 |
|
Televisão
e Cultura no Brasil e na Alemanha
|
| |
|
|
|
Cap. 1 Público-alvo da cultura
na TV
Conferencistas: Dirk Kaemper
e Carlos Libório
Debatedor: Vera Martins
Moderador: Sérgio Mattos
Política cultural na televisão alemã
Cultura na TV: informação, educação, divertimento
Delimitação do conceito "cultura na TV"
Dirk Kaemper
Sem uma ampla discussão
do conceito da cultura, inicialmente intenta-se uma redução
do espectro do tema. Muito menos ampla que a vastíssima definição
"a própria TV é cultura". Portanto, neste seminário empregaremos
uma definição de "cultura na TV", que toma como referência
um conceito que se apóia nos gêneros clássicos do teatro,
artes plásticas, literatura etc. na TV.
As definições que extrapolam
esse âmbito restrito surgirão e serão trabalhadas no contexto
do seminário, nos próximos dias, como, por exemplo, o conceito
de "televisão cultural" e de "cultura do dia-a-dia na TV".
Quando da concessão do rádio
privado na Alemanha, em inícios dos anos 80, já se previa
que seria mínima a participação cultural no programa irradiado.
No caso das emissoras de TV de direito público, determinou-se
também uma participação obrigatória de cultura, ao serem concedidas
as freqüências. Essas emissoras trabalham segundo o "princípio
do produtor" e mostram uma espécie descompromissada de cultura
na TV, que dá nova vida à paisagem televisiva. Como exemplo
disto podemos citar a edição tardia de um programa sobre o
65º aniversário de Heiner Mueller. Este é um exemplo de produção
extremamente formal, montagem descompromissada com utilização
de música heavy metal, entremeada com entrevista de
Heiner Mueller sobre o tema "tanques". Este programa cultural
de Alexander Kluge foi inserido na televisão privada RTL Plus.
[Foi exibido trecho do
programa.]
A realidade atual prova
que os temores eram justos, que a cultura não desempenhará
nenhum papel no campo privado. Mesmo se houve rudimentos hesitantes,
hoje não resta nada de cultura na televisão privada (alemã),
com exceção dos "produtores embutidos" que, porém, por isso
mesmo, não podem ser computados na televisão privada, que
trabalha exclusivamente ao sabor do mercado. Exemplo disso
é o programa "Avanti", contribuição sobre chearleaders
em Hollywood, cadenciada por um moderador cantando, com um
nariz de papelão, como exemplo de uma concepção que ainda
tem no título a palavra "cultura", mas propõe-se ao divertimento
e ultrapassa há muito os limites do espírito do tempo.
A luta da televisão de direito
público contra a concorrência da televisão privada é alimentada
com a arma dos índices de audiência.
E, embora haja, em princípio,
a obrigatoriedade da cultura na TV, justamente os programas
com baixos níveis de audiência entraram no fogo cruzado da
crítica
[A título de exemplo
foi exibida uma reportagem cultural sobre cyberspace,
arte e mídia eletrônica para demonstrar uma contribuição cultural
na televisão de direito público].
Desde a concessão das emissoras
privadas existe a participação da cultura na TV, principalmente
nos programas de variedades culturais. Isto é, os canais que
antes transmitiam séries e documentários tornaram-se mais
raros, substituindo programações curtas, mas acentuadamente
atuais, com uma duração de três a cinco minutos no máximo.
Breve histórico
A televisão de direito público
na RFA é obrigada a oferecer informação, divertimento e educação
e com isso também eventos culturais; mas, essa obrigatoriedade
é vagamente definida.
Desde o início, a "cultura
na TV" foi fixamente situada nos campos da educação e da informação
e, com isso, considerada a clássica televisão antípoda do
campo "divertimento". Tais delimitações claras não foram cunhadas
pela TV, mas foram manifestadas por sua adaptação (baseadas
no contexto cultural histórico da Alemanha). Até a disputa
por índices de audiência pela concorrência da televisão privada
não era problema essencial para a cultura na TV. Hoje, a tentativa
de uma superação dessa "contraposição" é a questão mais discutida
nas redações culturais.
[Foram exibidos filmes
de programas culturais transmitidos pela televisão de direito
público antes do advento da televisão comercial. Um dos exemplos,
o programa cultural "Spectra", de 1966, onde o cenário é formal,
o texto complicado, quase uma preleção universitária, e um
filme sobre uma exposição da cultura alemã no exílio. No mesmo
programa está inserida a apresentação sobre a recente inauguração
de um hospital.]
Nestes exemplos exibidos
aqui evidencia-se, de modo extremo, como são transpostos quase
literalmente os compromissos legais de "informação e educação".
Uma ampliação do conceito
de cultura, a intromissão também na política, a renúncia a
pretensões educativas de até então e o elevado teor de divertimento
são os caminhos trilhados que caracterizam, no momento, a
cultura na TV.
Cultura na TV
A forma mais alvissareira
de assegurar seu posto à "cultura na TV" consiste nos próprios
canais culturais que, entretanto, são instalados com transmissão
via satélite ou canais a cabo e só em parte podem ser captados
na Terra (falta de alcance). A primeira tentativa frustrou-se
(canal cultural 1 Plus da ARD, paralisado em fins de 1993).
O canal cultural 3 SAT trabalha segundo um princípio similar
como substituto; as instituições co-participantes ARD, ZDF
(Alemanha) e ORF (Áustria) mostram principalmente programas
já emitidos.
O melhor que a cultura na
TV tem a oferecer no momento é a cooperação franco-alemã ARTE;
com um perfil próprio e marcante, alta participação na autoprodução
e uma perspectiva européia.
[A título de exemplos
desta co-produção, foram exibidos filmes, tais como um documentário
inovador sobre Lindsay Kemp, um dançarino homossexual, uma
produção de vídeo excepcional e altamente pretensiosa no âmbito
de uma noite de "arte vídeo" em ARTE.]
A ampliação do conceito
de cultura para a TV ganha novas dimensões, principalmente
porque um canal cultural puro e exclusivo não tem premência
de tempo, um fator problemático e essencial da televisão cultural
de hoje. Um documentário de 45 minutos sobre um campeão mundial
de esqui ["Os Girardellis: retrato do esquiador campeão
mundial, de Luxemburgo", também exibido no seminário]
que tem êxito, pode se tornar plausível porque isso também
é parte da cultura, do mesmo modo que um vídeo sobre o dançarino
homossexual é uma obra de arte.
Origem, objetivos e esquema
dos programas de arte são portanto esclarecidos, em rápido
espaço de tempo.
Cultura na TV, para quem?
Dando seqüência à discussão
sobre os índices de audiência, dever-se-ia aprofundar a questão
sobre para quem é de interesse a cultura na televisão, para
quem ela é pensada e por quem ela é consumida em realidade.
Assim, temos dois problemas
básicos: (1) uma forma de cultura que, por sua obviedade,
não se mostra atraente para a massa (como fazem hoje, por
exemplo, muitos organizadores de exposições no campo das artes
plásticas), deve ser preparada justamente para uma mídia que
se dirija a esse público de massa; (2) a incompatibilidade
da cultura de elite para o público de massa da televisão.
Vamos exibir agora dois
filmes, sendo que o segundo representa a tentativa de encontrar
uma forma específica e televisiva de aproximação ao primeiro
exemplo.
O primeiro filme, "Granja
de musicistas" ("Musikantenstadl"), da ARD, é uma emissão
de música popular, no horário nobre, sábado à noite, às 20h15min,
com alto índice de audiência. Trata-se de exemplo extremo
de uma emissão com o maior interesse quantitativo dos espectadores
na Alemanha, no campo de divertimento, ou, respectivamente,
televisão como relaxamento.
O segundo, "Kniestüeck III",
produção de vídeo mostrada no Festival de Curta Metragem de
Oberhausen; transposição com truques de técnica do tema "Schuhplattler"
(sapateado, dança bávara e tirolesa). Uma tentativa bem sucedida
da técnica de vídeo, com o objetivo de transpor cultura popular
e folclórica, próxima do povo, com mídia eletrônica; mostrada
em "variedades culturais" com muito pouco interesse dos espectadores.
Para quem fazemos televisão?
Numa pesquisa realizada
em 1991, na República Federal Alemã, pela ARD e ZDF, levantou-se
exatamente a questão sobre a base de telespectadores da cultura
na TV. O resultado foi: 12,6% de todos os telespectadores
podem ser computados como público básico, com alta pretensão
de qualidade e hábitos seletivos (esse público é semelhante
ao que freqüenta eventos culturais como teatro, filme, exposições
etc.); 31,2% são telespectadores ocasionais, isto é, um público
basicamente interessado, mas muito menos seletivo; 45% constituem
um "público orientado para o divertimento"; e 11,1% são um
"público desinteressado por cultura".
O estudo chegou à conclusão
de que a televisão cultural é e tem que ser um programa de
minorias (índices de até 13%); segundo esse levantamento é
possível (e necessário) um justo distanciamento do fetichismo
dos índices de audiência. Assim, "para a concepção desses
programas não se pode tomar como critério a demanda, mas sim,
ao contrário, uma orientação da oferta".
[Neste momento foi exibido
um programa completo de variedades culturais, apresentando
a seguinte seqüência: a morte de Werner Schwab, retrato oficial
de um jovem diretor de teatro; filmes da época do nazismo,
que podem ser requisitados em videotecas alemãs; "Munique,
capital do movimento", crítica a uma exposição sobre a capital
bávara na época do nazismo, na Casa da Arte (Haus der Kunst)
de Munique; resenha de uma exposição com o título "Sobreviver"
– tema: a ameaça existencial da humanidade e sua transposição
artística; retrato do artista Horst Glaesker (pintor contemporâneo),
"Schamane" (feiticeiro) e artistas de performance; notícias
sobre eventos; retrato do ator de teatro, cinema e televisão
Michael Rehberg; moderação e apresentação de um grupo pop
conhecido na área, "Thekenschlampen" ("Os desleixados da taverna"),
feito de modo relaxado e desarticulado, imitando o MTV e o
VIVA (a emissora alemã de música semelhante à MTV.]
O bloco aqui exibido é exemplo
da forma típica de como a cultura na TV é hoje predominantemente
apresentada e transposta.
Com base nesse bloco de
emissões, deve-se esclarecer que a realidade atual da cultura
na TV na Alemanha leva em conta os resultados das pesquisas
de opinião sobre a mídia. Uma análise tanto das apresentações
isoladas como de seu agrupamento mostra que não se leva em
conta os telespectadores com pretensões elevadas, mas sim
o grupo quantitativamente muito mais numeroso dos "telespectadores
ocasionais".
De modo geral, com referência
ao bloco de emissões, os caminhos que determinam a imagem
de hoje, principalmente das "variedades culturais", e que
podem ser englobados sob o conceito "popularização da cultura"
na televisão são os seguintes:
a) ampliação do conceito
de cultura além dos parâmetros clássicos em direção a temas
culturais da atualidade, com base na premissa de que "isso
interessa a uma massa mais numerosa de espectadores";
b) apresentação de formas
modificadas, isto é, uma forma corrente e, em geral, desleixada;
c) modificação da estética
de imagem com maior dinamismo no trato com a câmera e nos
cortes; com isso, a contribuição das "variedades" ganhou imensamente
em velocidade. Isto partindo-se do presuposto de que uma dinâmica
mais elevada é responsável também por um interesse mais elevado
dos telespectadores;
d) escolha do tema; nem
sempre se procura ver a relevância de um tema no contexto
cultural, sobre o qual apenas se reflete, na melhor das hipóteses
reproduz-se visando a um suposto interesse do espectador (em
casos extremos, uma exposição importante com uma temática
complexa pode ser sacrificada em favor de uma apresentação
cultural de música jovem, antes com caráter de divertimento).
Ao lado da análise da configuração
das apresentações isoladas, surge uma questão: será que dessa
forma específica de intromissão não resultaria um perfil sem
nitidez que, como conseqüência, nem satisfaria as necessidades
dos espectadores centrais nem as dos espectadores ocasionais?
