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A
Televisão na Era da Globalização
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CHAPECÓ
VIVE A NOVA ERA DA INFORMAÇÃO ABRINDO ESPAÇO PARA A PRODUÇÃO
AUDIOVISUAL LOCAL
Ilka
Goldschmidt Vitorino*
As novas tecnologias
criam uma nova televisão: TV por assinatura, TV a cabo, TV
interativa. Nesta nova televisão, o telespectador passa a
ter nome, endereço, credo, raça e sobretudo preferência. “Dividiu-se o telespectador
em segmentos ou categorias, que variam de acordo com
a sua própria natureza e passou-se a direcionar programações
específicas para públicos afins. Está criado o fenômeno da
segmentação, que, no jargão da indústria, atende pelo nome
de narrowcast – difusão estreita, dirigida.”1
É difícil prever o
futuro deste sistema, mas é fácil identificar as transformações
já provocadas por esta “nova televisão”, que acima de tudo,
tem contribuído para a desmassificação, para a independência
e para a busca da identidade de milhares de “cidadãos” brasileiros.
Sem deslumbramento ou crítica exacerbada, é possível chegar
a esta conclusão através de uma análise sobre os espaços abertos
para a produção independente via cabo e a participação do
telespectador nesses espaços. A TV a cabo corresponde à tendência
de regionalização, ou vice-versa.
A TV por assinatura oferece a possibilidade
de se ter o mundo em casa, de saber o que está sendo
noticiado nos principais países, de conhecer em detalhes a
cultura e os costumes de povos distantes e, ao mesmo tempo,
saber dos problemas, as características, as novidades da cidade,
do bairro, da rua onde se mora. Assim, se a televisão já era
fascinante e se caracterizava como o mais eficiente meio de
informação e entretenimento, hoje, com as diversas opções
oferecidas pelo cabo ou pela parabólica, a tevê reafirma seu
poder frente aos demais meios de comunicação.
Legislação
No Brasil, a TV a cabo
passou a ser discutida com mais seriedade em meados de 94.
Antes disso, em 1989, no final do
governo Sarney, o então ministro das Comunicações, Antônio
Carlos Magalhães, criou por portaria o Serviço Nacional de
Distribuição de Sinais de TV. Em 1991, a Secretaria Nacional
de Comunicações, do Ministério da Infra-Estrutura, baixava
portaria definindo que o sistema de TV a cabo no país tinha
a outorga concedida pelo Secretário Nacional de Comunicações
e ainda estabelecia o limite de vinte sistemas para cada unidade
da Federação.
A Lei n° 8.977,2
que regulamenta o serviço de TV a cabo no Brasil, saiu finalmente
no dia 6 de janeiro de 1995 e, comparado ao serviço tradicional
de radiodifusão, o sistema de TV a cabo leva algumas vantagens
na legislação, como por exemplo, a não discriminação a investimentos
externos. Empresas de capital estrangeiro com sede no Brasil
podem se habilitar à exploração do serviço desde que 51% de
seu capital social com direito a voto pertençam a brasileiros
natos ou naturalizados há mais de dez anos.
Outro aspecto interessante da legislação
e que está diretamente relacionado a este trabalho
é quanto à abertura de canais destinados a eventos locais
e de acesso público. Consta no art. 5° da nova Lei de Cabodifusão
a existência de canais destinados à prestação eventual de serviço,
aqueles cuja transmissão eventual deve ser mediante
remuneração e englobam programas tais como manifestações,
palestras, congressos e eventos requisitados por qualquer
pessoa jurídica. Este item da legislação possibilitou e incentivou
as operadoras de cabo abrirem espaço para as produções locais,
já que os canais destinados à prestação eventual de serviço
ficavam na maior parte do tempo ociosos. Foi o que
aconteceu com o Canal 20 da NET Chapecó, que acabou se transformando
em canal de programação local.
