A Televisão na Era da Globalização

INTRODUÇÃO

Durante o XX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, promovido pela Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação –, no período de 3 a 7 de setembro de 1997, na cidade de Santos, o Grupo de Trabalho de Televisão reuniu-se pela quarta vez, consciente dos novos desafios tecnológicos e das tendências da globalização versus regionalização. Tendo isto como meta, buscou-se dar prioridade a temas que abordassem essas tendências, resultando na apresentação de oito trabalhos que, apesar de independentes entre si, estão vinculados não apenas pelo veículo televisão, comum a todos, mas também pela interdependência entre os temas.

Uma verdadeira revolução está se processando, neste fim de século, em todos os setores da atividade humana. A década de noventa está sendo identificada como a década das transformações geopolíticas e sócio-econômicas e da reestruturação institucional dos valores culturais, ideológicos e religiosos. Os conceitos de nação, de estado, de controle social e de liberdade também estão sob transformação.

Apesar de continuarem existindo, as fronteiras já não fazem sentido para as empresas, bancos e homens de negócios. O planeta está se tornando um só, por conta desta revolução irreversível, um fenômeno, a que se dá o nome de globalização.

É difícil definir a globalização, e a literatura existente é, às vezes, até contraditória. Alguns estudiosos negam a realidade da globalização e existe muito pouca concordância, em nível conceitual, sobre o que é realmente. O termo, em si, sugere que as atividades políticas, econômicas e sociais estão se transformando em escala mundial, como fenômeno universal que atinge, ao mesmo tempo e por igual, todos os cantos do planeta. Entretanto, admitir esta idéia seria ignorar, como lembra Maria da Conceição Tavares, “que o padrão de inserção internacional de um país se exerce a partir de estados concretos de dominação”.

Anthony Giddens1 define globalização como sendo a intensificação das relações sociais mundiais que ligam localidades distantes, de tal modo que acontecimentos locais podem ser influenciados por eventos que estão ocorrendo a centenas de quilômetros de distância e vice-versa. Desta forma, a globalização está relacionada também com a interseção de presença e ausência, o entrelaçamento dos eventos sociais e relações sociais à distância com contextualidades locais. Em síntese, o processo da globalização representa um aspecto do que Giddens chama de “fenomenologia da modernidade”.

De acordo com R. Robertson,2 globalização se refere à compreensão do mundo e à intensificação da consciência do mundo como um todo. É também, na visão de A. McGrew,3 um processo que tende, no inteiro, a reforçar – se não aumentar – as inequalidades do poder e da riqueza, ambos entre nações e através delas.

Historicamente, o debate sobre a globalização está vinculado a utópicos pontos de vista sobre sistemas de comunicação. Tal debate começou a partir da invenção do telégrafo e, nos anos sessenta, se tornou mais popular com o conceito da aldeia global, de McLuhan.4

Muitos estudiosos da globalização estão preocupados em mapear o mundo como um sistema único,5 um único lugar6 ou uma única sociedade mundial.7 Muitos dos discursos sobre a globalização são baseados nos conceitos e estratégias capitalistas de marketing, da transnacionalização do capital e do progresso das telecomunicações. Isto porque a cobertura jornalística em tempo real dos grandes fatos do dia, transmitida por emissoras de rádio e televisão, a exemplo da CNN, realmente atinge grandes audiências em todo o mundo. E isto está criando o senso de que tanto os brasileiros, os americanos, os franceses e os japoneses compartilham o fluxo da informação do mesmo modo, igualitariamente, gerando por conseguinte o senso de que coabitamos o planeta ao mesmo tempo com outras pessoas, com as quais estamos ligadas, apesar da distância, através da mídia.

Isto sem falar que, hoje em dia, qualquer pessoa pode, por cabo, satélite, fax, telefone ou Internet, se transportar para qualquer lugar, sem ter a necessidade de viajar. É exatamente por isso que o sistema de telecomunicações, o fluxo de informação e os veículos de comunicação de massa assumem um papel de extrema importância no desenvolvimento da globalização, pois são estes veículos que trazem o mundo para dentro de nossas casas.

O reconhecimento do papel exercido pela mídia no processo da globalização está relacionado à percepção popular de que os veículos de informação estão conectados com o centro dos acontecimentos da sociedade onde quer que estes se desenrolem. Vale ressaltar que a tecnologia hoje existente permite tanto à mídia impressa como à mídia eletrônica inserir, instantaneamente, em seus noticiários locais, qualquer reportagem internacional de última hora, enriquecendo o telejornalismo local, contribuindo também para aumentar no telespectador a sensação de que o mundo é pequeno.

