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Televisão
e Cultura no Brasil e na Alemanha
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Cap. 3 Mídia
impressa e mídia eletrônica:
Política atual e reflexo cultural
Conferencistas: Dirk Kaemper
e Sérgio Mattos
Debatedor: Washington de Sousa Filho
Moderador: Roland Schaffner
Cutura
e política na mídia alemã
Dirk Kaemper
Boa-noite!
Para começar, eu gostaria
de fazer um pequeno esboço sobre de que forma, na Alemanha,
a gente pode se informar sobre eventos políticos. Para então
mostrar como nós da programação cultural tratamos de assuntos
políticos.
Em 1954, quando a televisão
foi introduzida na Alemanha, muitos viram isso como o fim
do rádio e da imprensa. Mas, como nós sabemos hoje, isso não
se tornou realidade, ao contrário. No ano 1989, ou seja, ainda
antes da reunificação da Alemanha, os veículos impressos atingiram,
por edição, 83% da população, ou seja, 40 milhões de pessoas
de um total de 60 milhões. Desde a reunificação, esta percentagem
caiu ligeiramente, mas isso não quer dizer que os alemães
da Alemanha Oriental estão lendo menos. De fato, o comportamento
de leitura se modificou. Também a rádio, na Alemanha, que
está organizada da mesma forma que a televisão de direito
público, tem uma audiência bastante alta. As cifras são quase
iguais às das mídias impressas. São mais ou menos 40 milhões
de pessoas que diariamente estão ouvindo o rádio, ou seja,
82% da população acima de 14 anos. Então a gente pode concluir
que, na Alemanha, de fato a televisão não substituiu, mas
complementou as outras mídias.
A televisão de direito público
teve um monopólio de informação política até o início da década
de 80. O horário de informação política era em torno das oito
horas da noite. A partir do momento que foram permitidos canais
comerciais, a informação política na televisão sofreu uma
transformação bastante grande. Atualmente, o telespectador
alemão pode ver notícias políticas por trinta minutos em vinte
a trinta canais diferentes. E, além disso, tem um canal especializado
que só transmite notícias políticas, uma imitação de uma tradição
nos Estados Unidos: um canal que se chama NTV, que transmite
exclusivamente noticiário político. Ou seja, este canal acompanha
todos os acontecimentos atuais da política. Além disso, na
Alemanha existe também um sistema chamado videotexto, que
é um jornal transmitido através do vídeo, dando notícias escritas
regularmente. Porém, este sistema de informação está sendo
aproveitado por pouca gente.
Essa situação das informações
através de rádio e imprensa deixa claro que, quando a televisão
começou a transmitir sua programação política, o público já
detinha alto nível de informação. Similar aos programas políticos,
os programas culturais também só podem aprofundar as notícias
que já foram transmitidas por outros meios. Porém, quando
os programas culturais mexem com a política, eles entram em
um campo perigoso. Isto porque, na Alemanha, não se questiona
se a política e a cultura são inseparáveis. Mas, nas áreas
de produção, de programação, essa separação entre cultura
e política ainda é irracionalmente mantida. Ou seja, cada
emissora de televisão tem duas redações estritamente separadas.
Uma redação de cultura e uma redação de política. Isso resulta
muitas vezes em conflitos entre as duas redações, principalmente
quando a redação de programações culturais mexe com a área
política.
Isso explica o fato de que,
relativamente tarde, só a partir dos meados da década de 70,
as programações culturais começaram a tratar de eventos políticos.
Isto também com a intenção de ampliar a noção cultural que
até então foi relativamente tradicional. Hoje em dia, os programas
culturais mostram a clara afinidade com os programas políticos,
ou seja, uma ligação com a atualidade política. Isso naturalmente
tem a ver com o fato da reunificação da Alemanha, a partir
de quando aconteceu um sucessivo crescimento de politização
da sociedade alemã, resultando também no fato de que nos programas
culturais, os eventos culturais chamados primários – teatro,
dança, música etc. – foram cada vez mais atingidos e interligados
com a situação política do país.
Eu gostaria agora de mostrar
dois exemplos que esclarecem de que forma os reflexos políticos
são evidentes na programação cultural.
O primeiro exemplo é uma
reportagem sobre a montagem da peça "Orestes", de Ésquilo,
de um famoso diretor alemão, Peter Stein, uma montagem que
ele realizou em Moscou. Desde o início da Perestroika, Peter
Stein tentou realizar essa montagem em Moscou, só conseguindo
montá-la depois da tentativa de golpe. E surpreendentemente
essa montagem foi realizada no teatro do Exército Vermelho,
dando uma conotação especial de ordem política atual a uma
peça grega clássica.
O segundo exemplo a ser
exibido trata de comportamentos da população alemã com monumentos
que lembram os acontecimentos do fascismo. Mostra primeiro
como os fenômenos históricos são tratados nos Estados Unidos
e logo depois um exemplo ocorrido no Sul da Alemanha, onde
um artista criou um memorial invisível, porque ele gravou
os nomes de cemitérios judeus na parte de baixo da calçada.
[Fita exibida.]
Como vocês assistiram, o
primeiro programa deixa muito clara a tentativa de confrontar
o evento cultural com o evento que simultaneamente aconteceu
na área política.
É muito claro, porque os
eventos políticos aconteceram simultaneamente à montagem da
peça e de certa forma influenciaram os trabalhos em cena.
Mas, a gente também podia imaginar que o mesmo tipo de programa
poderia acontecer dentro da programação política. O que, às
vezes, acontece. E desta forma é simplesmente o gancho, ou
seja, a montagem teatral que justifica essa reportagem dentro
da programação cultural. Há critérios semelhantes aplicados
ao segundo exemplo. Na República Federal da Alemanha, nos
últimos meses, quase não passou nenhum dia que não fossem
mostradas reportagens sobre o radicalismo da direita ou sobre
o neofascismo. Tudo isso demonstra apenas que também a programação
cultural está acompanhando os programas políticos. Então surge
uma pergunta que nós já colocamos várias vezes nos últimos
dias. Se o programa cultural tratando de assuntos políticos
realmente consegue uma aproximação sui generis? Este
programa se diferencia claramente de programas elaborados
dentro das redações políticas.
Eu considero que nesta área
de tensão, entre cultura e política, pode-se encontrar uma
chance de uma programação cultural específica. Talvez até
uma chance de o programa cultural se constituir como um gênero
próprio. Isto porque a programação cultural tem uma liberdade
que na tradição de reportagem política não existe tão ampla.
A obrigação de informar, o equilíbrio das informações e a
objetividade são os três critérios básicos de qualquer informação
televisiva. Mas eu posso imaginar que outras formas de se
aproximar de fenômenos políticos podem caracterizar a programação
cultural e vão criar novas chances e dar novas formas à informação
cultural.
Eu espero que nos últimos
dias tenha conseguido ilustrar um pouco sobre como a programação
cultural, na televisão alemã, está atravessando uma fase de
experimentos interessantes. O que levou também jornalistas
de programação cultural a tratar de assuntos políticos mais
ousadamente, mais liberalmente e com aproximações diferentes.
