Televisão e Cultura no Brasil e na Alemanha

 

Cap. 3 Mídia impressa e mídia eletrônica:
Política atual e reflexo cultural


Conferencistas: Dirk Kaemper e Sérgio Mattos
Debatedor: Washington de Sousa Filho
Moderador: Roland Schaffner


Cultura e política na mídia alemã
Interatividade e desenvolvimento das mídias no Brasil
Comentários
Debates do dia 14 de maio de 1994
Participantes: quem é quem


Cutura e política na mídia alemã

Dirk Kaemper

Boa-noite!

Para começar, eu gostaria de fazer um pequeno esboço sobre de que forma, na Alemanha, a gente pode se informar sobre eventos políticos. Para então mostrar como nós da programação cultural tratamos de assuntos políticos.

Em 1954, quando a televisão foi introduzida na Alemanha, muitos viram isso como o fim do rádio e da imprensa. Mas, como nós sabemos hoje, isso não se tornou realidade, ao contrário. No ano 1989, ou seja, ainda antes da reunificação da Alemanha, os veículos impressos atingiram, por edição, 83% da população, ou seja, 40 milhões de pessoas de um total de 60 milhões. Desde a reunificação, esta percentagem caiu ligeiramente, mas isso não quer dizer que os alemães da Alemanha Oriental estão lendo menos. De fato, o comportamento de leitura se modificou. Também a rádio, na Alemanha, que está organizada da mesma forma que a televisão de direito público, tem uma audiência bastante alta. As cifras são quase iguais às das mídias impressas. São mais ou menos 40 milhões de pessoas que diariamente estão ouvindo o rádio, ou seja, 82% da população acima de 14 anos. Então a gente pode concluir que, na Alemanha, de fato a televisão não substituiu, mas complementou as outras mídias.

A televisão de direito público teve um monopólio de informação política até o início da década de 80. O horário de informação política era em torno das oito horas da noite. A partir do momento que foram permitidos canais comerciais, a informação política na televisão sofreu uma transformação bastante grande. Atualmente, o telespectador alemão pode ver notícias políticas por trinta minutos em vinte a trinta canais diferentes. E, além disso, tem um canal especializado que só transmite notícias políticas, uma imitação de uma tradição nos Estados Unidos: um canal que se chama NTV, que transmite exclusivamente noticiário político. Ou seja, este canal acompanha todos os acontecimentos atuais da política. Além disso, na Alemanha existe também um sistema chamado videotexto, que é um jornal transmitido através do vídeo, dando notícias escritas regularmente. Porém, este sistema de informação está sendo aproveitado por pouca gente.

Essa situação das informações através de rádio e imprensa deixa claro que, quando a televisão começou a transmitir sua programação política, o público já detinha alto nível de informação. Similar aos programas políticos, os programas culturais também só podem aprofundar as notícias que já foram transmitidas por outros meios. Porém, quando os programas culturais mexem com a política, eles entram em um campo perigoso. Isto porque, na Alemanha, não se questiona se a política e a cultura são inseparáveis. Mas, nas áreas de produção, de programação, essa separação entre cultura e política ainda é irracionalmente mantida. Ou seja, cada emissora de televisão tem duas redações estritamente separadas. Uma redação de cultura e uma redação de política. Isso resulta muitas vezes em conflitos entre as duas redações, principalmente quando a redação de programações culturais mexe com a área política.

Isso explica o fato de que, relativamente tarde, só a partir dos meados da década de 70, as programações culturais começaram a tratar de eventos políticos. Isto também com a intenção de ampliar a noção cultural que até então foi relativamente tradicional. Hoje em dia, os programas culturais mostram a clara afinidade com os programas políticos, ou seja, uma ligação com a atualidade política. Isso naturalmente tem a ver com o fato da reunificação da Alemanha, a partir de quando aconteceu um sucessivo crescimento de politização da sociedade alemã, resultando também no fato de que nos programas culturais, os eventos culturais chamados primários – teatro, dança, música etc. – foram cada vez mais atingidos e interligados com a situação política do país.

Eu gostaria agora de mostrar dois exemplos que esclarecem de que forma os reflexos políticos são evidentes na programação cultural.

O primeiro exemplo é uma reportagem sobre a montagem da peça "Orestes", de Ésquilo, de um famoso diretor alemão, Peter Stein, uma montagem que ele realizou em Moscou. Desde o início da Perestroika, Peter Stein tentou realizar essa montagem em Moscou, só conseguindo montá-la depois da tentativa de golpe. E surpreendentemente essa montagem foi realizada no teatro do Exército Vermelho, dando uma conotação especial de ordem política atual a uma peça grega clássica.

O segundo exemplo a ser exibido trata de comportamentos da população alemã com monumentos que lembram os acontecimentos do fascismo. Mostra primeiro como os fenômenos históricos são tratados nos Estados Unidos e logo depois um exemplo ocorrido no Sul da Alemanha, onde um artista criou um memorial invisível, porque ele gravou os nomes de cemitérios judeus na parte de baixo da calçada. [Fita exibida.]

Como vocês assistiram, o primeiro programa deixa muito clara a tentativa de confrontar o evento cultural com o evento que simultaneamente aconteceu na área política.

É muito claro, porque os eventos políticos aconteceram simultaneamente à montagem da peça e de certa forma influenciaram os trabalhos em cena. Mas, a gente também podia imaginar que o mesmo tipo de programa poderia acontecer dentro da programação política. O que, às vezes, acontece. E desta forma é simplesmente o gancho, ou seja, a montagem teatral que justifica essa reportagem dentro da programação cultural. Há critérios semelhantes aplicados ao segundo exemplo. Na República Federal da Alemanha, nos últimos meses, quase não passou nenhum dia que não fossem mostradas reportagens sobre o radicalismo da direita ou sobre o neofascismo. Tudo isso demonstra apenas que também a programação cultural está acompanhando os programas políticos. Então surge uma pergunta que nós já colocamos várias vezes nos últimos dias. Se o programa cultural tratando de assuntos políticos realmente consegue uma aproximação sui generis? Este programa se diferencia claramente de programas elaborados dentro das redações políticas.

Eu considero que nesta área de tensão, entre cultura e política, pode-se encontrar uma chance de uma programação cultural específica. Talvez até uma chance de o programa cultural se constituir como um gênero próprio. Isto porque a programação cultural tem uma liberdade que na tradição de reportagem política não existe tão ampla. A obrigação de informar, o equilíbrio das informações e a objetividade são os três critérios básicos de qualquer informação televisiva. Mas eu posso imaginar que outras formas de se aproximar de fenômenos políticos podem caracterizar a programação cultural e vão criar novas chances e dar novas formas à informação cultural.

