Televisão e Cultura no Brasil e na Alemanha

 

Cap. 2  Jornalismo cultural
e produção cultural:
critérios de seleção e de transmissão


Conferencistas: Dirk Kaemper e Washington de Sousa Filho
Debatedores: Vera Martins
Moderador: Sérgio Mattos


O processo de comunicação da televisão
O jornalismo na televisão
Comentários
Debates do dia 13 de maio de 1994


O processo de comunicação da televisão

Dirk Kaemper

Boa-noite!

Não posso realmente dizer como eu estou surpreso, pois, na Alemanha, o povo a esta hora já estaria nas tabernas, em seus bares, tomando cerveja. Por isso, eu me alegro tanto mais que vocês, que, sacrificando um pouco do seu hábito das sextas-feiras à noite, estão hoje aqui para assistir a minha palestra.

Eu quero de forma bastante sucinta retornar à discussão de ontem à noite, relacionando algumas coisas que acontecem conosco, os que fazem televisão freqüentemente. Ou seja, avaliar as expectativas dos ouvintes. Essas pesquisas de opinião são estatísticas que nem sempre ou quase nunca são perfeitas. E, às vezes, só em parte fornecem uma informação sobre aquilo que verdadeiramente o telespectador quer assistir. Isso é um truísmo, é um lugar-comum que naturalmente uma pesquisa bastante representativa, às vezes, acontece também em função da encomenda de certas pessoas.

Quando afirmo que a grande massa dos telespectadores espera realmente da televisão é diversão e a cultura na televisão só faz sentido se ela pode ser de forma ligeira, atrativa, consumida, com isso eu atendo a uma certa demanda. Mas, simultaneamente, eu também produzo uma demanda. Quanto mais eu produzo ou faço transmissões de programas que não têm grande profundidade, tanto mais e de forma intensiva eu determino a qualidade desses programas. No sentido de um processo de comunicação, devemos mencionar que a televisão não é absolutamente algo estático, mas deve, como mídia, como meio de comunicação, se encontrar em permanente transformação, desenvolvimento. Com referência a isso, nos últimos dois ou três anos, aconteceu algo na paisagem televisiva alemã que foi bastante surpreendente. Depois de fazerem durante seis, sete anos, programas televisivos sem nenhuma profundidade, sem maiores pretensões (e esta forma de fazer programa não encontrava mais boa receptividade), eles começaram, no âmbito da informação política, a aprofundar e a melhorar consideravelmente a qualidade de suas transmissões. Isso tem a ver, seguramente, com a concorrência entre a televisão de direito público e a televisão de direito privado.

O processo de comunicação da televisão é o nosso tema de hoje: a mídia como transmissor de cultura e de elementos para o espectador.

A diferença fundamental entre as redações que na Alemanha se ocupam com o tema cultura e aquelas que se ocupam com o tema esporte. As editorias se constituem basicamente daquilo que sempre transmitem sobre cada acontecimento, em particular, de cada setor. Naturalmente, cada transmissão dessas, cada acontecimento é transmitido de forma emocionante ou de forma monótona.

A cultura na televisão da República Federal da Alemanha nesse aspecto específico, como já mencionei várias vezes, foi apresentada como modelo, ela própria sendo um modelo. Ou seja, uma mídia que tem suas próprias leis, seus próprios condicionamentos. O problema é que a eficácia e a efetividade desses meios considerados primários, como a literatura e o teatro, se diferenciam basicamente do efeito da televisão. Quer dizer, eles têm um efeito de uma forma e a televisão tem modos diferentes de provocar efeitos.

Quando tomamos, por exemplo, a literatura como referência, o ato de ler e o ato de assistir à televisão implicam em dois comportamentos absolutamente diferentes. Pode até dizer-se que as duas mídias seriam até incompatíveis entre si. Eu posso filmar um livro e eu posso também fazer com que esse livro seja lido na televisão. Mas com isso, em absoluto, eu não transformei a televisão em literatura.

Se tomarmos agora como exemplo a pintura, esses dois veículos de comunicação, meios de cultura, parecem combinar perfeitamente. Mas, em todo caso, trata-se de duas mídias bidimensionais. E este é o único ponto de referência, não existem outros pontos de identidade entre essas duas formas de cultura. Pois ver um quadro numa exposição é algo completamente diferente do que ver um quadro, uma pintura transmitida pela televisão.

Eu quero mostrar em seguida três exemplos de como se lida com essas questões.

O primeiro exemplo se ocupa da literatura. Se tornou um programa bastante conhecido na televisão alemã e tem como objetivo mostrar um pouco da literatura para o público e fazem de forma bastante interessante e, como vocês poderão constatar, de uma forma até divertida. Quatro críticos literários bastante conhecidos na Alemanha se reúnem e discutem sobre literatura. O principal debatedor é o crítico Marcel Reich-Ranicki, que pode ser assim denominado como o papa da literatura na Alemanha, que nesse ínterim já tem um papel soberano na paisagem literária alemã. Se ele realmente critica ou elogia um livro, de qualquer maneira será vendido. A vantagem desse tipo de programa é que ele tem um alto conteúdo de divertimento e o telespectador recebe muitas informações muito interessantes sobre cada obra que está sendo debatida. [A título de exemplo foi exibido o vídeo "Quarteto literário", da ZDF, que se constitui num debate ao vivo entre quatro conhecidos críticos literários sobre o livro "Echolot", de Walter Kempowski.]

O exemplo seguinte vai se ocupar do tema pintura. Esse programa é denominado "Mil obras-primas da arte da Pintura". É um programa que é transmitido semanalmente e que na sua duração original, dez minutos, ele se ocupa com um só quadro. [Foi exibido um vídeo sobre o quadro denominado "Interior", de Anselm Kiefer.]

A terceira contribuição é sobre uma exposição de mestres barrocos da arte flamenga, uma exposição que foi mostrada em Colônia. [Foram exibidas mostras de vídeos.]

Um dos problemas da obra de arte quando é uma obra pictórica é a sua dimensão. As dimensões da pintura de um quadro praticamente não combinam para serem mostradas em todas as suas minúcias, na dimensão da tela da televisão. E por isso é realmente difícil mostrar um quadro na televisão. Por causa disso formou-se uma frente bastante abrangente de artistas e críticos de arte, pedindo que, sob essa forma como foi mostrado, não se mostrem mais obras de arte na televisão.

