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Televisão
e Cultura no Brasil e na Alemanha
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Cap. 2 Jornalismo
cultural
e produção cultural:
critérios de seleção e de transmissão
Conferencistas: Dirk Kaemper
e Washington de Sousa Filho
Debatedores: Vera Martins
Moderador: Sérgio Mattos
O
processo de comunicação da televisão
Dirk Kaemper
Boa-noite!
Não posso realmente dizer
como eu estou surpreso, pois, na Alemanha, o povo a esta hora
já estaria nas tabernas, em seus bares, tomando cerveja. Por
isso, eu me alegro tanto mais que vocês, que, sacrificando
um pouco do seu hábito das sextas-feiras à noite, estão hoje
aqui para assistir a minha palestra.
Eu quero de forma bastante
sucinta retornar à discussão de ontem à noite, relacionando
algumas coisas que acontecem conosco, os que fazem televisão
freqüentemente. Ou seja, avaliar as expectativas dos ouvintes.
Essas pesquisas de opinião são estatísticas que nem sempre
ou quase nunca são perfeitas. E, às vezes, só em parte fornecem
uma informação sobre aquilo que verdadeiramente o telespectador
quer assistir. Isso é um truísmo, é um lugar-comum que naturalmente
uma pesquisa bastante representativa, às vezes, acontece também
em função da encomenda de certas pessoas.
Quando afirmo que a grande
massa dos telespectadores espera realmente da televisão é
diversão e a cultura na televisão só faz sentido se ela pode
ser de forma ligeira, atrativa, consumida, com isso eu atendo
a uma certa demanda. Mas, simultaneamente, eu também produzo
uma demanda. Quanto mais eu produzo ou faço transmissões de
programas que não têm grande profundidade, tanto mais e de
forma intensiva eu determino a qualidade desses programas.
No sentido de um processo de comunicação, devemos mencionar
que a televisão não é absolutamente algo estático, mas deve,
como mídia, como meio de comunicação, se encontrar em permanente
transformação, desenvolvimento. Com referência a isso, nos
últimos dois ou três anos, aconteceu algo na paisagem televisiva
alemã que foi bastante surpreendente. Depois de fazerem durante
seis, sete anos, programas televisivos sem nenhuma profundidade,
sem maiores pretensões (e esta forma de fazer programa não
encontrava mais boa receptividade), eles começaram, no âmbito
da informação política, a aprofundar e a melhorar consideravelmente
a qualidade de suas transmissões. Isso tem a ver, seguramente,
com a concorrência entre a televisão de direito público e
a televisão de direito privado.
O processo de comunicação
da televisão é o nosso tema de hoje: a mídia como transmissor
de cultura e de elementos para o espectador.
A diferença fundamental
entre as redações que na Alemanha se ocupam com o tema cultura
e aquelas que se ocupam com o tema esporte. As editorias se
constituem basicamente daquilo que sempre transmitem sobre
cada acontecimento, em particular, de cada setor. Naturalmente,
cada transmissão dessas, cada acontecimento é transmitido
de forma emocionante ou de forma monótona.
A cultura na televisão da
República Federal da Alemanha nesse aspecto específico, como
já mencionei várias vezes, foi apresentada como modelo, ela
própria sendo um modelo. Ou seja, uma mídia que tem suas próprias
leis, seus próprios condicionamentos. O problema é que a eficácia
e a efetividade desses meios considerados primários, como
a literatura e o teatro, se diferenciam basicamente do efeito
da televisão. Quer dizer, eles têm um efeito de uma forma
e a televisão tem modos diferentes de provocar efeitos.
Quando tomamos, por exemplo,
a literatura como referência, o ato de ler e o ato de assistir
à televisão implicam em dois comportamentos absolutamente
diferentes. Pode até dizer-se que as duas mídias seriam até
incompatíveis entre si. Eu posso filmar um livro e eu posso
também fazer com que esse livro seja lido na televisão. Mas
com isso, em absoluto, eu não transformei a televisão em literatura.
Se tomarmos agora como exemplo
a pintura, esses dois veículos de comunicação, meios de cultura,
parecem combinar perfeitamente. Mas, em todo caso, trata-se
de duas mídias bidimensionais. E este é o único ponto de referência,
não existem outros pontos de identidade entre essas duas formas
de cultura. Pois ver um quadro numa exposição é algo
completamente diferente do que ver um quadro, uma pintura
transmitida pela televisão.
Eu quero mostrar em seguida
três exemplos de como se lida com essas questões.
O primeiro exemplo se ocupa
da literatura. Se tornou um programa bastante conhecido na
televisão alemã e tem como objetivo mostrar um pouco da literatura
para o público e fazem de forma bastante interessante e, como
vocês poderão constatar, de uma forma até divertida. Quatro
críticos literários bastante conhecidos na Alemanha se reúnem
e discutem sobre literatura. O principal debatedor é o crítico
Marcel Reich-Ranicki, que pode ser assim denominado como o
papa da literatura na Alemanha, que nesse ínterim já tem um
papel soberano na paisagem literária alemã. Se ele realmente
critica ou elogia um livro, de qualquer maneira será vendido.
A vantagem desse tipo de programa é que ele tem um alto conteúdo
de divertimento e o telespectador recebe muitas informações
muito interessantes sobre cada obra que está sendo debatida.
[A título de exemplo foi exibido o vídeo "Quarteto literário",
da ZDF, que se constitui num debate ao vivo entre quatro conhecidos
críticos literários sobre o livro "Echolot", de Walter Kempowski.]
O exemplo seguinte vai se
ocupar do tema pintura. Esse programa é denominado "Mil obras-primas
da arte da Pintura". É um programa que é transmitido semanalmente
e que na sua duração original, dez minutos, ele se ocupa com
um só quadro. [Foi exibido um vídeo sobre o quadro
denominado "Interior", de Anselm Kiefer.]
A terceira contribuição
é sobre uma exposição de mestres barrocos da arte flamenga,
uma exposição que foi mostrada em Colônia. [Foram exibidas
mostras de vídeos.]
Um dos problemas da obra
de arte quando é uma obra pictórica é a sua dimensão. As dimensões
da pintura de um quadro praticamente não combinam para serem
mostradas em todas as suas minúcias, na dimensão da tela da
televisão. E por isso é realmente difícil mostrar um quadro
na televisão. Por causa disso formou-se uma frente bastante
abrangente de artistas e críticos de arte, pedindo que, sob
essa forma como foi mostrado, não se mostrem mais obras de
arte na televisão.
Eu vou resumir quais são
os argumentos desse pessoal. Primeiro, a obra de arte na televisão
perde a sua aura original. A obra de arte na televisão não
é uma vivência subjetiva, uma experiência subjetiva. A arte
na televisão confunde a criteriosidade, conforme podemos verificar
neste último exemplo, no quadro de Anselm Kiefer. E mesmo
um simples quadro, por menos complexo que seja, em cinco ou
seis minutos não dá para você analisá-lo e perceber todos
os seus detalhes, muito menos quando se trata de uma exposição
inteira, completa. Além do problema do corte na televisão,
os artistas criticam especialmente a maneira, a forma de comunicação.