Eu espero que nos últimos dias tenha conseguido ilustrar um pouco sobre como a programação cultural, na televisão alemã, está atravessando uma fase de experimentos interessantes. O que levou também jornalistas de programação cultural a tratar de assuntos políticos mais ousadamente, mais liberalmente e com aproximações diferentes. Para ilustrar isso claramente, gostaria de mostrar mais dois exemplos.

Para o primeiro exemplo, nós temos que dar algumas explicações. Quando no início da década de 90 aconteceram os primeiros atos de xenofobia na Alemanha, surgiu uma grande onda de solidariedade no país. Uma forte expressão dessa solidariedade foram as assim chamadas "cadeias de velas". Ou seja, milhares de pessoas saíam à noite para as ruas, acendendo velas e juntando as mãos. Os programas culturais foram os primeiros a descobrir a maior cadeia deste tipo, em Hamburgo, iniciada por uma agência de propaganda comercial. O exemplo que vou mostrar se aproxima desse fenômeno.

Falando um pouco sobre o segundo exemplo, que não sei se é conhecido aqui: no dia 20 de abril deste ano [1994], um jogo de futebol entre a Alemanha e a Inglaterra foi cancelado na Inglaterra pela simples razão de que um homem chamado Adolf Hitler aniversariava naquela data. Na Alemanha, isso resultou num grande nervosismo. Eu, pessoalmente, acho que isso foi dar honra demais a esse homem. E os autores do segundo exemplo assumiram claramente esta posição. [Fita exibida.]

Naturalmente, os programas culturais têm outras possibilidades, além de ridicularizar eventos e fenômenos políticos.

Agora, eu gostaria de mostrar dois exemplos que considero bem característicos, pela maneira como a programação cultural trata de assuntos políticos. O tema é a Iugoslávia, especificamente sobre o destino da cidade de Sarajevo, na Bósnia. A situação deve ser do conhecimento de todos. A mil quilômetros da Alemanha, uma das guerras mais cruéis está acontecendo e, apesar de vários pedidos de ajuda, até agora quase nada aconteceu, mas isso nós já conhecemos por outros eventos na História.

Foram exatamente os programas culturais que se preocuparam com esses fenômenos. A programação cultural tratou desses assuntos que podem, certamente, ser discutíveis, mas que não foram percebidos por outros setores da programação televisiva. Ambos os exemplos partem do ponto de vista que cultura e política são inseparáveis, portanto, a cultura tem que mexer com a política.

Os dois exemplos foram produzidos pelo grupo Saga. Um grupo de programadores de televisão que mora em Sarajevo e que está registrando, dia-a-dia, a história de uma única rua na cidade bombardeada. Eles foram apoiados financeiramente, dentre outros, pelo canal Arte e por um diário alemão, um diário considerado como sendo da esquerda liberal. Este canal cultural, Arte, apresentou diariamente dois minutos de imagens da rua em Sarajevo. Ou seja, o telespectador podia acompanhar dia-a-dia o que acontecia naquela rua. No primeiro exemplo, vocês podem ver uma mulher que no início ainda passeia pela rua. Na segunda fase, ela está sendo morta. E, na terceira, está sendo enterrada. Críticos na Alemanha intitularam esse tipo de programa como "telenovela da morte".

A intenção da programação, porém, foi de apresentar, sem nenhuma maquiagem, a realidade que, cotidianamente aconteceu naquela cidade. E todas as emissoras de TV na Alemanha, menos as redações de programação cultural, se recusaram a transmitir essas imagens. Talvez seja importante observar que dificilmente um canal, exclusivamente de programação cultural, possa ser acusado de abusar de imagens reais. E, desta forma, sem qualquer dúvida, os canais culturais conseguiram impressionar a população alemã de uma maneira que nenhum outro canal jamais conseguiu impressionar. [Fita exibida.]

Esses foram dois exemplos de programação cultural transmitidos de redações que normalmente só mostram montagem de teatro, concerto de música etc.

Senhoras e senhores, este é o fim da minha contribuição para este seminário. Aprendi bastante sobre o sistema televisivo brasileiro. Espero que tenha podido transmitir para vocês a nossa forma, a forma alemã de fazer programa cultural.

Muito obrigado!

(*) Conforme tradução simultânea e gravação.


Interatividade e desenvolvimento das mídias no Brasil

Sérgio Mattos

Boa-noite!

Acredito que coube a mim talvez a tarefa mais difícil, uma vez que, depois de uma semana inteira de seminário, quando tivemos oportunidade de ouvir exposições brilhantes e uma contribuição muito rica, praticamente não sobrou nada para mim. Na verdade, esvaziei um pouco a minha fala, exibindo ao longo da semana alguns dos casos que gostaria de mostrar hoje. Durante a semana fui sempre intercalando as conferências com alguns casos de programas da televisão brasileira que, acredito, serviram para que tivéssemos uma visão global da nossa TV.

Nós temos como tema hoje "Mídia impressa e mídia eletrônica: política atual e reflexo cultural". A fim de que os participantes deste seminário possam entender melhor como a mídia evoluiu no Brasil, se faz necessário falar um pouco do contexto histórico de maneira mais didática, considerando que a platéia se constitui, em sua maioria, de estudantes de Comunicação e curiosos.

Quando a gente se refere a mídia eletrônica e a mídia impressa, é óbvio e bem definida a constituição dos dois grupos: (1) rádio e televisão, como mídia eletrônica e (2) jornais e revistas, outros impressos, livros, como mídia impressa. Como é que poderíamos identificar o que é que influenciou, quem influenciou o que ou como foi influenciado o desenvolvimento da mídia brasileira?

Se considerarmos a evolução dessas mídias no Brasil, vamos chegar a uma constatação de que não houve bem uma competição entre elas, mas uma interação. A nossa mídia impressa, que surgiu por volta de 1808, com a chegada da corte portuguesa, já começou sob os efeitos da censura. O primeiro jornal brasileiro, o "Correio Brasiliense", era impresso na Inglaterra, mais precisamente em Londres, para fugir da censura. Historicamente, tivemos problemas para desenvolver a mídia impressa porque o maquinário era importado.

Em torno de 1920 foram implantadas, no Brasil, as primeiras emissoras de rádio. As nossas primeiras emissoras de rádio e revistas começaram a ter um grande potencial de audiência e uma influência tão grande sobre a população que, para vocês terem uma idéia, entre 1940-1945, a revista "O Cruzeiro" circulava no País com cerca de um milhão de exemplares. Só agora [1994], a revista "Veja" está atingindo esta circulação. Em uma época em que não tínhamos estradas, um sistema rodoviário como temos hoje, apesar dos buracos das nossas estradas; em uma época em que não tínhamos muitos aeroportos, nem aviões a jato; a revista "O Cruzeiro" já circulava em todo o País, atingindo quase um milhão de exemplares. Era a revista vinculada ao grupo dos Diários Associados e, apesar de ser mensal naquela época, era lida e relida, permanecendo guardada pelas famílias sempre como fonte de informação e lazer. Ela tinha uma influência muito grande. O que saía em "O Cruzeiro" era uma coisa digna de respeito, tinha credibilidade.