Como diz Gabriel Bar-Haim,8 se existe uma ordem global com um centro definido ou não, a mídia passa a impressão de que tal ordem existe. A afirmação desta existência é transmitida diariamente através de notícias internacionais, documentários sobre partes do globo, abordando assuntos tão variados quanto ecologia na Índia, negócios no Japão, eventos culturais internacionais, a exemplo do Festival de Cannes, o concurso de beleza Miss Universo e ainda a transmissão dos Jogos Olímpicos ou a Copa do Mundo de futebol.

De acordo ainda com as interpretações de Bar-Haim, a mídia parece sugerir a existência de uma cultura global que não se constitui numa entidade em si mesma, mas é um conglomerado de múltiplos eventos culturais internacionais que refletem a multiplicidade de todas as sociedades, cujas diferenças culturais podem ser minimizadas, mas suficientemente caracterizadas para serem percebidas como exóticas.

Continuando em sua análise, Bar-Haim afirma que se alguém assumir como verdadeiro o fato de que a audiência de milhões de espectadores a um mesmo programa, seja ocidental ou não, seria uma contribuição para a formação de uma cultura mundial, tal hipótese “é uma falácia”. Isto porque mesmo a exposição prolongada a culturas diferentes transmitidas pela TV, por exemplo, não conseguirá mudar fundamentalmente as condições sociopolíticas locais, que permanecem as mesmas, em contradição à artificial coerência e convergência cultural promovida pela mídia.

É inegável que o acesso a informações através da mídia pode influenciar no nosso modo de viver. Giddens,9 por exemplo, insiste que consciência global não é limitada ao vago conhecimento de eventos, mas pode diretamente contribuir na formação de estilos de vida individuais.

A globalização é avassaladora e pode provocar padronização cultural. Constata-se que há uma verdadeira epidemia de McDonald’s espalhados pelo mundo, mas vale ressaltar também a proliferação da comida chinesa, japonesa etc. Ironicamente, ao mesmo tempo que a globalização nos conduz a uma aparente padronização, ela também abre perspectivas para outras culturas. Essa contradição é uma das características da globalização, que precisa manter as individualidades porque essa é uma das formas de assegurar mercado consumidor para seus produtos industriais ou culturais.

Assim, pode-se dizer que a globalização não deve comportar julgamentos de valor. Trata-se de uma nova realidade diante da qual precisamos tomar uma atitude, vez que ela tem eliminado diferenças entre produtos, cuja diferenciação passou a ser a ética da massa, ou seja, a imagem institucional da empresa. Por tudo isto, os efeitos imediatos da globalização são considerados predatórios, mas, ao mesmo tempo, este processo é capaz de levar a países e pessoas benefícios ainda não totalmente dimensionados, como o acesso a milhares de informações e de produtos das regiões mais distantes do planeta.

P. Waterman10 defende o ponto de vista de que a globalização deve ser entendida como multideterminada pelo mercado, soberania, militarização, industrialização, tecnocracia, racismo etc.

Exatamente por isso defendemos também que, para estudar as causas e efeitos deste processo, precisamos construir uma teoria crítica e social da globalização que passe por cima das teorias de direita ou de esquerda, responsáveis por enorme lista de estruturas teóricas (desenvolvimentistas, terceiro-mundistas e outras mais reformistas ou menos radicais) usadas nos últimos trinta anos, para entender o fluxo da informação e os processos de interação socioculturais entre as nações.

Os primeiros estudos que apresentaram o mundo como um todo nas relações internacionais surgiram na década de sessenta. Entretanto, só a partir dos anos oitenta o tema globalização se transformou em objeto de estudos acadêmicos. Segundo Sandra Braman,11 hoje existem pelo menos dois tipos de grupos de teorias da globalização: um formado por pesquisadores que a examinam a partir da perspectiva do geral para o particular, entendendo o fenômeno e os processos que aparecem abaixo do nível global, como nações-estados que crescem em resposta ao processo global. Outro, formado por teóricos que analisam a globalização a partir da perspectiva das partes em direção ao inteiro, argumentando, por exemplo, que o sistema global tem emergido da interação entre nações-estados.

Por isso, qualquer estudo sobre a globalização deve ser feito sem negar, rejeitar ou ignorar modelos anteriores, uma vez que o mundo ainda está cheio de evidências que comprovam aquelas teorias. Por isso concordo plenamente com a afirmativa de Bramam, defendendo que a teoria crítica da globalização deve ser entendida como um novo caminho e um transparente meio através do qual velhas estruturas, processos e discursos são ainda visíveis.

Levando tudo o que dissemos acima em consideração é que podemos compreender a interpelação dos trabalhos apresentados no GT de TV durante o XX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Assim, poderemos melhor contextualizar a experiência regional apresentada por Ilka Goldschmidt Vitorino, no trabalho intitulado “Chapecó vive a nova era da informação abrindo espaço para a produção audiovisual local”, ou entender a importância da legislação em tempos da globalização, quando países latino-americanos estão construindo o seu mercado comum como resultado das tendências de mercado. Uma análise sobre a legislação para televisão no Mercosul está contida no ensaio comparativo intitulado “A regulamentação da TV aberta na Argentina, Brasil e Uruguai”, apresentado por Othon Jambeiro.

