A Televisão na Era da Globalização

CHAPECÓ VIVE A NOVA ERA DA INFORMAÇÃO ABRINDO ESPAÇO PARA A PRODUÇÃO AUDIOVISUAL LOCAL

Ilka Goldschmidt Vitorino*  

As novas tecnologias criam uma nova televisão: TV por assinatura, TV a cabo, TV interativa. Nesta nova televisão, o telespectador passa a ter nome, endereço, credo, raça e sobretudo preferência. “Dividiu-se o telespectador em segmentos ou categorias, que variam de acordo com a sua própria natureza e passou-se a direcionar programações específicas para públicos afins. Está criado o fenômeno da segmentação, que, no jargão da indústria, atende pelo nome de narrowcast – difusão estreita, dirigida.”1

É difícil prever o futuro deste sistema, mas é fácil identificar as transformações já provocadas por esta “nova televisão”, que acima de tudo, tem contribuído para a desmassificação, para a independência e para a busca da identidade de milhares de “cidadãos” brasileiros. Sem deslumbramento ou crítica exacerbada, é possível chegar a esta conclusão através de uma análise sobre os espaços abertos para a produção independente via cabo e a participação do telespectador nesses espaços. A TV a cabo corresponde à tendência de regionalização, ou vice-versa.

A TV por assinatura oferece a possibilidade de se ter o mundo em casa, de saber o que está sendo noticiado nos principais países, de conhecer em detalhes a cultura e os costumes de povos distantes e, ao mesmo tempo, saber dos problemas, as características, as novidades da cidade, do bairro, da rua onde se mora. Assim, se a televisão já era fascinante e se caracterizava como o mais eficiente meio de informação e entretenimento, hoje, com as diversas opções oferecidas pelo cabo ou pela parabólica, a tevê reafirma seu poder frente aos demais meios de comunicação.

Legislação

No Brasil, a TV a cabo passou a ser discutida com mais seriedade em meados de 94. Antes disso, em 1989, no final do governo Sarney, o então ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, criou por portaria o Serviço Nacional de Distribuição de Sinais de TV. Em 1991, a Secretaria Nacional de Comunicações, do Ministério da Infra-Estrutura, baixava portaria definindo que o sistema de TV a cabo no país tinha a outorga concedida pelo Secretário Nacional de Comunicações e ainda estabelecia o limite de vinte sistemas para cada unidade da Federação.

A Lei n° 8.977,2 que regulamenta o serviço de TV a cabo no Brasil, saiu finalmente no dia 6 de janeiro de 1995 e, comparado ao serviço tradicional de radiodifusão, o sistema de TV a cabo leva algumas vantagens na legislação, como por exemplo, a não discriminação a investimentos externos. Empresas de capital estrangeiro com sede no Brasil podem se habilitar à exploração do serviço desde que 51% de seu capital social com direito a voto pertençam a brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos.

Outro aspecto interessante da legislação e que está diretamente relacionado a este trabalho é quanto à abertura de canais destinados a eventos locais e de acesso público. Consta no art. 5° da nova Lei de Cabodifusão a existência de canais destinados à prestação eventual de serviço, aqueles cuja transmissão eventual deve ser mediante remuneração e englobam programas tais como manifestações, palestras, congressos e eventos requisitados por qualquer pessoa jurídica. Este item da legislação possibilitou e incentivou as operadoras de cabo abrirem espaço para as produções locais, já que os canais destinados à prestação eventual de serviço ficavam na maior parte do tempo ociosos. Foi o que aconteceu com o Canal 20 da NET Chapecó, que acabou se transformando em canal de programação local.

O espaço comunitário

Ao mesmo tempo que as novas tecnologias nos transportam para qualquer lugar do mundo via satélite, elas possibilitam uma conquista ainda maior e mais importante: a informação regional, local. O que as TVs abertas não conseguem nem mesmo com as produções independentes, é possível através da TV a cabo. As produções locais, finalmente, encontram um espaço na televisão e fazem frente à programação gerada pelas grandes redes, sejam elas nacionais ou internacionais. Como coloca Nelson Hoineff:3 “A TV segmentada coloca lado a lado poderosas redes e estações quase incipientes que chegam aos receptores disputando a venda de programação e não de qualidade de sinal”. Mendes de Almeida compartilha do mesmo pensamento ao afirmar que é relevante a variedade de novos canais e opções que “proporciona uma valorização da informação de caráter local, preterida nas últimas décadas em favor da integração nacional. Aumenta, portanto, a concorrência entre a aldeia global e o quarteirão mais próximo”.4