Para ilustrar isso claramente, gostaria de mostrar mais dois
exemplos.
Para o primeiro exemplo,
nós temos que dar algumas explicações. Quando no início da
década de 90 aconteceram os primeiros atos de xenofobia na
Alemanha, surgiu uma grande onda de solidariedade no país.
Uma forte expressão dessa solidariedade foram as assim chamadas
"cadeias de velas". Ou seja, milhares de pessoas saíam à noite
para as ruas, acendendo velas e juntando as mãos. Os programas
culturais foram os primeiros a descobrir a maior cadeia deste
tipo, em Hamburgo, iniciada por uma agência de propaganda
comercial. O exemplo que vou mostrar se aproxima desse fenômeno.
Falando um pouco sobre o
segundo exemplo, que não sei se é conhecido aqui: no dia 20
de abril deste ano [1994], um jogo de futebol entre
a Alemanha e a Inglaterra foi cancelado na Inglaterra pela
simples razão de que um homem chamado Adolf Hitler aniversariava
naquela data. Na Alemanha, isso resultou num grande nervosismo.
Eu, pessoalmente, acho que isso foi dar honra demais a esse
homem. E os autores do segundo exemplo assumiram claramente
esta posição. [Fita exibida.]
Naturalmente, os programas
culturais têm outras possibilidades, além de ridicularizar
eventos e fenômenos políticos.
Agora, eu gostaria de mostrar
dois exemplos que considero bem característicos, pela maneira
como a programação cultural trata de assuntos políticos. O
tema é a Iugoslávia, especificamente sobre o destino da cidade
de Sarajevo, na Bósnia. A situação deve ser do conhecimento
de todos. A mil quilômetros da Alemanha, uma das guerras mais
cruéis está acontecendo e, apesar de vários pedidos de ajuda,
até agora quase nada aconteceu, mas isso nós já conhecemos
por outros eventos na História.
Foram exatamente os programas
culturais que se preocuparam com esses fenômenos. A programação
cultural tratou desses assuntos que podem, certamente, ser
discutíveis, mas que não foram percebidos por outros setores
da programação televisiva. Ambos os exemplos partem do ponto
de vista que cultura e política são inseparáveis, portanto,
a cultura tem que mexer com a política.
Os dois exemplos foram produzidos
pelo grupo Saga. Um grupo de programadores de televisão que
mora em Sarajevo e que está registrando, dia-a-dia, a história
de uma única rua na cidade bombardeada. Eles foram apoiados
financeiramente, dentre outros, pelo canal Arte e por um diário
alemão, um diário considerado como sendo da esquerda liberal.
Este canal cultural, Arte, apresentou diariamente dois minutos
de imagens da rua em Sarajevo. Ou seja, o telespectador podia
acompanhar dia-a-dia o que acontecia naquela rua. No primeiro
exemplo, vocês podem ver uma mulher que no início ainda passeia
pela rua. Na segunda fase, ela está sendo morta. E, na terceira,
está sendo enterrada. Críticos na Alemanha intitularam esse
tipo de programa como "telenovela da morte".
A intenção da programação,
porém, foi de apresentar, sem nenhuma maquiagem, a realidade
que, cotidianamente aconteceu naquela cidade. E todas as emissoras
de TV na Alemanha, menos as redações de programação cultural,
se recusaram a transmitir essas imagens. Talvez seja importante
observar que dificilmente um canal, exclusivamente de programação
cultural, possa ser acusado de abusar de imagens reais. E,
desta forma, sem qualquer dúvida, os canais culturais conseguiram
impressionar a população alemã de uma maneira que nenhum outro
canal jamais conseguiu impressionar. [Fita exibida.]
Esses foram dois exemplos
de programação cultural transmitidos de redações que normalmente
só mostram montagem de teatro, concerto de música etc.
Senhoras e senhores, este
é o fim da minha contribuição para este seminário. Aprendi
bastante sobre o sistema televisivo brasileiro. Espero que
tenha podido transmitir para vocês a nossa forma, a forma
alemã de fazer programa cultural.
Muito obrigado!
(*) Conforme tradução simultânea
e gravação.
Interatividade
e desenvolvimento das mídias
no Brasil
Sérgio
Mattos
Boa-noite!
Acredito que coube a mim
talvez a tarefa mais difícil, uma vez que, depois de uma semana
inteira de seminário, quando tivemos oportunidade de ouvir
exposições brilhantes e uma contribuição muito rica, praticamente
não sobrou nada para mim. Na verdade, esvaziei um pouco a
minha fala, exibindo ao longo da semana alguns dos casos que
gostaria de mostrar hoje. Durante a semana fui sempre intercalando
as conferências com alguns casos de programas da televisão
brasileira que, acredito, serviram para que tivéssemos uma
visão global da nossa TV.
Nós temos como tema hoje
"Mídia impressa e mídia eletrônica: política atual e reflexo
cultural". A fim de que os participantes deste seminário possam
entender melhor como a mídia evoluiu no Brasil, se faz necessário
falar um pouco do contexto histórico de maneira mais didática,
considerando que a platéia se constitui, em sua maioria, de
estudantes de Comunicação e curiosos.
Quando a gente se refere
a mídia eletrônica e a mídia impressa, é óbvio e bem definida
a constituição dos dois grupos: (1) rádio e televisão, como
mídia eletrônica e (2) jornais e revistas, outros impressos,
livros, como mídia impressa. Como é que poderíamos identificar
o que é que influenciou, quem influenciou o que ou como foi
influenciado o desenvolvimento da mídia brasileira?
Se considerarmos a evolução
dessas mídias no Brasil, vamos chegar a uma constatação de
que não houve bem uma competição entre elas, mas uma interação.
A nossa mídia impressa, que surgiu por volta de 1808, com
a chegada da corte portuguesa, já começou sob os efeitos da
censura. O primeiro jornal brasileiro, o "Correio Brasiliense",
era impresso na Inglaterra, mais precisamente em Londres,
para fugir da censura. Historicamente, tivemos problemas para
desenvolver a mídia impressa porque o maquinário era importado.
Em torno de 1920 foram implantadas,
no Brasil, as primeiras emissoras de rádio. As nossas primeiras
emissoras de rádio e revistas começaram a ter um grande potencial
de audiência e uma influência tão grande sobre a população
que, para vocês terem uma idéia, entre 1940-1945, a revista
"O Cruzeiro" circulava no País com cerca de um milhão de exemplares.
Só agora [1994], a revista "Veja" está atingindo esta
circulação. Em uma época em que não tínhamos estradas, um
sistema rodoviário como temos hoje, apesar dos buracos das
nossas estradas; em uma época em que não tínhamos muitos aeroportos,
nem aviões a jato; a revista "O Cruzeiro" já circulava em
todo o País, atingindo quase um milhão de exemplares. Era
a revista vinculada ao grupo dos Diários Associados e, apesar
de ser mensal naquela época, era lida e relida, permanecendo
guardada pelas famílias sempre como fonte de informação e
lazer. Ela tinha uma influência muito grande. O que saía em
"O Cruzeiro" era uma coisa digna de respeito, tinha credibilidade.