A solução, em minha opinião,
está numa estrutura básica, como a que foi proposta em 1986
pelo intendente da ZDF, Dieter Stolte. São necessárias duas
ofertas culturais que se complementam:
• programas culturais dirigidos
ao público orientado para o divertimento, utilizando formas
e temas populares… se poderia… levar temas culturais aos telespectadores;
• programas dirigidos aos
telespectadores interessados… e que, necessariamente, teriam
que contar com índices mais baixos de audiência.
[Neste momento, dois
novos exemplos de programas foram mostrados. O primeiro, um
trecho de "A segunda pátria", filme de Edgar Reiz, que foi
transmitido pela ARD, canal 3, em treze capítulos, como exemplo
de uma produção coerentemente pretensiosa, sem levar em consideração
os índices de audiência. O segundo exemplo foi o retrato da
soprano Anna Maria Prammer, "Walzwerkmusik", de Luigi Nono.]
Estes dois exemplos de programas
que exibimos representam produções que se decidiram de modo
conseqüente por um público de minorias. "A segunda pátria",
filme de Edgar Reiz, foi produzido com gastos milionários
e sob os mais veementes protestos. O filme foi festejado pela
crítica. Mas, sua apresentação, dividida em treze capítulos,
foi vista por poucos telespectadores. Porém, para os telespectadores
que assistiram à série, "A segunda pátria" foi, de acordo
com as pesquisas de opinião, o melhor filme que a televisão
já produziu nesses últimos anos. O segundo exemplo de programa
ousou pela tentativa de combinar a dificílima música de Luigi
Nono (o "Walzwerkmusik" consiste essencialmente de ruídos
captados e reproduzidos num instrumento laminado de aço),
acompanhando a soprano Anna Maria Prammer.
Algumas reflexões A TÍTULO DE CONCLUSÃO
Política e cultura na mídia
Se a cultura imiscui-se
demais na política, também podem surgir conflitos. A "emissora
inserida" na programação da RTL, canal 4, emite uma apresentação
sobre as ocupações de casas em Colônia; logo surge um conflito,
a RTL recusa-se a continuar transmitindo emissões e exclui
o canal 4 do programa. Isso explica algo sobre o conflito
entre a televisão privada e a televisão cultural engajada
na República Federal Alemã (as rusgas já foram sanadas e além
disso também o perfil da emissora ficou mais sadio e mais
profissional).
Também na TV de direito
público, a intromissão muito acentuada leva freqüentemente
a conflitos (a história do programa "variedades culturais"
– Aspecte – demonstra bem estes conflitos nos anos 70). Neste
conflito entram cultura e política. O ponto inicial da televisão
poderia ser o fator cultural independente. Pois, uma comparação
entre as emissões de informações políticas, os noticiários
e as variedades, dá-se às emissões culturais um espaço mais
livre que outros programas não têm.
Esse espaço livre surgiu,
a cultura em realidade não traz lucro, mas tem que ser emitida
por força do contrato assinado.
Aí pode-se fazer muita coisa,
provocante e provocadora, ou ainda satírica.
[Como exemplos foram
exibidos três filmes: a rua Ehre, em Colônia, da WDR, que
é uma contribuição provocadora em favor do carro na cidade
e contra a tranqüilidade das cidades através das zonas de
pedestres; política da comunidade. Outro exemplo exibido,
também produzido pela WDR, glosa sobre os fachos luminosos
como protesto e reação de massa contra a inimizade aos estrangeiros
na Alemanha. E, finalmente, um videoclipe do canal 4, sobre
Adolf Hitler. Exemplo de radicalismo de direita e dos fachos
luminosos.]
(*) Conforme tradução simultânea
e gravação.
Programas culturais na TV comercial brasileira
Carlos Libório
Boa-noite! Eu gostaria de
dizer que é uma satisfação estar aqui.
Vocês assistiram à palestra
do jornalista alemão. Foi muito boa num aspecto. Agora nós
vamos ver o outro lado da história. Ele falou sobre a TV pública,
a TV que pertence ou é controlada pelo organismo do Estado.
Na nossa conversa aqui,
nós vamos abordar o outro lado da história. Vamos falar de
TV privada, da TV comercial que se faz no Brasil e não na
Alemanha, embora haja aspectos que ao longo da nossa conversa
a gente pode comparar. Como, por exemplo, a pouca audiência
dos programas ditos culturais, educativos, que é um fenômeno
que acontece tanto na Alemanha como aqui no País. Só que aqui
a reação seria diferente. Enquanto lá eles podem manter esse
tipo de programação, aqui, na TV comercial, nós vamos ver
que as coisas dificilmente se passariam dessa forma.
Então, nós vamos falar de
televisão em termos de TV comercial, de TV privada.
A gente sabe que, no Brasil,
o sistema de concessão de canais para a televisão é chamado
de "sistema misto". Aqui nós temos uma convivência entre as
emissoras do Estado, são as TVs educativas, basicamente, a
TV Educativa aqui da Bahia, a TV Cultura de São Paulo e outras,
que são TVs que têm uma influência direta do Estado, e as
TVs privadas, particulares, que são a grande maioria das emissoras
de televisão do País. Cerca de 90% das emissoras de televisão
do País são privadas, são particulares, são sociedades comerciais.
Não vamos nos esquecer disso.
Todos nós sabemos que o
que caracteriza a sociedade comercial é justamente a finalidade
lucrativa. Não quero aqui comparar a televisão, mesmo comercial,
com uma casa de comércio comum. Mas, é evidente que, como
sociedade comercial, a gente não pode perder de vista que
há um interesse de lucro, de retorno do investimento que é
feito.
Sobre esse aspecto, falando
em termos de TV privada, de TV comercial, que é a grande maioria
da televisão brasileira. E como, aliás, esse é o sistema adotado
pela grande maioria dos países da América, a partir dos Estados
Unidos e da América Latina e hoje inclusive de muitos países
da Europa. Inclusive da própria Alemanha, que já há em marcha
um processo de privatização da televisão, o que se observa
também em Portugal, na Itália, na França, onde existem televisões
públicas ou televisões simplesmente estatais. Para não falar
dos chamados países da antiga Cortina de Ferro, onde a televisão
era simplesmente estatal e que hoje, com as mudanças políticas
que ocorreram no mundo, como todos nós sabemos, há em marcha
um processo de privatização da televisão. O que ainda não
chegou ao ponto do que acontece no Brasil e em outros países,
a partir do exemplo americano, mas que a gente já observa
hoje a presença de televisões privadas.
Em Portugal, tem brasileiros
trabalhando na TV portuguesa, grande parte em TVs privadas.
A gente sabe que a TV Globo teve uma participação acionária
forte numa televisão na Itália. Enfim, muitos países europeus
onde existiam apenas emissoras públicas, hoje estão, digamos,
abrindo espaço, permitindo o aparecimento de televisões privadas.
É sobre o aspecto de televisão
privada, sistema que nós temos no Brasil, que nós vamos dirigir
a nossa conversa.
Dentro desse sistema, em
que se permite à livre iniciativa, ao empresário particular,
ao empresário privado, participar desse processo de transmissão
de som e imagens a distância, que é a televisão, nós não teremos
nenhuma dúvida em responder a essa pergunta que é feita pelo
tema da nossa conversa, ou seja, "Público-alvo da cultura
na TV: minorias ou audiência em massa?". Claro que, desse
ponto de vista, repito, de televisão privada, particular,
eu não teria nenhuma dúvida ao dizer que o público-alvo da
televisão é a audiência em massa. A televisão é, por excelência,
por sua própria natureza, o veículo de comunicação de massa.
O que a televisão visa,
em primeiro lugar, é obter a audiência potencial. O que seria
a audiência potencial a que o nosso companheiro da Alemanha
também se referiu? Seria aquela audiência máxima que pudesse
ser obtida pelo número de aparelhos de televisão existentes
nos domicílios em determinada região? Digamos que aqui em
Salvador existissem um milhão de aparelhos de televisão –
existem menos –, a audiência potencial seria aquela mensagem
que pudesse ser captada por todos esses aparelhos de televisão.
Claro que isso não acontece porque existe a concorrência,
existe a presença de outras emissoras e existe também um percentual,
que é razoável, de aparelhos desligados. Mas o fato é que
as emissoras estão sempre procurando aproximar a audiência
real.
O que é audiência real?
Aquela audiência que é aferida pela pesquisa, que é constatada
pela pesquisa. Ou seja, audiência de quem efetivamente usa
seus aparelhos de televisão. As televisões estão sempre preocupadas
sobre esse aspecto: aproximar a audiência real da audiência
potencial. Então, por isso é que a gente vê nas pesquisas:
o programa tal tem 80% de audiência, o programa tal tem 10%
de audiência. Dez por cento de audiência potencial, que seria
obviamente a audiência de 100%, que não costuma acontecer.
Bom, então eu não tenho nenhuma dúvida de dizer que o público-alvo
da televisão, para qualquer tipo de produção, inclusive a
produção cultural, e vamos entender aqui a produção cultural
ou cultura num conceito mais ou menos exposto pelo conferencista
anterior, como esse tipo de manifestação artística levada
à televisão com finalidades educativas e não apenas entretenimento,
lazer ou mesmo informação. E aqui a gente abre um parêntese
e vai observar que a programação de uma emissora de televisão
basicamente se divide em programação de lazer, de entretenimento,
de informação, ou seja, o jornalismo, e de cultura ou de educação.
A programação cultural existe
na televisão brasileira, existe nas emissoras privadas, mas
é importante salientar que essa programação cultural está
sujeita às mesmas regras, às mesmas normas, às mesmas limitações
do restante da programação. Isso porque a televisão comercial,
a televisão privada tem que atender a uma série de fatores
que condicionam a sua atuação na sociedade. A televisão não
existe em nenhum país, não existe no Brasil como algo isolado,
como algo que não se relacione com outros setores. Pelo contrário,
a televisão influencia, mas sofre diretamente uma outra influência
do sistema social, do sistema político, do sistema econômico.
A televisão não é algo isolado, algo solitário que exista
sem uma integração com outros sistemas vigentes na sociedade,
em determinada ocasião, em determinado tempo. Televisão não
é uma coisa que a gente possa pensar de uma maneira isolada.
Porque isso vai explicar muitos condicionamentos que a televisão
tem, muitas limitações, muitas vantagens e, sobretudo, as
desvantagens, que é exatamente o fato de estar profundamente
impregnada de outras relações existentes na sociedade. Sejam
elas de natureza social, sejam elas de natureza política,
sejam elas de natureza econômica.
A produção cultural transmitida
pela TV brasileira (e quando falo de TV brasileira sempre
volto a insistir que estou falando da emissora privada, da
emissora comercial, que é a grande maioria das emissoras existentes
no País), essa produção cultural divulgada pelo veículo de
televisão, está, de alguma forma, sujeita às regras, às mesmas
normas, às mesmas restrições, aos mesmos limites do restante
da programação da emissora. Essa programação cultural está,
portanto, condicionada a esses sistemas dominantes na sociedade
em determinada ocasião, como já frisamos. Porque, vale a pena
lembrar aqui, essa ligação se efetiva basicamente nestes três
níveis: no social, no político e no econômico. A televisão
sofre uma influência direta dos padrões, das normas de comportamentos
sociais que a sociedade privilegia naquele momento, ou seja,
valores em termos de moda, de comportamento, de costumes,
de permissividade ou não. Tudo isso está condicionado a outros
fatores. Fatores de ordem política. Não vamos nos esquecer
que a televisão em qualquer país do mundo é uma concessão.
O direito de transmissão de som e imagens a distância é do
Estado, é da União, é do poder político organizado.
O poder político pode operar
diretamente, no caso do rádio e no caso da televisão, e faz
isso através das emissoras públicas, das emissoras estatais
ou, como nós já dissemos, pode conceder ou autorizar particulares
a fazê-lo, no caso das emissoras privadas. Mas é bom a gente
lembrar sempre que essa concessão do poder público ao particular
para atuar no campo da televisão é uma concessão temporária.