Eu vou resumir quais são os argumentos desse pessoal. Primeiro, a obra de arte na televisão perde a sua aura original. A obra de arte na televisão não é uma vivência subjetiva, uma experiência subjetiva. A arte na televisão confunde a criteriosidade, conforme podemos verificar neste último exemplo, no quadro de Anselm Kiefer. E mesmo um simples quadro, por menos complexo que seja, em cinco ou seis minutos não dá para você analisá-lo e perceber todos os seus detalhes, muito menos quando se trata de uma exposição inteira, completa. Além do problema do corte na televisão, os artistas criticam especialmente a maneira, a forma de comunicação. Para os artistas, a arte é uma comunicação em liberdade, televisão, ao contrário, é comunicação em dependência. A fim de dar um exemplo concreto: eu vejo um quadro num museu, eu é que decido para que aspecto inicialmente eu quero olhar do quadro e por quanto tempo quero olhar. Na televisão eu já recebo pronto, eu sigo a visão de quem filmou, não tenho alternativa de escolher por onde quero começar e por quanto tempo quero ver. Com isso os artistas não querem absolutamente, não estão pleiteando, que se extinga a televisão. Alguns artistas exigem uma outra forma completamente diferenciada para a arte na televisão. Eles exigem, por exemplo, que com uma câmera fixa, sem corte, se transmitam 24 horas do Congresso alemão e que de modo semelhante seja feita também a transmissão de academias de arte e de outros centros artísticos. O que eles querem é que apenas se coloque a câmera transmitindo 24 horas e que não haja nenhuma intervenção, que nenhum comentário seja feito.

Penso um pouco diferente: que quando nós, redatores de televisão, informamos sobre arte, fazemos um trabalho que faz sentido. Ou seja, naturalmente nós estamos conscientes de que não podemos substituir a recepção dessas formas primárias de manifestação artística e de nenhuma forma deve pensar-se que a televisão é um substituto para outras formas de arte. Basicamente, o nosso trabalho consistiria em chamar a atenção e estimular a curiosidade em relação à realidade. E isso funciona na maioria das vezes. Houve relação entre essas duas transmissões que acabamos de ver, questionamento dos telespectadores. Uma investigação que nós fizemos sobre a receptividade desse programa nos forneceu informações de que alguns telespectadores ficaram muito curiosos e aí se decidiram, depois da informação, a saber mais sobre as obras de arte e foram ver os quadros na exposição. E, apesar disso, esses programas, programas que fazemos, são para minorias. Ainda assim, atingimos, num único trimestre na Alemanha, um público superior ao número total de pessoas que vão ao teatro e aos museus em um período de seis meses.

Eu acho também que a televisão, além de puro transmissor de cultura, pode também assumir uma outra função. A televisão pode desenvolver um estilo próprio de transmissor de cultura. Num primeiro aspecto, a televisão pode complementar as informações sobre arte ou sobre artistas, fornecendo, por exemplo, dados biográficos e outras informações sobre acontecimentos artísticos, que às vezes a própria obra de arte, posta em exposição, não oferece.

Para a Alemanha, por outro lado, esta é uma tarefa muito importante já que há décadas nós fazemos programas sobre informações culturais. Conseguimos reunir nesses anos um vasto e abrangente arquivo sobre material cultural. Formamos um arquivo que, no futuro, poderá também ser usado para trabalhos artísticos e científicos. Somente quando a televisão se referir à sua especificidade maior, poderá ser considerada uma forma de arte independente. Os dois exemplos que vou mostrar agora para concluir a minha palestra devem esclarecer esses aspectos para vocês. No primeiro, denominado "Televisão ao infinito", um realizador de televisão se ocupa especificamente com a televisão em seu caráter mais particular, mais próprio. O que ele faz, na verdade, é uma reflexão sobre a própria televisão com o seu filme. No segundo filme, intitulado "Vôo 101 para a Terra de Ninguém", trata-se de história, de um fato histórico referente à Argentina. Aqui é onde aparece essa forma específica de se fazer televisão. Para mim este é um exemplo de como se deve apresentar história na televisão. Um exemplo que até então eu não tinha visto nada igual. [Foram exibidos os vídeos "Vôo 101 para a Terra de Ninguém" e "Televisão ao infinito".]

Quando se consegue transpor a arte e a cultura para um determinado meio de comunicação, isto poderia pelo menos significar o futuro para pelos menos uma parte dos realizadores da televisão alemã. É realmente o mais difícil, mas seguramente o último monopólio que permaneceu na televisão do direito público na Alemanha.

Eu acho que no futuro nós continuaremos a explorar esse aspecto.

Bom, com isso eu cheguei ao final da minha palestra de hoje à noite.

 

Sérgio Mattos – Antes da palestra do professor Washington de Sousa Filho vamos exibir um vídeo que mudou a forma de fazer telejornalismo. São cenas provocadas nos Estados Unidos na época de Martin Luther King. A violência transmitida diretamente, ao vivo, sem explicações dadas pela mídia, deixando que as pessoas reagissem à realidade das imagens. Vamos mostrar também uma pequena história de como evoluiu o jornalismo no mundo. Algumas experiências em países diferentes para que vocês tenham idéia e possam ter uma referência para fazer comparações. Este vídeo mostra também como é um dia nas redações dos telejornais quando existem muitas boas notícias e como é o dia quando não tem notícia nenhuma e faltam apenas quinze minutos para o telejornal entrar no ar.

(*) Conforme tradução consecutiva e gravação.


O jornalismo na televisão

Washington de Sousa Filho

Boa-noite!

Inicialmente queria agradecer o convite para participar deste seminário. A responsabilidade do convite é do professor Sérgio Mattos que, independentemente da condição de colega na Faculdade de Comunicação, é também um pouco responsável pelo trabalho que eu faço hoje. Um trabalho que estou realizando sobre televisão para o mestrado da Facom, onde Sérgio é o meu orientador de dissertação.

Antes de começar, gostaria de explicar a forma como vou fazer a minha exposição e dizer a vocês que a primeira preocupação é de tentar estabelecer um parâmetro para que a gente compreenda o que é que representa o jornalismo na televisão. De antemão, vou dizer para vocês que, independentemente do fato de estarmos falando de jornalismo de televisão na Bahia, a minha abordagem é uma abordagem de notícia, de jornalismo de televisão em nível nacional, até porque foi o estabelecimento de um modelo de jornalismo em nível nacional que permitiu uma ordenação ou reordenação do processo de fazer em nível regional. Hoje, o que a gente vê nas televisões em relação a jornalismo é uma repetição ou uma ocupação do espaço estabelecido pela programação que vem da rede. Um outro aspecto é tentar determinar de que maneira o jornalismo na televisão é importante, de que forma o telejornal é a principal forma de informação no Brasil e também tentar compreender ou colocar o que eu penso em relação ao tema em debate, que é "Jornalismo cultural e produção cultural".

Eu vou fazer essa minha conferência utilizando-me de um texto escrito onde vou ter minhas referências para trabalhar. Vou usar transparências para consolidar algumas das informações e intercalar, numa última etapa, minha exposição com duas partes de vídeo, de uma reportagem sobre o "Jornal Nacional", da rede Globo, não exatamente porque é o "Jornal Nacional", mas porque de certa maneira ele é também um modelo que a gente tem de produção de noticiário em nível nacional. Também vamos apresentar duas matérias que foram veiculadas pelo "Jornal Nacional", que têm a particularidade de representar a noção do que eu vou discutir aqui: o fato de que na existência de uma política que caracterize o jornalismo cultural, a gente tenha um aproveitamento de informações que poderiam ser enquadradas no campo do jornalismo cultural aproveitadas no conteúdo de todo jornal.