Mas, o rádio também tinha uma influência muito grande. Os jornais, em sua maioria, eram regionais e pequenos e tinham circulação restrita, mas existiam, em todos os estados, aqueles tidos como muito influentes. A revista "O Cruzeiro" e as emissoras de rádio exerciam uma influência tão grande que, quando se pensava, quando se falava na implantação da televisão no Brasil (a TV foi implantada aqui em setembro de 1950), se afirmava que ela não tinha futuro, que o rádio é que era o grande veículo. Diante da influência do rádio e principalmente da revista "O Cruzeiro", se pensou, realmente, que a televisão não iria vingar.

Ontem, numa das exibições de videotapes feitas aqui no seminário, tivemos oportunidade de ver o exemplo da BBC de Londres, que transmitia as notícias na televisão de maneira estática porque o rádio tinha uma influência muito grande e se levou muito tempo para que a televisão passasse a transmitir notícias com as imagens como nós temos hoje.

Vale lembrar que o cinema também ocupava um espaço muito grande, em termos de cultura, em termos de influência. Nós tínhamos muitas casas de exibição de filmes espalhadas por este país e nesta Bahia. Até duas ou três décadas passadas, nós tínhamos mais casas de espetáculos de cinema do que temos hoje [1994].

Lembrando a influência do cinema, das rádios e das revistas, estamos traçando um caminho para chegar à televisão. Pois, quando ela chegou, de imediato, começou a usar todos os fundamentos do rádio, quer dizer, os primeiros profissionais da televisão, todos, sem exceção, vieram do rádio. Todo o pessoal que trabalhava em rádio foi trabalhar na televisão.

Assim, a implantação da TV no Brasil foi feita de maneira amadorística e improvisada. Tão improvisada que a inauguração da nossa televisão virou uma piada, apesar de existir quem ateste como verdadeira a piada da inauguração da nossa primeira emissora, a TV Tupi. Quando foi inaugurada, a Tupi tinha apenas duas câmeras, e na inauguração, como era praxe se quebrar uma garrafa de champanha, se quebrou em uma das câmeras, danificando assim uma das duas primeiras câmeras que colocaram a nossa televisão no ar.

Isso é contado como uma piada que rola no meio televisivo brasileiro, e a gente não sabe, eu pelo menos não tive ainda acesso a qualquer fonte que afirmasse isso como sendo verdadeiro. Entretanto, essa "estória" consta em vários livros que registram a inauguração da televisão brasileira. Vários autores falam desse ato que inutilizou uma das câmeras na solenidade de inauguração de nossa televisão.

A verdade é que a televisão brasileira foi instalada com uma deficiência muito grande em relação à televisão americana, que quando surgiu já encontrou a indústria cinematográfica de Hollywood muito bem estruturada e que lhe serviu de fonte inesgotável de programas. A televisão americana se baseou e se utilizou muito dos filmes produzidos em Hollywood. Nós, ao contrário, não tínhamos uma indústria cinematográfica desenvolvida. Como conseqüência, a nossa indústria cinematográfica não pôde ajudar no desenvolvimento da televisão, apesar do formato da nossa televisão ser igual ao formato da TV americana. Mas, o rádio, que era a nossa mídia mais forte e influente, na época, ajudou e muito nos primeiros passos de nossa televisão, inclusive no formato dos programas.

Desta forma, resumidamente, nós temos a mídia impressa e a mídia eletrônica. E o que importa neste momento é como se dá a interação entre eles. A televisão começou com a ajuda do rádio, com muita gente achando que ela não iria vingar. O rádio serviu de suporte para a implantação da nossa TV. O cinema, no mundo inteiro, por sua vez, serviu de suporte para a televisão, e no Brasil, a partir de 1965, teve papel decisivo.

Com o sucesso da televisão, entretanto, não faltaram os visionários que diziam que "os jornais vão acabar, o cinema vai acabar". O cinema não acabou, nem os jornais acabaram. A televisão tem o sucesso que tem sem ter eliminado o cinema, sem ter eliminado o rádio, sem ter eliminado a revista, sem ter eliminado os jornais. O que é que houve? Se segmentaram em termos de mídia. Mídia eletrônica e mídia impressa permanecem e vão ocupar o espaço ainda por muito tempo, definitivamente segmentadas.

Mas, apesar dessa segmentação de mercado, cada qual ocupando seu espaço, a gente observa hoje que existe uma simbiose entre elas, uma interação entre as mídias. No momento em que começamos a assistir aos telejornais da manhã, a primeira coisa que a gente vê são os apresentadores lendo e exibindo as manchetes dos jornais do dia. A primeira coisa que fazem é ler as manchetes dos jornais impressos do dia. Aí se pergunta: mas por que se lê primeiro as manchetes dos jornais do dia, se as notícias que estão dando, na melhor das hipóteses, são notícias de ontem.

Se os telejornais começam lendo os noticiários dos jornais, as manchetes dos jornais, então a gente já começa a sentir que existe um espaço para os jornais e um espaço para a televisão. Um não está invadindo o espaço do outro. Muito pelo contrário, um acaba ajudando o outro. Porque, no momento em que a televisão lê a manchete do dia, ela está estimulando o leitor a procurar maiores detalhes sobre aquela notícia, comprando o jornal do dia.

Se considerarmos que no Brasil temos uma tiragem média de jornais estimada em quinze milhões de exemplares por dia, e se multiplicarmos esse total por quatro (cada jornal é lido por uma média de quatro pessoas), vamos encontrar um elevado percentual de leitores de jornal em relação à população brasileira. Com isto se constata que não podemos dizer que o Brasil é um país que não lê. Se considerarmos apenas esse fato, constataremos a existência de um elevado índice de leitura no Brasil. Um índice além da expectativa.

Senão vejamos alguns dados estatísticos: o Brasil tem 140 milhões de habitantes e 15 milhões de exemplares de jornais diários. Se considerarmos os números secamente, o Brasil lê muito pouco. Apenas a média de 10% da população está lendo jornais. A tiragem da nossa imprensa representa 10% da população.