Mas, o rádio também tinha
uma influência muito grande. Os jornais, em sua maioria, eram
regionais e pequenos e tinham circulação restrita, mas existiam,
em todos os estados, aqueles tidos como muito influentes.
A revista "O Cruzeiro" e as emissoras de rádio exerciam uma
influência tão grande que, quando se pensava, quando se falava
na implantação da televisão no Brasil (a TV foi implantada
aqui em setembro de 1950), se afirmava que ela não tinha futuro,
que o rádio é que era o grande veículo. Diante da influência
do rádio e principalmente da revista "O Cruzeiro", se pensou,
realmente, que a televisão não iria vingar.
Ontem, numa das exibições
de videotapes feitas aqui no seminário, tivemos oportunidade
de ver o exemplo da BBC de Londres, que transmitia as notícias
na televisão de maneira estática porque o rádio tinha uma
influência muito grande e se levou muito tempo para que a
televisão passasse a transmitir notícias com as imagens como
nós temos hoje.
Vale lembrar que o cinema
também ocupava um espaço muito grande, em termos de cultura,
em termos de influência. Nós tínhamos muitas casas de exibição
de filmes espalhadas por este país e nesta Bahia. Até duas
ou três décadas passadas, nós tínhamos mais casas de espetáculos
de cinema do que temos hoje [1994].
Lembrando a influência do
cinema, das rádios e das revistas, estamos traçando um caminho
para chegar à televisão. Pois, quando ela chegou, de imediato,
começou a usar todos os fundamentos do rádio, quer dizer,
os primeiros profissionais da televisão, todos, sem exceção,
vieram do rádio. Todo o pessoal que trabalhava em rádio foi
trabalhar na televisão.
Assim, a implantação da
TV no Brasil foi feita de maneira amadorística e improvisada.
Tão improvisada que a inauguração da nossa televisão virou
uma piada, apesar de existir quem ateste como verdadeira a
piada da inauguração da nossa primeira emissora, a TV Tupi.
Quando foi inaugurada, a Tupi tinha apenas duas câmeras, e
na inauguração, como era praxe se quebrar uma garrafa de champanha,
se quebrou em uma das câmeras, danificando assim uma das duas
primeiras câmeras que colocaram a nossa televisão no ar.
Isso é contado como uma
piada que rola no meio televisivo brasileiro, e a gente não
sabe, eu pelo menos não tive ainda acesso a qualquer fonte
que afirmasse isso como sendo verdadeiro. Entretanto, essa
"estória" consta em vários livros que registram a inauguração
da televisão brasileira. Vários autores falam desse ato que
inutilizou uma das câmeras na solenidade de inauguração de
nossa televisão.
A verdade é que a televisão
brasileira foi instalada com uma deficiência muito grande
em relação à televisão americana, que quando surgiu já encontrou
a indústria cinematográfica de Hollywood muito bem estruturada
e que lhe serviu de fonte inesgotável de programas. A televisão
americana se baseou e se utilizou muito dos filmes produzidos
em Hollywood. Nós, ao contrário, não tínhamos uma indústria
cinematográfica desenvolvida. Como conseqüência, a nossa indústria
cinematográfica não pôde ajudar no desenvolvimento da televisão,
apesar do formato da nossa televisão ser igual ao formato
da TV americana. Mas, o rádio, que era a nossa mídia mais
forte e influente, na época, ajudou e muito nos primeiros
passos de nossa televisão, inclusive no formato dos programas.
Desta forma, resumidamente,
nós temos a mídia impressa e a mídia eletrônica. E o que importa
neste momento é como se dá a interação entre eles. A televisão
começou com a ajuda do rádio, com muita gente achando que
ela não iria vingar. O rádio serviu de suporte para a implantação
da nossa TV. O cinema, no mundo inteiro, por sua vez, serviu
de suporte para a televisão, e no Brasil, a partir de 1965,
teve papel decisivo.
Com o sucesso da televisão,
entretanto, não faltaram os visionários que diziam que "os
jornais vão acabar, o cinema vai acabar". O cinema não acabou,
nem os jornais acabaram. A televisão tem o sucesso que tem
sem ter eliminado o cinema, sem ter eliminado o rádio, sem
ter eliminado a revista, sem ter eliminado os jornais. O que
é que houve? Se segmentaram em termos de mídia. Mídia eletrônica
e mídia impressa permanecem e vão ocupar o espaço ainda por
muito tempo, definitivamente segmentadas.
Mas, apesar dessa segmentação
de mercado, cada qual ocupando seu espaço, a gente observa
hoje que existe uma simbiose entre elas, uma interação entre
as mídias. No momento em que começamos a assistir aos telejornais
da manhã, a primeira coisa que a gente vê são os apresentadores
lendo e exibindo as manchetes dos jornais do dia. A primeira
coisa que fazem é ler as manchetes dos jornais impressos do
dia. Aí se pergunta: mas por que se lê primeiro as manchetes
dos jornais do dia, se as notícias que estão dando, na melhor
das hipóteses, são notícias de ontem.
Se os telejornais começam
lendo os noticiários dos jornais, as manchetes dos jornais,
então a gente já começa a sentir que existe um espaço para
os jornais e um espaço para a televisão. Um não está invadindo
o espaço do outro. Muito pelo contrário, um acaba ajudando
o outro. Porque, no momento em que a televisão lê a manchete
do dia, ela está estimulando o leitor a procurar maiores detalhes
sobre aquela notícia, comprando o jornal do dia.
Se considerarmos que no
Brasil temos uma tiragem média de jornais estimada em quinze
milhões de exemplares por dia, e se multiplicarmos esse total
por quatro (cada jornal é lido por uma média de quatro pessoas),
vamos encontrar um elevado percentual de leitores de jornal
em relação à população brasileira. Com isto se constata que
não podemos dizer que o Brasil é um país que não lê. Se considerarmos
apenas esse fato, constataremos a existência de um elevado
índice de leitura no Brasil. Um índice além da expectativa.
Senão vejamos alguns dados
estatísticos: o Brasil tem 140 milhões de habitantes e 15
milhões de exemplares de jornais diários. Se considerarmos
os números secamente, o Brasil lê muito pouco. Apenas a média
de 10% da população está lendo jornais. A tiragem da nossa
imprensa representa 10% da população.
Entretanto, estes números
estatísticos não podem ser lidos como uma relação direta entre
a quantidade da tiragem dos jornais e o número de habitantes.
A leitura estatística tem que ser feita levando-se em conta
quantas pessoas lêem em média cada exemplar. Ou sejam, quinze
milhões vezes quatro. O resultado será o índice médio de leitura
de jornais no País. Se considerarmos ainda que metade da população
está abaixo de dezoito anos, verificaremos que nossa população
apresenta um alto índice de leitura.