A questão do jornalismo na televisão brasileira é de que ela é a mais importante e ampla forma de informação que a gente tem no País. Essa abrangência representada pela capacidade das quatro redes de emissoras comerciais complementadas pela Rede Brasil, formadas por televisões educativas. São 290 emissoras de televisão nas cinco regiões do País, sendo a maior parte da concentração delas na Região Sudeste. E essa concentração na Região Sudeste estabelece já uma grande influência em relação ao processo que a gente tem de seleção e transmissão de notícias, que é um aspecto que também vamos abordar aqui.

Essa importância da televisão na transmissão de informação no Brasil foi constatada através de uma pesquisa realizada pelo IBOPE (realizada em 1980), que apresenta os seguintes dados. Ouvidos três mil telespectadores, homens e mulheres, os resultados apresentados fortalecem a visão dessa predominância na televisão. O primeiro dado a partir do público pesquisado é de que 73% da população brasileira tinham acesso à televisão. Isso não significa ter televisão, significa a possibilidade de assistir à televisão. Desse universo, as mulheres acabam representando a maioria entre o público, natural até pela predominância delas, sendo que a maior parte das mulheres, 52%, assiste à televisão. Os homens, 48%. Em relação a programas de informação, e aqui temos o primeiro dado em relação ao poder da televisão na transmissão de programas de informação. É que os programas de informação são os preferidos pelos homens, que representam nesse aspecto um percentual de 87,4%. O programa de informação é o segundo na preferência das mulheres, com um índice de 71,3%. Em relação às mulheres, elas preferem mais as novelas, num percentual de 83,01%, sendo os programas esportivos a segunda preferência dos homens.

Essa preferência dos telespectadores também pode ser constatada por outros critérios. Uma nova avaliação sobre o crescimento do interesse do público por informação constatou uma elevação no período entre 1980 e 1991 de 74% para 81%. Enquanto o interesse por novelas passou de 63% para 74%, o que representa uma variação percentual maior em relação aos telejornais. Os dados são mais destacados em uma outra verificação, realizada pela "Folha de S. Paulo" e publicada em maio de 1992, sobre o aumento do número de programas jornalísticos. Em cinco anos, a elevação foi de 31%, passando de 39% para 50%. O período analisado foi de 1987 a 1992. Nesse período o espaço das emissoras para a exibição de novelas, que era de 9h10min, diminuiu para 7h10min. Enquanto o tempo dos programas de informação em relação à carga diária passou a ter o equivalente a 3h40min.

É importante ressaltar que a despeito desses dados serem referentes à programação e emissoras de São Paulo, eles são importantes na compreensão do que representam os programas de informação, considerando-se que São Paulo é o principal mercado de televisão no País. Inclusive, se colocando com dois dos principais mercados que são a capital, especificamente, e o interior de São Paulo.

Esses dados, independentemente do que representam numericamente, acabam sendo mais importantes se a gente considerar que houve aqui uma tentativa de ampliar o tempo destes programas. Nesses últimos cinco anos, se verifica essa elevação, principalmente na TV Bandeirantes e no SBT, que aumentaram em quase 100% o tempo disponível de programação nesse período.

Diante da disputa pela audiência, diante do poderio, digamos assim, estabelecido pela Globo na produção de novela, passou a ser mais barato (e aí há um paradoxo inclusive em relação a isso) produzir jornalismo ao custo de 10 mil dólares a hora do que fazer novela que representa quase 25 vezes esse tipo de custo. Fora isso, houve a opção, que é o caso da Bandeirantes especificamente, pela segmentação na sua programação. Independentemente do caso da Bandeirantes, onde o "Show do Esporte" está sendo exibido há quase dez anos, houve progressivamente um aumento de programas esportivos na programação de emissoras. E aí esses programas esportivos são enquadrados como programas de informação.

Um outro aspecto em relação a essa preponderância da informação na televisão é o fato de que no Brasil os indicadores que se referem à leitura demonstram uma dificuldade, pois é fato evidente que o Brasil é um país de pouca leitura. Avaliando esses dados, a gente tem algumas referências em relação à leitura de livros. O índice de leitura no Brasil é de um título por mil habitantes (dado apurado pela Unesco em 1988). Só em termos de comparação, ele é inferior à França, que tem um índice de sete títulos por mil habitantes; ou à Coréia do Sul, que tem 10 títulos; um pouco acima do México, que é 0,6; e do Egito, que é 0,7.

Um outro dado apurado também por organismos internacionais e que é bastante demonstrativo da pouca opção e do pouco interesse pela leitura no Brasil é a tiragem diária de jornais. O percentual do Brasil dado em 1988 é de 55 exemplares por mil habitantes. O que não permite comparação com um índice como o do Japão: 566 exemplares por mil habitantes, enquanto o Chile, aqui na América do Sul, tem 65 exemplares por mil habitantes.

O jornalismo é contemporâneo em relação ao desenvolvimento da televisão no Brasil, que foi implantada em 1950. Desde a inauguração da primeira emissora, a PRFT Difusora, que viria depois a se transformar na TV Tupi de São Paulo, que os programas de informação fazem parte da programação delas. O primeiro programa de informação foi exibido dois dias depois da inauguração da primeira emissora. Profissionais da época dizem que o programa tinha uma particularidade: ele tinha horário para começar mais ou menos definido, mas só acabava quando não tinha mais nenhuma imagem para ser exibida.

De qualquer maneira, o que marca a história do jornalismo no Brasil em relação à televisão é a estréia, em 1951, do programa "Repórter Esso", da TV Tupi do Rio de Janeiro. Esse programa era um sucesso do rádio, um programa que foi idealizado para fazer a divulgação da propaganda de guerra dos Aliados, no Brasil. Foi um programa que teve similar em outros países da América Latina, no mesmo período, o período da Segunda Guerra. Era um programa realizado também na televisão com características particulares: um apresentador exclusivo, o patrocínio de uma única empresa, que era a Esso, e produzido com informações controladas por uma agência de notícias, o programa era supervisionado por uma agência de publicidade, a quem competia fazer todo tipo de observação em relação ao programa. Esse programa se transformou em um marco do jornalismo brasileiro na televisão e foi repetido em muitas das nove emissoras inauguradas por Assis Chateaubriand, que foi o pioneiro da televisão no Brasil, incluída aí a TV Itapoan (emissora do grupo, instalada na Bahia em 1960) que chegou a ter aqui também seu "Repórter Esso" e mais tarde um outro programa com as mesmas características, chamado "Telejornal da Petrobrás".

