Televisão e Cultura no Brasil e na Alemanha

 

Cap. 1 Público-alvo da cultura na TV


Conferencistas: Dirk Kaemper e Carlos Libório
Debatedor: Vera Martins
Moderador: Sérgio Mattos


Política cultural na televisão alemã
Programas culturais na TV comercial brasileira
Comentários
Debates do dia 12 de maio de 1994

Política cultural na televisão alemã
Cultura na TV: informação, educação, divertimento
Delimitação do conceito "cultura na TV"

Dirk Kaemper

Sem uma ampla discussão do conceito da cultura, inicialmente intenta-se uma redução do espectro do tema. Muito menos ampla que a vastíssima definição "a própria TV é cultura". Portanto, neste seminário empregaremos uma definição de "cultura na TV", que toma como referência um conceito que se apóia nos gêneros clássicos do teatro, artes plásticas, literatura etc. na TV.

As definições que extrapolam esse âmbito restrito surgirão e serão trabalhadas no contexto do seminário, nos próximos dias, como, por exemplo, o conceito de "televisão cultural" e de "cultura do dia-a-dia na TV".

Quando da concessão do rádio privado na Alemanha, em inícios dos anos 80, já se previa que seria mínima a participação cultural no programa irradiado. No caso das emissoras de TV de direito público, determinou-se também uma participação obrigatória de cultura, ao serem concedidas as freqüências. Essas emissoras trabalham segundo o "princípio do produtor" e mostram uma espécie descompromissada de cultura na TV, que dá nova vida à paisagem televisiva. Como exemplo disto podemos citar a edição tardia de um programa sobre o 65º aniversário de Heiner Mueller. Este é um exemplo de produção extremamente formal, montagem descompromissada com utilização de música heavy metal, entremeada com entrevista de Heiner Mueller sobre o tema "tanques". Este programa cultural de Alexander Kluge foi inserido na televisão privada RTL Plus.

[Foi exibido trecho do programa.]

A realidade atual prova que os temores eram justos, que a cultura não desempenhará nenhum papel no campo privado. Mesmo se houve rudimentos hesitantes, hoje não resta nada de cultura na televisão privada (alemã), com exceção dos "produtores embutidos" que, porém, por isso mesmo, não podem ser computados na televisão privada, que trabalha exclusivamente ao sabor do mercado. Exemplo disso é o programa "Avanti", contribuição sobre chearleaders em Hollywood, cadenciada por um moderador cantando, com um nariz de papelão, como exemplo de uma concepção que ainda tem no título a palavra "cultura", mas propõe-se ao divertimento e ultrapassa há muito os limites do espírito do tempo.

A luta da televisão de direito público contra a concorrência da televisão privada é alimentada com a arma dos índices de audiência.

E, embora haja, em princípio, a obrigatoriedade da cultura na TV, justamente os programas com baixos níveis de audiência entraram no fogo cruzado da crítica

[A título de exemplo foi exibida uma reportagem cultural sobre cyberspace, arte e mídia eletrônica para demonstrar uma contribuição cultural na televisão de direito público].

Desde a concessão das emissoras privadas existe a participação da cultura na TV, principalmente nos programas de variedades culturais. Isto é, os canais que antes transmitiam séries e documentários tornaram-se mais raros, substituindo programações curtas, mas acentuadamente atuais, com uma duração de três a cinco minutos no máximo.


Breve histórico

A televisão de direito público na RFA é obrigada a oferecer informação, divertimento e educação e com isso também eventos culturais; mas, essa obrigatoriedade é vagamente definida.

Desde o início, a "cultura na TV" foi fixamente situada nos campos da educação e da informação e, com isso, considerada a clássica televisão antípoda do campo "divertimento". Tais delimitações claras não foram cunhadas pela TV, mas foram manifestadas por sua adaptação (baseadas no contexto cultural histórico da Alemanha). Até a disputa por índices de audiência pela concorrência da televisão privada não era problema essencial para a cultura na TV. Hoje, a tentativa de uma superação dessa "contraposição" é a questão mais discutida nas redações culturais.

[Foram exibidos filmes de programas culturais transmitidos pela televisão de direito público antes do advento da televisão comercial. Um dos exemplos, o programa cultural "Spectra", de 1966, onde o cenário é formal, o texto complicado, quase uma preleção universitária, e um filme sobre uma exposição da cultura alemã no exílio. No mesmo programa está inserida a apresentação sobre a recente inauguração de um hospital.]

Nestes exemplos exibidos aqui evidencia-se, de modo extremo, como são transpostos quase literalmente os compromissos legais de "informação e educação".

Uma ampliação do conceito de cultura, a intromissão também na política, a renúncia a pretensões educativas de até então e o elevado teor de divertimento são os caminhos trilhados que caracterizam, no momento, a cultura na TV.


Cultura na TV

A forma mais alvissareira de assegurar seu posto à "cultura na TV" consiste nos próprios canais culturais que, entretanto, são instalados com transmissão via satélite ou canais a cabo e só em parte podem ser captados na Terra (falta de alcance). A primeira tentativa frustrou-se (canal cultural 1 Plus da ARD, paralisado em fins de 1993). O canal cultural 3 SAT trabalha segundo um princípio similar como substituto; as instituições co-participantes ARD, ZDF (Alemanha) e ORF (Áustria) mostram principalmente programas já emitidos.