No caso do Brasil é uma concessão de quinze anos e isso é
um fator que deve ser considerado, de como a programação da
televisão, de alguma forma, é condicionada por esse fator
político. Essa concessão temporária significa, obviamente,
que ela vai ter um fim em determinada época e que cabe ao
poder concedente, no caso o poder público, a capacidade de
renová-la. Recentemente, com a nova Constituição, se retirou
da competência exclusiva do presidente da República o poder
de conceder e de renovar essas concessões das emissoras de
rádio e de televisão. Hoje o Congresso Nacional participa,
tem que aprovar a renovação de concessões. Mas é fato, portanto,
de qualquer maneira, que essa é uma concessão temporária,
que depende de um poder público. É uma situação, por exemplo,
diferente da chamada imprensa escrita, do jornal. Se nós aqui
nos reunirmos e montarmos um jornal, não dependemos do poder
público para circular o nosso jornal e muito menos dependemos
dessa autorização em qualquer época para continuar a circular
esse jornal. No caso da televisão, ela depende dessa renovação,
dessa concessão.
Vale lembrar que as duas
maiores redes de televisão do País estão vivendo este problema.
A Rede Globo e o SBT estão com suas concessões vencidas e
dependem do Poder Executivo e do Legislativo para terem essa
concessão renovada. Então, os empresários de televisão argumentam
que isso significa como se eles tivessem uma espada no pescoço.
Eventualmente, eles poderiam perder essas concessões. A perda
da concessão da televisão, ou seja, do direito de transmissão
de som e imagem, significaria a derrocada da emissora de televisão
como empresa comercial. Imaginem que prejuízo fantástico,
sem trocadilho, teria a Rede Globo se perdesse sua concessão,
ou mesmo o SBT.
É evidente que o empresário
de televisão tem que atentar para esse fato. Existe, portanto,
essa ligação com o sistema político, que é maior ou menor,
a depender de determinada situação vivida pelo País, a depender
de determinada conjuntura política. Num passado não tão remoto
assim, nós tivemos uma situação em que esse controle do poder
político sobre a televisão era exacerbado, era considerado
no chamado período autoritário. Hoje nós temos uma ampla liberdade
de atuação da televisão frente ao poder público. Eu digo ampla
liberdade e não liberdade total porque existe um sistema que
condiciona a televisão, como também todo tipo de mensagem
veiculada pela televisão, inclusive a chamada produção cultural,
os chamados produtos culturais. Mesmo nos regimes mais liberais,
mesmo nos Estados Unidos, existem certas restrições que decorrem
dessa situação de que o empresário da comunicação na área
do rádio e da televisão opera uma concessão do poder público.
Eu já trabalhei na televisão
numa época em que recebia da censura os chamados bilhetinhos:
"De ordem superior, fica proibida qualquer divulgação sobre
o assalto ocorrido no banco tal". Essa situação era às vezes
um pouco curiosa porque a gente não sabia que tinha ocorrido
um assalto e ficava sabendo através da proibição da censura.
"De ordem superior, fica proibida qualquer divulgação, qualquer
notícia a respeito de um surto de doença que aconteceu na
região tal", como foi o caso da meningite. A gente nem sabia
que estava havendo um surto de meningite e ficamos sabendo
através da censura. Primeiro vinha um bilhete, depois vinha
um telefonema etc. e aí existia aquele controle bem mais efetivo
do poder político sobre as emissoras de rádio e televisão.
Certas regras que não estão
às vezes explícitas, mas que existem na prática para que essa
concessão seja renovada, para que a concessão seja mantida,
que é o interesse de todo empresário. Ninguém monta uma empresa
pensando que ela vai se extinguir dez ou quinze anos depois,
como é o caso da televisão. Ao lado disso, a televisão está
profundamente vinculada ao sistema político, digamos econômico.
Faz parte do sistema econômico. A economia está na base do
processo da televisão e isso também influi no tipo de programação
que é divulgada pela televisão.
Ora, é sabido que a televisão
exige um grande investimento para montagem da emissora. São
equipamentos importados, que custam milhares de dólares. Agora
mesmo [1994], a TV Educativa da Bahia importou um novo
transmissor que melhorou consideravelmente a sua imagem e
que custou uma boa quantidade de dólares, se não me engano
400 mil. Então, é evidente que a montagem de uma emissora
de televisão exige um alto investimento. A produção da mensagem
veiculada pela televisão, ou seja, a produção dos programas
exige outro investimento alto. Quanto a Globo não gasta na
produção de uma novela? Quanto o SBT não está gastando agora
na produção da novela "Éramos seis", com a pretensão
de concorrer com a Globo e de atingir o chamado padrão "global"?
Quanto se gasta, digamos, na produção de um programa tipo
"Fantástico" ou de um programa tipo "Jornal Nacional"? Então
é evidente que isso exige um alto investimento, ou seja, na
montagem da emissora, nos seus equipamentos. Equipamentos
que estão constantemente se renovando. Que mal uma emissora
adquire uma câmera, chega na emissora um anúncio ou oferta
de um equipamento muito mais moderno. Agora mesmo as emissoras
de televisão da Bahia atravessam esse processo de substituição
de um tipo de câmera, de um tipo de VT que se usava por outro
mais moderno que dá uma qualidade muito melhor. Tanto assim
que é possível para os mais observadores constatarem que determinadas
matérias dos telejornais das emissoras baianas têm uma diferença
considerável de imagem. Isso pode ser facilmente percebido
na TV Bahia. Há um tipo de matéria jornalística que é feita
com equipamento chamado Betacam com uma qualidade de imagem,
com uma qualidade de definição muito superior ao antigo U-matic
que nós usávamos até então.
É evidente que é um processo
contínuo que a emissora faz para renovação, para se manter,
digamos, atualizada em termos tecnológicos, para oferecer
cada vez uma transmissão de melhor qualidade na televisão.
Porque, no rádio como na televisão, a qualidade da imagem
transmitida, no caso da televisão, como a qualidade do som
transmitido, no caso da rádio, influem consideravelmente na
manutenção, na conquista da audiência. Do lado disso, o anunciante
é que, como todo mundo sabe, sustenta a televisão privada,
a televisão comercial, é a verba publicitária captada pelos
departamentos comerciais das emissoras de televisão que mantêm
toda essa estrutura, ou seja, a emissora, a produção da mensagem
etc. O anunciante faz um investimento alto. Imaginem quanto
custou esse comercial em que Daniela Mercury aparece cantando
ao lado de Ray Charles. Uma fortuna. Quanto custam comerciais
que a gente vê diariamente na televisão? É um alto investimento
que o anunciante faz. O anunciante que fez esse investimento
alto necessita, é claro, ter um retorno do capital que ele
investiu. E esse retorno vai ser oferecido por quem? Vai ser
oferecido justamente pelo produto que a televisão oferece.
Qual é o produto da televisão? Qual é o produto do processo
da televisão? É exatamente a sua programação. Seja ela de
qualquer natureza: o telejornal, a novela, o programa musical
e também o programa cultural. O programa que está mais preocupado
em transmitir cultura e informação.
As produções das televisões
são às vezes esticadas ou diminuídas em função do interesse
comercial, dessa necessidade de conquistar audiência. E aí
a gente bate em outra coisa diferente da televisão comercial,
da TV educativa, da TV pública. Na televisão comercial, na
televisão privada existe essa disputa, essa concorrência pela
audiência. Já na TV educativa esse aspecto também não deixa
de preocupar, pois uma televisão educativa ou cultural que
não tenha audiência, não tem significado. Seria também uma
perda de recursos, de talento, de pessoal etc. se a mensagem
que se transmite através da televisão não tiver nenhum retorno.
Todo mundo sabe que uma das coisas elementares do processo
da comunicação é justamente esse retorno, é justamente esse
feedback.
Quando eu digo a você "que
noite bonita", a minha pretensão é realmente que você ache
que a noite está bonita. Quando um comentarista diz que o
São Paulo jogou melhor do que o Corinthians, está levando,
induzindo a sua audiência a concordar com ele. Realmente,
o São Paulo está jogando melhor do que o Corinthians. Então,
não tem sentido um processo de comunicação que não tenha retorno
e audiência, mas essa preocupação, obviamente, é muito maior
na televisão comercial e privada do que na TV educativa.
A TV educativa alemã, a
TV pública alemã pode se dar ao luxo de transmitir 90% da
sua programação com os chamados programas culturais e ter
apenas uma audiência de 10%. Esse percentual seria absolutamente
inviável na TV comercial, logo se trataria de tirar esse tipo
de programação do ar. Aí eu faço outro parêntese e lembro
a situação dos nossos colegas de jornais cobrarem muito essa
postura educacional ou cultural das televisões. Os nossos
colegas de jornais estão sempre recomendando um tipo de programa
que na realidade tem muito pouca audiência, tem muito pouca
aceitação por parte do público. Eu gostaria de saber, de alguns
desses cronistas de televisão, comentaristas que recomendam
esse tipo de programação, se eles estivessem à frente de uma
televisão comercial se eles colocariam esse tipo de programação
no ar para a sua audiência. Se tentassem fazer isso, certamente
que teriam feito ou teriam a oportunidade de fazer por muito
pouco tempo, porque logo seriam afastados de suas funções
por essas pressões de natureza comercial, de natureza econômica
que existem na programação da televisão e ninguém pode esconder.
Eu costumo, às vezes, brincar
com Fernando Vita, o diretor da TV Educativa, e digo: rapaz
tem um programa na televisão que é o programa mais lido da
televisão baiana, é o seu programa. Porque aparece em todos
os jornais, chamadas, todo mundo dá a maior "colher de chá"
ao seu programa. Infelizmente, quando se vai apurar nas pesquisas
de audiência, o chamado IBOPE (que a gente pode abominar,
achar errado, mas tem que conviver com ele), está lá o programa,
às vezes dando, o que é lamentável, o traço. O traço significa
que não tem o mínimo de audiência para aparecer na pontuação
do IBOPE, feita à base dos aparelhos ligados em determinada
emissora.
Então é fato que o sistema
econômico, portanto, tem uma profunda influência na programação
da televisão e no tipo de programa que é transmitido por uma
emissora. Inclusive os chamados programas de natureza. Mesmo
quando as televisões, aparentemente, ousam nessa área transmitir
programas tipo concertos etc., o fazem dentro de determinadas
precauções, determinados horários. Vejam como esses concertos
de música clássica passam um pouco atrasados. Em que o número
de aparelhos ligados já é menor e a televisão de alguma forma
tem uma audiência que é constante, que é permanente, que não
signifique uma grande perda. Porque toda vez que qualquer
tipo de programação ocasiona um abalo na audiência média das
emissoras, e vamos falar mais claramente, principalmente isso
acontece numa emissora como a Rede Globo, toda vez que há
uma oscilação nos índices de audiência da emissora, a gente
imagina o corre-corre que existe. Muda-se personagem de novela,
estica-se o papel do personagem, diminui-se o papel, mata-se
e acaba-se a novela mais cedo ou acaba-se a novela mais tarde.
Claro que a gente está falando aqui em termos um pouco caricatos,
exagerando situações, mas esse é um processo que existe. Existe,
portanto, o processo de televisão estar profundamente impregnado
por essas relações com a economia, com o fator econômico que
está atrás da televisão, que se tem profundas ligações com
ele provocando outras conseqüências nessa área, por exemplo:
a concentração da televisão em poucos produtores.
Há poucas emissoras de televisão,
se a gente considerar o número de telespectadores, a ponto
de provocar o fenômeno que nosso professor Muniz Sodré chama
"monopólio da fala". O que é o monopólio da fala? A televisão
tem o monopólio da fala. Por quê? Porque poucos falam, muitos
escutam, muitos ouvem, mas os emissores da mensagem, as emissoras
de televisão, são um número reduzido em relação à fantástica
audiência desse veículo nos dias atuais. Há realmente uma
concentração, processo que é mais evidente no Brasil, onde
essa concentração existe não apenas em relação ao número de
emissoras, que ainda é relativamente pequeno, e eu falo aqui
mais em relação ao número de redes. Não temos uma quantidade
grande de emissoras regionais, emissoras comunitárias, de
emissoras públicas, como em outros países, como no caso inclusive
da Alemanha. Nós temos poucas emissoras de televisão, a verdade
é essa. Apesar de se falar de vez em quando em festivais de
concessão, ainda não existem tantas emissoras de televisão
no País. Muitas áreas da comunidade não têm acesso ao veículo
da televisão pelas limitações que nós já falamos anteriormente,
sejam de natureza política, sejam de natureza econômica. Tudo
isso, portanto, conduz para que a televisão tenha um monopólio
da fala, que a mensagem transmitida pela televisão, ao contrário
do diálogo, seja um monólogo.