Os jornais brasileiros possuem
dias de maior tiragem, que ocorrem geralmente aos domingos.
Eu acredito que todo mundo pode imaginar o porquê. As explicações
são muitas, podem dizer: é que tem leitor que só compra jornal
dia de domingo porque recebe dinheiro por semana. Outros só
compram aos domingos porque, ao longo da semana, lêem o jornal
na empresa ou na repartição. E assim por diante.
Existem até estudos estatísticos
indicando que no Brasil apenas 20% dos leitores compram jornal
todo dia e 80% são flutuantes. Então, seria mais ou menos
assim: de cem pessoas, vinte compram jornal todos os dias
e oitenta compram o jornal apenas às segundas-feiras, porque
dia de segunda-feira o jornal oferece um suplemento de esportes.
Dia de terça, um outro grupo de oitenta compra o jornal, porque
outro suplemento segmentado é oferecido, por exemplo, o caderno
de turismo. Dia de quarta, porque tem um caderno de automobilismo.
Dia de quinta, porque tem um caderno y, um caderno x.
Mas, apenas 20% lêem o jornal
permanentemente, os outros 80% são flutuantes. São pessoas
que compram o jornal em média uma vez por semana. Mas, aos
domingos, os jornais brasileiros apresentam quase o dobro
da tiragem que costumam tirar nos dias úteis. Vocês podem
imaginar a razão por que aos domingos?
Intervenção de uma ouvinte
– Eu mesmo compro jornal dia de domingo para ler na Revista
da TV os resumos das novelas.
Sérgio Mattos –
É verdade, isso é verdadeiro. Os jornais aos domingos publicam
cadernos sobre televisão, cadernos de leitura, com artigos
de fundo e reportagens amplas e especiais que são responsáveis
hoje pelo dobro da tiragem de qualquer jornal do País. Então,
aos domingos, os jornais conseguem dobrar suas respectivas
tiragens – podemos inferir – por causa também dos suplementos
de televisão, que trazem reportagens sobre as novelas, os
artistas em destaque, os resumos das novelas e dos filmes
que serão exibidos ao longo da semana. Publicando informações
sobre a televisão e seus programas, os jornais também interagem
com a televisão. Pode-se inferir que os jornais conseguem
aumentar a circulação em quase o dobro, em função dos cadernos
de televisão.
Então, vocês observem que
a interatividade existente entre a mídia impressa e a mídia
eletrônica permanece. Quer dizer, enquanto programação e conteúdo,
não existe, por exemplo, uma competição entre elas. Uma completa
a outra. A competição das mídias hoje está centrada basicamente
no bolo publicitário, nas verbas dos anunciantes.
Então, como é que uma completa
a outra? Um veículo completa outro em termos culturais e em
termos jornalísticos. O noticiário foi o primeiro exemplo
dado: as televisões lêem as manchetes dos jornais. Por outro
lado, nas redações dos jornais, todas as noites, antes do
fechamento dos jornais, os editores costumam assistir aos
telejornais para ver quais são as notícias que estão sendo
destacadas. As notícias locais, nacionais e internacionais
destacadas nos telejornais, geralmente são dadas com um tempo
máximo de dois a três minutos. Os assuntos abordados nos telejornais
de certa forma estarão com mais detalhes nos jornais no dia
seguinte. Então, na verdade, o que ocorre é o seguinte: a
televisão noticia e desperta o leitor para aquele assunto,
levando-o a comprar o jornal no dia seguinte para saber maiores
detalhes.
Há quem diga que as televisões
pautam os jornais e vice-versa. A partir do momento em que
os principais assuntos do dia na televisão são identificados,
no outro dia fica mais fácil encontrá-los nos jornais. Óbvio.
Pelos critérios jornalísticos, as notícias veiculadas na mídia
eletrônica ou na mídia impressa são as mesmas. Então, tanto
faz ser na televisão como no jornal impresso, nas revistas,
os assuntos importantes serão os mesmos. Desta forma, as notícias
destacadas nos telejornais durante a noite serão encontradas
com maiores detalhes nos jornais do dia seguinte. Então, a
televisão acaba fazendo uma chamada prévia do que você vai
ler no dia seguinte. Sob este ponto de vista, há uma interatividade
nesse sentido. Um veículo ajuda o outro. No dia seguinte,
os jornais dão as manchetes, a televisão volta novamente a
ler as manchetes dos jornais do dia.
Aqui se poderia levantar
outra questão: como é que a televisão pauta os jornais? A
influência que esta poderia ter sobre os jornais estaria diretamente
relacionada com o imediatismo da mídia eletrônica. Pela abrangência
de sua audiência, o governo pode anunciar alguma coisa de
última hora, levando os jornais, se não tiverem conhecimento
do assunto, a buscar mais detalhes para publicá-los no dia
seguinte. Este é o único exemplo no qual as televisões poderiam
furar os jornais ou dar a dica para os jornais, um ponto de
pauta para o dia seguinte. Isto pode ser dito porque, hoje,
com a tecnologia que temos, todos os veículos têm acesso às
mesmas informações. Todos têm acesso a tudo. Seja jornal,
rádio ou televisão, as fontes de informação são as mesmas.
O que um leitor lê num jornal e não encontra no outro é porque,
por decisão dos editores ou por causa da linha editorial de
cada veículo decidiu-se privilegiar uma notícia em detrimento
de outras.
Nos últimos anos, em função
da tecnologia e de um maior profissionalismo das mídias, os
furos jornalísticos já não existem como há duas ou três décadas,
quando só um jornal, só uma emissora, tinha o poder de dar
aquela notícia porque ele furou os demais. Hoje, todo mundo
tem acesso a tudo. E quando o veículo não vai à fonte, ela
manda a informação para o veículo. Quer dizer, se o jornal
ou a televisão não for lá, receberá o release, ou vídeo
com as informações, do mesmo jeito, porque todas as instituições,
públicas e privadas, têm hoje assessorias de imprensa, departamentos
de marketing e de relações públicas, mantendo um sistema
de informação direto com os variados meios de comunicação.
O jornal, rádio e televisão
têm acesso às mesmas informações. O que vai diferir é o processo
de edição dessas informações. Quem vai dar mais destaque a
esta ou aquela notícia ou quem não vai divulgá-la; como aquela
notícia será tratada pela televisão ou pelos jornais, se um
jornal ou uma televisão vai ignorar ou veicular este ou aquele
assunto, por uma questão política, por uma questão ideológica
ou porque achou que outra notícia era mais importante do que
aquela. A mídia impressa trabalha com espaço, enquanto a mídia
eletrônica trabalha com tempo. Na televisão, praticamente
é noticiado apenas o lead (o primeiro parágrafo das
notícias) e os títulos das matérias que serão lidas no dia
seguinte nos jornais. Feitas essas colocações com relação
à influência de um tipo de veículo no outro, gostaria de exibir
um vídeo que trata da influência e da competição entre eles.