O
espaço comunitário
Ao mesmo tempo que
as novas tecnologias nos transportam para qualquer lugar do
mundo via satélite, elas possibilitam uma conquista ainda
maior e mais importante: a informação regional, local. O que
as TVs abertas não conseguem nem mesmo com as produções independentes,
é possível através da TV a cabo. As produções locais, finalmente,
encontram um espaço na televisão e fazem frente à programação
gerada pelas grandes redes, sejam elas nacionais ou internacionais.
Como coloca Nelson Hoineff:3
“A TV segmentada coloca lado a lado poderosas redes e estações
quase incipientes que chegam aos receptores disputando a venda
de programação e não de qualidade de sinal”. Mendes de Almeida
compartilha do mesmo pensamento ao afirmar que é relevante
a variedade de novos canais e opções que “proporciona uma
valorização da informação de caráter local, preterida nas
últimas décadas em favor da integração nacional. Aumenta,
portanto, a concorrência entre a aldeia global e o quarteirão
mais próximo”.4
Uma das primeiras experiências de TV comunitária
articulada com a tecnologia da TV a cabo foi no Canadá,
em 1970. As TVs comunitárias surgiram no Quebec, conforme
Santoro, com o objetivo de preservar a identidade cultural
de seis milhões de quebecoises, de língua
francesa, diante da invasão indiscriminada de programas
de TV em inglês, vindos dos Estados Unidos. “A idéia principal
era a de recriar a noção de comunidade,
agora via tela de televisão. A praça pública passa a
ser eletrônica e o encontro com os vizinhos não se dá mais
nas ruas, mas via depoimentos e participação em programas
de TV locais.”5
No Brasil, a experiência de TV comunitária via cabo só veio
mesmo em 95, em Porto Alegre, com a TV Com da RBS.
Um
perfil de Chapecó
Considerada a capital
do oeste catarinense, Chapecó possui
130.679 habitantes, sendo que destes 114.315 estão na área
urbana e 16.355 habitantes na área rural do município.
Chapecó é a maior cidade da região em número de habitantes
e em movimento econômico, sendo, inclusive, a quarta do Estado
em arrecadação de ICMS. Mais de 45% da população chapecoense
tem até 19 anos de idade. Pessoas com 20 a 39 anos de idade
representam 35,57% dos habitantes; de 40 a 59 anos somam 13,99%
e pessoas com mais de 60 anos de idade representam apenas
4,99% do total da população.
A 2.400km da capital
federal, Brasília, e a 630km da capital do Estado, Florianópolis,
Chapecó relaciona-se mais facilmente com a capital gaúcha,
Porto Alegre, que fica a 500 km de distância. Outro fato que
favorece uma aproximação maior com o Estado do Rio Grande do
Sul é a colonização de Chapecó por descendentes de imigrantes
alemães e italianos vindos de cidades gaúchas. As opções culturais
em Chapecó estão estreitamente relacionadas com os
eventos tradicionalmente realizados no município, já que não
existe uma “casa da cultura” ou outro espaço que possibilite
a apresentação periódica de peças de teatro ou shows
musicais.
Chapecó tem uma posição
privilegiada em relação aos meios de comunicação, é o segundo
município do Estado em número de veículos. No total são duas
emissoras geradoras locais de televisão, duas repetidoras
de televisão, três rádios FM e duas AM, uma operadora de TV
a cabo, três jornais diários, dois semanários, dois mensais. Funcionam
em Chapecó as sucursais dos jornais “Diário Catarinense”,
“A Notícia” e “Indústria e Comércio”, todos diários e de circulação
estadual.
A
TV a cabo em Chapecó
A TV a cabo chegou
a Chapecó no final de 1993, vislumbrando a possibilidade de
conquistar, em pouco tempo, um grande número de assinantes,
uma vez que na cidade as opções de cultura e entretenimento são extremamente
restritas e a renda per capita do município
apontava um mercado promissor. A população de Chapecó, que
muito pouco sabia ou tinha ouvido falar de TV por assinatura,
foi surpreendida em outubro de 1995 com a notícia da implantação
na cidade de duas operadoras de TV a cabo. A NET, do Grupo
RBS (Globosat), e a Transcabo, do Grupo Amauri (TVA), chegaram
a Chapecó praticamente na mesma época e com a mesma intenção:
faturar alto com o negócio da TV por assinatura.