A gente sempre imagina,
nesse caso, que Cid Moreira está defronte das câmeras e do
microfone da Globo, falando sozinho para milhões de telespectadores
em todo o País. E com esses telespectadores ele não estabelece
um diálogo, porque ele está sempre falando e o telespectador
está sempre recebendo a mensagem. Não há possibilidade de
alternar a situação dele como fonte da mensagem e a situação
do telespectador como receptor. O telespectador vai ser sempre
receptor e o Cid Moreira, a Globo ou a emissora de televisão,
qualquer que seja ela, vai ser sempre o emissor da mensagem.
Claro que os meios de comunicação, e aí um detalhe interessante,
não estão desatentos a essas circunstâncias e procuram de
alguma forma amenizar esse tipo de relacionamento com o seu
telespectador. Esse relacionamento, digamos, que a gente tem
poderia ser autoritário, de imposição de um determinado tipo
de programação que só tem pouco tempo na televisão. Então,
se argumenta: os programas culturais têm pouco tempo na televisão.
A gente reconhece que têm pouco tempo. Porque nem todo tipo
de programa cultural, nós vimos aqui alguns exemplos, uns
produzidos na Alemanha, teriam essa possibilidade de oferecer
esse retorno exigido pela própria natureza de um veículo que
opera numa sociedade capitalista, onde existe a concorrência
de outros emissores de mensagem.
Mas eu dizia que a televisão
procura amenizar essa situação. Você vê, por exemplo, um tipo
de programa: "Você decide". O que é "Você decide"? Tenta estabelecer,
de alguma forma, um diálogo com o telespectador. Colocar o
telespectador para participar, em vez da televisão dizer que
o episódio vai terminar dessa maneira, ela coloca o telespectador
para opinar a respeito. Ontem ou anteontem nós tivemos até
um episódio que pode ser considerado histórico para o telejornalismo
no País. Pela primeira vez, o mais importante jornal da televisão
brasileira e de maior audiência, que a gente tem que reconhecer
que é o "Jornal Nacional", permitiu esse processo de participação
do telespectador, o chamado processo de TV interativa, num
momento em que permitiu ao telespectador opinar sobre a convocação
dos jogadores da Seleção Brasileira. Um tema fácil, que todo
mundo entende, todo habitante, todo brasileiro é técnico de
futebol. Então, permitiu-se que, discando para um determinado
número, o telespectador opinasse sobre a Seleção Brasileira.
Veja que situação interessante: o telespectador não apenas
recebeu aquela informação de que os convocados são esses,
são 22 convocados e gostou. Se não gostou, ficou por isso
mesmo, ele pôde dar sua opinião. Claro que a opinião do telespectador,
neste caso, não alterou a lista. A lista já estava definida
e vão ser esses mesmos 22. Mas, se criou de alguma forma um
acesso do telespectador à televisão.
Bom, essa situação, o fato
de que a televisão tem esse processo, tem essa preocupação
ou tem esse fundamento de ordem econômica por trás da sua
operação, por trás da programação que ela transmite, leva
a um outro detalhe que é importante para nós que vivemos nos
estados, que fazemos televisão regional: a questão da programação
local ou da programação nacional. Sempre que se fala em televisão
se discute isso. Sempre, por exemplo, os nossos colegas de
jornais estão cobrando das televisões regionais: "Por que
vocês não fazem mais programas locais? Por que não fazem mais
programas regionais e fazem mais programas nacionais?". Aí
seria o caso do pessoal da televisão perguntar: "Por que vocês
também não fazem mais jornalismo local? Por que os jornais
praticamente não têm noticiário econômico nacional, contratam
de agências? Por que os jornais têm noticiário nacional fornecido
por agências? Têm noticiário internacional fornecido por agências
de notícias?". Onde já se viu algum jornal ter correspondente
internacional aqui na Bahia? Qual é o correspondente nacional
que trabalha regularmente? Se não estou enganado, fora do
Estado da Bahia, apenas "A Tarde" tem uma sucursal em Brasília,
que opera em termos regulares de fornecimento da notícia.
Todo o restante do material, que são páginas e mais páginas,
dos jornais no noticiário nacional e do noticiário internacional,
é fornecido por agências de notícias. Esse processo de alguma
forma acontece com a televisão regional. A maior parte da
programação, obviamente, é nacional, é a programação transmitida
por rede. Por quê? É porque o baiano é burro e não sabe fazer
televisão? É porque o empresário de televisão baiano só pensa
em ganhar dinheiro e levar vantagem como Gerson? Talvez seja
até um pouquinho isso. Mas não é exclusivamente isso. Esse
que é o detalhe.
É evidente que o processo
de transmissão de uma programação por rede através de uma
rede de emissoras pertencente a uma emissora, que nós chamamos
de "cabeça-de-chave", no caso a Globo, a Manchete, o SBT de
São Paulo, que transmitem a sua programação para outras emissoras
da rede ou para as chamadas emissoras afiliadas, como por
exemplo, o caso da TV Aratu, da TV Bahia ou da TV Itapoan.
Esse processo de rede permite que as emissoras possam dividir
o custo de produção dos seus programas, porque, de alguma
forma, essa programação é vendida às emissoras regionais.
Se uma emissora baiana, por exemplo, se aventurasse, me permitam
dizer isso, a produzir uma novela, ia vender para quem? Será
que o Estado de Sergipe estaria interessado em comprar uma
novela produzida na Bahia? Que garantia de mercado teria uma
novela ou programa humorístico produzido na Bahia? Como a
televisão baiana teria condições de arcar, ela sozinha, com
todo o custo de produção de uma novela? Se em vez de fazer
apenas dez ou quinze minutos de jornalismo local, uma emissora
baiana achasse que devia fazer também o noticiário nacional
e internacional, eu teria condição de ter uma grande equipe
em Brasília, outra grande equipe em São Paulo, mais uma equipe
menor no Rio e, mais, pelo menos um correspondente em todos
os estados? Eu teria na TV Bahia ou na TV Itapoan ou Aratu
condições de receber notícias, de receber informações de seus
repórteres localizados nas principais cidades do mundo? Paris,
Londres, Nova Iorque, Washington?
Uma televisão local poderia
absorver esse custo? Por que não pode absorver esse custo?
Porque não tem verba publicitária que lhe garanta sua manutenção
nessa situação. Por que não tem? Porque também a verba publicitária
está concentrada nas grandes agências, que têm sede no Rio
e em São Paulo. Uma emissora baiana não tem patrocínio da
Shell, não tem patrocínio da Coca-Cola. Tem patrocínio aqui
do empresário local que não pode concorrer com a Shell , com
a Coca-Cola ou com os grandes anunciantes em investimentos
na área de televisão. Claro que para a emissora local interessa
muito mais. Ela ganha muito mais com o anunciante local do
que do anunciante nacional. Mas ela não tem como tirar do
mercado local um patrocinador ou anunciante que lhe garanta
um investimento necessário para contratar, por exemplo, grandes
talentos artísticos. E a gente cai no negócio da produção
cultural. Grandes artistas, grandes produtores de novelas.
Dias Gomes está aqui em Salvador, mas segunda-feira ele vai
pegar o avião e voltar para o Rio de Janeiro. Por que a gente
não mantém ele aqui para produzir uma novela? Ou ter um programa
aqui de Chico Anísio, ou contratar Jô Soares?
Como a TV Bahia, a TV Aratu
não tem condições de ter aqui grandes repórteres da televisão.
O nosso telejornalismo poderia ser de melhor qualidade, se
as emissoras de televisão tivessem condições de investir em
altos salários para atrair profissionais, grandes figuras
da televisão que aparecem no jornal do SBT, no "Jornal Nacional"
e nos outros jornais. Na realidade, nós convivemos com outra
realidade. E aí eu volto à minha velha discussão: parece que
eu trabalhei em jornal durante doze anos de minha vida, não
tenho nada contra jornalistas que trabalham em jornal. Mas
é outra cobrança que os jornais fazem da televisão. O coleguinha
do jornal chega e diz: "Ora, mas eu vejo no ‘Jornal Nacional’
e quando chego no jornal da TV Bahia se sente a diferença.
Eu vejo o jornal do SBT, quando entro no jornal da Itapoan
é uma diferença muito grande". Claro! Aí eu pergunto para
ele: "A Tarde" é igual à "Folha de S. Paulo"? A "Tribuna da
Bahia" é igual ao "O Globo"? O "Correio da Bahia" é igual
ao "O Estado de S. Paulo"? Claro que não é. Lá, no jornalismo
impresso como na TV comercial, você também tem esse tipo de
problema. Além disso, para fechar essas limitações e problemas
que a televisão tem para a transmissão de uma programação
que a gente gostaria que fosse mais cultural, mais educativa
etc., temos de reconhecer que é uma situação que existe, que
é um interesse da própria emissora. A própria emissora tem
os seus interesses – econômicos, políticos etc.
Um fenômeno que se observa
na televisão brasileira ou na área de comunicação do País
é que cada vez mais os jornais, as emissoras de rádio e televisão
pertencem não apenas a grupos tradicionais que atuavam nessa
área, mas estão passando a pertencer a grupos empresariais
que têm interesses que também precisam ser atingidos porque
nunca estão dispostos a investir apenas na televisão sem nenhum
tipo de retorno.
Só para concluir, nós vamos
dizer que a televisão é parte desse sistema econômico, social
e político vigente na sociedade. Seja na sociedade brasileira
capitalista, seja na sociedade socialista, que ainda existe.
Por exemplo, em Cuba. Ontem [11/5/94], o presidente
Fidel Castro esteve em Salvador. Não vamos ser ingênuos a
ponto de permitir ou a ponto de pensar que a televisão em
Cuba possa funcionar como elemento de contestação ao regime
vigente em Cuba. Ninguém vai admitir esse tipo de coisa. Claro
que ela é condicionada ao sistema político vigente lá. Então,
de alguma forma, mudar a televisão poderia significar ou poderia
implicar numa mudança do sistema ou numa mudança do regime
capitalista, do regime que a gente vive atualmente. E isso
seria possível. Mas, às vezes, o problema é tão complexo que
quando a gente pensa, por exemplo, que, pelo que você disse,
a economia, o dinheiro mandam na programação da televisão.
Não. Morre Ayrton Senna e a pressão popular, a pressão da
audiência do público é tão grande que leva a televisão a esquecer
um pouco o aspecto econômico.
As televisões pararam de
transmitir a sua programação normal, pararam de transmitir
a sua programação de anúncios para transmitir a morte de Ayrton
Senna. Por quê? Porque a transmissão da morte de Ayrton Sena,
embora a gente ache que foi um espetáculo de morbidez, de
mundo cão etc. estava acusando números altos no IBOPE de todas
as emissoras de televisão. Então se chegou a uma situação
curiosa: no enterro de Ayrton Senna as emissoras de televisão
ficaram disputando qual era a última que saía. O caixão já
tinha descido, se jogava a terra em cima do caixão de Ayrton
Senna e todo mundo estava lá transmitindo. Ninguém queria
ser o primeiro a sair. Porque aquilo estava permitindo à emissora
uma grande audiência, embora houvesse prejuízo na área econômica,
porque não estavam transmitindo comerciais. As emissoras passaram
dois ou três dias com a programação comercial totalmente abandonada.
Aí vamos chegar à conclusão: é o público que manda na televisão?
Quem sabe? É difícil.
A última edição da "Revista
de Imprensa" [abril de 1994] traz uma declaração interessante
de uma pessoa insuspeita que a gente não pode dizer que não
conhece televisão: Chico Anísio. Passou sua vida toda na televisão.
Olha o que ele está dizendo: "Quem manda na programação da
Globo é a imprensa". A partir do momento em que ele acha que
a imprensa dá muito mais cobertura a esse tipo de programa,
"TV Pirata" etc., a "Escolinha do Professor Raimundo", argumenta
que os programas dele têm um número de audiência muito maior
do que esses outros programas, mas não têm a necessária cobertura
da imprensa que ele achava que seria justo. Então ele reclama
da direção da Globo. Que a Globo agora já não está indo mais
pelo gosto popular, pela audiência ou pelos seus interesses,
passando, de alguma forma, a condicionar sua programação pelo
que a imprensa diz, sobre se este programa é bom ou ruim.