Entretanto, estes números estatísticos não podem ser lidos como uma relação direta entre a quantidade da tiragem dos jornais e o número de habitantes. A leitura estatística tem que ser feita levando-se em conta quantas pessoas lêem em média cada exemplar. Ou sejam, quinze milhões vezes quatro. O resultado será o índice médio de leitura de jornais no País. Se considerarmos ainda que metade da população está abaixo de dezoito anos, verificaremos que nossa população apresenta um alto índice de leitura.

Os jornais brasileiros possuem dias de maior tiragem, que ocorrem geralmente aos domingos. Eu acredito que todo mundo pode imaginar o porquê. As explicações são muitas, podem dizer: é que tem leitor que só compra jornal dia de domingo porque recebe dinheiro por semana. Outros só compram aos domingos porque, ao longo da semana, lêem o jornal na empresa ou na repartição. E assim por diante.

Existem até estudos estatísticos indicando que no Brasil apenas 20% dos leitores compram jornal todo dia e 80% são flutuantes. Então, seria mais ou menos assim: de cem pessoas, vinte compram jornal todos os dias e oitenta compram o jornal apenas às segundas-feiras, porque dia de segunda-feira o jornal oferece um suplemento de esportes. Dia de terça, um outro grupo de oitenta compra o jornal, porque outro suplemento segmentado é oferecido, por exemplo, o caderno de turismo. Dia de quarta, porque tem um caderno de automobilismo. Dia de quinta, porque tem um caderno y, um caderno x.

Mas, apenas 20% lêem o jornal permanentemente, os outros 80% são flutuantes. São pessoas que compram o jornal em média uma vez por semana. Mas, aos domingos, os jornais brasileiros apresentam quase o dobro da tiragem que costumam tirar nos dias úteis. Vocês podem imaginar a razão por que aos domingos?

Intervenção de uma ouvinteEu mesmo compro jornal dia de domingo para ler na Revista da TV os resumos das novelas.

Sérgio Mattos – É verdade, isso é verdadeiro. Os jornais aos domingos publicam cadernos sobre televisão, cadernos de leitura, com artigos de fundo e reportagens amplas e especiais que são responsáveis hoje pelo dobro da tiragem de qualquer jornal do País. Então, aos domingos, os jornais conseguem dobrar suas respectivas tiragens – podemos inferir – por causa também dos suplementos de televisão, que trazem reportagens sobre as novelas, os artistas em destaque, os resumos das novelas e dos filmes que serão exibidos ao longo da semana. Publicando informações sobre a televisão e seus programas, os jornais também interagem com a televisão. Pode-se inferir que os jornais conseguem aumentar a circulação em quase o dobro, em função dos cadernos de televisão.

Então, vocês observem que a interatividade existente entre a mídia impressa e a mídia eletrônica permanece. Quer dizer, enquanto programação e conteúdo, não existe, por exemplo, uma competição entre elas. Uma completa a outra. A competição das mídias hoje está centrada basicamente no bolo publicitário, nas verbas dos anunciantes.

Então, como é que uma completa a outra? Um veículo completa outro em termos culturais e em termos jornalísticos. O noticiário foi o primeiro exemplo dado: as televisões lêem as manchetes dos jornais. Por outro lado, nas redações dos jornais, todas as noites, antes do fechamento dos jornais, os editores costumam assistir aos telejornais para ver quais são as notícias que estão sendo destacadas. As notícias locais, nacionais e internacionais destacadas nos telejornais, geralmente são dadas com um tempo máximo de dois a três minutos. Os assuntos abordados nos telejornais de certa forma estarão com mais detalhes nos jornais no dia seguinte. Então, na verdade, o que ocorre é o seguinte: a televisão noticia e desperta o leitor para aquele assunto, levando-o a comprar o jornal no dia seguinte para saber maiores detalhes.

Há quem diga que as televisões pautam os jornais e vice-versa. A partir do momento em que os principais assuntos do dia na televisão são identificados, no outro dia fica mais fácil encontrá-los nos jornais. Óbvio. Pelos critérios jornalísticos, as notícias veiculadas na mídia eletrônica ou na mídia impressa são as mesmas. Então, tanto faz ser na televisão como no jornal impresso, nas revistas, os assuntos importantes serão os mesmos. Desta forma, as notícias destacadas nos telejornais durante a noite serão encontradas com maiores detalhes nos jornais do dia seguinte. Então, a televisão acaba fazendo uma chamada prévia do que você vai ler no dia seguinte. Sob este ponto de vista, há uma interatividade nesse sentido. Um veículo ajuda o outro. No dia seguinte, os jornais dão as manchetes, a televisão volta novamente a ler as manchetes dos jornais do dia.

Aqui se poderia levantar outra questão: como é que a televisão pauta os jornais? A influência que esta poderia ter sobre os jornais estaria diretamente relacionada com o imediatismo da mídia eletrônica. Pela abrangência de sua audiência, o governo pode anunciar alguma coisa de última hora, levando os jornais, se não tiverem conhecimento do assunto, a buscar mais detalhes para publicá-los no dia seguinte. Este é o único exemplo no qual as televisões poderiam furar os jornais ou dar a dica para os jornais, um ponto de pauta para o dia seguinte. Isto pode ser dito porque, hoje, com a tecnologia que temos, todos os veículos têm acesso às mesmas informações. Todos têm acesso a tudo. Seja jornal, rádio ou televisão, as fontes de informação são as mesmas. O que um leitor lê num jornal e não encontra no outro é porque, por decisão dos editores ou por causa da linha editorial de cada veículo decidiu-se privilegiar uma notícia em detrimento de outras.

Nos últimos anos, em função da tecnologia e de um maior profissionalismo das mídias, os furos jornalísticos já não existem como há duas ou três décadas, quando só um jornal, só uma emissora, tinha o poder de dar aquela notícia porque ele furou os demais. Hoje, todo mundo tem acesso a tudo. E quando o veículo não vai à fonte, ela manda a informação para o veículo. Quer dizer, se o jornal ou a televisão não for lá, receberá o release, ou vídeo com as informações, do mesmo jeito, porque todas as instituições, públicas e privadas, têm hoje assessorias de imprensa, departamentos de marketing e de relações públicas, mantendo um sistema de informação direto com os variados meios de comunicação.

O jornal, rádio e televisão têm acesso às mesmas informações. O que vai diferir é o processo de edição dessas informações. Quem vai dar mais destaque a esta ou aquela notícia ou quem não vai divulgá-la; como aquela notícia será tratada pela televisão ou pelos jornais, se um jornal ou uma televisão vai ignorar ou veicular este ou aquele assunto, por uma questão política, por uma questão ideológica ou porque achou que outra notícia era mais importante do que aquela. A mídia impressa trabalha com espaço, enquanto a mídia eletrônica trabalha com tempo. Na televisão, praticamente é noticiado apenas o lead (o primeiro parágrafo das notícias) e os títulos das matérias que serão lidas no dia seguinte nos jornais. Feitas essas colocações com relação à influência de um tipo de veículo no outro, gostaria de exibir um vídeo que trata da influência e da competição entre eles.