O melhor que a cultura na TV tem a oferecer no momento é a cooperação franco-alemã ARTE; com um perfil próprio e marcante, alta participação na autoprodução e uma perspectiva européia.

[A título de exemplos desta co-produção, foram exibidos filmes, tais como um documentário inovador sobre Lindsay Kemp, um dançarino homossexual, uma produção de vídeo excepcional e altamente pretensiosa no âmbito de uma noite de "arte vídeo" em ARTE.]

A ampliação do conceito de cultura para a TV ganha novas dimensões, principalmente porque um canal cultural puro e exclusivo não tem premência de tempo, um fator problemático e essencial da televisão cultural de hoje. Um documentário de 45 minutos sobre um campeão mundial de esqui ["Os Girardellis: retrato do esquiador campeão mundial, de Luxemburgo", também exibido no seminário] que tem êxito, pode se tornar plausível porque isso também é parte da cultura, do mesmo modo que um vídeo sobre o dançarino homossexual é uma obra de arte.

Origem, objetivos e esquema dos programas de arte são portanto esclarecidos, em rápido espaço de tempo.


Cultura na TV, para quem?

Dando seqüência à discussão sobre os índices de audiência, dever-se-ia aprofundar a questão sobre para quem é de interesse a cultura na televisão, para quem ela é pensada e por quem ela é consumida em realidade.

Assim, temos dois problemas básicos: (1) uma forma de cultura que, por sua obviedade, não se mostra atraente para a massa (como fazem hoje, por exemplo, muitos organizadores de exposições no campo das artes plásticas), deve ser preparada justamente para uma mídia que se dirija a esse público de massa; (2) a incompatibilidade da cultura de elite para o público de massa da televisão.

Vamos exibir agora dois filmes, sendo que o segundo representa a tentativa de encontrar uma forma específica e televisiva de aproximação ao primeiro exemplo.

O primeiro filme, "Granja de musicistas" ("Musikantenstadl"), da ARD, é uma emissão de música popular, no horário nobre, sábado à noite, às 20h15min, com alto índice de audiência. Trata-se de exemplo extremo de uma emissão com o maior interesse quantitativo dos espectadores na Alemanha, no campo de divertimento, ou, respectivamente, televisão como relaxamento.

O segundo, "Kniestüeck III", produção de vídeo mostrada no Festival de Curta Metragem de Oberhausen; transposição com truques de técnica do tema "Schuhplattler" (sapateado, dança bávara e tirolesa). Uma tentativa bem sucedida da técnica de vídeo, com o objetivo de transpor cultura popular e folclórica, próxima do povo, com mídia eletrônica; mostrada em "variedades culturais" com muito pouco interesse dos espectadores.


Para quem fazemos televisão?

Numa pesquisa realizada em 1991, na República Federal Alemã, pela ARD e ZDF, levantou-se exatamente a questão sobre a base de telespectadores da cultura na TV. O resultado foi: 12,6% de todos os telespectadores podem ser computados como público básico, com alta pretensão de qualidade e hábitos seletivos (esse público é semelhante ao que freqüenta eventos culturais como teatro, filme, exposições etc.); 31,2% são telespectadores ocasionais, isto é, um público basicamente interessado, mas muito menos seletivo; 45% constituem um "público orientado para o divertimento"; e 11,1% são um "público desinteressado por cultura".

O estudo chegou à conclusão de que a televisão cultural é e tem que ser um programa de minorias (índices de até 13%); segundo esse levantamento é possível (e necessário) um justo distanciamento do fetichismo dos índices de audiência. Assim, "para a concepção desses programas não se pode tomar como critério a demanda, mas sim, ao contrário, uma orientação da oferta".

[Neste momento foi exibido um programa completo de variedades culturais, apresentando a seguinte seqüência: a morte de Werner Schwab, retrato oficial de um jovem diretor de teatro; filmes da época do nazismo, que podem ser requisitados em videotecas alemãs; "Munique, capital do movimento", crítica a uma exposição sobre a capital bávara na época do nazismo, na Casa da Arte (Haus der Kunst) de Munique; resenha de uma exposição com o título "Sobreviver" – tema: a ameaça existencial da humanidade e sua transposição artística; retrato do artista Horst Glaesker (pintor contemporâneo), "Schamane" (feiticeiro) e artistas de performance; notícias sobre eventos; retrato do ator de teatro, cinema e televisão Michael Rehberg; moderação e apresentação de um grupo pop conhecido na área, "Thekenschlampen" ("Os desleixados da taverna"), feito de modo relaxado e desarticulado, imitando o MTV e o VIVA (a emissora alemã de música semelhante à MTV.]

O bloco aqui exibido é exemplo da forma típica de como a cultura na TV é hoje predominantemente apresentada e transposta.