Quando os veículos rádio
e televisão competem entre si, eles basicamente estão competindo
em relação ao lucro que podem ter. No Brasil, nós temos a
mídia constituída basicamente pela iniciativa privada e que,
antes de tudo e qualquer coisa, visa ao lucro. Apesar das
funções sociais dos meios de comunicação serem educar, fiscalizar,
informar e entreter, isso vem depois do lucro. Depois do lucro
eles procuram atender às funções sociais.
A audiência significa lucro
para qualquer um dos veículos. Quanto maior for a audiência
do rádio e da televisão, quanto maior for a circulação do
jornal ou da revista, maior será o lucro que esses veículos
terão. Porque o custo por milheiro ou o custo por minuto de
uma televisão, de uma emissora de rádio ou do jornal de uma
televisão está relacionado diretamente com a audiência que
eles têm. Então, se um jornal tem uma circulação muito grande,
ele tem uma audiência muito grande. E aí ele pode cobrar pelo
espaço que vende preços maiores. A televisão do mesmo jeito.
De certa forma, a luta pela audiência acaba determinando ou
orientando o conteúdo dos programas televisivos e dos veículos
impressos.
As redes de televisão no
Brasil recebem em média 60% do que se investe com publicidade
no País. O total das verbas publicitárias no País gira em
torno de 1% do Produto Interno Bruto. Um por cento do PIB,
portanto, é o que se gasta em publicidade neste país, que
gira em torno de 2,5 a 3 bilhões de dólares. Para vocês terem
uma idéia, 60% do total vai para as emissoras de televisão,
cerca de 25% a 30%, para os jornais, 8%, para o rádio, e o
resto é veiculado em revistas, outdoor, display,
cinema e outras formas de anúncio.
Para que os participantes
do seminário tenham idéia dessa competição por audiência e
comerciais, vamos exibir um tape, produzido pela Associação
Nacional dos Jornais (ANJ), que procura demonstrar como o
veículo jornal é mais importante do que a televisão, do que
o rádio e do que qualquer outro meio. [Fita exibida.]
O tape exibido foi
interessante para se ter idéia de como é a competição entre
jornal, revista, rádio e televisão, sempre em busca de atrair
mais anunciantes e de atingir maior lucro.
Em resumo, o que a ANJ está
tentando mostrar no exemplo exibido é que o veículo jornal
tem uma penetração maior, além de ser formador de opinião.
Afirma que quem anuncia em jornal vai atingir as pessoas que
tomam decisões. Apesar de ter proporcionalmente uma circulação
menor do que a audiência da televisão, o público consumidor
de jornais e revistas sabe ler e escrever, é um público ativo,
é um público que, para adquirir o jornal, tem que tomar uma
decisão. Então, se um anúncio é feito através dos jornais,
o anunciante atingirá um público que tem poder aquisitivo,
mesmo esse público sendo também parte da audiência nas emissoras
de televisão.
Apesar de jornalista militando
na imprensa escrita, procuramos usar os recursos televisivos
para transmitir parte do conteúdo do tema de hoje. Embora
"furado" anteriormente por outros expositores, fizemos questão
de exibir estes dois tapes hoje, porque eles dão uma
idéia da política cultural do País, o que está havendo em
termos da política de comunicação e a competição em relação
as mídias entre si. Assim sendo, para acrescentar ou esclarecer
outros detalhes, nos colocamos à disposição dos presentes
para debater um pouco mais.
Desde o primeiro dia do
seminário, procuramos mostrar através de vários videotapes,
a evolução do telejornalismo e suas formas de produção. Hoje,
fechamos a temática com o jornalismo impresso, com a mídia
impressa, deixando transparecer a interação existente entre
as mídias, influência que um exerce sobre o outro, além da
discussão sobre a política de comunicação no País, destacando
a nossa Lei de Imprensa em tramitação no Congresso Nacional
desde 1992, cuja aprovação haverá de trazer um reflexo muito
grande na postura da imprensa de modo geral.
Sobre política cultural,
poderíamos concluir dizendo que, apesar de termos uma no Brasil,
tanto dentro da mídia impressa como da mídia eletrônica, nós
não temos ainda
uma política definida, planejada, específica, de cultura para
as mídias, mas ela existe.
Muito obrigado!
Comentários
Washington
de Sousa Filho
A oportunidade de falar
depois de duas conferências, feitas por Dirk Kaemper e por
Sérgio Mattos, não deixa de me colocar, de certa maneira,
numa situação difícil, principalmente pela tarefa de tentar
aclarar o debate, levantar alguns pontos das conferências
feitas. Para a gente tentar encaminhar isso de forma clara
e objetiva, eu quero fazer esta intervenção dizendo que, no
plano das colocações deles, dois aspectos se destacam em relação
à comparação entre as mídias impressa e eletrônica no Brasil
visto numa perspectiva da Bahia e da Alemanha. O que me chamou
a atenção é que o referencial para compreender a distinção
é que há um viés, uma visão particular de cultura e que, no
caso do modelo adotado na Alemanha, ela se aplica, ela é transposta
para a prática que se faz do jornalismo. Há aspectos que chamam
a atenção em particular aos dois casos e que eu classifiquei
de duas formas: um institucional e outro estrutural.
O primeiro aspecto, que
é o aspecto relacionado à questão institucional, tem como
relevante o processo de estabelecimento desses mídias. Particularmente
a mídia eletrônica – rádio e televisão – que tem por natureza
uma distinção em relação ao impresso. É evidente a noção existente
na Alemanha de canal de direito público, que é um sistema
muito comum na Europa, e de certa maneira pouco conhecido
no Brasil, mesmo com o funcionamento de TVs Educativas e em
comparação desse aspecto a situação que tem no Brasil.
Independentemente até do
fato de a televisão no Brasil ser anterior à televisão na
Alemanha – a televisão no Brasil foi implantada em 1950 e
o rádio em 1920 –, ainda hoje não se conseguiu encontrar um
processo de distribuição e concessão dos canais de televisão
que permita fundamentalmente o exercício da sociedade de exercer
o controle deles. Concessão de rádio e televisão no Brasil
é um processo, digamos assim, particular submetido aos interesses
dos governos que estejam circunstancialmente no poder. Mesmo
com a aprovação de artigos e aspectos contidos na última Constituição
(1988), que garantiria e permitiria esse tipo de controle,
essa, e ainda hoje, é uma luta das entidades voltadas e preocupadas
com a defesa dos interesses da sociedade na comunicação. Não
foi feita a implantação do processo de comunicação social
que consta na Constituição de 1988.
Um outro aspecto se relaciona
particularmente à mídia impressa e não me foi possível perceber
na exposição de Dirk Kaemper. Mas há um fato no Brasil, um
dado contido no vídeo sobre jornal, exibido por Sérgio Mattos,
que merece destaque. A informação é de que há hoje mais ou
menos 305 jornais diários no Brasil. A maioria predominante
dos grandes jornais de circulação está controlada por oito
grupos familiares. É uma realidade do Brasil que não é muito
diferente em relação ao mundo em geral, porque hoje há uma
tendência de concentração. Se diz em relação ao controle de
comunicação que o mundo acabaria dominado por três "m": Murdock,
Maxwell e Marinho.
