançado em setembro. Mas como as descobertas tecnológicas são para todos, o outro lado também ganha: enquanto a NET pode passar de 24 para 32 canais – com o PAS-6 a oferta pode chegar a 100 –, a TVA pode ir dos atuais 72 (atualmente com 58 em oferta) para 100 canais digitais de vídeo e áudio. Para esquentar a competição, já está previsto para setembro de 1997 o lançamento do Galaxy VIII-R, com mais 16 transponders para o Brasil.

As estimativas em torno do número de assinaturas nos próximos anos variam de 2,5 a 8 milhões, segundo o diretor de TV, Nelson Hoineff; ou até 10 milhões no ano 2000, de acordo com um estudo do Ministério das Comunicações. A revista Wireless International diz que o Brasil é um “gigante adormecido” em termos de TV por assinatura, e prevê que no início do próximo século o país contará com mais assinantes do que a quantidade em todos os demais vizinhos da América Latina somados. Comparadas com as atuais 1,5 milhão de assinaturas de TV a cabo, MMDS e DBS, as previsões são bem interessantes para o mercado.

No entanto, em termos de retorno financeiro e aceitação do público, os primeiros balanços, tanto do grupo Globo, com seu Sky, e do grupo Abril, com o DirectTV, não são nada animadores. A Sky Entertainment Service só conseguiu 15 mil assinantes no Brasil e no México até dezembro de 1996.19 Já a Galaxy Latin America, que espera oferecer seus serviços em 17 países com uma projeção de conseguir 700 mil clientes até setembro de 1997 fechou 1996 sem conseguir sequer 100 mil conexões, isso em apenas seis países. Para o Brasil, que havia uma uma expectativa de 170 mil assinantes até dezembro, o número de contratos para instalação de kits de banda Ku dos dois players chegou a 100 mil em abril de 1997.

Para tentar reverter esse panorama, tanto a Globo como a Abril passaram a expor com mais insistência os novos produtos nos seus veículos de comunicação tradicionais e, principalmente a baixar os preços. Com uma campanha maciça na televisão, o sistema Sky, que era oferecido na época de Natal na faixa de US$900 (com antena e decodificador) já podia ser encontrado quatro meses depois por US$ 600. E o DirectTV, que custava inicialmente US$ 599, passou para US$ 450 em março de 1996, com parcelamentos bem cômodos, o valor da mensalidade para receber a programação também caiu de US$ 60 para US$ 50.

Local x global

O grande problema que representa o sistema DTH é a definitiva perda da identidade cultural e regional da produção e programação na televisão brasileira, já que não tem conteúdo local e sequer retransmite os canais abertos. Aliado número um da globalização – ao lado da Internet – e materialização das teorias de Marshall McLuhan, o sistema de miniparabólicas é o principal inimigo da regionalização da produção cultural na televisão. Não bastasse a dimensão continental que tem o país, a possibilidade de plugar o aparelho de TV direto em um satélite a quase 36 mil quilômetros de altura, distancia deveras a realidade regional do telespectador. Concordamos com Sócrates quando dizia que “o homem terá que elevar-se sobre a Terra – ao topo da atmosfera e além – para somente então compreender o mundo em que vive”, mas que tipo de cidadão teremos em uma sociedade formada por homens que são íntimos de Michael Jackson e que sequer conhecem seus vizinhos de porta?

Esse conflito entre o local e o global, que está ocupando a mente dos teóricos que logo irão profetizar uma possível era da “pós-globalização”, também preocupa os empresários brasileiros. Depois de tanto tempo construindo uma identidade para a televisão brasileira, de ter formado um público exigente e conquistado um papel de destaque no cenário internacional está de volta o fantasma dos anos 70: a hegemonia da participação estrangeira – principalmente dos Estados Unidos – na programação. Situação semelhante vivem a Comunidade Européia, às voltas com uma série de regras para garantir a preservação da cultura de seus países no audiovisual, e o Canadá, historicamente invadido pelos sinais hertzianos de seu vizinho de baixo.

O que George Gilder chama de “estrela da morte” para as operadoras de cabo pode também ser o grande vilão da TV generalista, a não ser que os testes que a ASkyB, de Rupert Murdoch, está fazendo nos Estados Unidos dêem certo e que venda o know-how para seu sócio brasileiro (Roberto Marinho). A idéia é oferecer quatro ou cinco canais de broadcast pelo sistema DTH com a mesma grade de programação regional e publicidades de cada mercado, a receita publicitária seria repassada para as afiliadas que já retransmitem em VHF e UHF. Nem na teoria a proposta agrada às retransmissoras.

O DBS aponta ainda como um elemento fatal para os produtores locais, que serão obrigados a competir com a qualidade técnica das emissões internacionais. E por mais que a legislação brasileira fale na obrigatoriedade de programas regionais, independentes e até comunitários, nesse setor também vale a máxima do carnavalesco Joãosinho Trinta: “Quem gosta de ver pobreza é rico e intelectual, pobre gosta é de luxo!”. Os mais eufóricos, no entanto, acreditam na abertura de um mercado de produção independente que movimente cerca de US$ 400 milhões por ano até 2003. Preferimos continuar cautelosos. Se o duopólio Globo/Abril for mantido, certamente logo terão seus dias de prosperidade – até agora só foram despesas. Mas nada garante que, a médio prazo, a produção ou co-produção de programas locais seja mais lucrativa que a exibição de seriados norte-americanos dos anos 60.