Com base nesse bloco de emissões, deve-se esclarecer que a realidade atual da cultura na TV na Alemanha leva em conta os resultados das pesquisas de opinião sobre a mídia. Uma análise tanto das apresentações isoladas como de seu agrupamento mostra que não se leva em conta os telespectadores com pretensões elevadas, mas sim o grupo quantitativamente muito mais numeroso dos "telespectadores ocasionais".

De modo geral, com referência ao bloco de emissões, os caminhos que determinam a imagem de hoje, principalmente das "variedades culturais", e que podem ser englobados sob o conceito "popularização da cultura" na televisão são os seguintes:

a) ampliação do conceito de cultura além dos parâmetros clássicos em direção a temas culturais da atualidade, com base na premissa de que "isso interessa a uma massa mais numerosa de espectadores";

b) apresentação de formas modificadas, isto é, uma forma corrente e, em geral, desleixada;

c) modificação da estética de imagem com maior dinamismo no trato com a câmera e nos cortes; com isso, a contribuição das "variedades" ganhou imensamente em velocidade. Isto partindo-se do presuposto de que uma dinâmica mais elevada é responsável também por um interesse mais elevado dos telespectadores;

d) escolha do tema; nem sempre se procura ver a relevância de um tema no contexto cultural, sobre o qual apenas se reflete, na melhor das hipóteses reproduz-se visando a um suposto interesse do espectador (em casos extremos, uma exposição importante com uma temática complexa pode ser sacrificada em favor de uma apresentação cultural de música jovem, antes com caráter de divertimento).

Ao lado da análise da configuração das apresentações isoladas, surge uma questão: será que dessa forma específica de intromissão não resultaria um perfil sem nitidez que, como conseqüência, nem satisfaria as necessidades dos espectadores centrais nem as dos espectadores ocasionais?

A solução, em minha opinião, está numa estrutura básica, como a que foi proposta em 1986 pelo intendente da ZDF, Dieter Stolte. São necessárias duas ofertas culturais que se complementam:

• programas culturais dirigidos ao público orientado para o divertimento, utilizando formas e temas populares… se poderia… levar temas culturais aos telespectadores;

• programas dirigidos aos telespectadores interessados… e que, necessariamente, teriam que contar com índices mais baixos de audiência.

[Neste momento, dois novos exemplos de programas foram mostrados. O primeiro, um trecho de "A segunda pátria", filme de Edgar Reiz, que foi transmitido pela ARD, canal 3, em treze capítulos, como exemplo de uma produção coerentemente pretensiosa, sem levar em consideração os índices de audiência. O segundo exemplo foi o retrato da soprano Anna Maria Prammer, "Walzwerkmusik", de Luigi Nono.]

Estes dois exemplos de programas que exibimos representam produções que se decidiram de modo conseqüente por um público de minorias. "A segunda pátria", filme de Edgar Reiz, foi produzido com gastos milionários e sob os mais veementes protestos. O filme foi festejado pela crítica. Mas, sua apresentação, dividida em treze capítulos, foi vista por poucos telespectadores. Porém, para os telespectadores que assistiram à série, "A segunda pátria" foi, de acordo com as pesquisas de opinião, o melhor filme que a televisão já produziu nesses últimos anos. O segundo exemplo de programa ousou pela tentativa de combinar a dificílima música de Luigi Nono (o "Walzwerkmusik" consiste essencialmente de ruídos captados e reproduzidos num instrumento laminado de aço), acompanhando a soprano Anna Maria Prammer.


Algumas reflexões A TÍTULO DE CONCLUSÃO

Política e cultura na mídia

Se a cultura imiscui-se demais na política, também podem surgir conflitos. A "emissora inserida" na programação da RTL, canal 4, emite uma apresentação sobre as ocupações de casas em Colônia; logo surge um conflito, a RTL recusa-se a continuar transmitindo emissões e exclui o canal 4 do programa. Isso explica algo sobre o conflito entre a televisão privada e a televisão cultural engajada na República Federal Alemã (as rusgas já foram sanadas e além disso também o perfil da emissora ficou mais sadio e mais profissional).

Também na TV de direito público, a intromissão muito acentuada leva freqüentemente a conflitos (a história do programa "variedades culturais" – Aspecte – demonstra bem estes conflitos nos anos 70). Neste conflito entram cultura e política. O ponto inicial da televisão poderia ser o fator cultural independente. Pois, uma comparação entre as emissões de informações políticas, os noticiários e as variedades, dá-se às emissões culturais um espaço mais livre que outros programas não têm.

Esse espaço livre surgiu, a cultura em realidade não traz lucro, mas tem que ser emitida por força do contrato assinado.

Aí pode-se fazer muita coisa, provocante e provocadora, ou ainda satírica.

[Como exemplos foram exibidos três filmes: a rua Ehre, em Colônia, da WDR, que é uma contribuição provocadora em favor do carro na cidade e contra a tranqüilidade das cidades através das zonas de pedestres; política da comunidade. Outro exemplo exibido, também produzido pela WDR, glosa sobre os fachos luminosos como protesto e reação de massa contra a inimizade aos estrangeiros na Alemanha. E, finalmente, um videoclipe do canal 4, sobre Adolf Hitler. Exemplo de radicalismo de direita e dos fachos luminosos.]