Um outro marco significativo na história do jornalismo brasileiro foi o "Jornal de Vanguarda", um programa idealizado pelo jornalista Fernando Barbosa Lima, hoje [1994] diretor-geral da Rede Manchete, que foi ao ar em 1962. Era um programa inovador, principalmente por ter instituído a participação de jornalistas em programas de televisão. E a maioria desses jornalistas atuava como comentaristas. Alguns deles ainda trabalham em emissoras brasileiras. É o caso de Vilas Boas Corrêa, de Nilton Carlos, além do próprio Cid Moreira, que foi um dos apresentadores, não exatamente apresentador; porque o formato do programa não tinha a figura definida que a gente conhece de apresentador. Ele era chamado de "Sombrinha", porque era um cara que junto com o irmão, chamado Célio Moreira, e um outro apresentador, chamado Luís Jatobá, fazia leituras em off de informações veiculadas no programa.

O "Jornal de Vanguarda", mesmo premiado na Espanha como um dos melhores jornais de informação do mundo, não sobreviveu aos tempos difíceis do País a partir de 1964 e foi retirado do ar. Devido ao seu sucesso, o modelo do programa foi repetido em outros, tais como "Show de Notícias", da TV Excélsior de São Paulo, e o "Cinco é Notícia", aqui da TV Itapoan, em 1968. Segundo Fernando Barbosa Lima, naquela época ele preferiu retirar o programa, deixar de exibi-lo, fazendo como se faz com cavalo de raça, dando um tiro na cabeça. Ele preferia retirar o programa do ar do que deixá-lo sendo exibido já sob a influência da censura que tinha se instaurado no Brasil.

De qualquer maneira, para a noção de jornalismo que a gente tem na televisão brasileira, a noção contemporânea, o paradigma do jornalismo na televisão brasileira que viria a ser o "Repórter Esso", só se consolida a partir de 1972, embora ele tenha estreado em 1969 (1º de setembro de 1969), no momento em que uma junta militar assumiu o controle do País. E, assim, o "Jornal Nacional" foi ao ar pela primeira vez, sem poder divulgar qualquer informação que se relacionasse com o estado de saúde do então presidente Costa e Silva.

O que garantiu o sucesso do "Jornal Nacional" a partir de 1972 foi a complementação do sistema de microondas que começou a ser instalado no Brasil a partir de 1967 pela Embratel. De fato, embora os registros digam que o "Jornal Nacional" começa em 1969, passando a ser o primeiro programa transmitido para todo o País, ele só passa a ser assim em 1972. Porque só então se complementa a ligação do tronco Norte/Sul via microondas, possibilitando, de fato, essa condição. A consolidação desse processo do "Jornal Nacional" ocorre em um instante em que a realidade política do Brasil era representada pelo exercício arbitrário do poder. O cerceamento cada vez maior das mínimas liberdades, particularmente da liberdade de informação.

A televisão e por extensão o seu jornalismo por meio de programa de informação são representações desse tempo. É inegável, não se pode desconhecer, que o que se tem como realidade do jornalismo na televisão brasileira hoje é conseqüência direta dessa época do Brasil. O modelo que se desenvolveu confirma isso. A idéia era de que o País era uma ilha de tranqüilidade, num oceano de incertezas, a ponto de o presidente da época, general Garrastazu Médici, se permitir dizer que se sentia tranqüilo ao poder dormir toda noite depois de assistir aos telejornais e constatar que apenas no Brasil a situação era tranqüila. Na verdade, "ilha de tranqüilidade" foi uma expressão dele. A realidade é que, sob censura, não se permitia aos programas de televisão, não se permitia aos jornais, não se permitia especificamente às televisões, que tinham todo um processo de operação centralizada, maior liberdade de atuação. Especificamente os programas de redes exibidos da mesma forma que o "Jornal Nacional", inclusive os programas regionais, eram controlados pelo regime militar.

Nesse mesmo contexto também começa a ocorrer o processo do desenvolvimento tecnológico com o surgimento de equipamentos mais leves e mais ágeis, o que de certa maneira ampliou o controle com a centralização do processo de transmissão e a seleção da notícia a partir do surgimento em cadeia, em cada uma das emissoras em posição de rede, de programas com características iguais às do "Jornal Nacional".

Particularmente uma observação que vale para a história da televisão brasileira. O Brasil vive um momento que, independentemente, da realidade política, tem também uma cobrança específica do sistema de governo: o ministro das Comunicações da época, Higino Corcet, chega a fazer verdadeiros manifestos dizendo que era inconcebível a uma televisão que tinha sido constituída com investimento do Estado não participasse do processo de integração nacional. E essa história do Brasil é particular, todo o sistema que a gente conhece de funcionamento das televisões, do sistema de microondas e telecomunicações, assim como telefone, telex, toda essa rede de telefonia foi montada com investimento do Estado. Investimentos feitos pelo governo brasileiro. Primeiro com a constituição do chamado Contel, que era o código nacional, o programa de telecomunicações a partir de 1962. Depois, a implantação da Embratel. Quer dizer, por conta dessa realidade e uma situação que foi justificada como componente da política de segurança nacional, a necessidade de integração do Brasil por via de sistemas de comunicação e telecomunicação passa a existir, passa a ser cobrado pelo regime militar que a televisão também representasse essa noção de grandeza, de reconhecimento. Tanto que nessa época ocorre na Rede Globo, especificamente, o afastamento de apresentadores como Chacrinha, Dercy Gonçalves e Sílvio Santos, e se começa a cobrar uma noção de televisão em que ela fosse pura, que a imagem fosse límpida e principalmente que fosse uma televisão bonita, que correspondesse ao que se considerava o processo político do País de crescimento, a noção de Brasil grande.

Essa agilidade, que veio em decorrência dessa tecnologia que se relaciona ao próprio sistema militar, principalmente pela utilização de equipamentos mais leves e que garantiriam maior agilidade, não refletia um jornalismo comprometido com interesses sociais. Em pequena ou grande escala, diversos fatos reproduzem os interesses das emissoras na produção de programas de informação com destaque para uma atuação comprometida com os interesses do País ou dos telespectadores. O público passa a ser uma referência de audiência avaliada por interesses estereotipados, o que transforma a veiculação de notícias em corridas pela divulgação dos acontecimentos inusitados, definidos por um pesquisador norte-americano em um estudo sobre a cobertura dos meios de comunicação sobre a América Latina como desvios e exceções.