No outro campo, a questão
da estrutura, a gente identifica especificidades e de certa
maneira a abordagem aqui vai ser muito mais no plano da televisão
e do rádio, da televisão em particular, até por conta do material
apresentado. O primeiro aspecto é na forma de apresentação,
e aqui vamos usar muito mais o conhecimento que todos nós
temos como telespectadores, e na comparação com o material
de Dirk é de que há um tratamento até pelo enfoque do que
ele coloca, no plano do jornalismo cultural, que faz com que
a gente compreenda o modelo adotado no Brasil, que, mesmo
no tratamento da informação política no jornalismo, há uma
preocupação com o marketing. O fenômeno Collor é um
exemplo, mas não é diferente do tratamento da política, e
a gente pode ter como exemplo, ainda que não possa ser enquadrado
no campo do jornalismo, o horário eleitoral. Os programas
apresentados no horário eleitoral e fatos aparentemente até
engraçados, mas que não deixam de ser uma realidade do que
representa a mídia eletrônica para a divulgação das idéias
políticas. Como é o caso do atual presidente da Câmara dos
Deputados, Inocêncio de Oliveira (sem que haja algum demérito
aí, mas que é uma pessoa que é gaga e que tem dificuldade
de se expressar). No momento em que se dispôs a disputar o
cargo de presidente da Câmara dos Deputados, fez um esforço
enorme para conseguir se adequar ao ritmo de fala da televisão.
Para conseguir falar, apesar de um problema particular e pessoal
(a gagueira), ele se dispôs a superar essa dificuldade pelo
que representa o espaço, a ocupação da televisão.
A despeito dos dados apresentados
por Sérgio Mattos, sendo a televisão um elemento que se destaca
como mídia e as projeções de tiragem, os dados apresentados
em relação à tiragem e influência dos jornais aparecem como
projeção em relação à audiência da televisão. Há o aspecto
do tratamento dado e, aí, a gente tem que considerar que a
perspectiva é diferente da apresentada por Dirk em relação
à televisão da Alemanha no campo cultural. É a visão como
negócio que o jornalismo brasileiro adota na busca da audiência.
Mas chamo a atenção, também, como aspecto para discussão,
que esta é uma tendência que a imprensa brasileira assumiu
e se estendeu na prática da televisão. Chamo a atenção também
para o fato de que a mídia impressa é vinculada aos interesses
de grupos familiares e que se estendem ao plano desses grupos
na área da economia. É da tradição do Brasil mesmo. Se a gente
voltar atrás para avaliar a história, constataremos a inexistência
de uma empresa partidarizada, que é relativamente comum em
outros países, na Europa em particular, que é a vinculação
em determinado momento, a identificação da característica
de um determinado meio de comunicação a uma idéia política.
No Brasil, você não tem, e fica claro, aqui, que estou dizendo
que não tem é uma identificação política, que significa defesa
de princípios até comprometidos com interesses partidários
diferentes de interesses das empresas. Quer dizer, quando
determinada empresa muitas vezes assume uma posição em defesa
de, por exemplo, um candidato, não significa, no caso do Brasil,
que haja aí uma defesa de princípios políticos e sim muito
mais a compreensão de uma determinada realidade que é satisfatória
para seus interesses.
Diferente de uma prática
comum nos países da Europa, diferente da prática comum em
países onde essa noção de política é uma noção estabelecida
pelo respeito a princípios. A única tentativa conhecida no
Brasil e que é assumida claramente é a do jornal "Folha de
S. Paulo", que faz questão de estabelecer isso como princípio
do seu funcionamento e é uma realidade a partir de 1984, quando
se implanta o chamado Projeto Folha, que é a linha de coordenação
e de referência do seu jornal.
Essa falta de partidarização
formal não retira dos jornais brasileiros a defesa dos seus
interesses ao ponto de, hoje, independentemente do que se
discute em relação à legislação referente à Lei da Imprensa,
outras entidades tentam desenvolvimento de ações específicas
para tentar se estabelecer um norteamento por processos de
informação política no Brasil. Um caso concreto é a ação da
Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), através da qual
essa ação permitiu a implantação do chamado Fórum Nacional
Democratização, que é um movimento coordenado pela Fenaj e
pelos sindicatos estaduais de jornalistas e congrega as mais
diversas entidades incorporadas na luta política e social
no Brasil tendo como principal objetivo a ordenação desse
espaço em relação às mídias eletrônica e imprensa e, em particular,
com relação à próxima eleição tenta desenvolver um projeto
chamado o "ombudsman da mídia", com a finalidade de fazer
um acompanhamento da ação de jornais e televisões. Esse aspecto
é particular porque mídia no Brasil e política estão muito
vinculadas a processos recentes da nossa história e por conta
dos interesses dos grupos que representam os meios de comunicação.
Em termos de conclusão,
eu gostaria só de chamar a atenção ao episódio que Dirk Kaemper
se referiu sobre o cancelamento do jogo Alemanha e Inglaterra,
e até concordo com o aspecto que ele coloca, quer dizer, é
se dar muita honra a determinado tipo de pessoa. Mas, o que
eu gostaria de chamar a atenção, usando o exemplo dele, é
que esse é um tipo de tratamento que no Brasil não ocorreria
se permitir. No contexto que ele coloca, houve muitas vozes
se manifestando no mesmo sentido. No Brasil você não tem,
porque a natureza dos meios de comunicação não permite aos
seus profissionais nenhum tipo de manifestação. Essa noção
de que ao jornal se permite, aos meios de comunicação se permite
proferir o que seria a voz do dono e nunca de quem faz. Essa
é uma realidade que, de certa maneira, considerando todos
os aspectos institucionais e estruturais, faz com que seja
particularmente diferente da realidade que a gente tem do
jornalismo político no Brasil com a situação e o exemplo que
se tem na Alemanha.
Debates do dia 14 de maio
de 1994
Roland Schaffner
– Muito obrigado, professor Washington.
Temos aqui algumas perguntas e colocações que, na seqüência
de chegada, vou ler e pedir aos conferencistas presentes para
responderem.
Pergunta – Na
década de 30, antes do aparecimento da televisão, o que mais
se passava nos cinemas eram produções norte-americanas ou
tudo se resumia a pornochanchadas brasileiras?
Sérgio Mattos –
A década de 30, de certa forma, era considerada quase que
uma década de ouro, onde a música tinha influência muito grande.
O cinema estava em pleno apogeu, nós recebíamos principalmente
filmes norte-americanos, o rádio tinha um domínio maciço,
tinha dez anos de implantação no País e uma influência muito
grande. As chanchadas não são bem dessa época. A gente estava
começando, ensaiando os passos ainda na década de 30. Na verdade,
a gente recebia mais filmes importados. Nós tínhamos mesmo
os jornais impressos, as revistas e o rádio.