(*) Conforme tradução simultânea e gravação.


Programas culturais na TV comercial brasileira

Carlos Libório

Boa-noite! Eu gostaria de dizer que é uma satisfação estar aqui.

Vocês assistiram à palestra do jornalista alemão. Foi muito boa num aspecto. Agora nós vamos ver o outro lado da história. Ele falou sobre a TV pública, a TV que pertence ou é controlada pelo organismo do Estado.

Na nossa conversa aqui, nós vamos abordar o outro lado da história. Vamos falar de TV privada, da TV comercial que se faz no Brasil e não na Alemanha, embora haja aspectos que ao longo da nossa conversa a gente pode comparar. Como, por exemplo, a pouca audiência dos programas ditos culturais, educativos, que é um fenômeno que acontece tanto na Alemanha como aqui no País. Só que aqui a reação seria diferente. Enquanto lá eles podem manter esse tipo de programação, aqui, na TV comercial, nós vamos ver que as coisas dificilmente se passariam dessa forma.

Então, nós vamos falar de televisão em termos de TV comercial, de TV privada.

A gente sabe que, no Brasil, o sistema de concessão de canais para a televisão é chamado de "sistema misto". Aqui nós temos uma convivência entre as emissoras do Estado, são as TVs educativas, basicamente, a TV Educativa aqui da Bahia, a TV Cultura de São Paulo e outras, que são TVs que têm uma influência direta do Estado, e as TVs privadas, particulares, que são a grande maioria das emissoras de televisão do País. Cerca de 90% das emissoras de televisão do País são privadas, são particulares, são sociedades comerciais. Não vamos nos esquecer disso.

Todos nós sabemos que o que caracteriza a sociedade comercial é justamente a finalidade lucrativa. Não quero aqui comparar a televisão, mesmo comercial, com uma casa de comércio comum. Mas, é evidente que, como sociedade comercial, a gente não pode perder de vista que há um interesse de lucro, de retorno do investimento que é feito.

Sobre esse aspecto, falando em termos de TV privada, de TV comercial, que é a grande maioria da televisão brasileira. E como, aliás, esse é o sistema adotado pela grande maioria dos países da América, a partir dos Estados Unidos e da América Latina e hoje inclusive de muitos países da Europa. Inclusive da própria Alemanha, que já há em marcha um processo de privatização da televisão, o que se observa também em Portugal, na Itália, na França, onde existem televisões públicas ou televisões simplesmente estatais. Para não falar dos chamados países da antiga Cortina de Ferro, onde a televisão era simplesmente estatal e que hoje, com as mudanças políticas que ocorreram no mundo, como todos nós sabemos, há em marcha um processo de privatização da televisão. O que ainda não chegou ao ponto do que acontece no Brasil e em outros países, a partir do exemplo americano, mas que a gente já observa hoje a presença de televisões privadas.

Em Portugal, tem brasileiros trabalhando na TV portuguesa, grande parte em TVs privadas. A gente sabe que a TV Globo teve uma participação acionária forte numa televisão na Itália. Enfim, muitos países europeus onde existiam apenas emissoras públicas, hoje estão, digamos, abrindo espaço, permitindo o aparecimento de televisões privadas.

É sobre o aspecto de televisão privada, sistema que nós temos no Brasil, que nós vamos dirigir a nossa conversa.

Dentro desse sistema, em que se permite à livre iniciativa, ao empresário particular, ao empresário privado, participar desse processo de transmissão de som e imagens a distância, que é a televisão, nós não teremos nenhuma dúvida em responder a essa pergunta que é feita pelo tema da nossa conversa, ou seja, "Público-alvo da cultura na TV: minorias ou audiência em massa?". Claro que, desse ponto de vista, repito, de televisão privada, particular, eu não teria nenhuma dúvida ao dizer que o público-alvo da televisão é a audiência em massa. A televisão é, por excelência, por sua própria natureza, o veículo de comunicação de massa.

O que a televisão visa, em primeiro lugar, é obter a audiência potencial. O que seria a audiência potencial a que o nosso companheiro da Alemanha também se referiu? Seria aquela audiência máxima que pudesse ser obtida pelo número de aparelhos de televisão existentes nos domicílios em determinada região? Digamos que aqui em Salvador existissem um milhão de aparelhos de televisão – existem menos –, a audiência potencial seria aquela mensagem que pudesse ser captada por todos esses aparelhos de televisão. Claro que isso não acontece porque existe a concorrência, existe a presença de outras emissoras e existe também um percentual, que é razoável, de aparelhos desligados. Mas o fato é que as emissoras estão sempre procurando aproximar a audiência real.