A minha concepção diante do contexto em que se elabora a produção de notícias no Brasil é de que inexiste uma ação específica que possa caracterizar um modelo a ser definido como jornalismo cultural e reflita uma política de cultura. O processo de seleção e transmissão de notícias é avalizado por critérios iguais. A notícia de maior valor é a de maior repercussão, uma condição reconhecida pela possibilidade de ser identificada pela variação de audiência. Isto significa que, muitas vezes no jornalismo da televisão brasileira, não é exatamente a notícia que representa interesse e sim o que representa audiência. Um exemplo recente foi o episódio da morte de Ayrton Senna. Na medida em que houve o interesse na divulgação dos fatos, de uma maneira acumulativa, as emissoras começaram uma corrida entre elas para ocupar o maior espaço que fosse possível, ampliando suas respectivas audiências. E nesta tentativa, a disputa pela audiência é que determinou o contexto da cobertura, independentemente da maior ou menor comoção que tivesse representado o fato.

Nesse contexto, o que vale como regra para notícia no Brasil é a atualidade. Sobrevivem os assuntos que a pertinência deles permite a existência até a exibição dos principais jornais das emissoras. A lógica dos programas de informação na televisão em relação ao jornalismo cultural de forma alguma é particular. De certa maneira, na televisão não existe a preocupação em compor um roteiro de variedades ou mesmo de completar algumas discussões como ocorre na imprensa (jornalismo impresso) através dos chamados "2º cadernos" ou "cadernos temáticos". É uma situação improvável na televisão que ainda padece uma dificuldade que é a inexistência de editorias especializadas, uma forma de organização interna que permitisse a seleção específica por assuntos.

Como vocês puderam observar na fita exibida sobre a morte de Mário Quintana, até estruturalmente, parte desse material tem referências no conteúdo dele que aproximam muito de tudo que foi exibido em relação a Ayrton Senna ou em relação a muitos outros mortos que a televisão destaca. O que chama a atenção é exatamente esse contexto. Quer dizer, não há uma preocupação do jornalismo em relação à referência. Te digo mais, até a atenção ou até a percepção, o que foi dito em relação ao estado de saúde de Mário Quintana, de que há uma semana estava doente, foi apenas na abertura da segunda matéria que foi ao ar no "Jornal Hoje". Claro que a gente está vendo aqui duas matérias no contexto isolado. Duas matérias apresentadas para ilustrar um aspecto. Mas, durante todo o período em que Mário Quintana estava doente, não se tinha nenhum outro tipo de referência.

Da mesma forma, vale registrar nesse contexto o que ocorreu no "Jornal Nacional" durante o centenário de nascimento de mãe Menininha do Gantois, quando, a despeito de não ter exibido em nenhum outro momento alguma coisa que se relacionasse às comemorações que foram realizadas em Salvador durante uma semana, o "Jornal Nacional" no dia em que completava os cem anos de nascimento de mãe Menininha do Gantois, montou uma estrutura de transmissão que é comumente utilizada nas situações que um autor português chamado Nelson Tarquina chama de desordem, e fez aqui a transmissão de um bloco do noticiário sobre mãe Menininha do Gantois, exibindo uma matéria completamente descontextualizada, mas que conseguiu fazer o registro da mesma forma que fez com a morte de Quintana.

O que eu diria para concluir é que, na televisão, no jornalismo, os fatos relacionados à cultura são divulgados de acordo com a dimensão representada por eles. O mais comum é quando ocorre a morte de uma personalidade artística importante. Uma situação já tão clara para os profissionais que se relacionam com esse campo, que motivou uma ironia de uma antiga editora da Rede Globo. Ela conta que para a veiculação de assuntos da área de cultura no "Jornal Nacional" era preciso morrer alguém importante. E diz ela: "Então, a editoria de cultura era conhecida por todos na emissora como editoria de obituários".


  Comentários

Vera Martins

Os números que o professor Washington mostrou provam com dados o que já havia sido falado aqui antes. Lembro-me que foi falado aqui para vocês que havia uma evolução na preferência da audiência dos telejornais e das emissoras de televisão, inclusive da Globo. Se antes não havia uma demanda muito grande, pelo menos se preocupava tanto com noticiários, com telejornais, mais com novelas. À medida em que a abertura foi se consolidando, a sociedade civil, a população, foi se tornando mais exigente e questionadora. À medida que nós fomos evoluindo politicamente, a democracia também foi se consolidando, mudando a situação. Eu acrescentaria um dado aos que o professor Washington colocou. É que algumas emissoras preferiram segmentar e deixaram de produzir muitas novelas, passando a produzir noticiários, por conta do custo. Isso, de fato, acontece, ocorreu e ainda ocorre. Mas, eu acrescentaria que houve também esse dado político, esse dado que acontece ainda hoje. Acho, inclusive, que a exigência cresce, as pessoas querem se informar. Uma prova disso é este seminário que ocorre aqui. As pessoas realmente estão interessadas e quando eu pergunto por que, é por causa do que está acontecendo no País. Acho que só participando é que se pode ter alguma influência. De certa forma é até uma novidade. Você fica um pouco surpresa porque a gente fala com descontentamento, desesperança, talvez até uma avalanche de voto nulo ou em branco, mas se vê que não é bem assim. As pessoas estão querendo interferir e daí o fato que os noticiários de televisão, principalmente, estão sendo mais questionados, mais exigidos. As pessoas querem mais informações.

Outro aspecto que eu queria comentar diz respeito à elaboração dos telejornais, que começam há muito tempo, mas só alcançam a notoriedade com o "Jornal Nacional", que é um jornal de integração nacional que também foi idealizado num contexto que teve tudo de acordo com o governo local da época, com os governos militares que deram todo o apoio porque tinham interesse no desenvolvimento das telecomunicações. E até a época da abertura, pelo menos, a notícia não recebia o tratamento adequado, o tratamento necessário. Lembro de uma frase, que eu acho até uma frase chocante, do Armando Nogueira, que foi diretor da TV Globo durante muito tempo. Ele dizia várias vezes que a televisão, o noticiário, o telejornal da TV Globo deveria ser um show. Ele, Armando Nogueira, e seu braço direito, Alice Maria, encaravam o noticiário dessa forma.

O padrão Globo de qualidade virou sinônimo de beleza plástica, aquele aspecto clean e preponderante. Muito mais importante o padrão "global", a estética, o show do que a notícia. Aliás, Armando Nogueira diz o contrário: a notícia é o show, a notícia deve ser o show. Isso me faz lembrar também quando trabalhei na Manchete, há muito tempo, mais ou menos na mesma época, quando era exigida também para que a reportagem ou a fotografia, fosse publicada, que ela atendesse a alguns requisitos básicos, por exemplo: tivesse as cores primárias azul, vermelho e amarelo e que ela mostrasse bastante beleza. É como dizia o redator-chefe da época, famoso até, mas que já morreu, Alexandre Martins. Ele dizia que "a fotografia devia mostrar um Brasil caindo de glória".

Eu fazia uma analogia, uma comparação, e achava muito próxima da filosofia da Globo da época. Se a reportagem, se a fotografia mostrasse alguém desdentado, por exemplo, a reportagem era vetada, não podia mostrar não.