Quando os veículos rádio e televisão competem entre si, eles basicamente estão competindo em relação ao lucro que podem ter. No Brasil, nós temos a mídia constituída basicamente pela iniciativa privada e que, antes de tudo e qualquer coisa, visa ao lucro. Apesar das funções sociais dos meios de comunicação serem educar, fiscalizar, informar e entreter, isso vem depois do lucro. Depois do lucro eles procuram atender às funções sociais.

A audiência significa lucro para qualquer um dos veículos. Quanto maior for a audiência do rádio e da televisão, quanto maior for a circulação do jornal ou da revista, maior será o lucro que esses veículos terão. Porque o custo por milheiro ou o custo por minuto de uma televisão, de uma emissora de rádio ou do jornal de uma televisão está relacionado diretamente com a audiência que eles têm. Então, se um jornal tem uma circulação muito grande, ele tem uma audiência muito grande. E aí ele pode cobrar pelo espaço que vende preços maiores. A televisão do mesmo jeito. De certa forma, a luta pela audiência acaba determinando ou orientando o conteúdo dos programas televisivos e dos veículos impressos.

As redes de televisão no Brasil recebem em média 60% do que se investe com publicidade no País. O total das verbas publicitárias no País gira em torno de 1% do Produto Interno Bruto. Um por cento do PIB, portanto, é o que se gasta em publicidade neste país, que gira em torno de 2,5 a 3 bilhões de dólares. Para vocês terem uma idéia, 60% do total vai para as emissoras de televisão, cerca de 25% a 30%, para os jornais, 8%, para o rádio, e o resto é veiculado em revistas, outdoor, display, cinema e outras formas de anúncio.

Para que os participantes do seminário tenham idéia dessa competição por audiência e comerciais, vamos exibir um tape, produzido pela Associação Nacional dos Jornais (ANJ), que procura demonstrar como o veículo jornal é mais importante do que a televisão, do que o rádio e do que qualquer outro meio. [Fita exibida.]

O tape exibido foi interessante para se ter idéia de como é a competição entre jornal, revista, rádio e televisão, sempre em busca de atrair mais anunciantes e de atingir maior lucro.

Em resumo, o que a ANJ está tentando mostrar no exemplo exibido é que o veículo jornal tem uma penetração maior, além de ser formador de opinião. Afirma que quem anuncia em jornal vai atingir as pessoas que tomam decisões. Apesar de ter proporcionalmente uma circulação menor do que a audiência da televisão, o público consumidor de jornais e revistas sabe ler e escrever, é um público ativo, é um público que, para adquirir o jornal, tem que tomar uma decisão. Então, se um anúncio é feito através dos jornais, o anunciante atingirá um público que tem poder aquisitivo, mesmo esse público sendo também parte da audiência nas emissoras de televisão.

Apesar de jornalista militando na imprensa escrita, procuramos usar os recursos televisivos para transmitir parte do conteúdo do tema de hoje. Embora "furado" anteriormente por outros expositores, fizemos questão de exibir estes dois tapes hoje, porque eles dão uma idéia da política cultural do País, o que está havendo em termos da política de comunicação e a competição em relação as mídias entre si. Assim sendo, para acrescentar ou esclarecer outros detalhes, nos colocamos à disposição dos presentes para debater um pouco mais.

Desde o primeiro dia do seminário, procuramos mostrar através de vários videotapes, a evolução do telejornalismo e suas formas de produção. Hoje, fechamos a temática com o jornalismo impresso, com a mídia impressa, deixando transparecer a interação existente entre as mídias, influência que um exerce sobre o outro, além da discussão sobre a política de comunicação no País, destacando a nossa Lei de Imprensa em tramitação no Congresso Nacional desde 1992, cuja aprovação haverá de trazer um reflexo muito grande na postura da imprensa de modo geral.

Sobre política cultural, poderíamos concluir dizendo que, apesar de termos uma no Brasil, tanto dentro da mídia impressa como da mídia eletrônica, nós não temos ainda
uma política definida, planejada, específica, de cultura para as mídias, mas ela existe.

Muito obrigado!


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Washington de Sousa Filho

A oportunidade de falar depois de duas conferências, feitas por Dirk Kaemper e por Sérgio Mattos, não deixa de me colocar, de certa maneira, numa situação difícil, principalmente pela tarefa de tentar aclarar o debate, levantar alguns pontos das conferências feitas. Para a gente tentar encaminhar isso de forma clara e objetiva, eu quero fazer esta intervenção dizendo que, no plano das colocações deles, dois aspectos se destacam em relação à comparação entre as mídias impressa e eletrônica no Brasil visto numa perspectiva da Bahia e da Alemanha. O que me chamou a atenção é que o referencial para compreender a distinção é que há um viés, uma visão particular de cultura e que, no caso do modelo adotado na Alemanha, ela se aplica, ela é transposta para a prática que se faz do jornalismo. Há aspectos que chamam a atenção em particular aos dois casos e que eu classifiquei de duas formas: um institucional e outro estrutural.

O primeiro aspecto, que é o aspecto relacionado à questão institucional, tem como relevante o processo de estabelecimento desses mídias. Particularmente a mídia eletrônica – rádio e televisão – que tem por natureza uma distinção em relação ao impresso. É evidente a noção existente na Alemanha de canal de direito público, que é um sistema muito comum na Europa, e de certa maneira pouco conhecido no Brasil, mesmo com o funcionamento de TVs Educativas e em comparação desse aspecto a situação que tem no Brasil.

Independentemente até do fato de a televisão no Brasil ser anterior à televisão na Alemanha – a televisão no Brasil foi implantada em 1950 e o rádio em 1920 –, ainda hoje não se conseguiu encontrar um processo de distribuição e concessão dos canais de televisão que permita fundamentalmente o exercício da sociedade de exercer o controle deles. Concessão de rádio e televisão no Brasil é um processo, digamos assim, particular submetido aos interesses dos governos que estejam circunstancialmente no poder. Mesmo com a aprovação de artigos e aspectos contidos na última Constituição (1988), que garantiria e permitiria esse tipo de controle, essa, e ainda hoje, é uma luta das entidades voltadas e preocupadas com a defesa dos interesses da sociedade na comunicação. Não foi feita a implantação do processo de comunicação social que consta na Constituição de 1988.