O que é audiência real? Aquela audiência que é aferida pela pesquisa, que é constatada pela pesquisa. Ou seja, audiência de quem efetivamente usa seus aparelhos de televisão. As televisões estão sempre preocupadas sobre esse aspecto: aproximar a audiência real da audiência potencial. Então, por isso é que a gente vê nas pesquisas: o programa tal tem 80% de audiência, o programa tal tem 10% de audiência. Dez por cento de audiência potencial, que seria obviamente a audiência de 100%, que não costuma acontecer. Bom, então eu não tenho nenhuma dúvida de dizer que o público-alvo da televisão, para qualquer tipo de produção, inclusive a produção cultural, e vamos entender aqui a produção cultural ou cultura num conceito mais ou menos exposto pelo conferencista anterior, como esse tipo de manifestação artística levada à televisão com finalidades educativas e não apenas entretenimento, lazer ou mesmo informação. E aqui a gente abre um parêntese e vai observar que a programação de uma emissora de televisão basicamente se divide em programação de lazer, de entretenimento, de informação, ou seja, o jornalismo, e de cultura ou de educação.

A programação cultural existe na televisão brasileira, existe nas emissoras privadas, mas é importante salientar que essa programação cultural está sujeita às mesmas regras, às mesmas normas, às mesmas limitações do restante da programação. Isso porque a televisão comercial, a televisão privada tem que atender a uma série de fatores que condicionam a sua atuação na sociedade. A televisão não existe em nenhum país, não existe no Brasil como algo isolado, como algo que não se relacione com outros setores. Pelo contrário, a televisão influencia, mas sofre diretamente uma outra influência do sistema social, do sistema político, do sistema econômico. A televisão não é algo isolado, algo solitário que exista sem uma integração com outros sistemas vigentes na sociedade, em determinada ocasião, em determinado tempo. Televisão não é uma coisa que a gente possa pensar de uma maneira isolada. Porque isso vai explicar muitos condicionamentos que a televisão tem, muitas limitações, muitas vantagens e, sobretudo, as desvantagens, que é exatamente o fato de estar profundamente impregnada de outras relações existentes na sociedade. Sejam elas de natureza social, sejam elas de natureza política, sejam elas de natureza econômica.

A produção cultural transmitida pela TV brasileira (e quando falo de TV brasileira sempre volto a insistir que estou falando da emissora privada, da emissora comercial, que é a grande maioria das emissoras existentes no País), essa produção cultural divulgada pelo veículo de televisão, está, de alguma forma, sujeita às regras, às mesmas normas, às mesmas restrições, aos mesmos limites do restante da programação da emissora. Essa programação cultural está, portanto, condicionada a esses sistemas dominantes na sociedade em determinada ocasião, como já frisamos. Porque, vale a pena lembrar aqui, essa ligação se efetiva basicamente nestes três níveis: no social, no político e no econômico. A televisão sofre uma influência direta dos padrões, das normas de comportamentos sociais que a sociedade privilegia naquele momento, ou seja, valores em termos de moda, de comportamento, de costumes, de permissividade ou não. Tudo isso está condicionado a outros fatores. Fatores de ordem política. Não vamos nos esquecer que a televisão em qualquer país do mundo é uma concessão. O direito de transmissão de som e imagens a distância é do Estado, é da União, é do poder político organizado.

O poder político pode operar diretamente, no caso do rádio e no caso da televisão, e faz isso através das emissoras públicas, das emissoras estatais ou, como nós já dissemos, pode conceder ou autorizar particulares a fazê-lo, no caso das emissoras privadas. Mas é bom a gente lembrar sempre que essa concessão do poder público ao particular para atuar no campo da televisão é uma concessão temporária. No caso do Brasil é uma concessão de quinze anos e isso é um fator que deve ser considerado, de como a programação da televisão, de alguma forma, é condicionada por esse fator político. Essa concessão temporária significa, obviamente, que ela vai ter um fim em determinada época e que cabe ao poder concedente, no caso o poder público, a capacidade de renová-la. Recentemente, com a nova Constituição, se retirou da competência exclusiva do presidente da República o poder de conceder e de renovar essas concessões das emissoras de rádio e de televisão. Hoje o Congresso Nacional participa, tem que aprovar a renovação de concessões. Mas é fato, portanto, de qualquer maneira, que essa é uma concessão temporária, que depende de um poder público. É uma situação, por exemplo, diferente da chamada imprensa escrita, do jornal. Se nós aqui nos reunirmos e montarmos um jornal, não dependemos do poder público para circular o nosso jornal e muito menos dependemos dessa autorização em qualquer época para continuar a circular esse jornal. No caso da televisão, ela depende dessa renovação, dessa concessão.

Vale lembrar que as duas maiores redes de televisão do País estão vivendo este problema. A Rede Globo e o SBT estão com suas concessões vencidas e dependem do Poder Executivo e do Legislativo para terem essa concessão renovada. Então, os empresários de televisão argumentam que isso significa como se eles tivessem uma espada no pescoço. Eventualmente, eles poderiam perder essas concessões. A perda da concessão da televisão, ou seja, do direito de transmissão de som e imagem, significaria a derrocada da emissora de televisão como empresa comercial. Imaginem que prejuízo fantástico, sem trocadilho, teria a Rede Globo se perdesse sua concessão, ou mesmo o SBT.