Uma das primeiras experiências de TV comunitária articulada com a tecnologia da TV a cabo foi no Canadá, em 1970. As TVs comunitárias surgiram no Quebec, conforme Santoro, com o objetivo de preservar a identidade cultural de seis milhões de quebecoises, de língua francesa, diante da invasão indiscriminada de programas de TV em inglês, vindos dos Estados Unidos. “A idéia principal era a de recriar a noção de comunidade, agora via tela de televisão. A praça pública passa a ser eletrônica e o encontro com os vizinhos não se dá mais nas ruas, mas via depoimentos e participação em programas de TV locais.”5 No Brasil, a experiência de TV comunitária via cabo só veio mesmo em 95, em Porto Alegre, com a TV Com da RBS.

Um perfil de Chapecó

Considerada a capital do oeste catarinense, Chapecó possui 130.679 habitantes, sendo que destes 114.315 estão na área urbana e 16.355 habitantes na área rural do município. Chapecó é a maior cidade da região em número de habitantes e em movimento econômico, sendo, inclusive, a quarta do Estado em arrecadação de ICMS. Mais de 45% da população chapecoense tem até 19 anos de idade. Pessoas com 20 a 39 anos de idade representam 35,57% dos habitantes; de 40 a 59 anos somam 13,99% e pessoas com mais de 60 anos de idade representam apenas 4,99% do total da população.

A 2.400km da capital federal, Brasília, e a 630km da capital do Estado, Florianópolis, Chapecó relaciona-se mais facilmente com a capital gaúcha, Porto Alegre, que fica a 500 km de distância. Outro fato que favorece uma aproximação maior com o Estado do Rio Grande do Sul é a colonização de Chapecó por descendentes de imigrantes alemães e italianos vindos de cidades gaúchas. As opções culturais em Chapecó estão estreitamente relacionadas com os eventos tradicionalmente realizados no município, já que não existe uma “casa da cultura” ou outro espaço que possibilite a apresentação periódica de peças de teatro ou shows musicais.

Chapecó tem uma posição privilegiada em relação aos meios de comunicação, é o segundo município do Estado em número de veículos. No total são duas emissoras geradoras locais de televisão, duas repetidoras de televisão, três rádios FM e duas AM, uma operadora de TV a cabo, três jornais diários, dois semanários, dois mensais. Funcionam em Chapecó as sucursais dos jornais “Diário Catarinense”, “A Notícia” e “Indústria e Comércio”, todos diários e de circulação estadual.

A TV a cabo em Chapecó

A TV a cabo chegou a Chapecó no final de 1993, vislumbrando a possibilidade de conquistar, em pouco tempo, um grande número de assinantes, uma vez que na cidade as opções de cultura e entretenimento são extremamente restritas e a renda per capita do município apontava um mercado promissor. A população de Chapecó, que muito pouco sabia ou tinha ouvido falar de TV por assinatura, foi surpreendida em outubro de 1995 com a notícia da implantação na cidade de duas operadoras de TV a cabo. A NET, do Grupo RBS (Globosat), e a Transcabo, do Grupo Amauri (TVA), chegaram a Chapecó praticamente na mesma época e com a mesma intenção: faturar alto com o negócio da TV por assinatura.

A Transcabo adiantou o passo e começou a operar alguns dias antes da concorrente. A NET fez o lançamento da TV a cabo em novembro e a Transcabo no final de outubro, mas em pouco tempo as duas operadoras perceberam que haviam apostado alto demais em um mercado muito resistente às novas tecnologias e pequeno para satisfazer ao interesse de duas distribuidoras. A decisão mais coerente na época, conta o gerente da NET Chapecó, Rubens Schneider, era a união das duas empresas. Desta sociedade, a Transcabo ficou com 40% do bolo, a NET com 60% e a total administração do negócio, inclusive, com direito a manter o nome NET Chapecó. Quem saiu “lucrando” com esta parceria foram os assinantes da TV a cabo, que tiveram a oportunidade de optar, inicialmente, por um pacote com canais da Globosat e da TVA.