Um outro aspecto se relaciona particularmente à mídia impressa e não me foi possível perceber na exposição de Dirk Kaemper. Mas há um fato no Brasil, um dado contido no vídeo sobre jornal, exibido por Sérgio Mattos, que merece destaque. A informação é de que há hoje mais ou menos 305 jornais diários no Brasil. A maioria predominante dos grandes jornais de circulação está controlada por oito grupos familiares. É uma realidade do Brasil que não é muito diferente em relação ao mundo em geral, porque hoje há uma tendência de concentração. Se diz em relação ao controle de comunicação que o mundo acabaria dominado por três "m": Murdock, Maxwell e Marinho.

No outro campo, a questão da estrutura, a gente identifica especificidades e de certa maneira a abordagem aqui vai ser muito mais no plano da televisão e do rádio, da televisão em particular, até por conta do material apresentado. O primeiro aspecto é na forma de apresentação, e aqui vamos usar muito mais o conhecimento que todos nós temos como telespectadores, e na comparação com o material de Dirk é de que há um tratamento até pelo enfoque do que ele coloca, no plano do jornalismo cultural, que faz com que a gente compreenda o modelo adotado no Brasil, que, mesmo no tratamento da informação política no jornalismo, há uma preocupação com o marketing. O fenômeno Collor é um exemplo, mas não é diferente do tratamento da política, e a gente pode ter como exemplo, ainda que não possa ser enquadrado no campo do jornalismo, o horário eleitoral. Os programas apresentados no horário eleitoral e fatos aparentemente até engraçados, mas que não deixam de ser uma realidade do que representa a mídia eletrônica para a divulgação das idéias políticas. Como é o caso do atual presidente da Câmara dos Deputados, Inocêncio de Oliveira (sem que haja algum demérito aí, mas que é uma pessoa que é gaga e que tem dificuldade de se expressar). No momento em que se dispôs a disputar o cargo de presidente da Câmara dos Deputados, fez um esforço enorme para conseguir se adequar ao ritmo de fala da televisão. Para conseguir falar, apesar de um problema particular e pessoal (a gagueira), ele se dispôs a superar essa dificuldade pelo que representa o espaço, a ocupação da televisão.

A despeito dos dados apresentados por Sérgio Mattos, sendo a televisão um elemento que se destaca como mídia e as projeções de tiragem, os dados apresentados em relação à tiragem e influência dos jornais aparecem como projeção em relação à audiência da televisão. Há o aspecto do tratamento dado e, aí, a gente tem que considerar que a perspectiva é diferente da apresentada por Dirk em relação à televisão da Alemanha no campo cultural. É a visão como negócio que o jornalismo brasileiro adota na busca da audiência. Mas chamo a atenção, também, como aspecto para discussão, que esta é uma tendência que a imprensa brasileira assumiu e se estendeu na prática da televisão. Chamo a atenção também para o fato de que a mídia impressa é vinculada aos interesses de grupos familiares e que se estendem ao plano desses grupos na área da economia. É da tradição do Brasil mesmo. Se a gente voltar atrás para avaliar a história, constataremos a inexistência de uma empresa partidarizada, que é relativamente comum em outros países, na Europa em particular, que é a vinculação em determinado momento, a identificação da característica de um determinado meio de comunicação a uma idéia política. No Brasil, você não tem, e fica claro, aqui, que estou dizendo que não tem é uma identificação política, que significa defesa de princípios até comprometidos com interesses partidários diferentes de interesses das empresas. Quer dizer, quando determinada empresa muitas vezes assume uma posição em defesa de, por exemplo, um candidato, não significa, no caso do Brasil, que haja aí uma defesa de princípios políticos e sim muito mais a compreensão de uma determinada realidade que é satisfatória para seus interesses.

Diferente de uma prática comum nos países da Europa, diferente da prática comum em países onde essa noção de política é uma noção estabelecida pelo respeito a princípios. A única tentativa conhecida no Brasil e que é assumida claramente é a do jornal "Folha de S. Paulo", que faz questão de estabelecer isso como princípio do seu funcionamento e é uma realidade a partir de 1984, quando se implanta o chamado Projeto Folha, que é a linha de coordenação e de referência do seu jornal.

Essa falta de partidarização formal não retira dos jornais brasileiros a defesa dos seus interesses ao ponto de, hoje, independentemente do que se discute em relação à legislação referente à Lei da Imprensa, outras entidades tentam desenvolvimento de ações específicas para tentar se estabelecer um norteamento por processos de informação política no Brasil. Um caso concreto é a ação da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), através da qual essa ação permitiu a implantação do chamado Fórum Nacional Democratização, que é um movimento coordenado pela Fenaj e pelos sindicatos estaduais de jornalistas e congrega as mais diversas entidades incorporadas na luta política e social no Brasil tendo como principal objetivo a ordenação desse espaço em relação às mídias eletrônica e imprensa e, em particular, com relação à próxima eleição tenta desenvolver um projeto chamado o "ombudsman da mídia", com a finalidade de fazer um acompanhamento da ação de jornais e televisões. Esse aspecto é particular porque mídia no Brasil e política estão muito vinculadas a processos recentes da nossa história e por conta dos interesses dos grupos que representam os meios de comunicação.

Em termos de conclusão, eu gostaria só de chamar a atenção ao episódio que Dirk Kaemper se referiu sobre o cancelamento do jogo Alemanha e Inglaterra, e até concordo com o aspecto que ele coloca, quer dizer, é se dar muita honra a determinado tipo de pessoa. Mas, o que eu gostaria de chamar a atenção, usando o exemplo dele, é que esse é um tipo de tratamento que no Brasil não ocorreria se permitir. No contexto que ele coloca, houve muitas vozes se manifestando no mesmo sentido. No Brasil você não tem, porque a natureza dos meios de comunicação não permite aos seus profissionais nenhum tipo de manifestação. Essa noção de que ao jornal se permite, aos meios de comunicação se permite proferir o que seria a voz do dono e nunca de quem faz. Essa é uma realidade que, de certa maneira, considerando todos os aspectos institucionais e estruturais, faz com que seja particularmente diferente da realidade que a gente tem do jornalismo político no Brasil com a situação e o exemplo que se tem na Alemanha.


Debates do dia 14 de maio de 1994


Roland Schaffner – Muito obrigado, professor Washington. Temos aqui algumas perguntas e colocações que, na seqüência de chegada, vou ler e pedir aos conferencistas presentes para responderem.

PerguntaNa década de 30, antes do aparecimento da televisão, o que mais se passava nos cinemas eram produções norte-americanas ou tudo se resumia a pornochanchadas brasileiras?