É evidente que o empresário de televisão tem que atentar para esse fato. Existe, portanto, essa ligação com o sistema político, que é maior ou menor, a depender de determinada situação vivida pelo País, a depender de determinada conjuntura política. Num passado não tão remoto assim, nós tivemos uma situação em que esse controle do poder político sobre a televisão era exacerbado, era considerado no chamado período autoritário. Hoje nós temos uma ampla liberdade de atuação da televisão frente ao poder público. Eu digo ampla liberdade e não liberdade total porque existe um sistema que condiciona a televisão, como também todo tipo de mensagem veiculada pela televisão, inclusive a chamada produção cultural, os chamados produtos culturais. Mesmo nos regimes mais liberais, mesmo nos Estados Unidos, existem certas restrições que decorrem dessa situação de que o empresário da comunicação na área do rádio e da televisão opera uma concessão do poder público.

Eu já trabalhei na televisão numa época em que recebia da censura os chamados bilhetinhos: "De ordem superior, fica proibida qualquer divulgação sobre o assalto ocorrido no banco tal". Essa situação era às vezes um pouco curiosa porque a gente não sabia que tinha ocorrido um assalto e ficava sabendo através da proibição da censura. "De ordem superior, fica proibida qualquer divulgação, qualquer notícia a respeito de um surto de doença que aconteceu na região tal", como foi o caso da meningite. A gente nem sabia que estava havendo um surto de meningite e ficamos sabendo através da censura. Primeiro vinha um bilhete, depois vinha um telefonema etc. e aí existia aquele controle bem mais efetivo do poder político sobre as emissoras de rádio e televisão.

Certas regras que não estão às vezes explícitas, mas que existem na prática para que essa concessão seja renovada, para que a concessão seja mantida, que é o interesse de todo empresário. Ninguém monta uma empresa pensando que ela vai se extinguir dez ou quinze anos depois, como é o caso da televisão. Ao lado disso, a televisão está profundamente vinculada ao sistema político, digamos econômico. Faz parte do sistema econômico. A economia está na base do processo da televisão e isso também influi no tipo de programação que é divulgada pela televisão.

Ora, é sabido que a televisão exige um grande investimento para montagem da emissora. São equipamentos importados, que custam milhares de dólares. Agora mesmo [1994], a TV Educativa da Bahia importou um novo transmissor que melhorou consideravelmente a sua imagem e que custou uma boa quantidade de dólares, se não me engano 400 mil. Então, é evidente que a montagem de uma emissora de televisão exige um alto investimento. A produção da mensagem veiculada pela televisão, ou seja, a produção dos programas exige outro investimento alto. Quanto a Globo não gasta na produção de uma novela? Quanto o SBT não está gastando agora na produção da novela "Éramos seis", com a pretensão de concorrer com a Globo e de atingir o chamado padrão "global"? Quanto se gasta, digamos, na produção de um programa tipo "Fantástico" ou de um programa tipo "Jornal Nacional"? Então é evidente que isso exige um alto investimento, ou seja, na montagem da emissora, nos seus equipamentos. Equipamentos que estão constantemente se renovando. Que mal uma emissora adquire uma câmera, chega na emissora um anúncio ou oferta de um equipamento muito mais moderno. Agora mesmo as emissoras de televisão da Bahia atravessam esse processo de substituição de um tipo de câmera, de um tipo de VT que se usava por outro mais moderno que dá uma qualidade muito melhor. Tanto assim que é possível para os mais observadores constatarem que determinadas matérias dos telejornais das emissoras baianas têm uma diferença considerável de imagem. Isso pode ser facilmente percebido na TV Bahia. Há um tipo de matéria jornalística que é feita com equipamento chamado Betacam com uma qualidade de imagem, com uma qualidade de definição muito superior ao antigo U-matic que nós usávamos até então.

É evidente que é um processo contínuo que a emissora faz para renovação, para se manter, digamos, atualizada em termos tecnológicos, para oferecer cada vez uma transmissão de melhor qualidade na televisão. Porque, no rádio como na televisão, a qualidade da imagem transmitida, no caso da televisão, como a qualidade do som transmitido, no caso da rádio, influem consideravelmente na manutenção, na conquista da audiência. Do lado disso, o anunciante é que, como todo mundo sabe, sustenta a televisão privada, a televisão comercial, é a verba publicitária captada pelos departamentos comerciais das emissoras de televisão que mantêm toda essa estrutura, ou seja, a emissora, a produção da mensagem etc. O anunciante faz um investimento alto. Imaginem quanto custou esse comercial em que Daniela Mercury aparece cantando ao lado de Ray Charles. Uma fortuna. Quanto custam comerciais que a gente vê diariamente na televisão? É um alto investimento que o anunciante faz. O anunciante que fez esse investimento alto necessita, é claro, ter um retorno do capital que ele investiu. E esse retorno vai ser oferecido por quem? Vai ser oferecido justamente pelo produto que a televisão oferece. Qual é o produto da televisão? Qual é o produto do processo da televisão? É exatamente a sua programação. Seja ela de qualquer natureza: o telejornal, a novela, o programa musical e também o programa cultural. O programa que está mais preocupado em transmitir cultura e informação.