O cabo atinge, hoje, 9.400 residências em Chapecó, além de estabelecimentos comerciais, totalizando cerca de seis mil assinantes. No início de 97, eram 152km de cabo instalados. A TV a cabo atinge, atualmente, quatorze bairros, o que significa praticamente todos.

Canal 20 – a produção local

Em 1995, a Multicanal, operadora da Globosat, juntamente com a NET Brasil, anunciava sua intenção de vender espaços, em algumas praças, para produtores independentes, por um sistema análogo ao que os próprios operadores utilizam para comprar sua programação. Imediatamente, a NET Sul criava um canal local – o Canal 20 – que seria reservado a produtores locais que se dispusessem a pagar uma taxa mensal para a operadora e vender seus próprios anúncios, sem a necessidade de fazer este repasse à NET.

A empresa do Grupo RBS definiu, logo de início, que 80% dessa programação teriam que ser necessariamente locais, enquanto que 20% poderiam ser utilizados para a transmissão de programas produzidos em outras praças, dentro dos cinco mil quilômetros da rede da operadora. Registra-se, então, um fato inédito. Durante muito tempo, as produtoras independentes brigaram por um espaço na televisão brasileira sem muito sucesso e, quando a televisão possibilita a transmissão de programas alternativos, faltam profissionais para atuar neste mercado. No caso específico de Chapecó, isto é muito claro, tanto que pessoas que jamais haviam trabalhado com produção de vídeo acabaram ocupando o espaço aberto pela NET para a veiculação de programas locais.

O Canal 20, também chamado de Canal de Eventos da NET, acabou tornando-se um espaço muito especial para moradores de qualquer uma das dezenove cidades que acessam a TV a cabo via NET. Além dos programas específicos locais, ele é uma espécie de “passa tudo”. Em Chapecó, até mesmo os eventuais programas da Prefeitura Municipal ou Câmara de Vereadores, que segundo a Lei de Cabodifusão, têm direito a um canal exclusivo para a transmissão gratuita de solenidades, eventos, ou qualquer outro tipo de atividade que consista no trabalho destes órgãos, são transmitidos pelo Canal 20.

A NET Chapecó foi a primeira a colocar no ar um programa local no Canal 20 – o “Vôo do Morcego”. O programa, que está no ar há dois anos e quatro meses, é produzido pela Skip Produções, uma agência que a princípio trabalhava basicamente com a locação de telões e entrou no ramo quase que por acaso. O proprietário da Skip, João Rubens Zucolotto, foi gerente administrativo da RBS TV Chapecó, tendo trabalhado por mais de quinze anos na emissora, sempre na área administrativa. Apesar de demonstrar interesse pelo telejornalismo e produção de vídeo, ele nunca chegou a trabalhar nesses setores durante o tempo em que esteve na RBS TV. Ao deixar a emissora, em 1993, João Rubens resolveu investir em um negócio que ainda não havia em Chapecó: a locação de telões, mas sem imaginar que algum dia se tornaria um bem-sucedido produtor independente.

João Rubens conta como teve início o irreverente “Vôo do Morcego”: “Foi em março de 95, a Skip fora contratada para instalar os telões na Efapi [parque de exposições] para o show da Banda Camisa de Vênus e, como sempre era feito, filmou toda a apresentação. A equipe da NET Chapecó teve a idéia de passar o show no Canal 20, já que o espaço estava ocioso. Então, nosso primeiro programa foi ao ar uma semana depois do evento, mostrando além do show do Camisa de Vênus, também a apresentação das bandas locais. A repercussão foi tanta, que o gerente da NET fez a proposta para que déssemos continuidade ao programa, e nós topamos, já que tínhamos a gravação de outros shows realizados na cidade”.

Este início, despretensioso e sem qualquer planejamento, marca até hoje a característica principal do programa: a informalidade. Como João Rubens sempre sonhara em produzir um programa alternativo para rádio, que fosse ao ar de madrugada, com o nome “Vôo do Morcego”, decidiu transferir o programa de veículo, mas manter o nome, que, justamente por ser diferente, acabou chamando a atenção dos telespectadores. O objetivo, a princípio, era atender ao público jovem. No segundo programa foram veiculadas as imagens do carnaval de Chapecó, do campeonato de motocross e do “arrancadão” de carros, eventos estes que a Skip fora contratada para filmar e tinha em arquivo.