Por sua vez, Edgard Rebouças, retomando um estudo que iniciamos com o livro Um perfil da TV brasileira: 40 anos de história, discute os “Desafios da TV brasileira na era da diversificação”, enquanto Natalício Batista Jr. analisa a produção de vídeos, abordando as “Alegorias ideográficas: a colagem como método mnemônico”, e Robson Bastos da Silva apresenta a “Rede Cultura de Televisão como um modelo alternativo de programação”.

Continuando, Penha Rocha diversifica a temática quando analisa o mercado de televisão e a exploração deste veículo como instrumento de propagação da fé, no ensaio intitulado “Televisão e religião no mercado global: TV Record e Rede Vida”. O desenvolvimento do mercado televisivo e a luta constante pela audiência exigem não apenas tecnologias, mas também formação de mão-de-obra especializada. E este problema é debatido no trabalho intitulado “Formação e treinamento profissional de jornalistas; um estudo de caso: TV Bahia”, apresentado por Washington Souza Filho. Finalizando, Cláudia Bahia de Oliveira demonstra como o regional e o global estão presentes neste grande veículo de massa que é a televisão, no trabalho intitulado “O local e o global no olhar televisivo”.

Como foi dito, os trabalhos aqui reunidos são independentes, mas estão interligados entre si pela legislação, regionalização e produção, dentro do que estamos identificando como sendo a era da globalização. A reunião destes trabalhos em um único volume, o segundo produzido pelo GT de TV, é uma contribuição a mais para todos aqueles que estão tentando entender melhor o desenvolvimento da televisão em nosso país e como as tendências afetam o crescimento do maior veículo de massa existente até o momento.

  * Sérgio Augusto Soares Mattos é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade do Texas, em Austin, Estados Unidos, editor do jornal “A Tarde” e coordenador do GT de Televisão da Intercom.

Bibliografia

ALBROW, M. & KING, E. Globalization, Knowledge and Society. Newsbury Park, CA.: Sage, 1990.

BAR-HAIM, Gabriel. “Media Charisma and Global Culture: The Experience of East-Central Europe”. Em: Globalization, Communication and Transnational Civil Society. New Jersey: Hampton Press, 1996, p. 145-155.

BRAMAN, Sandra. “Interpenetrated Globalization: Scaling Power, and the Public Sphere”. Em: Globalization, Communication, and a Transnational Civil Society. New Jersey: Hampton Press, 1996, p. 21-36.

GIDDENS, A. The Consequences of Modernity. Stanford, CA.: Stanford University Press, 1990.

————. Modernity and Self-Identity: Self and Society in Late Modern Age. Cambridge, England: Polity Press, 1991.

McGREW, A. “A Global Society”. Em: S. Hall, D. Held & McGrew (eds.). Modernity and Its Futures. Cambridge, England: Polity Press, 1992, p. 61-116.

McLUHAN, M. Understanding Media: The Extensions of Man. New York: New American Library, 1964.

ROBERTSON, R. Globalization: Social Theory and Global Culture. London: Sage, 1992.

WATERMAN, P. Globalization, Civil Society, Solidarity: The Politics and Ethics of a World both Real and Universal. The Hague: Institute of Social Studies, 1993.

WORSELEY, P. The Three Worlds: Culture and World Develoment. Chicago: The University of Chicago Press, 1984.

  Notas

1 The Consequences of Modernity, Stanford (CA), Stanford University Press, 1990.

2 Globalization: Social Theory and Global Culture, London, Sage, 1992.

3 “A Global Society”, em: S. Hall, D. Held & McGrew (eds.), Modernity and Its Futures, Cambridge (England), Polity Press, 1992, p. 61-116.

4 Understanding Media: The Extensions of Man, New York, New American Library, 1964.

5 P. Worseley, The Three Worlds: Culture and World Develoment, Chicago, The University of Chicago Press, 1984.

6 R. Robertson, op. cit.

7 M. Albrow e E. King, Globalization, Knowledge and Society, Newsbury Park (CA), Sage, 1990.

8 “Media Charisma and Global Culture: The Experience of East-Central Europe”, em: Globalization, Communication and Transnational Civil Society, New Jersey, Hampton Press, 1996, p. 145-155.

9 Modernity and Self-Identity: Self and Society in Late Modern Age, Cambridge (England), Polity Press, 1991.

10 Globalization, Civil Society, Solidarity: The Politics and Ethics of a World both Real and Universal, The Hague, Institute of Social Studies, 1993.

11 “Interpenetrated Globalization: Scaling Power, and the Public Sphere”, em: Globalization, Communication, and a Transnational Civil Society. New Jersey:
Hampton Press, 1996, p. 21-36.

 


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