As produções das televisões são às vezes esticadas ou diminuídas em função do interesse comercial, dessa necessidade de conquistar audiência. E aí a gente bate em outra coisa diferente da televisão comercial, da TV educativa, da TV pública. Na televisão comercial, na televisão privada existe essa disputa, essa concorrência pela audiência. Já na TV educativa esse aspecto também não deixa de preocupar, pois uma televisão educativa ou cultural que não tenha audiência, não tem significado. Seria também uma perda de recursos, de talento, de pessoal etc. se a mensagem que se transmite através da televisão não tiver nenhum retorno. Todo mundo sabe que uma das coisas elementares do processo da comunicação é justamente esse retorno, é justamente esse feedback.

Quando eu digo a você "que noite bonita", a minha pretensão é realmente que você ache que a noite está bonita. Quando um comentarista diz que o São Paulo jogou melhor do que o Corinthians, está levando, induzindo a sua audiência a concordar com ele. Realmente, o São Paulo está jogando melhor do que o Corinthians. Então, não tem sentido um processo de comunicação que não tenha retorno e audiência, mas essa preocupação, obviamente, é muito maior na televisão comercial e privada do que na TV educativa.

A TV educativa alemã, a TV pública alemã pode se dar ao luxo de transmitir 90% da sua programação com os chamados programas culturais e ter apenas uma audiência de 10%. Esse percentual seria absolutamente inviável na TV comercial, logo se trataria de tirar esse tipo de programação do ar. Aí eu faço outro parêntese e lembro a situação dos nossos colegas de jornais cobrarem muito essa postura educacional ou cultural das televisões. Os nossos colegas de jornais estão sempre recomendando um tipo de programa que na realidade tem muito pouca audiência, tem muito pouca aceitação por parte do público. Eu gostaria de saber, de alguns desses cronistas de televisão, comentaristas que recomendam esse tipo de programação, se eles estivessem à frente de uma televisão comercial se eles colocariam esse tipo de programação no ar para a sua audiência. Se tentassem fazer isso, certamente que teriam feito ou teriam a oportunidade de fazer por muito pouco tempo, porque logo seriam afastados de suas funções por essas pressões de natureza comercial, de natureza econômica que existem na programação da televisão e ninguém pode esconder.

Eu costumo, às vezes, brincar com Fernando Vita, o diretor da TV Educativa, e digo: rapaz tem um programa na televisão que é o programa mais lido da televisão baiana, é o seu programa. Porque aparece em todos os jornais, chamadas, todo mundo dá a maior "colher de chá" ao seu programa. Infelizmente, quando se vai apurar nas pesquisas de audiência, o chamado IBOPE (que a gente pode abominar, achar errado, mas tem que conviver com ele), está lá o programa, às vezes dando, o que é lamentável, o traço. O traço significa que não tem o mínimo de audiência para aparecer na pontuação do IBOPE, feita à base dos aparelhos ligados em determinada emissora.

Então é fato que o sistema econômico, portanto, tem uma profunda influência na programação da televisão e no tipo de programa que é transmitido por uma emissora. Inclusive os chamados programas de natureza. Mesmo quando as televisões, aparentemente, ousam nessa área transmitir programas tipo concertos etc., o fazem dentro de determinadas precauções, determinados horários. Vejam como esses concertos de música clássica passam um pouco atrasados. Em que o número de aparelhos ligados já é menor e a televisão de alguma forma tem uma audiência que é constante, que é permanente, que não signifique uma grande perda. Porque toda vez que qualquer tipo de programação ocasiona um abalo na audiência média das emissoras, e vamos falar mais claramente, principalmente isso acontece numa emissora como a Rede Globo, toda vez que há uma oscilação nos índices de audiência da emissora, a gente imagina o corre-corre que existe. Muda-se personagem de novela, estica-se o papel do personagem, diminui-se o papel, mata-se e acaba-se a novela mais cedo ou acaba-se a novela mais tarde. Claro que a gente está falando aqui em termos um pouco caricatos, exagerando situações, mas esse é um processo que existe. Existe, portanto, o processo de televisão estar profundamente impregnado por essas relações com a economia, com o fator econômico que está atrás da televisão, que se tem profundas ligações com ele provocando outras conseqüências nessa área, por exemplo: a concentração da televisão em poucos produtores.

Há poucas emissoras de televisão, se a gente considerar o número de telespectadores, a ponto de provocar o fenômeno que nosso professor Muniz Sodré chama "monopólio da fala". O que é o monopólio da fala? A televisão tem o monopólio da fala. Por quê? Porque poucos falam, muitos escutam, muitos ouvem, mas os emissores da mensagem, as emissoras de televisão, são um número reduzido em relação à fantástica audiência desse veículo nos dias atuais. Há realmente uma concentração, processo que é mais evidente no Brasil, onde essa concentração existe não apenas em relação ao número de emissoras, que ainda é relativamente pequeno, e eu falo aqui mais em relação ao número de redes. Não temos uma quantidade grande de emissoras regionais, emissoras comunitárias, de emissoras públicas, como em outros países, como no caso inclusive da Alemanha. Nós temos poucas emissoras de televisão, a verdade é essa. Apesar de se falar de vez em quando em festivais de concessão, ainda não existem tantas emissoras de televisão no País. Muitas áreas da comunidade não têm acesso ao veículo da televisão pelas limitações que nós já falamos anteriormente, sejam de natureza política, sejam de natureza econômica. Tudo isso, portanto, conduz para que a televisão tenha um monopólio da fala, que a mensagem transmitida pela televisão, ao contrário do diálogo, seja um monólogo.