Só para encerrar, é que
a televisão é um processo complexo e a gente precisa entendê-la
como tal. Sempre batendo naquela tecla: televisão não é uma
coisa isolada, televisão é reflexo, é espelho de determinada
sociedade e em determinado período de tempo, que privilegia
ou repudia determinados comportamentos sociais, determinados
tipos de relacionamento com o poder político que, às vezes,
é bem rigoroso, outras vezes é mais frouxo. Hoje, praticamente,
o controle é pequeno em relação ao poder público, mas, no
fundo, a televisão está condicionada a esses fatores. Por
isso, na televisão comercial, no Brasil e nos países onde
existe esse sistema, a gente dificilmente chegaria a uma situação
igual à exposta pelo nosso colega da Alemanha, em que os programas
culturais existem, que ele defende até a tese que esses programas
devem aumentar de tempo e ganhar mais tempo na televisão,
apesar da audiência ser pequena. Na televisão comercial no
Brasil e nos países de processo semelhante, isso seria difícil,
quase impossível, pelos argumentos que a gente levou aqui
e outros que podem surgir numa eventual discussão.
Muito obrigado
Comentários
Vera Martins
Eu já tive oportunidade
de frisar que a televisão no Brasil, por ser um veículo tão
poderoso, um veículo de massa, tem um alcance muito grande,
e fantástico, implicando também num risco muito grande, que
merece uma grande preocupação por parte de todos nós (profissionais
de comunicação e professores), exatamente porque há toda essa
implicação que o professor Carlos Libório colocou, como se
fosse um círculo vicioso.
As emissoras são controladas
por empresários, obviamente que visam ao lucro, pois sem lucro
nada pode ser feito. Então, as emissoras ficam totalmente
dependentes da audiência. Se não tiver audiência, o programa
pode ser retirado do ar ou modificado. O telespectador pode
ver o personagem de sua novela preferida ser assassinado,
seja lá o que for. Enfim, isso aí cria uma situação difícil.
Na minha opinião, é implícito
que a televisão visa ao lucro sim, mas há um compromisso educativo
também. Claro que um empresário ao receber de presente uma
concessão de um canal que é tão disputado, como foi a última
vez: o Sílvio Santos disputou com a Abril, disputou com o
Jornal do Brasil, também a Manchete disputou. Enfim, há também
um compromisso implícito e explícito nesse aspecto. Então,
não é simplesmente dar aquilo que o povo quer, porque, na
verdade, a televisão reflete o que a população brasileira
quer.
Os editores da Globo argumentam
o seguinte: a programação da Globo é feita para uma grande
massa, aqueles 50 milhões de pessoas que assistem à Globo.
Não é feita para a gente, nós que estamos aqui. Quando Boni
pensa na programação da Globo, Boni não pensa em atender aos
nossos interesses. Ele pensa naquela grande massa de brasileiros,
numa grande maioria que sequer tem dinheiro para comprar e
ler o jornal, que às vezes vive até aquele sonho de ver a
novela, ou acha que está consumindo algo importante. Embora,
eu ache que esta situação tem mudado, à medida que também
vai mudando a situação do País, pois os interesses populares
também estão mudando. Aí é que vejo o grande desafio da televisão.
Seja aqui, na Alemanha e até mesmo em outros países. Acho
que não se conseguiu ainda essa sintonia com a aspiração popular
e com o povo. Quando se conseguir essa sintonia, aí se conseguirá
audiência também para um programa cultural, hermético, um
programa que naturalmente devesse ter uma expectativa apenas
de 5% de audiência.
Eu lembro que quando trabalhei
em televisão, em várias emissoras, inclusive na Aratu, quando
era afiliada da Globo, foi uma luta muito grande para convencer
o diretor de programação que deixasse de programar um filme
de fim de noite, às 11 horas, mais ou menos, para se colocar
no ar o jornal da Globo, que na época chamava-se "Amanhã".
Era um jornal novo que surgia e foi uma luta porque os números
mostravam que o filme, por pior que fosse, um bang-bang
à italiana qualquer, dava mais audiência que o jornal. Estou
me referindo ao jornal que hoje foi transformado em "Jornal
da Globo". Naquela época, era uma época fechada, o jornalismo
era também anódino, era um jornalismo nada interessante porque
a ditadura não permitia, o sistema político era bastante fechado.
No entanto, hoje é diferente.
Muito pelo contrário, o jornalismo é, eu diria, o material
nobre da televisão. Tanto que mais e mais programas jornalísticos
estão sendo produzidos. Domingo estréia Marília Gabriela em
novo formato, o padrão "global" que antigamente era exigido
para as pessoas, para jornalistas, para telejornalistas, graças
a Deus caiu. Antigamente, eu alcancei essa época, um repórter
de televisão, para trabalhar em uma emissora afiliada da Globo,
tinha que ser bonito ou bonita. Se tivesse olho azul, sotaque
carioca, já tinha 80% de chance de ser contratado. Não precisava
nem ser jornalista, ser competente, ou ser bem informado.
Porque na época não se exigia tanto do profissional. A própria
repórter já saía com as perguntas prontas e não podia questionar
muito. Então, não precisava de jornalistas competentes. Hoje
[1994] é o contrário. Esse padrão "global", mesmo o
padrão de jornalismo, caiu. Hoje as pessoas querem credibilidade.
As pessoas querem de um comentarista ou de um apresentador
de televisão, não que seja jovem, bonitinho, charmoso, mas
que demonstre e passe confiança. Que as pessoas ouçam e vejam
aquela notícia e acreditem. Então, acho que há essa mudança
também.
Outro comentário que eu
queria fazer, rapidamente, é sobre a questão da produção local.
Claro que você imaginar fazer novela ou fazer produção teatral
ainda é um sonho. Há uma lei em curso, um projeto de lei no
Congresso que destinaria 30% das produções das TVs locais
para produções locais. A produção local fomentaria o mercado
de trabalho. Mas o que se reivindica quando se pede produções
locais, claro que analisando a realidade não seria tão conveniente.
Agora, não seria possível fazer produções teatrais, novelas
etc., mas se pede mais jornalismo local, por exemplo. Não
seria o caso de fazer jornalismo internacional. Isso aí a
agência faz, claro, faz até muito bem. Não precisaria disso
não. Mas eu sei que há dificuldades, e não estou falando só
da Globo não, eu falo também do SBT. Se no SBT alguém quiser
propor um programa jornalístico, um programa de entrevistas
à noite, num horário nobre, um programa de entrevistas local,
com políticos locais, empresários, um programa jornalístico
local no horário nobre ou no fim de noite, na TV Itapoan,
que é afiliada ao SBT, vai ter dificuldades também. Provavelmente
não vai ter horário, não vai ter uma janela disponível. As
redes comandam. As redes realmente monopolizam a programação,
e um exemplo muito claro disso acontece durante o carnaval.
Lembro que era tradição da TV Itapoan fazer uma boa cobertura
de carnaval justamente porque ela não estava atrelada a uma
rede assim tão fechada, como era a Globo já naquela época.
Então, a Itapoan podia botar suas câmeras nas ruas. Alcançava
uma audiência também muito grande. A TV Aratu na época que
era afiliada não conseguia tanta audiência. Perdia, porque
colocava apenas flashes, curtos flashes do carnaval,
de duas em duas horas, de quatro em quatro horas, nos jornais
e nos telejornais. E a TV Itapoan ficava direto no ar. As
pessoas ligavam para a TV Itapoan para ver o carnaval de rua.
Nos últimos anos tem acontecido o contrário: a TV Itapoan
não pode mais colocar, não sei se vocês têm observado isso,
mas não pode mais transmitir carnaval porque a rede não permite,
a rede não dá espaço. Há um problema aí do atrelamento das
emissoras afiliadas locais às grandes redes que são cinco
ou seis, fora algumas independentes, no máximo. Isso aí é
um problema sério.
Para terminar, eu acho que
essa questão de se fazer um programa cultural que atenda à
população é um grande desafio.
Eu queria concluir falando
também da minha experiência na TV Educativa. Fui coordenadora
da TV Educativa e, por muito tempo, também da parte de jornalismo.
Acho que é uma lástima até quando se pensa na TV Educativa
também como uma TV comercial. Pois é isso que acontece no
Brasil em geral. A TV Educativa deveria ser uma rede que desse
espaço até para se fazer experiências e que não tivesse essa
preocupação tão grande com o lucro. Lembro que, não em minha
época, a TV Educativa daqui tinha um programa de esportes
que dava audiência e às vezes podíamos assistir horas, horas
e horas de transmissões esportivas. Me pergunte o que é isso?
A TV Educativa é financiada pelo povo, pelo imposto que a
gente paga, mas, transmitindo o mesmo que a TV comercial,
acaba competindo com a TV comercial. Hoje está até diferente,
vai melhorando, mas se vocês observarem bem a programação
de uma TV educativa e a de uma TV comercial, vão constatar
que não há muita diferença, porque elas acabam entrando nessa
luta também pelo lucro. Acabam buscando também o lucro. E
isso, na minha opinião, é um erro, um erro grave.
Não lembro se as pessoas
ficaram surpresas com a exibição aqui de alguns programas
da TV alemã, mas eu lembro que a primeira vez que vi televisão
na Alemanha, fiquei um pouco surpreendida. Isto porque eu
esperava uma programação para um público bem diferente do
que a gente está acostumado a pensar em termos de Brasil,
um público de Terceiro Mundo, e no entanto, lá, vi programas
típicos muito parecidos com os nossos. Programas musicais,
bem populares. Eu fiquei um pouco surpresa ao ver isso porque
imaginava que seria diferente. Mas eu imagino que há uma explicação
específica, quer dizer, no Brasil, a televisão desempenha
um papel muitíssimo importante em nível de lazer, entretenimento,
enquanto que nos países mais desenvolvidos essas pessoas têm
outras opções de lazer. Vão ao teatro, vão ao cinema, e a
televisão não é tão importante, tão monopolizadora das atenções
e das horas de lazer, como acontece aqui no Brasil.
A televisão realmente ocupou
o lugar dos estádios de futebol, de tudo. Acho que, a essa
altura, até o futebol está ocupando um lugar abaixo da televisão.
Enfim, acho que há essa diferença. Mas isso é surpreendente.
Obrigada!
Debates do dia 12 de maio de 1994
Pergunta –
Fez-se uma pesquisa e constatou-se que, em uma TV que dedica
20,5% de sua programação à cultura, ocorrem apenas 10% de
aproveitamento por parte do público. Há pesquisas já feitas
que expliquem o motivo de tal paradoxo ainda mais em uma nação
do Primeiro Mundo? O que leva apenas 12,6% da população alemã
a ter interesse real por programas de cultura?
Dirk Kaemper – Vou
começar a responder a segunda parte desta pergunta. Vou começar
com os 12,6%.
Estes 12,6% são o público
núcleo, são aquele público interessado em programas culturais
da televisão e que igualmente vai ao teatro, ao cinema aos
concertos etc., ou seja, um público que tem uma ligação forte
com a chamada cultura alta. Eu não conheço nenhuma estatística
do Brasil, mas para a Alemanha, eu acho uma percentagem bastante
alta e quando saiu a estatística eu nem esperava uma percentagem
tão alta.
A primeira parte da pergunta
naturalmente foi investigada a razão. O problema consiste
no fato de que nas redações, os jornalistas não conseguem
se decidir bem, para quem estão fazendo aquele tipo de programa
de cultura. Mas, mesmo assim, continuando nos nossos conceitos,
talvez melhorando um pouco mais os conceitos visuais, fazendo
mais pesquisas sobre os reais interesses do público, talvez
pudéssemos até aumentar mais um pouquinho essa percentagem.
Outra explicação é que nesses 20% de ofertas de programas
culturais, tem-se que considerar o fato que há uma grande
variedade de diferentes programações culturais. Ou seja, esses
20% incluem uma série de programas para as minorias. E é natural
que um programa dirigido para minorias só seja aproveitado
por minorias.
Pergunta – O
que justifica o fato de um povo tão sedento em relação a programações
culturais bem elaboradas não dar audiência para esses programas?
É o simples fato de que a maioria da população brasileira,
grande parte analfabeta, não possuir o hábito de convívio
com a cultura?