Para os artistas, a arte é uma comunicação em liberdade, televisão,
ao contrário, é comunicação em dependência. A fim de dar um
exemplo concreto: eu vejo um quadro num museu, eu é que decido
para que aspecto inicialmente eu quero olhar do quadro e por
quanto tempo quero olhar. Na televisão eu já recebo pronto,
eu sigo a visão de quem filmou, não tenho alternativa de escolher
por onde quero começar e por quanto tempo quero ver. Com isso
os artistas não querem absolutamente, não estão pleiteando,
que se extinga a televisão. Alguns artistas exigem uma outra
forma completamente diferenciada para a arte na televisão.
Eles exigem, por exemplo, que com uma câmera fixa, sem corte,
se transmitam 24 horas do Congresso alemão e que de modo semelhante
seja feita também a transmissão de academias de arte e de
outros centros artísticos. O que eles querem é que apenas
se coloque a câmera transmitindo 24 horas e que não haja nenhuma
intervenção, que nenhum comentário seja feito.
Penso um pouco diferente:
que quando nós, redatores de televisão, informamos sobre arte,
fazemos um trabalho que faz sentido. Ou seja, naturalmente
nós estamos conscientes de que não podemos substituir a recepção
dessas formas primárias de manifestação artística e de nenhuma
forma deve pensar-se que a televisão é um substituto para
outras formas de arte. Basicamente, o nosso trabalho consistiria
em chamar a atenção e estimular a curiosidade em relação à
realidade. E isso funciona na maioria das vezes. Houve relação
entre essas duas transmissões que acabamos de ver, questionamento
dos telespectadores. Uma investigação que nós fizemos sobre
a receptividade desse programa nos forneceu informações de
que alguns telespectadores ficaram muito curiosos e aí se
decidiram, depois da informação, a saber mais sobre as obras
de arte e foram ver os quadros na exposição. E, apesar disso,
esses programas, programas que fazemos, são para minorias.
Ainda assim, atingimos, num único trimestre na Alemanha, um
público superior ao número total de pessoas que vão ao teatro
e aos museus em um período de seis meses.
Eu acho também que a televisão,
além de puro transmissor de cultura, pode também assumir uma
outra função. A televisão pode desenvolver um estilo próprio
de transmissor de cultura. Num primeiro aspecto, a televisão
pode complementar as informações sobre arte ou sobre artistas,
fornecendo, por exemplo, dados biográficos e outras informações
sobre acontecimentos artísticos, que às vezes a própria obra
de arte, posta em exposição, não oferece.
Para a Alemanha, por outro
lado, esta é uma tarefa muito importante já que há décadas
nós fazemos programas sobre informações culturais. Conseguimos
reunir nesses anos um vasto e abrangente arquivo sobre material
cultural. Formamos um arquivo que, no futuro, poderá também
ser usado para trabalhos artísticos e científicos. Somente
quando a televisão se referir à sua especificidade maior,
poderá ser considerada uma forma de arte independente. Os
dois exemplos que vou mostrar agora para concluir a minha
palestra devem esclarecer esses aspectos para vocês. No primeiro,
denominado "Televisão ao infinito", um realizador de televisão
se ocupa especificamente com a televisão em seu caráter mais
particular, mais próprio. O que ele faz, na verdade, é uma
reflexão sobre a própria televisão com o seu filme. No segundo
filme, intitulado "Vôo 101 para a Terra de Ninguém", trata-se
de história, de um fato histórico referente à Argentina. Aqui
é onde aparece essa forma específica de se fazer televisão.
Para mim este é um exemplo de como se deve apresentar história
na televisão. Um exemplo que até então eu não tinha visto
nada igual. [Foram exibidos os vídeos "Vôo 101 para a Terra
de Ninguém" e "Televisão ao infinito".]
Quando se consegue transpor
a arte e a cultura para um determinado meio de comunicação,
isto poderia pelo menos significar o futuro para pelos menos
uma parte dos realizadores da televisão alemã. É realmente
o mais difícil, mas seguramente o último monopólio que permaneceu
na televisão do direito público na Alemanha.
Eu acho que no futuro nós
continuaremos a explorar esse aspecto.
Bom, com isso eu cheguei
ao final da minha palestra de hoje à noite.
Sérgio Mattos – Antes
da palestra do professor Washington de Sousa Filho vamos exibir
um vídeo que mudou a forma de fazer telejornalismo. São cenas
provocadas nos Estados Unidos na época de Martin Luther King.
A violência transmitida diretamente, ao vivo, sem explicações
dadas pela mídia, deixando que as pessoas reagissem à realidade
das imagens. Vamos mostrar também uma pequena história de
como evoluiu o jornalismo no mundo. Algumas experiências em
países diferentes para que vocês tenham idéia e possam ter
uma referência para fazer comparações. Este vídeo mostra também
como é um dia nas redações dos telejornais quando existem
muitas boas notícias e como é o dia quando não tem notícia
nenhuma e faltam apenas quinze minutos para o telejornal entrar
no ar.
(*) Conforme tradução consecutiva
e gravação.
O jornalismo na televisão
Washington de Sousa Filho
Boa-noite!
Inicialmente queria agradecer
o convite para participar deste seminário. A responsabilidade
do convite é do professor Sérgio Mattos que, independentemente
da condição de colega na Faculdade de Comunicação, é também
um pouco responsável pelo trabalho que eu faço hoje. Um trabalho
que estou realizando sobre televisão para o mestrado da Facom,
onde Sérgio é o meu orientador de dissertação.
Antes de começar, gostaria
de explicar a forma como vou fazer a minha exposição e dizer
a vocês que a primeira preocupação é de tentar estabelecer
um parâmetro para que a gente compreenda o que é que representa
o jornalismo na televisão. De antemão, vou dizer para vocês
que, independentemente do fato de estarmos falando de jornalismo
de televisão na Bahia, a minha abordagem é uma abordagem de
notícia, de jornalismo de televisão em nível nacional, até
porque foi o estabelecimento de um modelo de jornalismo em
nível nacional que permitiu uma ordenação ou reordenação do
processo de fazer em nível regional. Hoje, o que a gente vê
nas televisões em relação a jornalismo é uma repetição ou
uma ocupação do espaço estabelecido pela programação que vem
da rede. Um outro aspecto é tentar determinar de que maneira
o jornalismo na televisão é importante, de que forma o telejornal
é a principal forma de informação no Brasil e também tentar
compreender ou colocar o que eu penso em relação ao tema em
debate, que é "Jornalismo cultural e produção cultural".
Eu vou fazer essa minha
conferência utilizando-me de um texto escrito onde vou ter
minhas referências para trabalhar. Vou usar transparências
para consolidar algumas das informações e intercalar, numa
última etapa, minha exposição com duas partes de vídeo, de
uma reportagem sobre o "Jornal Nacional", da rede Globo, não
exatamente porque é o "Jornal Nacional", mas porque de certa
maneira ele é também um modelo que a gente tem de produção
de noticiário em nível nacional. Também vamos apresentar duas
matérias que foram veiculadas pelo "Jornal Nacional", que
têm a particularidade de representar a noção do que eu vou
discutir aqui: o fato de que na existência de uma política
que caracterize o jornalismo cultural, a gente tenha um aproveitamento
de informações que poderiam ser enquadradas no campo do jornalismo
cultural aproveitadas no conteúdo de todo jornal.