A Transcabo adiantou
o passo e começou a operar alguns dias antes da concorrente.
A NET fez o lançamento da TV a cabo em novembro e a Transcabo
no final de outubro, mas em pouco tempo as duas operadoras
perceberam que haviam apostado alto demais em um mercado muito
resistente às novas tecnologias e pequeno para satisfazer
ao interesse de duas distribuidoras. A decisão mais coerente
na época, conta o gerente da NET Chapecó, Rubens Schneider,
era a união das duas empresas. Desta sociedade, a Transcabo
ficou com 40% do bolo, a NET com 60% e a total administração
do negócio, inclusive, com direito a manter o nome NET Chapecó.
Quem saiu “lucrando” com esta parceria foram os assinantes
da TV a cabo, que tiveram a oportunidade de optar, inicialmente,
por um pacote com canais da Globosat e da TVA.
O cabo atinge, hoje,
9.400 residências em Chapecó, além de estabelecimentos comerciais,
totalizando cerca de seis mil assinantes. No início de 97,
eram 152km de cabo instalados. A TV a cabo atinge, atualmente,
quatorze bairros, o que significa praticamente todos.
Canal
20 – a produção local
Em 1995, a Multicanal,
operadora da Globosat, juntamente com a NET Brasil, anunciava
sua intenção de vender espaços, em algumas praças, para produtores
independentes, por um sistema análogo ao que os próprios operadores
utilizam para comprar sua programação. Imediatamente, a NET
Sul criava um canal local – o Canal 20 – que seria reservado
a produtores locais que se dispusessem a pagar uma taxa mensal
para a operadora e vender seus próprios anúncios, sem a necessidade
de fazer este repasse à NET.
A empresa do Grupo
RBS definiu, logo de início, que 80% dessa programação teriam
que ser necessariamente locais, enquanto que 20% poderiam
ser utilizados para a transmissão de programas produzidos
em outras praças, dentro dos cinco mil quilômetros da rede da operadora.
Registra-se, então, um fato inédito. Durante muito
tempo, as produtoras independentes brigaram por um espaço
na televisão brasileira sem muito sucesso e, quando a televisão
possibilita a transmissão de programas alternativos, faltam
profissionais para atuar neste mercado. No caso específico
de Chapecó, isto é muito claro, tanto que pessoas que jamais
haviam trabalhado com produção de vídeo acabaram ocupando
o espaço aberto pela NET para a veiculação de programas locais.
O Canal 20, também
chamado de Canal de Eventos da NET, acabou tornando-se um
espaço muito especial para moradores de qualquer uma das dezenove
cidades que acessam a TV a cabo via NET. Além dos programas
específicos locais, ele é uma espécie de “passa tudo”. Em
Chapecó, até mesmo os eventuais programas da Prefeitura Municipal
ou Câmara de Vereadores, que segundo a Lei de Cabodifusão,
têm direito a um canal exclusivo para a transmissão gratuita
de solenidades, eventos, ou qualquer outro tipo de atividade
que consista no trabalho destes órgãos, são transmitidos pelo
Canal 20.
A NET Chapecó foi a
primeira a colocar no ar um programa local no Canal 20 – o
“Vôo do Morcego”. O programa, que está no ar há dois anos
e quatro meses, é produzido pela Skip Produções, uma agência
que a princípio trabalhava basicamente com a locação de telões
e entrou no ramo quase que por acaso. O proprietário da Skip,
João Rubens Zucolotto, foi gerente administrativo da RBS TV
Chapecó, tendo trabalhado por mais de quinze anos na emissora,
sempre na área administrativa. Apesar de demonstrar interesse
pelo telejornalismo e produção de vídeo, ele nunca chegou
a trabalhar nesses setores durante o tempo em que esteve na
RBS TV. Ao deixar a emissora, em 1993, João Rubens resolveu
investir em um negócio que ainda não havia em Chapecó: a locação
de telões, mas sem imaginar que algum dia se tornaria um bem-sucedido
produtor independente.