Sérgio Mattos – A década de 30, de certa forma, era considerada quase que uma década de ouro, onde a música tinha influência muito grande. O cinema estava em pleno apogeu, nós recebíamos principalmente filmes norte-americanos, o rádio tinha um domínio maciço, tinha dez anos de implantação no País e uma influência muito grande. As chanchadas não são bem dessa época. A gente estava começando, ensaiando os passos ainda na década de 30. Na verdade, a gente recebia mais filmes importados. Nós tínhamos mesmo os jornais impressos, as revistas e o rádio.

PerguntaComo as programações culturais do Brasil aparecem na TV alemã em termos de um elemento do noticiário daquele país?

Dirk Kaemper – A cultura brasileira aparece principalmente nos assim chamados magazines culturais. Por exemplo, se um grupo de teatro ou músico se apresenta na Alemanha, aí tem uma reportagem relativamente extensa. Como um bom exemplo, naturalmente o tema em foco na Feira Internacional de Livro de Frankfurt é o Brasil e, com certeza, muitos magazines culturais, várias estações de televisão vão fazer programas sobre isto, inclusive, aproveitando o grande número de escritores brasileiros na Alemanha. Do outro lado, a gente tem que saber que na televisão alemã o Brasil é muito presente através do seu carnaval e do seu futebol. É isso que a maioria do público alemão sabe e quer saber.

Pergunta"Cultura e política. Eu não acredito em política. Porém não se pode separar o que é inseparável. No caso cultura e política, que são duas faces de uma mesma moeda. O mundo, os conceitos, as concepções estão todos malucos. A cultura está morrendo. Morrer não é difícil, difícil é a vida e seu ofício" (Maiakóvisk).

Dirk Kaemper – É evidente que cultura e política não são inseparáveis.

PerguntaNo jornal existe espaço nobre, fazendo uma analogia com o horário nobre da TV?

Sérgio Mattos – Sim, existe. Se a gente considerar o jornal como um todo, você vai observar o seguinte: qual é a parte mais importante que tem no jornal? É a primeira página. Após a primeira página, você tem todas as páginas ímpares em seqüência, 1º Caderno, 2º Caderno, 3º Caderno. Então as páginas nobres são sempre as páginas ímpares. Em termos de publicidade também são sempre as páginas mais caras. Porque exatamente você começa a ler a página um, que é a capa; quando você abre o jornal, a próxima página que vem ao seu alcance direto é a página três, a página ímpar. Então, todas as páginas ímpares são espaços nobres, e dentro de cada página, o alto da página é nobre. Na nossa cultura a gente lê da esquerda para a direita, então o espaço do alto à esquerda é mais nobre do que o alto à direita. E o centro da página por sua vez é mais nobre do que o canto baixo esquerdo e o canto baixo direito de cada página. Enfim, os espaços nobres dos jornais são: a capa, a contracapa, o alto das páginas e as páginas ímpares.

PerguntaQual seria a justificativa política para o fato de o governo criar toda uma infra-estrutura de telecomunicação e concedê-la a grupos particulares para que estes se beneficiem?

Sérgio Mattos – Eu acredito que isso está relacionado com a televisão. Vamos tentar recapitular. Por exemplo, em 1964 existia por detrás dos conceitos do Golpe Militar uma doutrina de nacionalização, uma doutrina nacional que era divulgada pela Escola Superior de Guerra do Brasil. No momento em que se deu a revolução, houve toda uma preocupação com a política específica de comunicação dirigida aos meios de comunicação, pois tanto o rádio como a televisão eram tidos – e de fato o são – como veículos que poderiam alcançar grandes massas. Ao mesmo tempo em que o governo criou toda a infra-estrutura para prover o País de uma rede de telecomunicações, a gente não pode esquecer que todas as torres de microondas, satélites e tudo, mais de 50% estavam reservados para os serviços de informações do Exército e da Polícia Federal. Quer dizer, existia também por trás a intenção de poder cobrir em termos de segurança nacional todo o território nacional e essa infra-estrutura foi montada basicamente para isso com fins militares. Naturalmente que os meios de comunicação se beneficiaram disso direta e indiretamente. Existia também a tentativa de fazer com que o Brasil tivesse fronteiras de telecomunicações, porque, como o território era muito grande, ninguém queria investir naquela área. O governo implantou torres de microondas por todo o País para ter um controle permanente sobre o que ocorria nessas áreas fronteiriças. Primordialmente, a rede de telecomunicações no Brasil surgiu por um interesse militar
de segurança nacional e os meios de comunicação, principalmente a televisão, e os serviços de telefonia a usavam. Mas usaram apenas 50% dessa capacidade, porque os outros 50% estavam reservados para os meios de segurança.

PerguntaAs vantagens de se ler jornais são inegáveis, porém o vídeo aqui exibido mostra apenas um lado da questão. Diz que os jornais informam e que são inteiramente confiáveis tendo uma abrangência maior e mais completa que a televisão. Por que não foi abordado que o jornal também fragmenta, deforma e atende aos interesses ideológicos de um determinado grupo?

Sérgio Mattos – Nenhum leitor é obrigado a comprar e ler um jornal do qual discorda ideologicamente… A mesma coisa acontece também em relação à televisão. Se você se identifica com determinada linha de uma emissora, você assiste, se não se identifica, você muda para uma outra.

Na verdade, os jornais são vinculados de uma certa forma a grupos empresariais, políticos ou a grupos familiares. Os maiores jornais do País são vinculados a grupos de família. Temos, por exemplo, em São Paulo, os Mesquita, que têm "O Estado de S. Paulo"; os Frias, a "Folha de S. Paulo"; no Rio de Janeiro, os Marinho controlam "O Globo"; na Bahia, nós temos os Simões, que possuem "A Tarde".

Em cada estado brasileiro, o maior jornal geralmente está vinculado a um grupo familiar. Normalmente, esses são considerados jornais independentes, não são jornais partidários. Os demais, que não se enquadram nesse grupo de jornais familiares, são os vinculados a grupos empresariais ou a grupos políticos. Quer dizer, se o vínculo pertence a determinado político, que segue uma determinada linha partidária, seu veículo também seguirá. Se ele é do PMDB, vai adotar políticas do PMDB, se é do PT, seu jornal adotará uma linha editorial que defenderá as políticas do PT e vai fazer oposição ou não aos outros.

Com referência à crítica que foi feita em termos de que um jornal influencia no texto, na edição… Veja só, jornalisticamente, o profissional, eu, pelo menos, tenho mais de vinte anos de profissão, de jornalismo impresso, e jamais recebi nenhuma orientação dos donos dos jornais onde trabalhei no sentido de que publique isso ou não publique aquilo. No exercício de editor, sempre tive liberdade de editar o que eu recebia.