A questão do jornalismo
na televisão brasileira é de que ela é a mais importante e
ampla forma de informação que a gente tem no País. Essa abrangência
representada pela capacidade das quatro redes de emissoras
comerciais complementadas pela Rede Brasil, formadas por televisões
educativas. São 290 emissoras de televisão nas cinco regiões
do País, sendo a maior parte da concentração delas na Região
Sudeste. E essa concentração na Região Sudeste estabelece
já uma grande influência em relação ao processo que a gente
tem de seleção e transmissão de notícias, que é um aspecto
que também vamos abordar aqui.
Essa importância da televisão
na transmissão de informação no Brasil foi constatada através
de uma pesquisa realizada pelo IBOPE (realizada em 1980),
que apresenta os seguintes dados. Ouvidos três mil telespectadores,
homens e mulheres, os resultados apresentados fortalecem a
visão dessa predominância na televisão. O primeiro dado a
partir do público pesquisado é de que 73% da população brasileira
tinham acesso à televisão. Isso não significa ter televisão,
significa a possibilidade de assistir à televisão. Desse universo,
as mulheres acabam representando a maioria entre o público,
natural até pela predominância delas, sendo que a maior parte
das mulheres, 52%, assiste à televisão. Os homens, 48%. Em
relação a programas de informação, e aqui temos o primeiro
dado em relação ao poder da televisão na transmissão de programas
de informação. É que os programas de informação são os preferidos
pelos homens, que representam nesse aspecto um percentual
de 87,4%. O programa de informação é o segundo na preferência
das mulheres, com um índice de 71,3%. Em relação às mulheres,
elas preferem mais as novelas, num percentual de 83,01%, sendo
os programas esportivos a segunda preferência dos homens.
Essa preferência dos telespectadores
também pode ser constatada por outros critérios. Uma nova
avaliação sobre o crescimento do interesse do público por
informação constatou uma elevação no período entre 1980 e
1991 de 74% para 81%. Enquanto o interesse por novelas passou
de 63% para 74%, o que representa uma variação percentual
maior em relação aos telejornais. Os dados são mais destacados
em uma outra verificação, realizada pela "Folha de S. Paulo"
e publicada em maio de 1992, sobre o aumento do número de
programas jornalísticos. Em cinco anos, a elevação foi de
31%, passando de 39% para 50%. O período analisado foi de
1987 a 1992. Nesse período o espaço das emissoras para a exibição
de novelas, que era de 9h10min, diminuiu para 7h10min. Enquanto
o tempo dos programas de informação em relação à carga diária
passou a ter o equivalente a 3h40min.
É importante ressaltar que
a despeito desses dados serem referentes à programação e emissoras
de São Paulo, eles são importantes na compreensão do que representam
os programas de informação, considerando-se que São Paulo
é o principal mercado de televisão no País. Inclusive, se
colocando com dois dos principais mercados que são a capital,
especificamente, e o interior de São Paulo.
Esses dados, independentemente
do que representam numericamente, acabam sendo mais importantes
se a gente considerar que houve aqui uma tentativa de ampliar
o tempo destes programas. Nesses últimos cinco anos, se verifica
essa elevação, principalmente na TV Bandeirantes e no SBT,
que aumentaram em quase 100% o tempo disponível de programação
nesse período.
Diante da disputa pela audiência,
diante do poderio, digamos assim, estabelecido pela Globo
na produção de novela, passou a ser mais barato (e aí há um
paradoxo inclusive em relação a isso) produzir jornalismo
ao custo de 10 mil dólares a hora do que fazer novela que
representa quase 25 vezes esse tipo de custo. Fora isso, houve
a opção, que é o caso da Bandeirantes especificamente, pela
segmentação na sua programação. Independentemente do caso
da Bandeirantes, onde o "Show do Esporte" está sendo exibido
há quase dez anos, houve progressivamente um aumento de programas
esportivos na programação de emissoras. E aí esses programas
esportivos são enquadrados como programas de informação.
Um outro aspecto em relação
a essa preponderância da informação na televisão é o fato
de que no Brasil os indicadores que se referem à leitura demonstram
uma dificuldade, pois é fato evidente que o Brasil é um país
de pouca leitura. Avaliando esses dados, a gente tem algumas
referências em relação à leitura de livros. O índice de leitura
no Brasil é de um título por mil habitantes (dado apurado
pela Unesco em 1988). Só em termos de comparação, ele é inferior
à França, que tem um índice de sete títulos por mil habitantes;
ou à Coréia do Sul, que tem 10 títulos; um pouco acima do
México, que é 0,6; e do Egito, que é 0,7.
Um outro dado apurado também
por organismos internacionais e que é bastante demonstrativo
da pouca opção e do pouco interesse pela leitura no Brasil
é a tiragem diária de jornais. O percentual do Brasil dado
em 1988 é de 55 exemplares por mil habitantes. O que não permite
comparação com um índice como o do Japão: 566 exemplares por
mil habitantes, enquanto o Chile, aqui na América do Sul,
tem 65 exemplares por mil habitantes.
O jornalismo é contemporâneo
em relação ao desenvolvimento da televisão no Brasil, que
foi implantada em 1950. Desde a inauguração da primeira emissora,
a PRFT Difusora, que viria depois a se transformar na TV Tupi
de São Paulo, que os programas de informação fazem parte da
programação delas. O primeiro programa de informação foi exibido
dois dias depois da inauguração da primeira emissora. Profissionais
da época dizem que o programa tinha uma particularidade: ele
tinha horário para começar mais ou menos definido, mas só
acabava quando não tinha mais nenhuma imagem para ser exibida.
De qualquer maneira, o que
marca a história do jornalismo no Brasil em relação à televisão
é a estréia, em 1951, do programa "Repórter Esso", da TV Tupi
do Rio de Janeiro. Esse programa era um sucesso do rádio,
um programa que foi idealizado para fazer a divulgação da
propaganda de guerra dos Aliados, no Brasil. Foi um programa
que teve similar em outros países da América Latina, no mesmo
período, o período da Segunda Guerra. Era um programa realizado
também na televisão com características particulares: um apresentador
exclusivo, o patrocínio de uma única empresa, que era a Esso,
e produzido com informações controladas por uma agência de
notícias, o programa era supervisionado por uma agência de
publicidade, a quem competia fazer todo tipo de observação
em relação ao programa. Esse programa se transformou em um
marco do jornalismo brasileiro na televisão e foi repetido
em muitas das nove emissoras inauguradas por Assis Chateaubriand,
que foi o pioneiro da televisão no Brasil, incluída aí a TV
Itapoan (emissora do grupo, instalada na Bahia em 1960) que
chegou a ter aqui também seu "Repórter Esso" e mais tarde
um outro programa com as mesmas características, chamado "Telejornal
da Petrobrás".