João Rubens conta como
teve início o irreverente “Vôo do Morcego”: “Foi em março
de 95, a Skip fora contratada para instalar os telões na Efapi
[parque de exposições] para o show da Banda Camisa
de Vênus e, como sempre era feito, filmou toda a apresentação.
A equipe da NET Chapecó teve a idéia de passar o show
no Canal 20, já que o espaço estava ocioso. Então, nosso primeiro
programa foi ao ar uma semana depois do evento, mostrando
além do show do Camisa de Vênus, também a apresentação
das bandas locais. A repercussão foi tanta, que o gerente
da NET fez a proposta para que déssemos continuidade ao programa,
e nós topamos, já que tínhamos a gravação de outros shows
realizados na cidade”.
Este início, despretensioso
e sem qualquer planejamento, marca até hoje a característica
principal do programa: a informalidade. Como João Rubens sempre
sonhara em produzir um programa alternativo para rádio, que
fosse ao ar de madrugada, com o nome “Vôo do Morcego”, decidiu
transferir o programa de veículo, mas manter o nome, que,
justamente por ser diferente, acabou chamando a atenção dos
telespectadores. O objetivo, a princípio, era atender ao público
jovem. No segundo programa foram veiculadas as imagens do
carnaval de Chapecó, do campeonato de motocross e do
“arrancadão” de carros, eventos estes que a Skip fora contratada
para filmar e tinha em arquivo.
No início, o programa,
que vai ao ar de quinta-feira a domingo, às 19 horas, se manteve
assim, com as matérias de eventos filmados pela Skip e clipes
de músicas gravados em shows da região. Com a boa repercussão,
a produtora começou a investir na cobertura de promoções locais
voltadas ao público jovem e, para isso, buscou um repórter.
A dificuldade da Skip, no início, conta Zucolotto, era encontrar
profissionais para a apresentação, já que o programa não seguia
um padrão formal e por isso exigia descontração do apresentador.
Foi em uma reportagem sobre o show de uma banda de
rock local, que a Skip tirou a sorte grande. A Banda
Repolho, de Chapecó, já era conhecida pela sua irreverência
e pelo jeito debochado e engraçado do vocalista, que durante
a matéria do “Vôo do Morcego” tirou o microfone da mão do
repórter e passou a brincar com o público, inclusive assumindo
o papel de “repórter Morcegão”. A brincadeira pegou, como
lembra João Rubens, e o “Vôo do Morcego” passava a assumir
sua personalidade.
O vocalista Roberto
Panarotto, novo repórter do programa,
começou a criar personagens como o “Morcegão”, que faz
as matérias e entrevistas. O “Dacirzão”, personagem fanho,
que entra nas matérias para “esculhambar”, só fala besteira
e sua característica principal é ser preguiçoso; o Auro V.J.,
que apresenta os vídeo-clipes; a Anastácia,
que apresenta um quadro “voltado para as mulheres”,
chamado “Anastácia e suas Mil e Uma Utilidades”, além de outros.
Dependendo da matéria, podem ser criados novos personagens,
como foi o caso de uma reportagem feita por Roberto sobre
a inauguração do FBI, um novo barzinho da cidade. Neste caso,
Roberto encenou um espião e envolveu os entrevistados na brincadeira.
Esses quadros lembram
o estilo do “Casseta e Planeta”, mas têm suas particularidades.
Os personagens são originais, se identificam muito com a cultura
local e as brincadeiras são extremamente espontâneas. Segundo
os produtores, João Rubens e seu irmão, Júnior, a Skip não
trabalha com script, muito menos os programas são planejados.