Carlos Libório –
Na realidade, a população brasileira não parece tão sedenta
assim por esse tipo de programa. A cultura do povo brasileiro
não é essa cultura erudita ou, o que está impregnado na alma
do povo, não é esse tipo de programação mais erudita, mais
complexa. Vamos aceitar a nossa cultura como nós somos. A
cultura também é carnaval. Cultura é música. Cultura é futebol
também. Então, a gente tem que aceitar a cultura brasileira
que se manifesta também nesse aspecto e leva a que esse tipo
de programação pareça um pouco fora da realidade.
Dirk Kaemper [em
aparte] – Eu gostaria de me referir à pressão econômica
que existe em cima das televisões comerciais. Nós temos, na
Alemanha, o mesmo fenômeno. Nós temos a televisão comercial
na Alemanha. Mas, como eu já disse, esses canais comerciais,
por lei, são forçados também a transmitir programas culturais.
E isso com absoluta independência redacional. Então são programas
culturais que têm audiência. E, mesmo assim, por exemplo,
um dos canais comerciais da Alemanha com todos os programas
culturais, inclusive, em apenas três anos se transformou na
maior e mais rica estação comercial na Europa. Por isso eu
acho que tanto uma programação orientada por suas finalidades
comerciais quanto uma programação cultural podem existir dentro
de um mesmo canal comercial.
Pergunta – Você
afirmou que mesmo nas TVs comerciais as programações culturais
visam atingir um público de massa. Como você explica a veiculação
de programas culturais nos horários menos assistidos? Devemos
acreditar que a TV brasileira procura apenas obter lucro?
O que você acha de se produzirem programas culturais de alto
nível e se buscar a audiência?
Carlos Libório –
Eu não disse que mesmo nas TVs comerciais as programações
visam atingir um público de massa. Eu disse que a televisão
comercial visa, sobretudo, atingir o público de massa. Não
tenho a menor dúvida quanto a isso. Claro que como profissional
de televisão eu sou favorável que se produzam programas culturais
que possam ser assistidos por uma maior parte da audiência
em horários maiores, mas seria absolutamente contraditório
em relação ao que eu confirmei anteriormente se eu achasse
isso. Digamos, é fácil, é possível de um momento para outro.
A gente volta àquela velha história: a televisão tem que obedecer
às suas regras, aos seus limites. A televisão não é uma coisa
perfeita, se fosse perfeita, o que seria dos outros veículos?
Há muita gente que diz: "A televisão é superficial, eu vejo
o telejornal e não soube tudo". Espera aí, você não quer ler
um jornal no dia seguinte, não? A televisão apresenta. É hoje
o principal veículo informador de primeira mão das notícias,
mas não esgota todo o assunto. Existe o rádio, existe o jornal,
existe a revista, no dia seguinte, para complementar essa
informação. Essa é uma limitação que a televisão tem. Para
que a gente tenha essa televisão que permita, por exemplo,
a transmissão da chegada do homem à Lua ou da morte de Senna
no momento em que ele dirigia o carro, para que a televisão
tenha essa capacidade, tenha condições econômicas de fazer
isso, a gente tem que se submeter a esse tipo de regra. Não
é que se vise exclusivamente ao lucro, mas o lucro é parte
componente do negócio da televisão e não podemos perder isso
de vista sob pena de ficar aquele pensamento de que a televisão
é uma coisa isolada, que a televisão é assim ou assado porque
os dirigentes da televisão só pensam em ganhar dinheiro. Pode
até ser, mas não é exclusivamente por isso. Há fatores que
condicionam a produção, a programação da televisão, e exatamente
isso atinge essa programação cultural. Então, a televisão
faz cultura? Como eu disse: dentro de determinadas garantias.
Vamos colocar num horário menos problemático. O que aconteceria,
por exemplo, se saísse a novela das oito e meia e entrasse
um programa de concertos? Que diretor de televisão poderia
bancar esse tipo de alteração na programação? E eu vou dizer
uma coisa por experiência própria: talvez seja preferível
a televisão atual com todos esses problemas e condicionamentos,
mas, uma televisão, digamos, em condições de operar, de transmitir,
de produzir esse tipo de programação que a gente tem do que
a televisão sem condições financeiras, sem condições econômicas.
Essa situação é que é dramática, quando não leva ao fechamento
do canal e ao desemprego, como aconteceu nos Diários Associados,
leva a um funcionamento precário, à falta de condições de
trabalho, a um desestímulo, a uma situação em que a empresa
anda se arrastando. E, essa sim, essa televisão é que não
tem condição de oferecer nenhum tipo de programação de boa
qualidade, seja ela cultural, informativa ou de que natureza
seja. Por isso é que eu sou um pouco cauteloso com esse negócio.
Entre uma coisa e outra, entre essa televisão "lucrativa"
e uma televisão que não visasse lucro, mas que não tivesse
condições de transmitir uma programação que pudesse ser consumida
pela população, qual seria a melhor opção? Eu tenho muita
dúvida se seria optar simplesmente pela programação cultural,
mas sem condições econômicas por trás para permitir uma boa
operação, uma boa transmissão, uma mensagem de boa qualidade
de alguma forma.
Sérgio Mattos –
Só completando o que Libório disse, gostaria de lembrar. A
gente não pode esquecer que a televisão em si é um veículo
de massa, quer dizer, independentemente de ser comercial,
privada ou pública, seja lá o que for, a televisão é um veículo
de massa.
Pergunta – É
radicalismo demais o estereótipo de utopia em relação a uma
programação cultural na TV privada que atraia e mantenha viva
a motivação da grande massa. Visto que tal fato não ocorre
somente nos países rotulados de terceiro-mundistas, como o
Brasil, mas também nos países desenvolvidos como a Alemanha,
onde reina aos quatro cantos o paradigma de um povo alfabetizado,
culto e, por conseguinte, mais sensível e atento à valorização
de suas raízes históricas como de suas produções sócio-culturais
e que supostamente se deveria constituir um público-alvo maior
neste país?
Carlos Libório –
Essa pergunta envolve muitos aspectos, mas eu queria dizer
que a gente chegou, falou de normas, de regras, de limitações
da televisão, mas é evidente que nós não estamos tratando
de uma ciência exata, de regras definitivas etc. O que é exatamente
cultura é essa coisa de discutir, de questionar, de provocar
mudanças. Então hoje eu diria que a televisão opera dessa
forma, mas não significa que isso vá continuar permanentemente.
A televisão estará sujeita
a esses condicionamentos, mas por pressão da própria sociedade,
por mudanças sociais, por mudanças de ordem política que venham
eventualmente a acontecer no País, a televisão vai mudar.
Portanto, permaneço coerente com o que afirmei anteriormente:
a televisão não é uma coisa isolada, não é uma coisa separada.
A televisão é o reflexo, é o espelho de uma determinada sociedade
em um determinado tempo. Mudando-se a sociedade, quem sabe
se a televisão não vai mudar também e vai fazer esse tipo
de programação que, de alguma forma, parece ser uma aspiração
das classes mais beneficiadas culturalmente, mas que, infelizmente,
ainda não é uma aspiração, ainda não é uma vontade da maioria
da população do País?
Pergunta – Por
que a televisão não divulga mais eventos culturais, aumentando
assim sua participação no que diz respeito à programação cultural?
Carlos Libório –
Fazer programa cultural de eventos culturais é muito fácil.
Tem uma grande vantagem sobre qualquer outro assunto: tem
data, local e hora marcada. Isso para qualquer pauteiro de
televisão é ideal. Manda fazer a estréia da peça tal, manda
fazer o lançamento do livro de poesia da poetisa fulana de
tal, manda fazer a palestra do sr. fulano de tal. Mas será
realmente que é esse tipo de programação que interessa ao
nosso telespectador? É uma coisa que a gente não pode perder
de vista, quando se fala em mudanças ou programação cultural
na televisão.
Pergunta – O
processo jornalístico passa por um processo público dos fatos.
Em que se enquadra o telejornalismo da TV Bahia? Onde se evidenciam
os feitos políticos de seus proprietários?
Carlos Libório –
Se enquadra no que eu disse aqui: nas limitações, na realidade
em que operam as emissoras de televisão. Tanto a TV Bahia
como qualquer outra emissora. O profissional de comunicação
que trabalha hoje na televisão tem que conviver com essa realidade.
Claro que ele deve atuar dentro de padrões éticos. Mas essa
é uma realidade que eu não posso chegar amanhã na TV Bahia
e dizer: fulano de tal não manda mais aqui, agora vou assumir
e fazer o tipo de programa que eu quiser. Isso é uma coisa
que não existe na realidade. Agora, o profissional pode trabalhar
dentro dessas limitações, dentro dessas condições, dentro
de determinados padrões éticos. Ter um tipo de informação
ou tipo de posições políticas que a TV Bahia não privilegia
ou até não dá cobertura, mas outras emissoras dão.
Aí eu pergunto: se a gente
tivesse apenas uma emissora oficial, que desse apenas uma
única verdade, essa situação seria melhor do que várias emissoras,
mesmo pertencentes, mesmo ligadas a correntes políticas diferentes?
Você não acha que é mais democrático ter emissoras que têm
essa ou aquela posição do que ter uma única voz oficial? Do
que ter uma televisão oficial e estatal que, além de chata,
esse sim é o monopólio da fala, é um monólogo? Pelo menos
você tem uma possibilidade que o telespectador às vezes esquece.
A televisão é tão poderosa que o telespectador às vezes esquece
que ele pode mudar de canal, ele pode desligar sua televisão.
Se você ver na TV Bahia, na TV Aratu, na TV Itapoan, aquilo
que você não gosta, aquilo que você não concorda, você tem
um recurso, desligue, mude.
Pergunta – O
programa "BA-TV" é uma detonação óbvia da manipulação política
na Bahia? Vale questionar até quando merece respaldo, autenticidade,
a postura ideológica de um jornalista que participa da elaboração
desse tipo de programa. Desejaria o seu comentário a respeito
de tal questão.
Carlos Libório –
Eu já estou numa fase que não preciso passar atestado de minhas
posições ideológicas, políticas etc., isso já ficou para trás
há muito tempo. Eu não tenho essa preocupação. Vim aqui para
transmitir uma experiência que acumulei durante meu tempo
de televisão. Se eu não fizer o "BA-TV", outro jornalista
vai fazer. Acho que se estou lá fazendo é porque acham que,
de alguma forma, faço bem. Se algum telespectador ou alguma
pessoa discorda do posicionamento da TV Bahia, é um direito
que a pessoa tem. Como eu discordo do posicionamento de muitos
veículos de comunicação na Bahia ou no Brasil. Eu não discuto
muito essa questão.
Pergunta – Qual
é a participação dos alunos da Faculdade de Comunicação no
mercado de trabalho? Eles sabem que o mercado é assim como
foi exposto pelos conferencistas?
Vera Martins – Se
eu entendi bem, você quer saber qual a participação que os
alunos da Faculdade de Comunicação, que é quem se habilita
para Jornalismo, têm no mercado e se eles sabem que o mercado
de trabalho é isso.
Nós temos uma lei de regulamentação
da profissão que proíbe pessoas não-habilitadas, que não têm
diploma de exercer essa função, a função de jornalista, mesmo
que em televisão. A situação aqui é diferente da Alemanha.
Lá é exigido um diploma universitário, aqui não, tem que ser
formado em Jornalismo. Essa relação tem melhorado bastante
porque antigamente essa lei era completamente burlada e quando
não se exigia também competência, não se exigia informação
dos profissionais, principalmente dos que faziam Jornalismo.
Na época dos tempos mais fechados, mais sombrios, quando se
exigia basicamente o visual, beleza plástica e tal para se
trabalhar na televisão, raras pessoas eram jornalistas provenientes
da Faculdade de Jornalismo. Lembro-me perfeitamente que trabalhei
na TV Aratu: eu era subchefe do departamento e a única jornalista
formada era eu. Tinha o chefe de jornalismo que era jornalista
profissional por tempo de serviço. Quer dizer, ele tinha conseguido
ser regulamentado por trabalhar em jornal há mais tempo, antes
da lei. Então, era uma situação bem pior. Só que não existia
outra pessoa e eu brigava muito até para que contratassem
jornalistas. Na época, as pessoas não se interessavam porque
trabalhar na televisão não era interessante. Os estudantes
e jornalistas iam questionar mais e não era conveniente naquela
época. Agora, não. Agora, a maioria passa ou passou pela escola,
embora ainda uma grande parte esteja em situação irregular
porque não é permitido estagiário. Esta é uma questão de mercado
de trabalho, uma questão econômica e que também ainda é encontrada
nos jornais impressos. A utilização de muitos estagiários
e estudantes por uma questão de economia é um ponto negativo.