Um outro marco significativo
na história do jornalismo brasileiro foi o "Jornal de Vanguarda",
um programa idealizado pelo jornalista Fernando Barbosa Lima,
hoje [1994] diretor-geral da Rede Manchete, que foi
ao ar em 1962. Era um programa inovador, principalmente por
ter instituído a participação de jornalistas em programas
de televisão. E a maioria desses jornalistas atuava como comentaristas.
Alguns deles ainda trabalham em emissoras brasileiras. É o
caso de Vilas Boas Corrêa, de Nilton Carlos, além do próprio
Cid Moreira, que foi um dos apresentadores, não exatamente
apresentador; porque o formato do programa não tinha a figura
definida que a gente conhece de apresentador. Ele era chamado
de "Sombrinha", porque era um cara que junto com o irmão,
chamado Célio Moreira, e um outro apresentador, chamado Luís
Jatobá, fazia leituras em off de informações veiculadas
no programa.
O "Jornal de Vanguarda",
mesmo premiado na Espanha como um dos melhores jornais de
informação do mundo, não sobreviveu aos tempos difíceis do
País a partir de 1964 e foi retirado do ar. Devido ao seu
sucesso, o modelo do programa foi repetido em outros, tais
como "Show de Notícias", da TV Excélsior de São Paulo, e o
"Cinco é Notícia", aqui da TV Itapoan, em 1968. Segundo Fernando
Barbosa Lima, naquela época ele preferiu retirar o programa,
deixar de exibi-lo, fazendo como se faz com cavalo de raça,
dando um tiro na cabeça. Ele preferia retirar o programa do
ar do que deixá-lo sendo exibido já sob a influência da censura
que tinha se instaurado no Brasil.
De qualquer maneira, para
a noção de jornalismo que a gente tem na televisão brasileira,
a noção contemporânea, o paradigma do jornalismo na televisão
brasileira que viria a ser o "Repórter Esso", só se consolida
a partir de 1972, embora ele tenha estreado em 1969 (1º de
setembro de 1969), no momento em que uma junta militar assumiu
o controle do País. E, assim, o "Jornal Nacional" foi ao ar
pela primeira vez, sem poder divulgar qualquer informação
que se relacionasse com o estado de saúde do então presidente
Costa e Silva.
O que garantiu o sucesso
do "Jornal Nacional" a partir de 1972 foi a complementação
do sistema de microondas que começou a ser instalado no Brasil
a partir de 1967 pela Embratel. De fato, embora os registros
digam que o "Jornal Nacional" começa em 1969, passando a ser
o primeiro programa transmitido para todo o País, ele só passa
a ser assim em 1972. Porque só então se complementa a ligação
do tronco Norte/Sul via microondas, possibilitando, de fato,
essa condição. A consolidação desse processo do "Jornal Nacional"
ocorre em um instante em que a realidade política do Brasil
era representada pelo exercício arbitrário do poder. O cerceamento
cada vez maior das mínimas liberdades, particularmente da
liberdade de informação.
A televisão e por extensão
o seu jornalismo por meio de programa de informação são representações
desse tempo. É inegável, não se pode desconhecer, que o que
se tem como realidade do jornalismo na televisão brasileira
hoje é conseqüência direta dessa época do Brasil. O modelo
que se desenvolveu confirma isso. A idéia era de que o País
era uma ilha de tranqüilidade, num oceano de incertezas, a
ponto de o presidente da época, general Garrastazu Médici,
se permitir dizer que se sentia tranqüilo ao poder dormir
toda noite depois de assistir aos telejornais e constatar
que apenas no Brasil a situação era tranqüila. Na verdade,
"ilha de tranqüilidade" foi uma expressão dele. A realidade
é que, sob censura, não se permitia aos programas de televisão,
não se permitia aos jornais, não se permitia especificamente
às televisões, que tinham todo um processo de operação centralizada,
maior liberdade de atuação. Especificamente os programas de
redes exibidos da mesma forma que o "Jornal Nacional", inclusive
os programas regionais, eram controlados pelo regime militar.
Nesse mesmo contexto também
começa a ocorrer o processo do desenvolvimento tecnológico
com o surgimento de equipamentos mais leves e mais ágeis,
o que de certa maneira ampliou o controle com a centralização
do processo de transmissão e a seleção da notícia a partir
do surgimento em cadeia, em cada uma das emissoras em posição
de rede, de programas com características iguais às do "Jornal
Nacional".
Particularmente uma observação
que vale para a história da televisão brasileira. O Brasil
vive um momento que, independentemente, da realidade política,
tem também uma cobrança específica do sistema de governo:
o ministro das Comunicações da época, Higino Corcet, chega
a fazer verdadeiros manifestos dizendo que era inconcebível
a uma televisão que tinha sido constituída com investimento
do Estado não participasse do processo de integração nacional.
E essa história do Brasil é particular, todo o sistema que
a gente conhece de funcionamento das televisões, do sistema
de microondas e telecomunicações, assim como telefone, telex,
toda essa rede de telefonia foi montada com investimento do
Estado. Investimentos feitos pelo governo brasileiro. Primeiro
com a constituição do chamado Contel, que era o código nacional,
o programa de telecomunicações a partir de 1962. Depois, a
implantação da Embratel. Quer dizer, por conta dessa realidade
e uma situação que foi justificada como componente da política
de segurança nacional, a necessidade de integração do Brasil
por via de sistemas de comunicação e telecomunicação passa
a existir, passa a ser cobrado pelo regime militar que a televisão
também representasse essa noção de grandeza, de reconhecimento.
Tanto que nessa época ocorre na Rede Globo, especificamente,
o afastamento de apresentadores como Chacrinha, Dercy Gonçalves
e Sílvio Santos, e se começa a cobrar uma noção de televisão
em que ela fosse pura, que a imagem fosse límpida e principalmente
que fosse uma televisão bonita, que correspondesse ao que
se considerava o processo político do País de crescimento,
a noção de Brasil grande.
Essa agilidade, que veio
em decorrência dessa tecnologia que se relaciona ao próprio
sistema militar, principalmente pela utilização de equipamentos
mais leves e que garantiriam maior agilidade, não refletia
um jornalismo comprometido com interesses sociais. Em pequena
ou grande escala, diversos fatos reproduzem os interesses
das emissoras na produção de programas de informação com destaque
para uma atuação comprometida com os interesses do País ou
dos telespectadores. O público passa a ser uma referência
de audiência avaliada por interesses estereotipados, o que
transforma a veiculação de notícias em corridas pela divulgação
dos acontecimentos inusitados, definidos por um pesquisador
norte-americano em um estudo sobre a cobertura dos meios de
comunicação sobre a América Latina como desvios e exceções.
A minha concepção diante
do contexto em que se elabora a produção de notícias no Brasil
é de que inexiste uma ação específica que possa caracterizar
um modelo a ser definido como jornalismo cultural e reflita
uma política de cultura. O processo de seleção e transmissão
de notícias é avalizado por critérios iguais. A notícia de
maior valor é a de maior repercussão, uma condição reconhecida
pela possibilidade de ser identificada pela variação de audiência.