Tudo acontece ao acaso, ou quase tudo. Júnior explica que
todo início de semana eles se reúnem para avaliar o programa
anterior e discutir novas idéias. Os produtores preferem aproveitar
o momento da reunião para criar novos quadros, novos personagens,
idealizar novas reportagens, do que para planejar ou fazer
script. Júnior explica que conseguem fazer o programa
assim, sem formalidades e sem padrões, certamente porque não
são profissionais da área, e por isso agem com mais liberdade.
“Nós agimos mais como telespectadores do que como técnicos
profissionais, e o resultado só poderia ser este: um programa
irreverente, alternativo, com a cara da gente.”
Esta, talvez, seja
a fórmula mágica do “Vôo do Morcego”, que há mais de dois
anos consegue atrair os telespectadores sem desgastar o programa.
As pautas surgem conforme a agenda de eventos da cidade, já
que a maioria das matérias é sobre acontecimentos, sejam eles
culturais, esportivos ou sociais, e como a Skip continua trabalhando
com a locação de telões e filmagens, muito desse material
é aproveitado. No mais, é “dar asas à criatividade” com os
quadros dos personagens de Roberto e outros de variedades,
criados com o desenrolar dos programas. João Rubens que é
o diretor do “Vôo do Morcego”, é responsável pela montagem
final do programa. Segundo ele, até hoje, jamais seguiu um
roteiro pré-definido para esse trabalho. Ele conta que o primeiro
passo é ver as matérias e quadros produzidos e depois montar.
João Rubens não segue nenhum padrão, simplesmente “segue seu
instinto” e vai editando o programa, já com os intervalos
comerciais.
Apesar de existirem
vários quadros, eles são esporádicos, isto é, não têm dia
nem lugar definido para entrar. O mesmo acontece com os comerciais.
Como o programa pode ter até duas horas de duração, João Rubens
revela que não há uma quantidade de blocos pré-estabelecida,
assim como o tempo de duração dos blocos e intervalos comerciais
varia muito. Para o diretor do programa, esta conduta é uma
das grandes responsáveis pelo sucesso do “Vôo do Morcego”,
porque, desse jeito, nunca um programa será igual ao outro.
“O telespectador ficará sempre na expectativa sobre o que
vai acontecer, e dificilmente vai trocar de canal na hora
do intervalo, porque além de não saber quando vai entrar o
comercial, não tem idéia do tempo de duração do mesmo, podem
ser exibidos três vts como apenas um”, explica.
No início, o programa
era direcionado somente aos jovens, mas agora não é possível
definir o público, já que os produtores recebem o retorno
da audiência de crianças, jovens, adultos e idosos. Inclusive,
o “Vôo do Morcego”, segundo o gerente da NET Chapecó, tem
incentivado novos assinantes. A maioria da população já ouviu
falar, viu ou foi entrevistada pelo programa, que cobre todo
tipo de evento realizado na cidade, incentiva o esporte e
a cultura local, possibilita a participação
do telespectador, ou seja, materializa o sonho da TV comunitária.
Pelo fato de não ter um público definido e nem mesmo uma linha
editorial, as matérias do programa são bem variadas. Na verdade,
não chegam a ser bem matérias, se for analisado
o conceito jornalístico. Dificilmente uma reportagem
do “Vôo do Morcego” tem off, normalmente são realizadas
entrevistas sobre o assunto em pauta e as informações do entrevistado
são cobertas com imagens relacionadas ao tema, depois
são editadas várias cenas do acontecimento, com música.
As matérias não têm
tempo certo, algumas possuem três minutos, enquanto outras
podem ter até vinte minutos, como foi o caso de uma prova
de jeep raid. A matéria, que era só imagens e música,
sem narração ou entrevista, chegou a ser dividida em três
partes; isto acontece também com outros temas. Segundo João
Rubens, quando há muito material procura-se dividir a exibição
em duas ou três partes para não ficar cansativo. Os repórteres,
que não têm nenhuma formação na área da comunicação e nem
mesmo experiência anterior, procuram buscar junto aos entrevistados
todas as explicações sobre as matérias, o que torna as entrevistas
bastante longas, algumas com até quatro minutos de duração.