O ponto positivo que eu vejo nesta relação da escola com as
emissoras de televisão é que as emissoras realmente têm preferido
e têm dado mais espaço para pessoas vindas da Faculdade de
Comunicação. Sinal de que a Faculdade, bem ou mal, com todas
as suas deficiências, tem servido de alguma forma.
O professor Libório poderia
dar sua opinião também, porque lá no Departamento de Jornalismo
da TV Bahia, a maioria, pelo que me parece, vem da Faculdade
de Comunicação. Eu particularmente sempre defendi isso e sempre
dizia também às pessoas que eram contra: eu prefiro trabalhar
com gente que vem da escola porque eu vejo, realmente eu sinto
a diferença. Têm suas deficiências, mas eu sinto uma diferença
muito grande. Quando eu chefiava uma equipe, montava uma equipe
de televisão, a diferença era muito grande entre uma pessoa
que não passava pela faculdade e a outra que passava. Isto
porque, no mínimo, essa pessoa, se ainda não dominava a técnica
jornalística, tinha pelo menos a percepção exata do que significava
a ética jornalística e a função social do jornalista. Isso
é fundamental. O jornalista precisa saber que ele tem uma
função social, que ele não está ali na televisão para aparecer,
porque ele não é ator, ele não é artista, não está ali para
dar autógrafo nem nada. Ele está para servir a comunidade.
E isso é muito importante. Quem passa pela escola pelo menos
aprende isso.
Pergunta – Como
fica a experiência da RBS no Rio Grande do Sul sob a ótica
de dominação das grandes redes? Será que toda programação
procura atingir uma audiência de massa? E a segmentação específica,
cada tipo de público, inexiste nas redes comerciais? Tudo
é "global"?
Carlos Libório –
Citaram aí um exemplo de uma organização que tem uma grande
importância e que de alguma forma é um modelo para as emissoras
regionais. É a RBS. Realmente é uma organização competente,
uma organização em que certos aspectos de informatização chegaram
em determinados períodos a estar adiante da Globo. Basta lembrar
que a RBS fez a totalização da apuração, paralela à que a
Globo fez nas últimas eleições. Todos nós que trabalhamos
em televisão regional gostaríamos de ter como exemplo a RBS
do Rio Grande do Sul. Mas vale considerar um aspecto: o Rio
Grande do Sul é um mercado atípico, é um mercado diferente
do mercado baiano. No Rio Grande do Sul existe um tipo de
industrialização de produto final, de sapatos, de roupas etc.
Esse tipo de fabricante, esse tipo de produtor anuncia na
televisão, tem verba publicitária para investir na televisão.
O nosso industrial, basicamente concentrado no Pólo Petroquímico,
infelizmente não é anunciante dos meios de comunicação, porque
ninguém vai anunciar: "Compre aqui o seu quilo de buteno,
propeno" etc. e tal. Então, lá no Rio Grande do Sul existe
um mercado que permite à RBS fazer um tipo de programação
de excelente qualidade. Mas é bom lembrar que a programação
da RBS não é uma programação exclusivamente regional. Ela
tem mais do que as outras emissoras regionais têm, mas não
é exclusivamente regional. Pelo contrário, todos os programas-chaves
da programação da Rede Globo são retransmitidos também no
Rio Grande do Sul, principalmente no horário crítico que vai
de seis horas da tarde, naquela novela das seis, até a novela
das oito e meia. Aí ninguém fura esse bloqueio porque essa
é a espinha dorsal da programação que garante a audiência.
O jornalismo, como foi dito
aqui e ressaltado pela professora Vera Martins, hoje tem um
papel importante na programação jornalística. O jornalismo
na televisão era uma espécie de sanduíche. Entre duas novelas
ficava o jornal. Hoje o jornalismo tem uma importância considerável
na programação da televisão. Tanto que você vê que nos momentos
de grandes acontecimentos no País, o "Jornal Nacional" aumenta
o seu tempo, invade o horário que seria antes da novela, mas
logo depois se retoma a programação. A RBS, embora sendo uma
organização poderosa que tem uma série de emissoras no interior
do Rio Grande do Sul, de alguma forma, faz parte da rede e
os programas básicos ela retransmite.
Tem outro detalhe de sua
pergunta que eu acho que seria um caminho, se não a solução
por um caminho: a segmentação da programação. Só que eu acho
que essa segmentação para permitir um maior tempo para os
programas culturais deveria ser não através das grandes redes.
Essa segmentação pode ser feita através do aumento do número
de emissoras, das emissoras comunitárias, das emissoras pertencentes
a entidades sem fins lucrativos, das entidades do serviço
público etc. Esse talvez fosse um caminho para a televisão.
Colocar mais centros produtores da mensagem televisiva e aí
nós chegaremos à segmentação que já existe de alguma forma
nos tipos de televisão a cabo. Hoje você contrata a transmissão
do filme que você quer ver, do tipo de programação que você
acha mais interessante. Já é uma segmentação. A Globosat só
transmite notícia o tempo todo, para quem gosta, CNN direto
no ar. Oferece programas de lazer e entretenimento, oferece
filmes e oferece, em outro canal, programas culturais. É evidente
que isso ainda não é um processo popular, ainda exige um alto
investimento de quem vai adquirir, mas você hoje já pode ter.
E se morar em São Paulo, você tem à disposição o tipo de programação
que você desejar, inclusive, para quem gosta, uma programação
toda cultural se você assim preferir.
Pergunta – Lembro-me
de programas como "Vila Sésamo", que me ensinaram a matemática
com os personagens Ênio e Beto cortando bolo e me ensinando
a fração. Estou hoje com 28 anos e nunca mais vi coisas semelhantes.
Era possível naquela época tal benefício para o povo e agora
será que temos que conviver com Xuxa, "TV CollOsso", Angélica
e outros que nem conseguem passar o nosso lado brasileiro
extremamente musical? Creio que precisamos de uma resposta
logo. O senhor fala de um povo analfabeto, mas que quer ver
algo melhor.
Carlos Libório –
Esse é um tipo de programa que de vez em quando se pergunta:
por que não se retorna aquele tipo, especificamente "Vila
Sésamo" e o outro das histórias de Monteiro Lobato. Eu acho
que esse tipo de programa vai retornar ou pode retornar à
televisão. Só que realisticamente eu acho que eles só vão
retornar quando acontecer, quando houver aquelas condições
a que nós nos referimos aqui: a possibilidade de que eles
atinjam uma audiência que garanta o retorno dos investimentos
feitos pela emissora na produção do programa e que os anunciantes
participem patrocinando esse tipo de programa. Quando isso
acontecer, não tenha dúvida, eles vão voltar à televisão.
Sérgio Mattos –
Eu complementaria Libório, dizendo que o programa "Vila Sésamo"
saiu do ar em vários países do mundo porque tinha uma conotação
estrangeira. Era uma experiência americana influenciando um
método. Então, o Brasil substituiu "Vila Sésamo" pelo "Sítio
do Pica-pau Amarelo", que, por sinal, foi considerado pela
Unesco como o melhor programa educativo do mundo.
Pergunta – O
senhor não acha que as telenovelas às vezes contribuem para
maior alienação do povo levando-se em consideração a grande
massa, ainda que se diga que alguns temas versam sobre fatos
do cotidiano?
Carlos Libório –
Eu acho que houve uma mudança considerável na temática das
telenovelas. Não é minha especialidade, não sou um dos telespectadores
mais assíduos de novela. Se a gente se lembrar de uma das
primeiras novelas que começaram a fazer sucesso no Brasil,
era tipo novela chique, de adagia etc. Escrita pela mulher
do nosso querido Dias Gomes, a falecida Janete Clair. Houve
uma mudança considerável na temática da novela. As novelas
hoje são bem mais reais e mais atuais. Acho que nós não devemos
desprezar a novela como um gênero, porque é um gênero que
a televisão brasileira se afirmou a ponto de no momento a
televisão portuguesa estar exibindo atualmente quatorze novelas
produzidas no Brasil. As novelas da Rede Globo já correram
o mundo, da China aos Estados Unidos. Então eu acho que a
novela não é uma coisa assim que a gente deva abominar, embora
haja um pouco de excesso de novela na televisão. Hoje a gente
pega "Vale a pena ver de novo", novela das seis, novela das
sete, novela das oito e entra pelas minisséries, que terminam
sendo um gênero de novela. Embora a gente tenha que reconhecer
que para a Globo seria muito melhor importar filmes do que
produzir uma série das chamadas "Séries Brasileiras" que exigem
um investimento muito alto.
A Globo é considerada hoje
a quarta maior rede de televisão do mundo. E dentre essas
quatro redes, a Globo é a emissora que tem a maior programação
local, no caso programação nacional. Quem quiser vá aos Estados
Unidos para ver que tipo de programação a televisão de lá
oferece. Uma grande quantidade de filmes. Filmes velhos, cowboy,
aquelas comédias lá do "tempo do ronca". Eu estive recentemente
nos Estados Unidos e vou confessar uma coisa para vocês: o
que a televisão americana tem melhor do que a brasileira é
o jornalismo. Fora o jornalismo, a televisão americana, para
mim, não é melhor do que a televisão brasileira, incluindo
aí os musicais, as novelas etc. A televisão americana tem
muito gameshow, talkshow etc. Por sinal, quando
chega lá, você começa a ver certas coisas que acontecem nos
programas de televisão. Tem um programa de talkshow
na televisão americana que tem um copo parecido com o copo
de Jô Soares. Só que lá a diferença é que o copo fica na mesinha
do entrevistado e não na mesinha do entrevistador.
Vera Martins – O
formato do programa do Jô Soares, inclusive, foi todo calcado
em cima do talkshow americano. Uma vez eu disse isso
em sala de aula e acharam um absurdo. Desde que eu era criancinha
já ouvia falar que Jô Soares era inteligentíssimo, que ele
tocava não sei quantos instrumentos naquela época. Mas "Jô
onze e meia" é um programa que realmente foi todo calcado
nos programas de talkshow americanos.
Carlos Libório –
A maioria dos programas é copiada. O programa "Aqui, agora"
foi copiado da televisão argentina. É um estilo de sair com
a câmera atrás dos bandidos e atrás da polícia que você vê
na televisão argentina. É uma importação. Tem muitos quadros
do programa de Gugu que parecem quadros dos programas de auditório
da TV americana. Isso aí a gente tem que reconhecer. A novela
é o único gênero que o Brasil não copia. Por que o padrão
do jornalismo brasileiro é reconhecido, todos sabem que é
importado do americano? Até essa maior quantidade de intervenções
ao vivo dos repórteres na televisão brasileira, que passa
cada vez mais a ser feita ao vivo, já é coisa que vem acontecendo
no jornalismo americano.
Pergunta – Por
que a existência da televisão, informática, cibernética, tecnologia
de ponta etc. quando na Alemanha, que é do Primeiro Mundo,
existe cultura viva, cinema, teatro, museus, dança, folclore,
ópera, restaurantes etc.?
Dirk Kaemper – Todas
as tecnologias mencionadas nessa pergunta são tecnologias
que aparentemente facilitam as coisas. Isso também em relação
aos próprios eventos culturais. Naturalmente é muito mais
fácil ligar a televisão e olhar uma peça de teatro do que
pegar o bonde, o ônibus para assistir a um teatro originalmente.
Eu acho que a televisão produz uma fascinação além dos fascínios
de outros fenômenos culturais. Um bom exemplo seria os Estados
Unidos onde a televisão foi inventada, onde tem uma dominação
tão grande, uma audiência tão imensa que evidentemente esse
fascínio funciona. A grande diferença para mim é de que forma
a televisão faz parte da cultura de um país e como neste meio
cultural a cultura acontece.
Pergunta – Se
é muito mais fácil a gente assistir a uma peça de teatro em
casa em vez de pegar um carro para ir ao teatro, por que essa
conferência não foi televisionada? Assim sendo eu a assistiria
melhor dentro de minha casa?