Isto significa que, muitas vezes no jornalismo da televisão
brasileira, não é exatamente a notícia que representa interesse
e sim o que representa audiência. Um exemplo recente foi o
episódio da morte de Ayrton Senna. Na medida em que houve
o interesse na divulgação dos fatos, de uma maneira acumulativa,
as emissoras começaram uma corrida entre elas para ocupar
o maior espaço que fosse possível, ampliando suas respectivas
audiências. E nesta tentativa, a disputa pela audiência é
que determinou o contexto da cobertura, independentemente
da maior ou menor comoção que tivesse representado o fato.
Nesse contexto, o que vale
como regra para notícia no Brasil é a atualidade. Sobrevivem
os assuntos que a pertinência deles permite a existência até
a exibição dos principais jornais das emissoras. A lógica
dos programas de informação na televisão em relação ao jornalismo
cultural de forma alguma é particular. De certa maneira, na
televisão não existe a preocupação em compor um roteiro de
variedades ou mesmo de completar algumas discussões como ocorre
na imprensa (jornalismo impresso) através dos chamados "2º
cadernos" ou "cadernos temáticos". É uma situação improvável
na televisão que ainda padece uma dificuldade que é a inexistência
de editorias especializadas, uma forma de organização interna
que permitisse a seleção específica por assuntos.
Como vocês puderam observar
na fita exibida sobre a morte de Mário Quintana, até
estruturalmente, parte desse material tem referências no conteúdo
dele que aproximam muito de tudo que foi exibido em relação
a Ayrton Senna ou em relação a muitos outros mortos que a
televisão destaca. O que chama a atenção é exatamente esse
contexto. Quer dizer, não há uma preocupação do jornalismo
em relação à referência. Te digo mais, até a atenção ou até
a percepção, o que foi dito em relação ao estado de saúde
de Mário Quintana, de que há uma semana estava doente, foi
apenas na abertura da segunda matéria que foi ao ar no "Jornal
Hoje". Claro que a gente está vendo aqui duas matérias no
contexto isolado. Duas matérias apresentadas para ilustrar
um aspecto. Mas, durante todo o período em que Mário Quintana
estava doente, não se tinha nenhum outro tipo de referência.
Da mesma forma, vale registrar
nesse contexto o que ocorreu no "Jornal Nacional" durante
o centenário de nascimento de mãe Menininha do Gantois, quando,
a despeito de não ter exibido em nenhum outro momento alguma
coisa que se relacionasse às comemorações que foram realizadas
em Salvador durante uma semana, o "Jornal Nacional" no dia
em que completava os cem anos de nascimento de mãe Menininha
do Gantois, montou uma estrutura de transmissão que é comumente
utilizada nas situações que um autor português chamado Nelson
Tarquina chama de desordem, e fez aqui a transmissão de um
bloco do noticiário sobre mãe Menininha do Gantois, exibindo
uma matéria completamente descontextualizada, mas que conseguiu
fazer o registro da mesma forma que fez com a morte de Quintana.
O que eu diria para concluir é que, na
televisão, no jornalismo, os fatos relacionados à cultura
são divulgados de acordo com a dimensão representada por eles.
O mais comum é quando ocorre a morte de uma personalidade
artística importante. Uma situação já tão clara para os profissionais
que se relacionam com esse campo, que motivou uma ironia de
uma antiga editora da Rede Globo. Ela conta que para a veiculação
de assuntos da área de cultura no "Jornal Nacional" era preciso
morrer alguém importante. E diz ela: "Então, a editoria de
cultura era conhecida por todos na emissora como editoria
de obituários".
Comentários
Vera Martins
Os números que o professor
Washington mostrou provam com dados o que já havia sido falado
aqui antes. Lembro-me que foi falado aqui para vocês que havia
uma evolução na preferência da audiência dos telejornais e
das emissoras de televisão, inclusive da Globo. Se antes não
havia uma demanda muito grande, pelo menos se preocupava tanto
com noticiários, com telejornais, mais com novelas. À medida
em que a abertura foi se consolidando, a sociedade civil,
a população, foi se tornando mais exigente e questionadora.
À medida que nós fomos evoluindo politicamente, a democracia
também foi se consolidando, mudando a situação. Eu acrescentaria
um dado aos que o professor Washington colocou. É que algumas
emissoras preferiram segmentar e deixaram de produzir muitas
novelas, passando a produzir noticiários, por conta do custo.
Isso, de fato, acontece, ocorreu e ainda ocorre. Mas, eu acrescentaria
que houve também esse dado político, esse dado que acontece
ainda hoje. Acho, inclusive, que a exigência cresce, as pessoas
querem se informar. Uma prova disso é este seminário que ocorre
aqui. As pessoas realmente estão interessadas e quando eu
pergunto por que, é por causa do que está acontecendo no País.
Acho que só participando é que se pode ter alguma influência.
De certa forma é até uma novidade. Você fica um pouco surpresa
porque a gente fala com descontentamento, desesperança, talvez
até uma avalanche de voto nulo ou em branco, mas se vê que
não é bem assim. As pessoas estão querendo interferir e daí
o fato que os noticiários de televisão, principalmente, estão
sendo mais questionados, mais exigidos. As pessoas querem
mais informações.
Outro aspecto que eu queria
comentar diz respeito à elaboração dos telejornais, que começam
há muito tempo, mas só alcançam a notoriedade com o "Jornal
Nacional", que é um jornal de integração nacional que também
foi idealizado num contexto que teve tudo de acordo com o
governo local da época, com os governos militares que deram
todo o apoio porque tinham interesse no desenvolvimento das
telecomunicações. E até a época da abertura, pelo menos, a
notícia não recebia o tratamento adequado, o tratamento necessário.
Lembro de uma frase, que eu acho até uma frase chocante, do
Armando Nogueira, que foi diretor da TV Globo durante muito
tempo. Ele dizia várias vezes que a televisão, o noticiário,
o telejornal da TV Globo deveria ser um show. Ele,
Armando Nogueira, e seu braço direito, Alice Maria, encaravam
o noticiário dessa forma.
O padrão Globo de qualidade
virou sinônimo de beleza plástica, aquele aspecto clean
e preponderante. Muito mais importante o padrão "global",
a estética, o show do que a notícia. Aliás, Armando
Nogueira diz o contrário: a notícia é o show, a notícia
deve ser o show. Isso me faz lembrar também quando
trabalhei na Manchete, há muito tempo, mais ou menos na mesma
época, quando era exigida também para que a reportagem ou
a fotografia, fosse publicada, que ela atendesse a alguns
requisitos básicos, por exemplo: tivesse as cores primárias
azul, vermelho e amarelo e que ela mostrasse bastante beleza.
É como dizia o redator-chefe da época, famoso até, mas que
já morreu, Alexandre Martins. Ele dizia que "a fotografia
devia mostrar um Brasil caindo de glória".
Eu fazia uma analogia, uma
comparação, e achava muito próxima da filosofia da Globo da
época. Se a reportagem, se a fotografia mostrasse alguém desdentado,
por exemplo, a reportagem era vetada, não podia mostrar não.