O “Vôo do Morcego”
conta com vários patrocinadores, desde lojas de discos, escola
de idioma, magazine, até despachante e postos de combustíveis,
mas os produtores dizem que o programa não é auto-sustentável.
João Rubens explica que é difícil separar o “Vôo do Morcego”
da Skip Produções e vice-versa, portanto, apesar dos patrocínios
não pagarem os custos de produção, o programa é fundamental
para a Skip, por ser uma vitrine que atrai novos clientes.
A produtora conta hoje com quatro câmeras super-VHS, duas
ilhas de edição super-VHS e está negociando a compra de um
par de microondas para transmissões ao vivo do centro da cidade.
Apesar de existirem espaços definidos para
a veiculação de comerciais, o programa costuma apresentar
várias matérias com conotação comercial, algumas relacionadas
aos patrocinadores e outras não. Exemplo: como o programa
é patrocinado por uma academia de ginástica, esporadicamente
são veiculadas reportagens com professores e alunos
da academia, divulgando as várias atividades realizadas na
escola e informando endereço e telefone para matrículas. Outro
tipo de matéria comercial são os lançamentos de novos produtos
no mercado ou a cobertura de eventos promocionais.
O único programa do
Canal 20 realmente segmentado, isto é, que atende a um público
específico, é o “Canto sem Fronteira”. Com uma hora de duração
e exibido aos domingos, às 11h30min, o programa é voltado
exclusivamente à cultura nativista, apresentando músicas típicas
e abordando os costumes gauchescos. O apresentador, diretor
e produtor do “Canto sem Fronteira”, Nédio Vani, é um apaixonado
pela cultura nativista, que começou a se dedicar à produção
deste tipo de programa, com o intuito de preservar e divulgar
os costumes da região Sul do país. Para produzir o “Canto
sem Fronteira”, Nédio loca os equipamentos de uma produtora,
que acabou se tornando parceira dele nesse trabalho.
Antes de produzir o
“Canto Sem Fronteira” para o canal 20, Nédio tinha outro programa
na RBS TV Chapecó, chamado “Momento Nativo”. Com dois minutos
de duração, o programete era veiculado uma vez por semana
no intervalo do “Jornal do Almoço”. O apresentador/produtor
dedicava esse espaço ao resgate da história dos costumes nativistas,
como a origem da erva-mate, da bombacha, do chimarrão, das
danças gauchescas, do churrasco. Mesmo sem jamais ter trabalhado
com vídeo, Nédio foi
aos poucos aprendendo as manhas da produção e hoje diz ser
um diretor exigente, alerta a qualquer problema técnico que
possa interferir na qualidade do programa.
Foi o gerente da NET
Chapecó quem procurou Nédio com a proposta de que ele produzisse
um programa especificamente para o Canal 20. Foi assim que
nasceu o “Canto sem Fronteira”, programa que consiste na exibição
de músicas nativistas, apresentadas em diversos festivais
do Rio Grande do Sul e Santa Catarina e no resgate histórico
dos costumes, a exemplo do que era feito no “Momento Nativo”.
Como possui centenas de fitas arquivadas com a gravação
de festivais de música nativista, Nédio percebeu que
não teria problemas para produzir o programa sem correr o
risco de ter que repetir
algumas canções, e para garantir a atualização de seu acervo,
contratou uma empresa do Rio Grande do Sul para gravar os
principais eventos relacionados à música tradicional gaúcha.
A possibilidade de
produzir um programa independente, com um equipamento acessível
e sem a necessidade de possuir experiência ou formação na
área, acabou atraindo o proprietário de uma “produtora” que
até então trabalhava apenas na gravação de casamentos e festas
e que considerava o
vídeo um hobbie. O radialista Antônio Soares, proprietário
da Angel Produções, resolveu aproveitar o espaço oferecido
pelo Canal 20 para veicular mais um programa local,
o “Chapecó em Destaque”. Exibido todas às sextas, sábados
e domingos a partir das 21h, o programa tem por objetivo divulgar
atividades e eventos realizados na cidade.