A sociedade quer ver um noticiário mais completo e quer saber o que está acontecendo no País e no mundo. Exatamente como acontece, quer dizer, a verdade. Isso aí é uma prova bem evidente, como apareceu aqui num videotape que o professor Sérgio Mattos exibiu logo no início da noite, começou e foi a prova mais evidente disso na época das campanhas para as Diretas, que a Globo omitiu totalmente a realização do comício em São Paulo que reuniu 400 mil pessoas, enquanto uma matéria, numa reportagem até grande, mostrava o show, mostrava a quantidade de pessoas, mas dizia que era o aniversário de São Paulo. Em nenhum momento falou que era um comício pelas Diretas Já. Isso foi uma coisa chocante. Lembro-me bem, eu estava viajando em Belém do Pará e louca para saber como tinha sido o comício, se tinha tido receptividade ou não, liguei a televisão e esperei, esperei, esperei e quando eu vi no final, aí vem aquela notícia: aniversário de São Paulo, Chico Buarque cantando. Na verdade, as imagens eram de um comício pelas Diretas e a Globo omitiu para o Brasil inteiro naquela época. Quer dizer, quarenta milhões de pessoas, e o comício não existiu. Quatrocentas mil pessoas foram à praça, mas isso não existiu. A gente está falando muito em Globo aqui, mas temos que levar em conta que se trata de uma emissora que tem 80% de audiência em média. Então, realmente, é uma influência muito grande e molda comportamentos.

A importância que tem uma emissora como a Globo, com seus 80% de audiência, é grande e perigosa também. A televisão embute um risco muito grande ao moldar comportamentos e consciências. Lembro isto agora por conta do que aconteceu no episódio da morte de Ayrton Senna. Claro que no início foi uma comoção, as pessoas se emocionaram muito. Pessoas que gostavam muito do Ayrton Senna, outras pessoas que nunca tinham visto uma corrida de automóveis, nunca tinham visto Ayrton Senna e sentiram muito, foi uma morte brutal. Mas aquela comoção fez São Paulo parar e todo o noticiário do "Jornal Nacional" foi concentrado na morte de Senna. Não existia mais nada, nem o problema do Fiúza existia mais. Nada, só existia Ayrton Senna. A ponto de uma garota de dezesseis anos de idade se suicidar. A menina se suicidou em Curitiba alegando que queria se encontrar com Ayrton Senna. Para mim isso foi uma prova mais que evidente da influência da televisão. Claro que no início houve uma emoção, uma comoção, mas sem dúvida nenhuma as coberturas, não só da Rede Globo como da TV Manchete, do SBT, influenciaram e induziram a esse comportamento.

Algo parecido ocorreu na época de Tancredo Neves. Apesar de os noticiários não chegarem a tanto, houve também uma indução. Há algumas matérias sobre isso, alguns estudos sobre isso, mostrando que naquela época quando aparecia o Antônio Brito, que ia ler o boletim sobre a doença, a evolução da doença, aquelas pessoas que ficavam na porta, rezando e tal, na hora que viam a câmera de televisão, começavam a chorar, gritar e balançar o terço, rezavam alto, enfim, bastava a câmera ser ligada. Isso eu acho que é uma prova inconteste de como a televisão influencia e do risco que ela embute. Um risco que não só molda consciências, mas que deforma comportamentos. Molda consciências no sentido de fazer ser simpático este ou aquele outro candidato. Eu não diria aqui o que algumas pessoas já falaram, que a Globo elegeu Fernando Collor. Eu acho que não se chega a tanto. Mas que induz, que colabora e que pode ser decisiva até a cobertura.

Basicamente, há uma diferença da cobertura, da transmissão de cultura em televisão. Há uma diferença muito grande do que é feito no Brasil e do que é feito na Alemanha. O público é bastante diferente. Aqui no Brasil uma cobertura de cultura pouco ultrapassa, pouco transcende a reportagem e às vezes tem que ser quase que didática, como a editora falou: "A pessoa morreu, o autor morreu", para que se dê algum espaço.

Em geral, a cultura, a editoria de cultura é confundida com variedades, como acontece também no jornal impresso. Poucos jornais dispõem de caderno cultural, "A Tarde" tem um caderno cultural, alguns jornais de circulação nacional também, mas caderno de cultura como se imagina, com discussões, algo mais denso, é difícil. Em geral é confundido com variedades. É um show, no caso aí um escritor, mas a forma como é feita, como é transmitida, até isso tem seu lado positivo porque o editor tem que utilizar toda a sua criatividade para transformar aquela reportagem, aquela matéria em algo atraente para seduzir justamente aquelas pessoas que não estão muito disponíveis para esse tipo de assunto, para consumir esse tipo de assunto, que é um assunto cultural, o cultural propriamente dito, que não seja simplesmente a variedade, o filme, o cinema, o vídeo, o artista cantando, que é isso que o público pensa que é cultura. Dificilmente teremos aqui um programa de debate, sobre um livro ou uma exposição, de forma assim tão aprofundada como é feito na Alemanha. Isso aí, está claro, é uma conseqüência ainda do tipo de público que nós temos e vai levar ainda algum tempo para se chegar até esse ponto.

Obrigada!


Debates do dia 13 de maio de 1994


Sérgio Mattos
– Vamos então às perguntas. A primeira é dirigida a Dirk Kaemper.

Pergunta – A arte de um modo geral não é bem refletida pela televisão. Então, não seria preferível extinguir a cobertura porque há o perigo de a arte tornar-se fútil e superficial e simplista quando colocada pela televisão?

Dirk Kaemper – Este é exatamente o ponto a que eu me referi antes. Isso é o que exige a maioria dos artistas. Mas eu penso que não se trata em absoluto de extinguir por completo a transmissão sobre arte na televisão. O que nós podemos fazer é não tentar explicar a arte, mas, com o nosso trabalho, fazer um trabalho que seduzisse o ouvinte, o telespectador se interessar e tomar a iniciativa de chegar diretamente até a obra de arte.

Ainda antes de começarmos, uma pessoa da platéia pediu que eu desse uma explicação sobre um tema que se refere aos estudantes de Comunicação e a participação deles na televisão. Sobre isso é necessário notar que a situação na Alemanha é diferente do Brasil. Poucos jornalistas que atuam na televisão estudaram esta profissão, ou são formados. Até onde sei, acho que jornalismo é ensinado em uma única universidade na Alemanha. O jornalista na televisão é proveniente de outras áreas de formação. Eu, por exemplo, estudei arte. Outros jornalistas provêm de cursos como Filosofia, Política, Sociologia etc. As chances de ingressar profissionalmente na televisão na Alemanha não são muito diferentes das do Brasil. Ou seja, a demanda, a procura, é muito grande. Para um jovem estudante que ainda está terminando um curso é preciso ter boas relações ou então ter muita sorte. E a formação acontece naquele método: fazendo por si próprio ou através de determinados cursos de aperfeiçoamento profissional que as próprias emissoras organizam para o seu pessoal. Mas esses cursos são muito raros. Há centenas de candidatos para poucas vagas. Acontece ainda que, na televisão alemã, a maior parte do trabalho é feita por free-lancers, pelo trabalhador que não tem um vínculo empregatício com a empresa. Naturalmente cabe aos redatores, que possuem emprego fixo na empresa, fazerem avaliações e decidirem quais das colaborações dos programas apresentados por esses free-lancers serão transmitidos, que eles aceitarão ou não.