Conclusão

O caminho para essa televisão brasileira, saindo de uma fase de “globalização” para uma de “diversificação” é exatamente saber ocupar os espaços que merece com sua qualidade, oferecer produtos com as cores locais, não somente com suas cópias sem criatividade de modelos norte-americanos, como é o caso da Globo News – primeiro canal brasileiro com 24 horas de notícias. Tampouco a saída está em importar atores portugueses para rechearem as telenovelas, no intuito de reforçar cada vez mais o refluxo da colonização. O que é preciso é criatividade. Sem esquecer que o telespectador não é mais alienado e que o atual modelo de televisão aberta, generalista e estandardizada está com os dias contados.

O que não pode ser deixado de lado também é a visão de que a televisão brasileira é um produto de primeiro mundo em um país de terceiro. Não dá para somente querer entrar em corridas espaciais, sem lembrar que o Brasil está longe de ser aquele retrato de país onde os empresários das comunicações acham que estão trabalhando. O apelido de “Belíndia” está mais vivo do que nunca. Ao lado do Brasil-Bélgica ainda está o Brasil-Índia. Os 1,5 milhão de computadores comerciais e residenciais em todo o país estão muito distantes dos 70 milhões existentes nos Estados Unidos – país no qual empresários e executivos querem se espelhar –, o mesmo ocorre com os 22,3% de lares com linha telefônica contra o índice de 93% dos norte-americanos, sem esquecer os 31,5 milhões de residências equipadas com aparelhos de TV no Brasil em comparação com os 200 milhões de unidades do mesmo país de referência.

A era do “telecomputador” pode até não estar longe para alguns brasileiros, e as empresas investem muito nesse mercado. Mas a televisão de massa vai continuar sendo por muito tempo o principal entretenimento neste país. E, independente dos investimentos, a lógica da concorrência, “longe de ser automaticamente geradora de originalidade e diversidade, tende muitas vezes a favorecer a uniformidade da oferta”.20 Enquanto houver uma sociedade que não saiba se fazer representar – ou que não o queira – e que ainda perpetue no poder governantes que agem politicamente como no início do século, o oligopólio estará preservado. E a democratização dos meios de comunicação, seja por auto-organização ou pela interatividade receptor–emissor–receptor, vai demorar muito a chegar no Brasil. Esperamos que até a virada do outro século isso ocorra, e que o papel da televisão – independente de sua forma – seja sobretudo o de educar, informar e divertir, exatamente nessa ordem.

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Para maiores informações sobre este trabalho:

Edgard Rebouças
Rua Dr. Antônio Basílio, 1.013/204C
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Tel.: + 55 27 324-0967
E-mail: edreboucas@faesa.br

* Faculdade de Educação e Comunicação Social – FAESA II (Vitória).

Notas:

1 Para um passeio pela vida desse grande personagem da recente história brasileira, leia Fernando Moraes, Chatô: o rei do Brasil (São Paulo, Companhia das Letras, 1995). O livro também já virou documentário, co-produzido pela Rede Globo.

2 Um perfil da TV brasileira. A divisão da evolução da televisão no Brasil por fases semelhantes também foi feita pelo professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Sérgio Caparelli, em seu livro Televisão e capitalismo no Brasil.

3 Cf. Sérgio Caparelli, op. cit., p. 19, 25, 26.

4 O campeão de audiência, p. 168.

5 A TV Excelsior foi considerada uma das mais revolucionárias emissoras na história da televisão brasileira. Primeira a ser administrada dentro de padrões mais profissionais, tentou marcar seu espaço como ponto crítico em um período de regime militar e acabou sendo fechada com onze anos de vida.

6 Fenômeno interessante que merece um estudo mais aprofundado é o fato de que as maiores bilheterias no teatro brasileiro são registradas em espetáculos que contam com atores “globais” em seu elenco. O mesmo vem ocorrendo com o ressurgimento do cinema nacional: a maioria dos novos filmes tem como protagonistas atores que fizeram carreira na televisão.

7 Dezenas de estudos e pesquisas foram realizados nos últimos anos sobre a influência das emissoras de televisão nas eleições tanto de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso, como nas campanhas regionais de governadores e prefeitos.

8 Somente a Rede Globo fatura hoje cerca de US$ 30 milhões por ano com a exportação de telenovelas. Isso já representa 15% de seus custos de produção.

9 Televisão, p. 27-36.

10 Publicado no Brasil em 1978 pela editora Tempo Brasileiro, com o título Elementos para uma teoria dos meios de comunicação.

11 Cf. revista Action Poétique, nº 51-52, Paris, Saint Germain-des-Prés, 1972, p. 154, entrevista com H.M. Enzensberger.

12 Cf. Muniz Sodré, O monopólio da fala, p. 37.

13 Cf. “Requiem pour les media”, in: Pour une critique de l’économie politique du signe, p. 200-228.

14 Cf. Edgard Rebouças, “Modelo de representatividade social na regulamentação das emissões de televisão”, in: BOLAÑO, César R.S. Economia política das telecomunicações, da informação e da comunicação, p. 150.

15 A vida após a televisão, p. 13.

16 Idem, p. 52.

17 Vale ressaltar que esse pensamento de Bill Gates, de 1985, foi por água abaixo quando, em 1996, se associou à NBC, criando a MSNBC, rede de TV transmitida em hipertexto pela Internet com informações 24 horas por dia.

18 Cf. Nelson Hoineff, A nova televisão, p. 128.

19 Mike Zellner, “Fora de órbita”, America Economia, n. 117, p. 24-26.

20 Pierre Bourdieu, Sur la télévision, 1996.

 


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