Pergunta – Como
as programações culturais do Brasil aparecem na TV alemã em
termos de um elemento do noticiário daquele país?
Dirk Kaemper – A
cultura brasileira aparece principalmente nos assim chamados
magazines culturais. Por exemplo, se um grupo de teatro ou
músico se apresenta na Alemanha, aí tem uma reportagem relativamente
extensa. Como um bom exemplo, naturalmente o tema em foco
na Feira Internacional de Livro de Frankfurt é o Brasil e,
com certeza, muitos magazines culturais, várias estações de
televisão vão fazer programas sobre isto, inclusive, aproveitando
o grande número de escritores brasileiros na Alemanha. Do
outro lado, a gente tem que saber que na televisão alemã o
Brasil é muito presente através do seu carnaval e do seu futebol.
É isso que a maioria do público alemão sabe e quer saber.
Pergunta – "Cultura
e política. Eu não acredito em política. Porém não se pode
separar o que é inseparável. No caso cultura e política, que
são duas faces de uma mesma moeda. O mundo, os conceitos,
as concepções estão todos malucos. A cultura está morrendo.
Morrer não é difícil, difícil é a vida e seu ofício" (Maiakóvisk).
Dirk Kaemper – É
evidente que cultura e política não são inseparáveis.
Pergunta – No
jornal existe espaço nobre, fazendo uma analogia com o horário
nobre da TV?
Sérgio Mattos –
Sim, existe. Se a gente considerar o jornal como um todo,
você vai observar o seguinte: qual é a parte mais importante
que tem no jornal? É a primeira página. Após a primeira página,
você tem todas as páginas ímpares em seqüência, 1º Caderno,
2º Caderno, 3º Caderno. Então as páginas nobres são sempre
as páginas ímpares. Em termos de publicidade também são sempre
as páginas mais caras. Porque exatamente você começa a ler
a página um, que é a capa; quando você abre o jornal, a próxima
página que vem ao seu alcance direto é a página três, a página
ímpar. Então, todas as páginas ímpares são espaços nobres,
e dentro de cada página, o alto da página é nobre. Na nossa
cultura a gente lê da esquerda para a direita, então o espaço
do alto à esquerda é mais nobre do que o alto à direita. E
o centro da página por sua vez é mais nobre do que o canto
baixo esquerdo e o canto baixo direito de cada página. Enfim,
os espaços nobres dos jornais são: a capa, a contracapa, o
alto das páginas e as páginas ímpares.
Pergunta – Qual
seria a justificativa política para o fato de o governo criar
toda uma infra-estrutura de telecomunicação e concedê-la a
grupos particulares para que estes se beneficiem?
Sérgio Mattos –
Eu acredito que isso está relacionado com a televisão. Vamos
tentar recapitular. Por exemplo, em 1964 existia por detrás
dos conceitos do Golpe Militar uma doutrina de nacionalização,
uma doutrina nacional que era divulgada pela Escola Superior
de Guerra do Brasil. No momento em que se deu a revolução,
houve toda uma preocupação com a política específica de comunicação
dirigida aos meios de comunicação, pois tanto o rádio como
a televisão eram tidos – e de fato o são – como veículos que
poderiam alcançar grandes massas. Ao mesmo tempo em que o
governo criou toda a infra-estrutura para prover o País de
uma rede de telecomunicações, a gente não pode esquecer que
todas as torres de microondas, satélites e tudo, mais de 50%
estavam reservados para os serviços de informações do Exército
e da Polícia Federal. Quer dizer, existia também por trás
a intenção de poder cobrir em termos de segurança nacional
todo o território nacional e essa infra-estrutura foi montada
basicamente para isso com fins militares. Naturalmente que
os meios de comunicação se beneficiaram disso direta e indiretamente.
Existia também a tentativa de fazer com que o Brasil tivesse
fronteiras de telecomunicações, porque, como o território
era muito grande, ninguém queria investir naquela área. O
governo implantou torres de microondas por todo o País para
ter um controle permanente sobre o que ocorria nessas áreas
fronteiriças. Primordialmente, a rede de telecomunicações
no Brasil surgiu por um interesse militar
de segurança nacional e os meios de comunicação, principalmente
a televisão, e os serviços de telefonia a usavam. Mas usaram
apenas 50% dessa capacidade, porque os outros 50% estavam
reservados para os meios de segurança.
Pergunta – As
vantagens de se ler jornais são inegáveis, porém o vídeo aqui
exibido mostra apenas um lado da questão. Diz que os jornais
informam e que são inteiramente confiáveis tendo uma abrangência
maior e mais completa que a televisão. Por que não foi abordado
que o jornal também fragmenta, deforma e atende aos interesses
ideológicos de um determinado grupo?
Sérgio Mattos –
Nenhum leitor é obrigado a comprar e ler um jornal do qual
discorda ideologicamente… A mesma coisa acontece também em
relação à televisão. Se você se identifica com determinada
linha de uma emissora, você assiste, se não se identifica,
você muda para uma outra.
Na verdade, os jornais são
vinculados de uma certa forma a grupos empresariais, políticos
ou a grupos familiares. Os maiores jornais do País são vinculados
a grupos de família. Temos, por exemplo, em São Paulo, os
Mesquita, que têm "O Estado de S. Paulo"; os Frias, a "Folha
de S. Paulo"; no Rio de Janeiro, os Marinho controlam "O Globo";
na Bahia, nós temos os Simões, que possuem "A Tarde".
Em cada estado brasileiro,
o maior jornal geralmente está vinculado a um grupo familiar.
Normalmente, esses são considerados jornais independentes,
não são jornais partidários. Os demais, que não se enquadram
nesse grupo de jornais familiares, são os vinculados a grupos
empresariais ou a grupos políticos. Quer dizer, se o vínculo
pertence a determinado político, que segue uma determinada
linha partidária, seu veículo também seguirá. Se ele é do
PMDB, vai adotar políticas do PMDB, se é do PT, seu jornal
adotará uma linha editorial que defenderá as políticas do
PT e vai fazer oposição ou não aos outros.
Com referência à crítica
que foi feita em termos de que um jornal influencia no texto,
na edição… Veja só, jornalisticamente, o profissional, eu,
pelo menos, tenho mais de vinte anos de profissão, de jornalismo
impresso, e jamais recebi nenhuma orientação dos donos dos
jornais onde trabalhei no sentido de que publique isso ou
não publique aquilo. No exercício de editor, sempre tive liberdade
de editar o que eu recebia.
Então, os critérios jornalísticos
que a gente recebe e que usa para editar as matérias são aqueles
critérios de importância da informação. Se a notícia é muito
abrangente e atende a muita gente, ela é importante. Por exemplo:
uma notícia sobre o aumento dos salários dos funcionários
públicos fatalmente vai para a primeira página dos jornais
e para a cabeça das páginas. Vai ser as manchetes das páginas
internas e provavelmente a cabeça da primeira página. Isto
porque esta é uma notícia que interessa a milhares de pessoas.