No início, o programa, que vai ao ar de quinta-feira a domingo, às 19 horas, se manteve assim, com as matérias de eventos filmados pela Skip e clipes de músicas gravados em shows da região. Com a boa repercussão, a produtora começou a investir na cobertura de promoções locais voltadas ao público jovem e, para isso, buscou um repórter. A dificuldade da Skip, no início, conta Zucolotto, era encontrar profissionais para a apresentação, já que o programa não seguia um padrão formal e por isso exigia descontração do apresentador. Foi em uma reportagem sobre o show de uma banda de rock local, que a Skip tirou a sorte grande. A Banda Repolho, de Chapecó, já era conhecida pela sua irreverência e pelo jeito debochado e engraçado do vocalista, que durante a matéria do “Vôo do Morcego” tirou o microfone da mão do repórter e passou a brincar com o público, inclusive assumindo o papel de “repórter Morcegão”. A brincadeira pegou, como lembra João Rubens, e o “Vôo do Morcego” passava a assumir sua personalidade.

O vocalista Roberto Panarotto, novo repórter do programa, começou a criar personagens como o “Morcegão”, que faz as matérias e entrevistas. O “Dacirzão”, personagem fanho, que entra nas matérias para “esculhambar”, só fala besteira e sua característica principal é ser preguiçoso; o Auro V.J., que apresenta os vídeo-clipes; a Anastácia, que apresenta um quadro “voltado para as mulheres”, chamado “Anastácia e suas Mil e Uma Utilidades”, além de outros. Dependendo da matéria, podem ser criados novos personagens, como foi o caso de uma reportagem feita por Roberto sobre a inauguração do FBI, um novo barzinho da cidade. Neste caso, Roberto encenou um espião e envolveu os entrevistados na brincadeira.

Esses quadros lembram o estilo do “Casseta e Planeta”, mas têm suas particularidades. Os personagens são originais, se identificam muito com a cultura local e as brincadeiras são extremamente espontâneas. Segundo os produtores, João Rubens e seu irmão, Júnior, a Skip não trabalha com script, muito menos os programas são planejados. Tudo acontece ao acaso, ou quase tudo. Júnior explica que todo início de semana eles se reúnem para avaliar o programa anterior e discutir novas idéias. Os produtores preferem aproveitar o momento da reunião para criar novos quadros, novos personagens, idealizar novas reportagens, do que para planejar ou fazer script. Júnior explica que conseguem fazer o programa assim, sem formalidades e sem padrões, certamente porque não são profissionais da área, e por isso agem com mais liberdade. “Nós agimos mais como telespectadores do que como técnicos profissionais, e o resultado só poderia ser este: um programa irreverente, alternativo, com a cara da gente.”

Esta, talvez, seja a fórmula mágica do “Vôo do Morcego”, que há mais de dois anos consegue atrair os telespectadores sem desgastar o programa. As pautas surgem conforme a agenda de eventos da cidade, já que a maioria das matérias é sobre acontecimentos, sejam eles culturais, esportivos ou sociais, e como a Skip continua trabalhando com a locação de telões e filmagens, muito desse material é aproveitado. No mais, é “dar asas à criatividade” com os quadros dos personagens de Roberto e outros de variedades, criados com o desenrolar dos programas. João Rubens que é o diretor do “Vôo do Morcego”, é responsável pela montagem final do programa. Segundo ele, até hoje, jamais seguiu um roteiro pré-definido para esse trabalho. Ele conta que o primeiro passo é ver as matérias e quadros produzidos e depois montar. João Rubens não segue nenhum padrão, simplesmente “segue seu instinto” e vai editando o programa, já com os intervalos comerciais.

Apesar de existirem vários quadros, eles são esporádicos, isto é, não têm dia nem lugar definido para entrar. O mesmo acontece com os comerciais. Como o programa pode ter até duas horas de duração, João Rubens revela que não há uma quantidade de blocos pré-estabelecida, assim como o tempo de duração dos blocos e intervalos comerciais varia muito. Para o diretor do programa, esta conduta é uma das grandes responsáveis pelo sucesso do “Vôo do Morcego”, porque, desse jeito, nunca um programa será igual ao outro. “O telespectador ficará sempre na expectativa sobre o que vai acontecer, e dificilmente vai trocar de canal na hora do intervalo, porque além de não saber quando vai entrar o comercial, não tem idéia do tempo de duração do mesmo, podem ser exibidos três vts como apenas um”, explica.