A sociedade quer ver um
noticiário mais completo e quer saber o que está acontecendo
no País e no mundo. Exatamente como acontece, quer dizer,
a verdade. Isso aí é uma prova bem evidente, como apareceu
aqui num videotape que o professor Sérgio Mattos exibiu
logo no início da noite, começou e foi a prova mais evidente
disso na época das campanhas para as Diretas, que a Globo
omitiu totalmente a realização do comício em São Paulo que
reuniu 400 mil pessoas, enquanto uma matéria, numa reportagem
até grande, mostrava o show, mostrava a quantidade
de pessoas, mas dizia que era o aniversário de São Paulo.
Em nenhum momento falou que era um comício pelas Diretas Já.
Isso foi uma coisa chocante. Lembro-me bem, eu estava viajando
em Belém do Pará e louca para saber como tinha sido o comício,
se tinha tido receptividade ou não, liguei a televisão e esperei,
esperei, esperei e quando eu vi no final, aí vem aquela notícia:
aniversário de São Paulo, Chico Buarque cantando. Na verdade,
as imagens eram de um comício pelas Diretas e a Globo omitiu
para o Brasil inteiro naquela época. Quer dizer, quarenta
milhões de pessoas, e o comício não existiu. Quatrocentas
mil pessoas foram à praça, mas isso não existiu. A gente está
falando muito em Globo aqui, mas temos que levar em conta
que se trata de uma emissora que tem 80% de audiência em média.
Então, realmente, é uma influência muito grande e molda comportamentos.
A importância que tem uma
emissora como a Globo, com seus 80% de audiência, é grande
e perigosa também. A televisão embute um risco muito grande
ao moldar comportamentos e consciências. Lembro isto agora
por conta do que aconteceu no episódio da morte de Ayrton
Senna. Claro que no início foi uma comoção, as pessoas se
emocionaram muito. Pessoas que gostavam muito do Ayrton Senna,
outras pessoas que nunca tinham visto uma corrida de automóveis,
nunca tinham visto Ayrton Senna e sentiram muito, foi uma
morte brutal. Mas aquela comoção fez São Paulo parar e todo
o noticiário do "Jornal Nacional" foi concentrado na morte
de Senna. Não existia mais nada, nem o problema do Fiúza existia
mais. Nada, só existia Ayrton Senna. A ponto de uma garota
de dezesseis anos de idade se suicidar. A menina se suicidou
em Curitiba alegando que queria se encontrar com Ayrton Senna.
Para mim isso foi uma prova mais que evidente da influência
da televisão. Claro que no início houve uma emoção, uma comoção,
mas sem dúvida nenhuma as coberturas, não só da Rede Globo
como da TV Manchete, do SBT, influenciaram e induziram a esse
comportamento.
Algo parecido ocorreu na
época de Tancredo Neves. Apesar de os noticiários não chegarem
a tanto, houve também uma indução. Há algumas matérias sobre
isso, alguns estudos sobre isso, mostrando que naquela época
quando aparecia o Antônio Brito, que ia ler o boletim sobre
a doença, a evolução da doença, aquelas pessoas que ficavam
na porta, rezando e tal, na hora que viam a câmera de televisão,
começavam a chorar, gritar e balançar o terço, rezavam alto,
enfim, bastava a câmera ser ligada. Isso eu acho que é uma
prova inconteste de como a televisão influencia e do risco
que ela embute. Um risco que não só molda consciências, mas
que deforma comportamentos. Molda consciências no sentido
de fazer ser simpático este ou aquele outro candidato. Eu
não diria aqui o que algumas pessoas já falaram, que a Globo
elegeu Fernando Collor. Eu acho que não se chega a tanto.
Mas que induz, que colabora e que pode ser decisiva até a
cobertura.
Basicamente, há uma diferença
da cobertura, da transmissão de cultura em televisão. Há uma
diferença muito grande do que é feito no Brasil e do que é
feito na Alemanha. O público é bastante diferente. Aqui no
Brasil uma cobertura de cultura pouco ultrapassa, pouco transcende
a reportagem e às vezes tem que ser quase que didática, como
a editora falou: "A pessoa morreu, o autor morreu", para que
se dê algum espaço.
Em geral, a cultura, a editoria
de cultura é confundida com variedades, como acontece também
no jornal impresso. Poucos jornais dispõem de caderno cultural,
"A Tarde" tem um caderno cultural, alguns jornais de circulação
nacional também, mas caderno de cultura como se imagina, com
discussões, algo mais denso, é difícil. Em geral é confundido
com variedades. É um show, no caso aí um escritor,
mas a forma como é feita, como é transmitida, até isso tem
seu lado positivo porque o editor tem que utilizar toda a
sua criatividade para transformar aquela reportagem, aquela
matéria em algo atraente para seduzir justamente aquelas pessoas
que não estão muito disponíveis para esse tipo de assunto,
para consumir esse tipo de assunto, que é um assunto cultural,
o cultural propriamente dito, que não seja simplesmente a
variedade, o filme, o cinema, o vídeo, o artista cantando,
que é isso que o público pensa que é cultura. Dificilmente
teremos aqui um programa de debate, sobre um livro ou uma
exposição, de forma assim tão aprofundada como é feito na
Alemanha. Isso aí, está claro, é uma conseqüência ainda do
tipo de público que nós temos e vai levar ainda algum tempo
para se chegar até esse ponto.
Obrigada!
Debates do dia 13 de maio de 1994
Sérgio Mattos –
Vamos então às perguntas. A primeira é dirigida a Dirk Kaemper.
Pergunta – A
arte de um modo geral não é bem refletida pela televisão.
Então, não seria preferível extinguir a cobertura porque há
o perigo de a arte tornar-se fútil e superficial e simplista
quando colocada pela televisão?
Dirk Kaemper – Este
é exatamente o ponto a que eu me referi antes. Isso é o que
exige a maioria dos artistas. Mas eu penso que não se trata
em absoluto de extinguir por completo a transmissão sobre
arte na televisão. O que nós podemos fazer é não tentar explicar
a arte, mas, com o nosso trabalho, fazer um trabalho que seduzisse
o ouvinte, o telespectador se interessar e tomar a iniciativa
de chegar diretamente até a obra de arte.
Ainda antes de começarmos,
uma pessoa da platéia pediu que eu desse uma explicação sobre
um tema que se refere aos estudantes de Comunicação e a participação
deles na televisão. Sobre isso é necessário notar que a situação
na Alemanha é diferente do Brasil. Poucos jornalistas que
atuam na televisão estudaram esta profissão, ou são formados.
Até onde sei, acho que jornalismo é ensinado em uma única
universidade na Alemanha. O jornalista na televisão é proveniente
de outras áreas de formação. Eu, por exemplo, estudei arte.
Outros jornalistas provêm de cursos como Filosofia, Política,
Sociologia etc. As chances de ingressar profissionalmente
na televisão na Alemanha não são muito diferentes das do Brasil.
Ou seja, a demanda, a procura, é muito grande. Para um jovem
estudante que ainda está terminando um curso é preciso ter
boas relações ou então ter muita sorte. E a formação acontece
naquele método: fazendo por si próprio ou através de determinados
cursos de aperfeiçoamento profissional que as próprias emissoras
organizam para o seu pessoal. Mas esses cursos são muito raros.