Mas isso é um critério jornalístico
em termos de abrangência. A grosso modo, entre dezenas de
situações e de critérios, as notícias são consideradas importantes
pela abrangência que podem ter em termos de público, pela
sua proximidade. Uma notícia que ocorre localmente, regionalmente
ou no País é mais importante do que um terremoto que ocorre
no México ou no Japão.
Outro aspecto que existe
em relação à importância da informação e que gostaria de destacar
é aquela de que nem sempre a notícia mais importante que o
jornal publica, sob o ponto de vista do jornalista, que é
a manchete, é a mais importante para uma pessoa que lê o jornal.
A notícia que diz respeito ao leitor, que está diretamente
relacionada com ele, é a notícia mais importante que o jornal
publica naquele dia. Se você é técnico de futebol, jogador
de futebol ou policial, a notícia mais importante que tem
para você é a que diz referência a sua profissão. A primeira
coisa que um delegado de polícia faz é olhar a página de polícia,
depois é que ele vai ver a primeira página e o resto do jornal.
A mesma coisa vai fazer o esportista, o técnico de futebol,
o jogador de futebol. Primeiro eles vão ler a parte de esporte
para depois ler o resto. E aí vai sucessivamente.
Assim sendo, sob o ponto
de vista do consumidor, a notícia mais importante que o jornal
publica nem sempre é a manchete da primeira página. Por exemplo,
se você é aposentado e sai uma notinha no jornal, dizendo
que os aposentados vão ter tantos por cento de aumento ou
vai ser liberado um atrasado, esta notinha de três linhas
ou quatro linhas passa ser a notícia mais importante para
ele. Portanto, os critérios de importância são variados.
Pergunta – Minha
pergunta refere-se à segunda etapa do vídeo onde é mostrado
aquela coisa da Alemanha tornar-se bonita e termina com a
frase: "Agora vamos limpar o cal do vaso de flores". A partir
desse contexto pode dizer-se que a Alemanha hoje é uma república
mais conscientizada, ou seja, com a informatização do meio
televisivo as pessoas começaram a receber notícias na sua
síntese real?
Dirk Kaemper – Na
minha opinião, o vídeo conta a história da Alemanha ocorrida
na Segunda Guerra Mundial. Nós não devíamos subestimar o papel
da televisão quanto à conscientização do povo alemão. Mesmo
na época quando existiam só os dois canais de televisão de
direito público, quase monopólio, os meios de informação como
imprensa e rádio tiveram uma importância bastante grande.
Com a situação atual, as possibilidades de uma conscientização
da população através da televisão estão mais afastados do
que nunca. Exatamente pelo fato da multiplicação dos canais.
Além disso, tem a nova pesquisa
sobre o comportamento do telespectador e um dos resultados
dessa pesquisa é que mais de 60% das pessoas que assistem
televisão nem percebem ou nem registram o que está sendo emitido
pelo aparelho de televisão. Esse número aumenta, por sinal,
durante a emissão de propaganda comercial, chegando até 80%.
Se nós considerarmos os milhares de dólares que são gastos
para propaganda comercial, podemos constatar que a propaganda
comercial é um programa minoritário. Isso não é nenhuma novidade
nem mesmo nos Estados Unidos.
Pergunta – No
Brasil, como no mundo inteiro, a televisão busca uma linguagem
própria. No telejornalismo, em específico, o caráter opinativo
parece tornar-se uma tendência combatida por uns e aceita
por outros. Isto já é uma realidade. Na Alemanha se questiona
essa postura opinativa dentro do contexto do telejornalismo?
É bem-vista pelo público? Até que ponto influencia?
Dirk Kaemper – Também
sobre esse aspecto existem claras pesquisas na Alemanha, e
nós mesmos fomos surpreendidos pelos seus resultados. Isto
porque a maioria dos telespectadores, mais ou menos 70%, espera
do moderador, respectivamente do comentarista, uma opinião
claramente pronunciada.
Participantes:
quem é quem
Carlos Libório é
professor aposentado do Departamento de Jornalismo da Faculdade
de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Mestre em
Comunicação, radialista e jornalista profissional, exercendo
no momento a função de diretor de Departamento de Jornalismo
da TV Bahia, canal 11, afiliada da Rede Globo. Participou
do seminário como conferencista convidado.
Dirk Kaemper é historiador
das artes e jornalista cultural. Terminados seus estudos de
história das artes, história política e literatura alemã,
Dirk Kaemper tornou-se autor e realizador de jornalismo cultural
junto ao Primeiro Canal da TV alemã, na sede de Colônia.Dirk
Kaemper realiza principalmente reportagens e documentários
sobre os principais eventos artísticos e culturais na Alemanha,
como também features de cunho crítico sobre as políticas
culturais dos municípios e estados da Alemanha. Ele se tornou
reconhecido, também, por seus esforços talentosos de renovar
a linguagem do jornalismo cultural na TV. Paralelamente ao
seu trabalho jornalístico, Dirk Kaemper colabora com algumas
galerias de arte, como também na conceituação de exposições
de vários museus.
Roland Schaffner é
diretor do Goethe Institut – Salvador/Bahia (ICBA – Instituto
Cultural Brasil Alemanha) e co-coordenador do seminário intitulado
"Cultura Política e Política Cultural na Televisão do Brasil
e da Alemanha".
Sérgio Mattos é
mestre e doutor em Comunicação pela Universidade do Texas,
em Austin, Estados Unidos. Professor Adjunto IV do Departamento
de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade
Federal da Bahia, poeta e jornalista profissional, exercendo
a função de editor de Municípios do jornal "A Tarde". É autor
de várias obras sobre televisão, destacando-se as teses de
mestrado e de doutorado, além dos livros The Impact of
the 1964 Revolution on Brazilian Television (1982) e Um
perfil da TV brasileira; 40 anos de história: 1950-1990. Foi
o coordenador deste seminário, além de ter sido também conferencista,
debatedor e moderador das sessões.
Vera Martins é professora
do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação
da Universidade Federal da Bahia. Jornalista profissional
com militância tanto na mídia impressa como na mídia eletrônica,
tendo exercido a coordenação da TVE-BA e dirigido departamentos
de telejornalismo em emissoras baianas. Participou do seminário
como debatedora.
Washington de Sousa
Filho é professor do Departamento de Jornalismo da Faculdade
de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Mestrando
do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea
da Facom/UFBA, jornalista profissional com militância tanto
na mídia impressa como na mídia eletrônica. Participou do
seminário como conferencista convidado e como debatedor.
SUMÁRIO
Apresentação/Introdução/Capítulo 1 – Público-alvo da cultura na TV: minorias
ou audiências em massa?/Capítulo 2 – Jornalismo cultural e produção cultural:
critérios de seleção e de transmissão/Capítulo 3 – Mídia impressa e mídia eletrônica:
política atual e reflexo cultural
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