No início, o programa era direcionado somente aos jovens, mas agora não é possível definir o público, já que os produtores recebem o retorno da audiência de crianças, jovens, adultos e idosos. Inclusive, o “Vôo do Morcego”, segundo o gerente da NET Chapecó, tem incentivado novos assinantes. A maioria da população já ouviu falar, viu ou foi entrevistada pelo programa, que cobre todo tipo de evento realizado na cidade, incentiva o esporte e a cultura local, possibilita a participação do telespectador, ou seja, materializa o sonho da TV comunitária. Pelo fato de não ter um público definido e nem mesmo uma linha editorial, as matérias do programa são bem variadas. Na verdade, não chegam a ser bem matérias, se for analisado o conceito jornalístico. Dificilmente uma reportagem do “Vôo do Morcego” tem off, normalmente são realizadas entrevistas sobre o assunto em pauta e as informações do entrevistado são cobertas com imagens relacionadas ao tema, depois são editadas várias cenas do acontecimento, com música.

As matérias não têm tempo certo, algumas possuem três minutos, enquanto outras podem ter até vinte minutos, como foi o caso de uma prova de jeep raid. A matéria, que era só imagens e música, sem narração ou entrevista, chegou a ser dividida em três partes; isto acontece também com outros temas. Segundo João Rubens, quando há muito material procura-se dividir a exibição em duas ou três partes para não ficar cansativo. Os repórteres, que não têm nenhuma formação na área da comunicação e nem mesmo experiência anterior, procuram buscar junto aos entrevistados todas as explicações sobre as matérias, o que torna as entrevistas bastante longas, algumas com até quatro minutos de duração.

O “Vôo do Morcego” conta com vários patrocinadores, desde lojas de discos, escola de idioma, magazine, até despachante e postos de combustíveis, mas os produtores dizem que o programa não é auto-sustentável. João Rubens explica que é difícil separar o “Vôo do Morcego” da Skip Produções e vice-versa, portanto, apesar dos patrocínios não pagarem os custos de produção, o programa é fundamental para a Skip, por ser uma vitrine que atrai novos clientes. A produtora conta hoje com quatro câmeras super-VHS, duas ilhas de edição super-VHS e está negociando a compra de um par de microondas para transmissões ao vivo do centro da cidade.

Apesar de existirem espaços definidos para a veiculação de comerciais, o programa costuma apresentar várias matérias com conotação comercial, algumas relacionadas aos patrocinadores e outras não. Exemplo: como o programa é patrocinado por uma academia de ginástica, esporadicamente são veiculadas reportagens com professores e alunos da academia, divulgando as várias atividades realizadas na escola e informando endereço e telefone para matrículas. Outro tipo de matéria comercial são os lançamentos de novos produtos no mercado ou a cobertura de eventos promocionais.

O único programa do Canal 20 realmente segmentado, isto é, que atende a um público específico, é o “Canto sem Fronteira”. Com uma hora de duração e exibido aos domingos, às 11h30min, o programa é voltado exclusivamente à cultura nativista, apresentando músicas típicas e abordando os costumes gauchescos. O apresentador, diretor e produtor do “Canto sem Fronteira”, Nédio Vani, é um apaixonado pela cultura nativista, que começou a se dedicar à produção deste tipo de programa, com o intuito de preservar e divulgar os costumes da região Sul do país. Para produzir o “Canto sem Fronteira”, Nédio loca os equipamentos de uma produtora, que acabou se tornando parceira dele nesse trabalho.

Antes de produzir o “Canto Sem Fronteira” para o canal 20, Nédio tinha outro programa na RBS TV Chapecó, chamado “Momento Nativo”. Com dois minutos de duração, o programete era veiculado uma vez por semana no intervalo do “Jornal do Almoço”. O apresentador/produtor dedicava esse espaço ao resgate da história dos costumes nativistas, como a origem da erva-mate, da bombacha, do chimarrão, das danças gauchescas, do churrasco. Mesmo sem jamais ter trabalhado com vídeo, Nédio foi aos poucos aprendendo as manhas da produção e hoje diz ser um diretor exigente, alerta a qualquer problema técnico que possa interferir na qualidade do programa.