Em parceria com o também
radialista João Mattos, e contando com uma câmera e uma ilha
de edição super-VHS, Antônio Soares produz o programa há um
ano e cinco meses e está satisfeito com os resultados alcançados.
Antônio é o único da equipe com alguma experiência em televisão,
ele conta que trabalhou durante algum tempo na TV Tarobá,
no Paraná. Segundo o radialista, a proposta do “Chapecó em
Destaque”, é fazer um programa sério, profissional e que atenda
aos anseios do público da NET, ou seja, das classes A e B.
Como não existe um projeto, o programa também não possui uma
linha editorial definida, as matérias são bem variadas, abordando
política, religião, cultura, lazer e esporte.
A apresentação do programa
é feita pela esposa de Antônio, Nanci Schonnel, que nunca,
antes, havia trabalhado na área da comunicação. Atuam como
repórteres o próprio Antônio, João Mattos e seu filho Fernando,
de dezenove anos, que, incentivado pelo pai, inicia sua trajetória
no jornalismo. Apenas um cinegrafista trabalha na produtora,
mas, como explica Antônio, na hora do aperto, todo mundo faz
tudo. A equipe, que Antônio chama de “caseira”, se reúne uma
vez por semana para tratar dos assuntos que devem ir ao ar
no próximo programa. Antônio explica que as pautas são feitas
de acordo com os acontecimentos da semana, mas existem parcerias com algumas entidades
e empresas, as quais encaminham releases que
na maioria das vezes se transformam em matérias.
A falta de experiência
profissional dos produtores, neste caso, é visível. Como o programa se propõe
a ser sério e formal, percebem-se facilmente os erros
cometidos, começando pela apresentadora, que tenta seguir
um padrão de telejornal, mas vacila na apresentação e na produção
dos textos para as “cabeças” (é ela quem monta o programa
e produz as “cabeças”). Como não há um estúdio para a apresentação
do “Chapecó em Destaque”, o fundo é improvisado. Nos primeiros
programas, era utilizado um fundo preto, depois, os produtores
experimentaram fazer as apresentações em parques da cidade,
ou então em frente a um arbusto, na casa de Antônio. Outra
alternativa encontrada foi decorar o improvisado estúdio com
as capas dos últimos guias de programação da NET.
A exemplo do “Vôo do
Morcego”, o “Chapecó em Destaque” também utiliza clipes musicais
para dar início ao programa. Assim como as matérias, os clipes
são bem diversos; para se ter uma idéia, já foram colocados
clipes de Michael Jackson, Mamonas Assassinas, Xuxa, Julio
Iglesias e de Tiririca (nesse dia a apresentadora anunciou
que o programa estava
homenageando o autor dos sucessos “Sou Corno” e “Florentina”,
assim como em outra ocasião desejou os parabéns a Xuxa pelos
dez anos na Globo). O programa tem até duas horas de duração.
Normalmente, são cinco blocos de intervalo
comercial e o programa fecha em uma hora e meia a uma hora
e quarenta de produção.
Não existe uma ordem
lógica para a entrada das matérias, que freqüentemente abordam
questões relacionadas à Prefeitura Municipal, Câmara de Vereadores,
Associação dos Municípios do Oeste Catarinense, batalhão da
Polícia Militar, campanha política, eventos de entidades de
classe, festas em escolas, reunião de amigos em determinados
bairros da cidade e sobre a Cadeia da Prece, uma igreja criada
em Chapecó pelo missionário e deputado Narciso Parisotto.
Neste programa, assim
como no “Vôo do Morcego”, o off não é uma prática comum,
as matérias, se bem que podem ser assim chamadas, se constituem
nas entrevistas, normalmente longas, e em imagens com música,
ou então áudio do entrevistado. Os vts, com imagens e música,
mostram solenidades, palestras, cerimônias cívicas, exposições
de arte, jantares sociais. Duas vezes em que o programa veiculou
matérias completas com off e entrevistas, foram matérias
copiadas do “Jornal Nacional” (Globo), sobre o Dia do Trabalhador,
e da Rede Regional de Notícias (RBS), sobre a vinda do ministro
da Agricultura a Chapecó, fato este que denuncia uma prática
nada ética por parte da produtora, já que a cópia e veiculação
de matéria jornalística de outra emissora, sem autorização
da mesma (como é o caso aqui), é considerada crime por roubo
de imagem.