Há centenas de candidatos para poucas vagas. Acontece ainda
que, na televisão alemã, a maior parte do trabalho é feita
por free-lancers, pelo trabalhador que não tem um vínculo
empregatício com a empresa. Naturalmente cabe aos redatores,
que possuem emprego fixo na empresa, fazerem avaliações e
decidirem quais das colaborações dos programas apresentados
por esses free-lancers serão transmitidos, que eles
aceitarão ou não.
Pergunta – Não
poderia haver jornais clandestinos elaborados por jornalistas
progressistas distribuídos entre a população? Artista só se
torna famoso quando morre?
Washington de Sousa
Filho – É a realidade, lamentavelmente. Não significa
que só exista artista porque ele morre. Mas, a noção de informação
predominante é que permite torná-lo conhecido depois da morte.
Eu acredito na via democrática nessa questão sobre jornalismo.
Pergunta – Se
a TV é esse aparelho ideológico tão eficiente a seus proprietários
e ao próprio Estado, já que é industrial a sua intensa colaboração
na manutenção do status quo, como ela poderá um dia
conviver com a tão sonhada democracia se o seu objeto principal
é tornar as massas dóceis à sociedade capitalista para que
essas não sejam capazes de desnudar a contradição inerente
ao sistema de classes, do qual, querendo ou não, fazemos parte.
Qual a sua postura frente a essa questão?
Vera Martins – O
sistema de concessão de canais hoje é um sistema que passa
pelo Congresso, mas nós também já vimos que no Congresso há
interesses. Os próprios políticos têm interesses em manter
seus canais de televisão para usá-los politicamente para se
elegerem. Isso é o que acontece hoje. Não quer dizer que amanhã
será assim. Pode ser que com o novo governo tudo isso possa
mudar. O Brizola diz isso a toda hora, já disse até em entrevista.
Já disse a mim, em entrevista, que se ele for eleito presidente
da República a primeira coisa que ele vai fazer é estatizar
a Rede Globo. Obviamente que ele não pode estatizar assim
da forma que ele diz, mas o que ele quer dizer é que adotaria
uma medida para acabar com o monopólio da Globo. Não sei a
posição de Lula, mas imagino que ele faria pelo menos uma
revisão. Acho que qualquer outro presidente da República que
assumir vai ter uma postura sobre revisão. Fernando Collor
falava isso também. Ele não deu concessão nenhuma. Ele não
concedeu nenhum canal de televisão, mas também não fez nenhuma
revisão. A Constituição manda inclusive que o Conselho de
Comunicação atue (esse conselho ainda não existe). Acho que
vai haver mudanças, a própria sociedade vai exigir isso. Há
um fórum pela democratização da comunicação. É como se fosse
um movimento de jornalistas que brigam pela democratização
da comunicação. Tem apoio também de alguns políticos, de alguns
deputados, embora seja difícil que um político, de peito aberto,
brigue, por exemplo, com Roberto Marinho. Quem fez isso foi
o Brizola, que até hoje sofre as conseqüências. E o senador
Jutahy Magalhães, que tem um projeto e toda hora é xingado
por todo mundo que trabalha na Globo e é uma confusão danada.
Mas, ele tem um projeto de abertura e pela democratização
das comunicações que passaria por uma revisão de canais, passaria
por um melhor rigor nessa concessão de canais. Por enquanto,
a situação é essa: quem tem televisão, quem explora canais
quer ter lucro. Se não for financeiro, é político. Atualmente
é muito mais político, pois é a situação no País inteiro,
basta fazer qualquer levantamento. Basta ver aqui na Bahia
qual a televisão que não tenha um vínculo político direto
ou indireto.
Washington de Sousa
Filho – A primeira coisa é que a tendência mundial é de
tentar se aproximar um pouco do sistema que temos no Brasil,
o sistema de emissoras privatizadas, mas com uma preocupação
fundamental em relação à questão da concessão. A questão da
concessão é que é um problema grave no Brasil e tem dois dados
aqui. Um é de que no governo Sarney, de 1985 a 1988, com Antonio
Carlos Magalhães no Ministério das Comunicações, se fizeram
1.028 concessões de rádio e televisão. Uma quantidade que
só foi superada pelos outros governos que vão de 1934 a 1979,
que chegou a 1.473. E um outro dado é que dos deputados eleitos
para a legislatura de 1987-1990 que se tornaram proprietários
de rádio e televisão, 52% deles conseguiram se reeleger. Um
índice significativo quando se considera que houve uma renovação
de 62% naquela eleição, ou seja, apenas 38% dos deputados
constituintes conseguiram retornar à Câmara. E esse processo
de concessão no governo Sarney foi muito vinculado ao mandato
de quatro para cinco anos para Sarney.
Vera Martins – É
claro que isso aí pode mudar. O fundamental é a gente lembrar
que a exigência da sociedade é determinante. A sociedade,
por exemplo, exigiu que a Globo entrasse na cobertura das
Diretas. Foi uma exigência, pois ela começou a perder audiência.
Então mudou. Existe uma série de outras mudanças de comportamento.
Isso quando a sociedade se torna mais forte e aí se torna
mais influente. A esperança e a tendência é a seguinte: a
sociedade vai exigir que as coberturas e os telejornais apresentam
notícias verdadeiras. Como prefere agora assistir a Boris
Casoy, não estou dizendo que ele fale a verdade, acho até
um pouco exageradas essas críticas que ele faz, mas enfim
ali se vêem as notícias, se vê mais do que se vê na Globo.
Então, as notícias melhoram nesse sentido.
Pergunta – Há
alguma estatística com relação à faixa etária do público alemão
que prefere programas culturais?
Dirk Kaemper – Há
uma estatística que se refere à faixa etária média e essa
estatística diz, não cito aqui os números, que as pessoas
que se interessam por programas culturais são um pouco mais
jovens dos que os outros telespectadores dos demais programas.
Quer dizer, na maioria, os programas culturais são vistos
pelo público mais jovem.
Pergunta – O
conferencista afirmou haver uma certa incompatibilidade entre
a televisão e outras formas de cultura, usando como exemplo
a pintura. Qual a influência da informática no sentido de
diminuir essa incompatibilidade, já que coloca à disposição
de um número cada vez maior de pessoas os recursos da multimídia,
o que aumenta a interatividade entre as formas de comunicação?
Dirk Kaemper – Vou
tentar responder à pergunta até onde eu consegui entendê-la.
Uma nova tecnologia, que
no futuro vai ser com certeza oferecida, permitirá naturalmente
a possibilidade de uma interatividade dessas formas de manifestações
culturais. Embora esse conceito interatividade seja um conceito
que nós poderíamos discutir horas a fio, mas isso não vai
impedir em nada que tentemos transportar um meio de comunicação
através do outro, seja de forma interativa ou seja de outra
forma.
Sérgio Mattos –
Gostaria que Washington esclarecesse para os participantes
deste seminário quais são atualmente os critérios da seleção
das informações para os telejornais no Brasil.