Foi o gerente da NET Chapecó quem procurou Nédio com a proposta de que ele produzisse um programa especificamente para o Canal 20. Foi assim que nasceu o “Canto sem Fronteira”, programa que consiste na exibição de músicas nativistas, apresentadas em diversos festivais do Rio Grande do Sul e Santa Catarina e no resgate histórico dos costumes, a exemplo do que era feito no “Momento Nativo”. Como possui centenas de fitas arquivadas com a gravação de festivais de música nativista, Nédio percebeu que não teria problemas para produzir o programa sem correr o risco de ter que repetir algumas canções, e para garantir a atualização de seu acervo, contratou uma empresa do Rio Grande do Sul para gravar os principais eventos relacionados à música tradicional gaúcha.

A possibilidade de produzir um programa independente, com um equipamento acessível e sem a necessidade de possuir experiência ou formação na área, acabou atraindo o proprietário de uma “produtora” que até então trabalhava apenas na gravação de casamentos e festas e que considerava o vídeo um hobbie. O radialista Antônio Soares, proprietário da Angel Produções, resolveu aproveitar o espaço oferecido pelo Canal 20 para veicular mais um programa local, o “Chapecó em Destaque”. Exibido todas às sextas, sábados e domingos a partir das 21h, o programa tem por objetivo divulgar atividades e eventos realizados na cidade.

Em parceria com o também radialista João Mattos, e contando com uma câmera e uma ilha de edição super-VHS, Antônio Soares produz o programa há um ano e cinco meses e está satisfeito com os resultados alcançados. Antônio é o único da equipe com alguma experiência em televisão, ele conta que trabalhou durante algum tempo na TV Tarobá, no Paraná. Segundo o radialista, a proposta do “Chapecó em Destaque”, é fazer um programa sério, profissional e que atenda aos anseios do público da NET, ou seja, das classes A e B. Como não existe um projeto, o programa também não possui uma linha editorial definida, as matérias são bem variadas, abordando política, religião, cultura, lazer e esporte.

A apresentação do programa é feita pela esposa de Antônio, Nanci Schonnel, que nunca, antes, havia trabalhado na área da comunicação. Atuam como repórteres o próprio Antônio, João Mattos e seu filho Fernando, de dezenove anos, que, incentivado pelo pai, inicia sua trajetória no jornalismo. Apenas um cinegrafista trabalha na produtora, mas, como explica Antônio, na hora do aperto, todo mundo faz tudo. A equipe, que Antônio chama de “caseira”, se reúne uma vez por semana para tratar dos assuntos que devem ir ao ar no próximo programa. Antônio explica que as pautas são feitas de acordo com os acontecimentos da semana, mas existem parcerias com algumas entidades e empresas, as quais encaminham releases que na maioria das vezes se transformam em matérias.

A falta de experiência profissional dos produtores, neste caso, é visível. Como o programa se propõe a ser sério e formal, percebem-se facilmente os erros cometidos, começando pela apresentadora, que tenta seguir um padrão de telejornal, mas vacila na apresentação e na produção dos textos para as “cabeças” (é ela quem monta o programa e produz as “cabeças”). Como não há um estúdio para a apresentação do “Chapecó em Destaque”, o fundo é improvisado. Nos primeiros programas, era utilizado um fundo preto, depois, os produtores experimentaram fazer as apresentações em parques da cidade, ou então em frente a um arbusto, na casa de Antônio. Outra alternativa encontrada foi decorar o improvisado estúdio com as capas dos últimos guias de programação da NET.

A exemplo do “Vôo do Morcego”, o “Chapecó em Destaque” também utiliza clipes musicais para dar início ao programa. Assim como as matérias, os clipes são bem diversos; para se ter uma idéia, já foram colocados clipes de Michael Jackson, Mamonas Assassinas, Xuxa, Julio Iglesias e de Tiririca (nesse dia a apresentadora anunciou que o programa estava homenageando o autor dos sucessos “Sou Corno” e “Florentina”, assim como em outra ocasião desejou os parabéns a Xuxa pelos dez anos na Globo). O programa tem até duas horas de duração. Normalmente, são cinco blocos de intervalo comercial e o programa fecha em uma hora e meia a uma hora e quarenta de produção.

Não existe uma ordem lógica para a entrada das matérias, que freqüentemente abordam questões relacionadas à Prefeitura Municipal, Câmara de Vereadores, Associação dos Municípios do Oeste Catarinense, batalhão da Polícia Militar, campanha política, eventos de entidades de classe, festas em escolas, reunião de amigos em determinados bairros da cidade e sobre a Cadeia da Prece, uma igreja criada em Chapecó pelo missionário e deputado Narciso Parisotto.