O programa possui vários
patrocinadores, mesmo assim Antônio diz que se depender disso
não dá lucro. Segundo ele, a grande dificuldade é competir
no mercado com as emissoras convencionais, que baixaram muito
os preços nos últimos meses. Antônio considera que é necessário
ofertar algo mais para atrair o patrocinador: “Nós oferecemos
para o empresário, além da veiculação dos comerciais, uma
participação no programa, uma vez por mês”. Outra fonte de
receita do “Chapecó em Destaque”, de acordo com Antônio, é
a cobrança por coberturas de grandes eventos, como palestras,
encontros e congressos. Neste casos, explica, a Angel oferece
a gravação do evento em vídeo além da cobertura
jornalística.
Pelos programas locais,
transmitidos pelo canal 20, a NET Chapecó recebe o valor mensal
de R$ 500,00 referente ao espaço utilizado, não tendo nenhuma
participação nos patrocínios, já que “toda a produção fica
a cargo das agências e a NET apenas transmite a programação”,
explica o gerente Rubens Schneider, que faz questão de esclarecer
que a NET não é uma produtora e sim uma distribuidora de canais.
Rubens explica que a NET possui oitenta canais e transmite
57, havendo, portanto, a possibilidade de serem utilizados
muito mais canais com programação local, o que é interesse
da operadora. Neste sentido, existe a possibilidade de em
pouco tempo começar a funcionar em Chapecó a TV Comunitária,
que será uma parceria entre NET e RBS TV, a exemplo da TV
Com em Porto Alegre. O canal comunitário deve ser transmitido
em UHF e pelo cabo.
Conclusão
A implantação da TV
a cabo abriu um novo mercado para a produção de vídeo independente.
Um mercado tão novo e repentino, no caso de Chapecó, que tem
encontrado dificuldades de ser atendido. Foi possível verificar,
neste trabalho, a ausência de profissionais da área de vídeo
atuando na produção dos programas locais veiculados pelo Canal
20, da NET Chapecó. Este fato justifica o amadorismo da programação
e denuncia a falta de qualidade em algumas produções.
O perfil dos programas
exibidos atualmente no canal local da TV a cabo em Chapecó,
demonstra a inexistência de um padrão de programação neste
espaço comunitário, o que é positivo, no sentido de permitir
a variedade, a criatividade e a utilização democrática deste
canal. O aspecto negativo deste fato é que, não existindo
um certo controle de qualidade, corre-se o risco de abrir
um excelente espaço para pessoas mal intencionadas e oportunistas,
interessadas apenas em faturar com o novo negócio, sem comprometimento
ou responsabilidade. Nesse caso, pode haver um prematuro desgaste
da programação regional, uma vez que o telespectador, frente
a tantas opções de canais, pode se decepcionar com as produções
locais e preferir revidá-las.
Bibliografia
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comunicação e novas tecnologias. São Paulo: Summus,
1988.
BUCCI, Eugênio.
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BUSTAMANTE, Enrique.
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Notas
1 Nelson Hoineff, A
nova televisão: desmassificação e o impasse das grandes redes,
Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1996, p. 14.
2 Reinaldo Santos,
Vademécum da comunicação, Rio de Janeiro, Destaque,
1995, p. 279-293.
3 TV em expansão,
Rio de Janeiro, Record, 1991, p. 54.
4 Uma nova ordem
audio-visual: comunicação e novas tecnologias,
São Paulo, Summus, 1988, p. 14.
5 Luiz Fernando Santoro,
A imagem nas mãos: o vídeo popular no Brasil, São Paulo,
Summus, 1989, p. 24.
Introdução
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