Dirk Kaemper – Aí
você não teria a possibilidade de fazer perguntas.
Pergunta – Qual
o papel do "Bahia Eventos" na programação cultural
da TV Bahia? É coincidência que os eventos que não são promovidos
pela TV ou Rádio Globo não tenham cobertura jornalística da
Globo, mesmo que tenham participado de oba-obas? Você não
acha que tem momentos em suas colocações que você é contraditório?
No primeiro momento você afirma que a TV comercial visa basicamente
ao lucro e, num segundo momento, o público interfere na programação,
como no enterro de Senna. Será que o interesse daquele folclore
todo em torno da morte dele não seria interesse de perda de
audiência das corridas de fórmula-1? Até que ponto podemos
chamar isso de interferência do público, grande massa numa
rede nacional como a Globo? Não seria abrir um espaço para
o público para reverter essa situação em benefício próprio?
É possível ao seu alcance tomar uma postura como cidadão brasileiro?
O que o senhor acha do
monopólio da Rede Globo e de o Sr. Roberto Marinho ser o maior
empresário do País e ter amigos em todos os poderes: Legislativo,
Judiciário e Executivo? É possível reverter esse quadro de
monopólio com uma pessoa tão influente assim? Será que essa
postura da TV brasileira em atender aos interesses de massa,
anulando quase por completo qualquer transmissão cultural
não é apenas uma forma de burlar a real intenção do sistema
e utilizá-la como instrumento mediador em prol de uma hegemonia
de dominação?
Você não gostaria de
criar um jornal clandestino para poder publicar as informações
censuradas?
Pergunta – No
caso da televisão, é um reflexo do querer da sociedade. Mas
o senhor não acha que ela também se influencia diretamente
neste querer? E não seria possível que a televisão educasse,
acostumasse a população a querer programas educativos? O senhor
não acha que ela tem hoje em dia essa possibilidade?
Carlos Libório –
Eu concordo com você que a televisão é influenciada e influencia
a sociedade. Não na medida em que muitos homens de televisão
acham que podem mandar na sociedade, podem fazer ou desfazer
candidatos ou até mesmo a população talvez atribua um poder
exageradamente grande aos meios de comunicação de massa, que
são poderosos, mas que têm suas limitações, mas que não podem
tudo. Mas, nós temos que atentar também que na programação
da televisão brasileira a novela que nós produzimos é um gênero
que a televisão brasileira não tem concorrente no mundo, um
gênero que a televisão brasileira se realiza por excelência.
Nós temos de reconhecer. Não podemos deixar de reconhecer
que isso também é cultura, que isso também passa informação
etc.
Aqui mesmo [exibe um
número da revista "Imprensa"] na entrevista, o Chico Anísio
diz que a "Escolinha do Professor Raimundo" é um programa
educativo. Está aqui [aponta para a revista], ele diz
isso. Porque se vocês repararem, de alguma forma na galhofa,
na brincadeira, na gozação, ele passa informação. Quando ele
faz uma pergunta que ninguém sabe como responder, como normalmente
acontece, ele dá um tipo de explicação. Então, o jornalismo
que se faz na televisão brasileira também tem um aspecto cultural.
Não vamos entender programa cultural como uma coisa assim,
colocada numa moldura: esse programa é cultura, esse programa
é educativo. Vamos entender também que tem determinados tipos
de programas que se faz na televisão tipo "Globo Ecologia";
"Documento", do SBT; e muitos programas da Manchete, que têm
esse caráter educativo, esse caráter cultural.
Eu não vou botar um programa
dito cultural às oito horas da noite. Isso é um risco que
nenhuma rede comercial vai correr, mas vai veicular cultura,
vai transmitir, vai participar ou se preocupar com a educação
do povo através da sua programação normal. Essa, aliás, talvez
fosse uma forma, uma saída, uma etapa pelo menos intermediária
para que se chegasse à televisão ideal. Que eu só acredito
que se chegue no momento em que ela seja ideal para a população.
Esse divórcio que alguns
setores podem pretender entre o que a televisão produz e transmite
e o que a população consome, eu acho que não vai acontecer
tão cedo. Aí a gente teria que mudar, não apenas a televisão,
mas mudar o sistema, mudar o regime e isso é um pouco mais
difícil.
Participação de um ouvinte
– Vou mandar cortar as horas de Roberto Marinho.
Carlos Libório –
Se você for cortar as horas de Roberto Marinho, vai aparecer
outro empresário que vai atuar da mesma maneira, mas que não
teve o sucesso de Roberto Marinho por outros fatores. Roberto
Marinho existe aqui no Brasil. Na Itália existe o Bertolucci,
que se elegeu chefe do governo italiano à frente de um canal
de televisão. Esse tipo de problema, o telespectador e até
o profissional que trabalha na televisão tem que conviver
com ele.
Pergunta – O
que o senhor acha do monopólio da Rede Globo e do Sr. Roberto
Marinho ser o maior empresário do País e ter amigos em todos
os poderes?
Carlos Libório –
Quanto ao monopólio da Rede Globo, pode ser que você discorde,
mas eu acho que é questão de competência. Os Diários Associados
já tiveram o monopólio da televisão no Brasil e faliram. Se
a rede consegue se manter é porque tem algum mérito, sabe
de alguma forma operar os veículos e os instrumentos que tem
à sua disposição. Eu já trabalhei no Diários Associados e
eles já tiveram a maior rede de televisão, de rádio e de jornais
do País. Aqui na Bahia os Associados já tiveram dois jornais,
uma emissora de rádio e uma emissora de televisão. Foram os
pioneiros da televisão no País e na Bahia. No entanto, a empresa
foi à falência. A gente viu que a Manchete já foi muito mais
poderosa do que é atualmente. Por que isso não acontece na
Rede Globo? É uma questão para se discutir. Será que independentemente
da gente gostar ou não da Rede Globo, não existe por trás
dessa máquina uma administração competente? Vamos também reconhecer
esse aspecto. Se disse muito que a TV Globo teve assistência
do Grupo Time-Life americano etc. No primeiro momento, isso
é verdade, mas hoje a presença do Time-Life na Rede Globo
seria totalmente inconveniente. Não haveria nenhum interesse
da rede de ter a presença do Time-Life aqui, orientando. Por
quê? De alguma forma, a Globo desenvolveu uma indústria brasileira
de fazer televisão. Tanto isso é verdade que faz sucesso no
exterior. A Globo já chegou a vender novela para cem países
do mundo. Isso não acontece à-toa.
Participação de um ouvinte
– Só para lembrar: o acordo do Time-Life, que terminou
sendo formalizado aqui com a Globo, seria inicialmente com
os Diários Associados. E o grupo Time-Life desistiu de fazer
o acordo após verificar a incompetência administrativa do
conglomerado para realizar o projeto que interessava ao Grupo
Time-Life.
Carlos Libório –
Pois é. Você conhece bem a realidade do que foram os Associados.
Viveu o bom período e viveu já uma fase de decadência. Eu,
inclusive, passei por um período bom lá nos Associados e depois
vivi a fase da decadência, que chegou ao ponto da gente ter
que escrever o jornal atrás da lauda que recebia dos releases
do governo e da prefeitura. Aproveitando a parte de trás porque
não tinha papel para se escrever. A gente chegou a viver esse
tipo de problema.
Pergunta – Sendo
considerada uma potência, a televisão não poderia ajudar no
desenvolvimento social? Oferecendo melhor educação através
da televisão? É preocupante para mim saber que meus filhos
não vão ter uma educação igual à minha, porque na época meus
pais tinham condição de me dar mais atenção em casa, fora
a televisão. Mas nós temos telespectadores de televisão. Babás
eletrônicas que estão ali na frente das crianças.
Carlos Libório –
A respeito da sua observação: eu particularmente não acredito
que uma rede de televisão que tenha tido esse sucesso, como
é questionado sobre a Rede Globo, tenha esse descaso para
com a população. Eu acho que de alguma forma existe um tipo
de ligação forte entre, digamos assim, o desejo, as ambições,
as aspirações da população e o tipo de programação que é transmitido
pela Rede Globo. E vou lhe dar um exemplo: o jornal "Folha
de S. Paulo", todo mundo sabe que não tem uma posição simpática
com a Rede Globo (eles têm lá seus problemas empresariais,
aliás, tradicionalmente o jornal nunca se deu muito bem com
a televisão; ambos disputam um mercado que não é tão grande
assim), mas, por exemplo, quando Ayrton Senna morreu, a "Folha
de S. Paulo" fez um comentário dizendo que "naquele momento,
num momento de grande comoção no País, nos grandes acontecimentos,
o ‘Jornal Nacional’, melhor do que qualquer outro veículo,
soube interpretar o sentimento nacional". Isso é uma coisa
positiva. Quando um jornal passa a dedicar toda uma edição
a um evento dessa natureza.
Então eu concordo com você
que são esses condicionamentos, esses limites da televisão
que às vezes deformam e prejudicam. Às vezes me sinto até
constrangido de assistir a uma novela ao lado de minha filha.
Também tenho filha pequena. Apesar de não parecer. Mas fico
meio constrangido porque a novela das seis já está meio violenta.
O "Vale a pena ver de novo" transmite novela que anteriormente
foi veiculada às dez horas da noite e agora é transmitida
a uma e meia da tarde. Mas, é o tipo de negócio, a gente vai
cair sempre nessa discussão. Mesmo achando errado, será que
não é esse tipo de programação que a população aceita e acha
que é bom? Deve achar, porque se não fosse assim isso não
ia ser traduzido nesse nível de aceitação, de audiência da
programação.
Claro que eu também não
concordo. Se você examinar a programação da Globo, você vai
achar uma série de programas que absolutamente não têm nada
de mundo-cão nem coisa nenhuma. Se a gente pegar um programa
como "National Geographic", identificará que é um programa
educativo, um programa cultural. O programa "Vídeo Show",
de alguma forma, é um programa cultural também. Se a gente
pegar o "Globo Ciência", "Globo Ecologia", "Globo Rural",
não vai achar que não é programa cultural. Não é aquele negócio
de rotular um programa. Talvez a Globo saiba vender esse tipo
de coisa melhor do que as outras redes.
Sérgio Mattos –
Quero que vocês entendam o seguinte: televisão realmente é
apaixonante, que a angústia que a gente tem em relação a este
veículo é grande. A gente estuda isso o tempo todo, a gente
procura ver seus pontos negativos e positivos. Claro, existem
estudos que buscam entender a audiência, os aspectos educativos,
históricos e até mesmo aqueles que estudam a legislação que
está em vigor e seus efeitos sobre a televisão.
Foi falado aqui, neste seminário,
sobre a necessidade da renovação das leis que vão reger, que
vão determinar como vai ser o conteúdo, como é que vai ser
a produção da televisão. Isso é coisa que a sociedade tem
que começar a discutir e identificar os pontos a serem modificados.
Depoimentos, todos são válidos. A gente está fazendo levantamento
de tudo e a Globo também está atenta a tudo que se fala, se
discute e se escreve sobre ela em particular e sobre a televisão
brasileira em geral. Exemplo disto é o fato de a Globo saber
de tudo que se publica sobre ela. Se qualquer um de vocês
escrever uma carta para o jornal "A Tarde" ou para qualquer
jornal baiano, denunciando abusos da televisão, apresentando
queixas ou fazendo críticas à programação, podem ter certeza,
o recorte da carta vai parar na mesa de Roberto Marinho. O
serviço de informação da Rede Globo é perfeito. Eles pegam
as críticas, as queixas etc. e vão analisar. Vão buscar respostas.
Eles são capazes de entrar em contato com você pessoalmente
para explicar as coisas. Existe isso na Rede Globo. Em qualquer
parte do País que você publique uma crítica, eles recebem,
vai para a mesa de Roberto Marinho. Agora não adianta, nesse
seminário, a gente querer resolver todas as questões, a gente
não vai poder resolver todos os problemas nem este é o fórum
adequado para tal.
SUMÁRIO
Apresentação/Introdução/Capítulo 1 – Público-alvo da cultura na TV: minorias
ou audiências em massa?/Capítulo 2 – Jornalismo cultural e produção cultural:
critérios de seleção e de transmissão/Capítulo 3 – Mídia impressa e mídia eletrônica:
política atual e reflexo cultural
|