Pergunta – Não poderia haver jornais clandestinos elaborados por jornalistas progressistas distribuídos entre a população? Artista só se torna famoso quando morre?

Washington de Sousa Filho – É a realidade, lamentavelmente. Não significa que só exista artista porque ele morre. Mas, a noção de informação predominante é que permite torná-lo conhecido depois da morte. Eu acredito na via democrática nessa questão sobre jornalismo.

PerguntaSe a TV é esse aparelho ideológico tão eficiente a seus proprietários e ao próprio Estado, já que é industrial a sua intensa colaboração na manutenção do status quo, como ela poderá um dia conviver com a tão sonhada democracia se o seu objeto principal é tornar as massas dóceis à sociedade capitalista para que essas não sejam capazes de desnudar a contradição inerente ao sistema de classes, do qual, querendo ou não, fazemos parte. Qual a sua postura frente a essa questão?

Vera Martins – O sistema de concessão de canais hoje é um sistema que passa pelo Congresso, mas nós também já vimos que no Congresso há interesses. Os próprios políticos têm interesses em manter seus canais de televisão para usá-los politicamente para se elegerem. Isso é o que acontece hoje. Não quer dizer que amanhã será assim. Pode ser que com o novo governo tudo isso possa mudar. O Brizola diz isso a toda hora, já disse até em entrevista. Já disse a mim, em entrevista, que se ele for eleito presidente da República a primeira coisa que ele vai fazer é estatizar a Rede Globo. Obviamente que ele não pode estatizar assim da forma que ele diz, mas o que ele quer dizer é que adotaria uma medida para acabar com o monopólio da Globo. Não sei a posição de Lula, mas imagino que ele faria pelo menos uma revisão. Acho que qualquer outro presidente da República que assumir vai ter uma postura sobre revisão. Fernando Collor falava isso também. Ele não deu concessão nenhuma. Ele não concedeu nenhum canal de televisão, mas também não fez nenhuma revisão. A Constituição manda inclusive que o Conselho de Comunicação atue (esse conselho ainda não existe). Acho que vai haver mudanças, a própria sociedade vai exigir isso. Há um fórum pela democratização da comunicação. É como se fosse um movimento de jornalistas que brigam pela democratização da comunicação. Tem apoio também de alguns políticos, de alguns deputados, embora seja difícil que um político, de peito aberto, brigue, por exemplo, com Roberto Marinho. Quem fez isso foi o Brizola, que até hoje sofre as conseqüências. E o senador Jutahy Magalhães, que tem um projeto e toda hora é xingado por todo mundo que trabalha na Globo e é uma confusão danada. Mas, ele tem um projeto de abertura e pela democratização das comunicações que passaria por uma revisão de canais, passaria por um melhor rigor nessa concessão de canais. Por enquanto, a situação é essa: quem tem televisão, quem explora canais quer ter lucro. Se não for financeiro, é político. Atualmente é muito mais político, pois é a situação no País inteiro, basta fazer qualquer levantamento. Basta ver aqui na Bahia qual a televisão que não tenha um vínculo político direto ou indireto.

 

Washington de Sousa Filho – A primeira coisa é que a tendência mundial é de tentar se aproximar um pouco do sistema que temos no Brasil, o sistema de emissoras privatizadas, mas com uma preocupação fundamental em relação à questão da concessão. A questão da concessão é que é um problema grave no Brasil e tem dois dados aqui. Um é de que no governo Sarney, de 1985 a 1988, com Antonio Carlos Magalhães no Ministério das Comunicações, se fizeram 1.028 concessões de rádio e televisão. Uma quantidade que só foi superada pelos outros governos que vão de 1934 a 1979, que chegou a 1.473. E um outro dado é que dos deputados eleitos para a legislatura de 1987-1990 que se tornaram proprietários de rádio e televisão, 52% deles conseguiram se reeleger. Um índice significativo quando se considera que houve uma renovação de 62% naquela eleição, ou seja, apenas 38% dos deputados constituintes conseguiram retornar à Câmara. E esse processo de concessão no governo Sarney foi muito vinculado ao mandato de quatro para cinco anos para Sarney.

 

Vera Martins – É claro que isso aí pode mudar. O fundamental é a gente lembrar que a exigência da sociedade é determinante. A sociedade, por exemplo, exigiu que a Globo entrasse na cobertura das Diretas. Foi uma exigência, pois ela começou a perder audiência. Então mudou. Existe uma série de outras mudanças de comportamento. Isso quando a sociedade se torna mais forte e aí se torna mais influente. A esperança e a tendência é a seguinte: a sociedade vai exigir que as coberturas e os telejornais apresentam notícias verdadeiras. Como prefere agora assistir a Boris Casoy, não estou dizendo que ele fale a verdade, acho até um pouco exageradas essas críticas que ele faz, mas enfim ali se vêem as notícias, se vê mais do que se vê na Globo. Então, as notícias melhoram nesse sentido.

Pergunta – Há alguma estatística com relação à faixa etária do público alemão que prefere programas culturais?

Dirk Kaemper – Há uma estatística que se refere à faixa etária média e essa estatística diz, não cito aqui os números, que as pessoas que se interessam por programas culturais são um pouco mais jovens dos que os outros telespectadores dos demais programas. Quer dizer, na maioria, os programas culturais são vistos pelo público mais jovem.

Pergunta – O conferencista afirmou haver uma certa incompatibilidade entre a televisão e outras formas de cultura, usando como exemplo a pintura. Qual a influência da informática no sentido de diminuir essa incompatibilidade, já que coloca à disposição de um número cada vez maior de pessoas os recursos da multimídia, o que aumenta a interatividade entre as formas de comunicação?

Dirk Kaemper – Vou tentar responder à pergunta até onde eu consegui entendê-la.

Uma nova tecnologia, que no futuro vai ser com certeza oferecida, permitirá naturalmente a possibilidade de uma interatividade dessas formas de manifestações culturais. Embora esse conceito interatividade seja um conceito que nós poderíamos discutir horas a fio, mas isso não vai impedir em nada que tentemos transportar um meio de comunicação através do outro, seja de forma interativa ou seja de outra forma.

Sérgio Mattos – Gostaria que Washington esclarecesse para os participantes deste seminário quais são atualmente os critérios da seleção das informações para os telejornais no Brasil.