Washington de Sousa
Filho – O primeiro aspecto é que os telejornais são de
abrangência nacional. Significa que há uma preocupação em
veicular informações que possam atingir todo o País, informações
que possam representar compreensão de todo o País. Isso cria
um problema. Meu objeto de estudo especificamente é uma realidade
antiga, porque o "Jornal Nacional" representaria essa noção
de notícia que é nacional. O que tem hoje, eu tentaria interpretar
por esse aspecto de primeira abrangência nacional, é uma outra
realidade que é determinada pelo que representa determinado
fato em termos de atualidade. Há uma regra mais ou menos seguida
em relação ao jornalismo em geral que é comum, mas é mais
visualizado, digamos assim, em relação ao jornalismo impresso,
notícia é muitas vezes o que acontece hoje. E, que para a
gente compreender como leitor e para veiculação, a referência
é sempre como a gente vê nos jornais de ontem. Para a televisão
também prevalece a atualidade. O que vale para ela é também
o que acontece hoje. E esse acontecimento de hoje é determinado
pela possibilidade que a televisão tem de transmitir esse
fato. E hoje a televisão tem condições tecnológicas que permitem
a ela, em alguns casos (eu estou falando de uma situação técnica
que especificamente não é o caso da Bahia), a transmissão
dessa informação muitas vezes até do espaço de tempo. Acho
que tem até um contexto em relação ao fato da morte de Ayrton
Senna e que não foi percebido, e eu estou raciocinando como
jornalista, é que pela primeira vez talvez o público mundial
teve a oportunidade de ver uma morte no instante real. O fato
jornalístico é esse.
O que era conhecido nesse
tipo de situação tinha sido a explosão da Challenger, que
foi um fato muito mais acompanhado nos Estados Unidos porque
a CNN transmitia ao vivo. Isso quer dizer, a Guerra do Golfo
foi um outro tipo de exemplo disso. A gente tem uma tecnologia
de equipamentos que permite a transmissão praticamente simultânea,
que foi a participação de Peter Arnet, correspondente da CNN
na Guerra do Golfo. Peter Arnet transmitia de Bagdá através
de um sistema de microondas, que é um equipamento que as televisões
utilizam para poder transmitir um sinal de um ponto a outro
simultaneamente, carregado em uma mochila nas costas dele.
Esse tipo de condição permitia a ele na hora que ele dispusesse
de uma câmera, que não aconteceu no caso particular dele,
transmitir qualquer coisa que estivesse acontecendo naquele
momento.
Espero ter sido claro. O
sentido seria a busca de uma noção de realidade. O fato mais
próximo possível do tempo real e uma condição técnica que
permitisse que essa simultaneidade fosse possível de ser acompanhada
na transmissão da televisão.
Pergunta – Sobre
a análise das emissoras comprometidas, como ficam a função
social e os princípios do jornalista ressaltados por você,
ontem?
Vera Martins – Os
jornalistas sofrem muito também. Às vezes eles ficam entre
sobreviver e atender ou ficar ali tentando fazer o máximo
dentro do mínimo. Alguns simplesmente não conseguem e saem.
Tem muita gente fora do mercado de trabalho. Boa parte dos
jornalistas está trabalhando fora. Não só por questões salariais,
mas por conta até desta situação atual que é muito ruim, tanto
nas TVs como nos jornais também. Outros até já se conformam,
acham até que tanto faz trabalhar na televisão de Antonio
Carlos Magalhães como na televisão de Nilo Coelho, na televisão
de Joaci Góes ou na televisão de Pedro Irujo. Eu, particularmente,
discordo, acho que há nuances, há diferenças básicas, mas
há um certo acomodamento. Isso eu acho perigoso. Sinto isso
por parte de alguns profissionais de imprensa, sinto isso
enquanto professora da faculdade também. Eu vejo que alguns
alunos, às vezes, fazem algumas matérias para o jornalismo
impresso e quando eu digo: "Mas você não colocou isso na matéria".
E eles respondem: "Mas isso não ia sair mesmo". E eu fico
assustada porque já estão se autocensurando antes de irem
para a rua, antes de saírem da faculdade já estão se autocensurando.
Isso é perigoso.
Claro que há um descompasso
e essa função social não é cumprida quando se está atendendo
aos interesses do patrão. Os interesses do patrão dificilmente
coincidem com os interesses da comunidade. Agora eu conheço
casos que há jornalistas que tentam fazer o máximo. Nem todas
as reportagens têm um interesse político e, mesmo quando há
um interesse político, tentam de alguma maneira não serem
desonestos, atender à ética na medida do possível. Às vezes
não é possível. Quando é possível, eles se defrontam com o
dilema entre ficar ou pedir demissão, ser demitido ou entre
ficar e atender ao que o patrão quer e ferir o seu princípio
ou sair.
Pergunta – Você
não acha que estatizar a TV Globo aumentará o apadrinhamento
que é praxe nos órgãos públicos brasileiros, mesmo que o PT
o faça? Exemplo: predominância de membros nem sempre profissionais
técnicos, políticos qualificados da articulação do PT na gestão
de Erundina em São Paulo, caso CMTC.
Vera Martins – Quem
falou em estatizar a Rede Globo foi Brizola. Eu disse que
ele falou várias vezes isso. A outra solução, eu acho que
é melhor. Nós temos exemplos aqui de TVs estatais e que realmente
são problemáticas. Nós temos a TV Educativa, que basicamente
tem os mesmos problemas ou mais até do que a TV 11, a TV Bahia,
que é controlada pela família do ex-governador ACM. Porque
lá, por exemplo, eles ficam com receio porque não têm a medida
exata. A notícia que eu tenho de gente que trabalha lá, de
editores e pessoas até graduadas, eles não têm pessoas próximas.
Pessoas que possam dizer: "Pode dar esta notícia, este nome
pode sair, este outro não pode". Então, basicamente lá a lei
é essa: na dúvida, não bota. Então, a censura é maior ainda.
Acabam censurando mais.
Eu acompanhei até o nascimento
da TVE. Trabalhei três meses lá até me descobrirem. Era o
governo João Durval Carneiro. Teve mesmo muito apadrinhamento,
muita gente que não entendia nada de televisão. Depois, eu
voltei como coordenadora na época do governo Waldir Pires
e infelizmente não foi tão diferente. Fiquei oito meses. Tinha
também apadrinhamento, muita gente que não entendia de televisão,
muita gente sem registro. Quer dizer, estatizar talvez não
seja a solução ideal, mas há uma fórmula mista. Nos Estados
Unidos há uma fórmula que tem um resultado bastante positivo,
que é o sistema público com a interferência e a participação
de entidades civis na elaboração da programação. O que seria
na realidade um sistema misto? Seria um sistema que não é
nem estatal e nem totalmente privado. Isso é o que tem funcionado
melhor. Há propostas nesse sentido, há estudos também nesse
sentido. Nem tanto, nem tão pouco. Seria uma forma de conseguir
um consenso.
SUMÁRIO
Apresentação/Introdução/Capítulo 1 – Público-alvo da cultura na TV: minorias
ou audiências em massa?/Capítulo 2 – Jornalismo cultural e produção cultural:
critérios de seleção e de transmissão/Capítulo 3 – Mídia impressa e mídia eletrônica:
política atual e reflexo cultural
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