Então, os critérios jornalísticos que a gente recebe e que usa para editar as matérias são aqueles critérios de importância da informação. Se a notícia é muito abrangente e atende a muita gente, ela é importante. Por exemplo: uma notícia sobre o aumento dos salários dos funcionários públicos fatalmente vai para a primeira página dos jornais e para a cabeça das páginas. Vai ser as manchetes das páginas internas e provavelmente a cabeça da primeira página. Isto porque esta é uma notícia que interessa a milhares de pessoas.

Mas isso é um critério jornalístico em termos de abrangência. A grosso modo, entre dezenas de situações e de critérios, as notícias são consideradas importantes pela abrangência que podem ter em termos de público, pela sua proximidade. Uma notícia que ocorre localmente, regionalmente ou no País é mais importante do que um terremoto que ocorre no México ou no Japão.

Outro aspecto que existe em relação à importância da informação e que gostaria de destacar é aquela de que nem sempre a notícia mais importante que o jornal publica, sob o ponto de vista do jornalista, que é a manchete, é a mais importante para uma pessoa que lê o jornal. A notícia que diz respeito ao leitor, que está diretamente relacionada com ele, é a notícia mais importante que o jornal publica naquele dia. Se você é técnico de futebol, jogador de futebol ou policial, a notícia mais importante que tem para você é a que diz referência a sua profissão. A primeira coisa que um delegado de polícia faz é olhar a página de polícia, depois é que ele vai ver a primeira página e o resto do jornal. A mesma coisa vai fazer o esportista, o técnico de futebol, o jogador de futebol. Primeiro eles vão ler a parte de esporte para depois ler o resto. E aí vai sucessivamente.

Assim sendo, sob o ponto de vista do consumidor, a notícia mais importante que o jornal publica nem sempre é a manchete da primeira página. Por exemplo, se você é aposentado e sai uma notinha no jornal, dizendo que os aposentados vão ter tantos por cento de aumento ou vai ser liberado um atrasado, esta notinha de três linhas ou quatro linhas passa ser a notícia mais importante para ele. Portanto, os critérios de importância são variados.

Pergunta – Minha pergunta refere-se à segunda etapa do vídeo onde é mostrado aquela coisa da Alemanha tornar-se bonita e termina com a frase: "Agora vamos limpar o cal do vaso de flores". A partir desse contexto pode dizer-se que a Alemanha hoje é uma república mais conscientizada, ou seja, com a informatização do meio televisivo as pessoas começaram a receber notícias na sua síntese real?

Dirk Kaemper – Na minha opinião, o vídeo conta a história da Alemanha ocorrida na Segunda Guerra Mundial. Nós não devíamos subestimar o papel da televisão quanto à conscientização do povo alemão. Mesmo na época quando existiam só os dois canais de televisão de direito público, quase monopólio, os meios de informação como imprensa e rádio tiveram uma importância bastante grande. Com a situação atual, as possibilidades de uma conscientização da população através da televisão estão mais afastados do que nunca. Exatamente pelo fato da multiplicação dos canais.

Além disso, tem a nova pesquisa sobre o comportamento do telespectador e um dos resultados dessa pesquisa é que mais de 60% das pessoas que assistem televisão nem percebem ou nem registram o que está sendo emitido pelo aparelho de televisão. Esse número aumenta, por sinal, durante a emissão de propaganda comercial, chegando até 80%. Se nós considerarmos os milhares de dólares que são gastos para propaganda comercial, podemos constatar que a propaganda comercial é um programa minoritário. Isso não é nenhuma novidade nem mesmo nos Estados Unidos.

PerguntaNo Brasil, como no mundo inteiro, a televisão busca uma linguagem própria. No telejornalismo, em específico, o caráter opinativo parece tornar-se uma tendência combatida por uns e aceita por outros. Isto já é uma realidade. Na Alemanha se questiona essa postura opinativa dentro do contexto do telejornalismo? É bem-vista pelo público? Até que ponto influencia?

Dirk Kaemper – Também sobre esse aspecto existem claras pesquisas na Alemanha, e nós mesmos fomos surpreendidos pelos seus resultados. Isto porque a maioria dos telespectadores, mais ou menos 70%, espera do moderador, respectivamente do comentarista, uma opinião claramente pronunciada.


Participantes: quem é quem

Carlos Libório é professor aposentado do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Mestre em Comunicação, radialista e jornalista profissional, exercendo no momento a função de diretor de Departamento de Jornalismo da TV Bahia, canal 11, afiliada da Rede Globo. Participou do seminário como conferencista convidado.

Dirk Kaemper é historiador das artes e jornalista cultural. Terminados seus estudos de história das artes, história política e literatura alemã, Dirk Kaemper tornou-se autor e realizador de jornalismo cultural junto ao Primeiro Canal da TV alemã, na sede de Colônia.Dirk Kaemper realiza principalmente reportagens e documentários sobre os principais eventos artísticos e culturais na Alemanha, como também features de cunho crítico sobre as políticas culturais dos municípios e estados da Alemanha. Ele se tornou reconhecido, também, por seus esforços talentosos de renovar a linguagem do jornalismo cultural na TV. Paralelamente ao seu trabalho jornalístico, Dirk Kaemper colabora com algumas galerias de arte, como também na conceituação de exposições de vários museus.

Roland Schaffner é diretor do Goethe Institut – Salvador/Bahia (ICBA – Instituto Cultural Brasil Alemanha) e co-coordenador do seminário intitulado "Cultura Política e Política Cultural na Televisão do Brasil e da Alemanha".

Sérgio Mattos é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade do Texas, em Austin, Estados Unidos. Professor Adjunto IV do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, poeta e jornalista profissional, exercendo a função de editor de Municípios do jornal "A Tarde". É autor de várias obras sobre televisão, destacando-se as teses de mestrado e de doutorado, além dos livros The Impact of the 1964 Revolution on Brazilian Television (1982) e Um perfil da TV brasileira; 40 anos de história: 1950-1990. Foi o coordenador deste seminário, além de ter sido também conferencista, debatedor e moderador das sessões.

Vera Martins é professora do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Jornalista profissional com militância tanto na mídia impressa como na mídia eletrônica, tendo exercido a coordenação da TVE-BA e dirigido departamentos de telejornalismo em emissoras baianas. Participou do seminário como debatedora.

Washington de Sousa Filho é professor do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea da Facom/UFBA, jornalista profissional com militância tanto na mídia impressa como na mídia eletrônica. Participou do seminário como conferencista convidado e como debatedor.


 

SUMÁRIO
Apresentação
/Introdução/Capítulo 1 – Público-alvo da cultura na TV: minorias ou audiências em massa?/Capítulo 2 – Jornalismo cultural e produção cultural: critérios de seleção e de transmissão/Capítulo 3 – Mídia impressa e mídia eletrônica: política atual e reflexo cultural