 

Washington de Sousa Filho – O primeiro aspecto é que os telejornais são de abrangência nacional. Significa que há uma preocupação em veicular informações que possam atingir todo o País, informações que possam representar compreensão de todo o País. Isso cria um problema. Meu objeto de estudo especificamente é uma realidade antiga, porque o "Jornal Nacional" representaria essa noção de notícia que é nacional. O que tem hoje, eu tentaria interpretar por esse aspecto de primeira abrangência nacional, é uma outra realidade que é determinada pelo que representa determinado fato em termos de atualidade. Há uma regra mais ou menos seguida em relação ao jornalismo em geral que é comum, mas é mais visualizado, digamos assim, em relação ao jornalismo impresso, notícia é muitas vezes o que acontece hoje. E, que para a gente compreender como leitor e para veiculação, a referência é sempre como a gente vê nos jornais de ontem. Para a televisão também prevalece a atualidade. O que vale para ela é também o que acontece hoje. E esse acontecimento de hoje é determinado pela possibilidade que a televisão tem de transmitir esse fato. E hoje a televisão tem condições tecnológicas que permitem a ela, em alguns casos (eu estou falando de uma situação técnica que especificamente não é o caso da Bahia), a transmissão dessa informação muitas vezes até do espaço de tempo. Acho que tem até um contexto em relação ao fato da morte de Ayrton Senna e que não foi percebido, e eu estou raciocinando como jornalista, é que pela primeira vez talvez o público mundial teve a oportunidade de ver uma morte no instante real. O fato jornalístico é esse.

O que era conhecido nesse tipo de situação tinha sido a explosão da Challenger, que foi um fato muito mais acompanhado nos Estados Unidos porque a CNN transmitia ao vivo. Isso quer dizer, a Guerra do Golfo foi um outro tipo de exemplo disso. A gente tem uma tecnologia de equipamentos que permite a transmissão praticamente simultânea, que foi a participação de Peter Arnet, correspondente da CNN na Guerra do Golfo. Peter Arnet transmitia de Bagdá através de um sistema de microondas, que é um equipamento que as televisões utilizam para poder transmitir um sinal de um ponto a outro simultaneamente, carregado em uma mochila nas costas dele. Esse tipo de condição permitia a ele na hora que ele dispusesse de uma câmera, que não aconteceu no caso particular dele, transmitir qualquer coisa que estivesse acontecendo naquele momento.

Espero ter sido claro. O sentido seria a busca de uma noção de realidade. O fato mais próximo possível do tempo real e uma condição técnica que permitisse que essa simultaneidade fosse possível de ser acompanhada na transmissão da televisão.

 

Pergunta – Sobre a análise das emissoras comprometidas, como ficam a função social e os princípios do jornalista ressaltados por você, ontem?

Vera Martins – Os jornalistas sofrem muito também. Às vezes eles ficam entre sobreviver e atender ou ficar ali tentando fazer o máximo dentro do mínimo. Alguns simplesmente não conseguem e saem. Tem muita gente fora do mercado de trabalho. Boa parte dos jornalistas está trabalhando fora. Não só por questões salariais, mas por conta até desta situação atual que é muito ruim, tanto nas TVs como nos jornais também. Outros até já se conformam, acham até que tanto faz trabalhar na televisão de Antonio Carlos Magalhães como na televisão de Nilo Coelho, na televisão de Joaci Góes ou na televisão de Pedro Irujo. Eu, particularmente, discordo, acho que há nuances, há diferenças básicas, mas há um certo acomodamento. Isso eu acho perigoso. Sinto isso por parte de alguns profissionais de imprensa, sinto isso enquanto professora da faculdade também. Eu vejo que alguns alunos, às vezes, fazem algumas matérias para o jornalismo impresso e quando eu digo: "Mas você não colocou isso na matéria". E eles respondem: "Mas isso não ia sair mesmo". E eu fico assustada porque já estão se autocensurando antes de irem para a rua, antes de saírem da faculdade já estão se autocensurando. Isso é perigoso.

Claro que há um descompasso e essa função social não é cumprida quando se está atendendo aos interesses do patrão. Os interesses do patrão dificilmente coincidem com os interesses da comunidade. Agora eu conheço casos que há jornalistas que tentam fazer o máximo. Nem todas as reportagens têm um interesse político e, mesmo quando há um interesse político, tentam de alguma maneira não serem desonestos, atender à ética na medida do possível. Às vezes não é possível. Quando é possível, eles se defrontam com o dilema entre ficar ou pedir demissão, ser demitido ou entre ficar e atender ao que o patrão quer e ferir o seu princípio ou sair.

 

Pergunta – Você não acha que estatizar a TV Globo aumentará o apadrinhamento que é praxe nos órgãos públicos brasileiros, mesmo que o PT o faça? Exemplo: predominância de membros nem sempre profissionais técnicos, políticos qualificados da articulação do PT na gestão de Erundina em São Paulo, caso CMTC.

Vera Martins – Quem falou em estatizar a Rede Globo foi Brizola. Eu disse que ele falou várias vezes isso. A outra solução, eu acho que é melhor. Nós temos exemplos aqui de TVs estatais e que realmente são problemáticas. Nós temos a TV Educativa, que basicamente tem os mesmos problemas ou mais até do que a TV 11, a TV Bahia, que é controlada pela família do ex-governador ACM. Porque lá, por exemplo, eles ficam com receio porque não têm a medida exata. A notícia que eu tenho de gente que trabalha lá, de editores e pessoas até graduadas, eles não têm pessoas próximas. Pessoas que possam dizer: "Pode dar esta notícia, este nome pode sair, este outro não pode". Então, basicamente lá a lei é essa: na dúvida, não bota. Então, a censura é maior ainda. Acabam censurando mais.

Eu acompanhei até o nascimento da TVE. Trabalhei três meses lá até me descobrirem. Era o governo João Durval Carneiro. Teve mesmo muito apadrinhamento, muita gente que não entendia nada de televisão. Depois, eu voltei como coordenadora na época do governo Waldir Pires e infelizmente não foi tão diferente. Fiquei oito meses. Tinha também apadrinhamento, muita gente que não entendia de televisão, muita gente sem registro. Quer dizer, estatizar talvez não seja a solução ideal, mas há uma fórmula mista. Nos Estados Unidos há uma fórmula que tem um resultado bastante positivo, que é o sistema público com a interferência e a participação de entidades civis na elaboração da programação. O que seria na realidade um sistema misto? Seria um sistema que não é nem estatal e nem totalmente privado. Isso é o que tem funcionado melhor. Há propostas nesse sentido, há estudos também nesse sentido. Nem tanto, nem tão pouco. Seria uma forma de conseguir um consenso.


SUMÁRIO
Apresentação
/Introdução/Capítulo 1 – Público-alvo da cultura na TV: minorias ou audiências em massa?/Capítulo 2 – Jornalismo cultural e produção cultural: critérios de seleção e de transmissão/Capítulo 3 – Mídia impressa e mídia eletrônica: política atual e reflexo cultural