Neste programa, assim como no “Vôo do Morcego”, o off não é uma prática comum, as matérias, se bem que podem ser assim chamadas, se constituem nas entrevistas, normalmente longas, e em imagens com música, ou então áudio do entrevistado. Os vts, com imagens e música, mostram solenidades, palestras, cerimônias cívicas, exposições de arte, jantares sociais. Duas vezes em que o programa veiculou matérias completas com off e entrevistas, foram matérias copiadas do “Jornal Nacional” (Globo), sobre o Dia do Trabalhador, e da Rede Regional de Notícias (RBS), sobre a vinda do ministro da Agricultura a Chapecó, fato este que denuncia uma prática nada ética por parte da produtora, já que a cópia e veiculação de matéria jornalística de outra emissora, sem autorização da mesma (como é o caso aqui), é considerada crime por roubo de imagem.

O programa possui vários patrocinadores, mesmo assim Antônio diz que se depender disso não dá lucro. Segundo ele, a grande dificuldade é competir no mercado com as emissoras convencionais, que baixaram muito os preços nos últimos meses. Antônio considera que é necessário ofertar algo mais para atrair o patrocinador: “Nós oferecemos para o empresário, além da veiculação dos comerciais, uma participação no programa, uma vez por mês”. Outra fonte de receita do “Chapecó em Destaque”, de acordo com Antônio, é a cobrança por coberturas de grandes eventos, como palestras, encontros e congressos. Neste casos, explica, a Angel oferece a gravação do evento em vídeo além da cobertura jornalística.

Pelos programas locais, transmitidos pelo canal 20, a NET Chapecó recebe o valor mensal de R$ 500,00 referente ao espaço utilizado, não tendo nenhuma participação nos patrocínios, já que “toda a produção fica a cargo das agências e a NET apenas transmite a programação”, explica o gerente Rubens Schneider, que faz questão de esclarecer que a NET não é uma produtora e sim uma distribuidora de canais. Rubens explica que a NET possui oitenta canais e transmite 57, havendo, portanto, a possibilidade de serem utilizados muito mais canais com programação local, o que é interesse da operadora. Neste sentido, existe a possibilidade de em pouco tempo começar a funcionar em Chapecó a TV Comunitária, que será uma parceria entre NET e RBS TV, a exemplo da TV Com em Porto Alegre. O canal comunitário deve ser transmitido em UHF e pelo cabo.

Conclusão

A implantação da TV a cabo abriu um novo mercado para a produção de vídeo independente. Um mercado tão novo e repentino, no caso de Chapecó, que tem encontrado dificuldades de ser atendido. Foi possível verificar, neste trabalho, a ausência de profissionais da área de vídeo atuando na produção dos programas locais veiculados pelo Canal 20, da NET Chapecó. Este fato justifica o amadorismo da programação e denuncia a falta de qualidade em algumas produções.

O perfil dos programas exibidos atualmente no canal local da TV a cabo em Chapecó, demonstra a inexistência de um padrão de programação neste espaço comunitário, o que é positivo, no sentido de permitir a variedade, a criatividade e a utilização democrática deste canal. O aspecto negativo deste fato é que, não existindo um certo controle de qualidade, corre-se o risco de abrir um excelente espaço para pessoas mal intencionadas e oportunistas, interessadas apenas em faturar com o novo negócio, sem comprometimento ou responsabilidade. Nesse caso, pode haver um prematuro desgaste da programação regional, uma vez que o telespectador, frente a tantas opções de canais, pode se decepcionar com as produções locais e preferir revidá-las.

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 Notas 

1 Nelson Hoineff, A nova televisão: desmassificação e o impasse das grandes redes, Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1996, p. 14.

2 Reinaldo Santos, Vademécum da comunicação, Rio de Janeiro, Destaque, 1995, p. 279-293.

3 TV em expansão, Rio de Janeiro, Record, 1991, p. 54.

4 Uma nova ordem audio-visual: comunicação e novas tecnologias, São Paulo, Summus, 1988, p. 14.

5 Luiz Fernando Santoro, A imagem nas mãos: o vídeo popular no Brasil, São Paulo, Summus, 1989, p. 24.

 


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