A gente sempre imagina, nesse caso, que Cid Moreira está defronte das câmeras e do microfone da Globo, falando sozinho para milhões de telespectadores em todo o País. E com esses telespectadores ele não estabelece um diálogo, porque ele está sempre falando e o telespectador está sempre recebendo a mensagem. Não há possibilidade de alternar a situação dele como fonte da mensagem e a situação do telespectador como receptor. O telespectador vai ser sempre receptor e o Cid Moreira, a Globo ou a emissora de televisão, qualquer que seja ela, vai ser sempre o emissor da mensagem. Claro que os meios de comunicação, e aí um detalhe interessante, não estão desatentos a essas circunstâncias e procuram de alguma forma amenizar esse tipo de relacionamento com o seu telespectador. Esse relacionamento, digamos, que a gente tem poderia ser autoritário, de imposição de um determinado tipo de programação que só tem pouco tempo na televisão. Então, se argumenta: os programas culturais têm pouco tempo na televisão. A gente reconhece que têm pouco tempo. Porque nem todo tipo de programa cultural, nós vimos aqui alguns exemplos, uns produzidos na Alemanha, teriam essa possibilidade de oferecer esse retorno exigido pela própria natureza de um veículo que opera numa sociedade capitalista, onde existe a concorrência de outros emissores de mensagem.

Mas eu dizia que a televisão procura amenizar essa situação. Você vê, por exemplo, um tipo de programa: "Você decide". O que é "Você decide"? Tenta estabelecer, de alguma forma, um diálogo com o telespectador. Colocar o telespectador para participar, em vez da televisão dizer que o episódio vai terminar dessa maneira, ela coloca o telespectador para opinar a respeito. Ontem ou anteontem nós tivemos até um episódio que pode ser considerado histórico para o telejornalismo no País. Pela primeira vez, o mais importante jornal da televisão brasileira e de maior audiência, que a gente tem que reconhecer que é o "Jornal Nacional", permitiu esse processo de participação do telespectador, o chamado processo de TV interativa, num momento em que permitiu ao telespectador opinar sobre a convocação dos jogadores da Seleção Brasileira. Um tema fácil, que todo mundo entende, todo habitante, todo brasileiro é técnico de futebol. Então, permitiu-se que, discando para um determinado número, o telespectador opinasse sobre a Seleção Brasileira. Veja que situação interessante: o telespectador não apenas recebeu aquela informação de que os convocados são esses, são 22 convocados e gostou. Se não gostou, ficou por isso mesmo, ele pôde dar sua opinião. Claro que a opinião do telespectador, neste caso, não alterou a lista. A lista já estava definida e vão ser esses mesmos 22. Mas, se criou de alguma forma um acesso do telespectador à televisão.

Bom, essa situação, o fato de que a televisão tem esse processo, tem essa preocupação ou tem esse fundamento de ordem econômica por trás da sua operação, por trás da programação que ela transmite, leva a um outro detalhe que é importante para nós que vivemos nos estados, que fazemos televisão regional: a questão da programação local ou da programação nacional. Sempre que se fala em televisão se discute isso. Sempre, por exemplo, os nossos colegas de jornais estão cobrando das televisões regionais: "Por que vocês não fazem mais programas locais? Por que não fazem mais programas regionais e fazem mais programas nacionais?". Aí seria o caso do pessoal da televisão perguntar: "Por que vocês também não fazem mais jornalismo local? Por que os jornais praticamente não têm noticiário econômico nacional, contratam de agências? Por que os jornais têm noticiário nacional fornecido por agências? Têm noticiário internacional fornecido por agências de notícias?". Onde já se viu algum jornal ter correspondente internacional aqui na Bahia? Qual é o correspondente nacional que trabalha regularmente? Se não estou enganado, fora do Estado da Bahia, apenas "A Tarde" tem uma sucursal em Brasília, que opera em termos regulares de fornecimento da notícia. Todo o restante do material, que são páginas e mais páginas, dos jornais no noticiário nacional e do noticiário internacional, é fornecido por agências de notícias. Esse processo de alguma forma acontece com a televisão regional. A maior parte da programação, obviamente, é nacional, é a programação transmitida por rede. Por quê? É porque o baiano é burro e não sabe fazer televisão? É porque o empresário de televisão baiano só pensa em ganhar dinheiro e levar vantagem como Gerson? Talvez seja até um pouquinho isso. Mas não é exclusivamente isso. Esse que é o detalhe.

É evidente que o processo de transmissão de uma programação por rede através de uma rede de emissoras pertencente a uma emissora, que nós chamamos de "cabeça-de-chave", no caso a Globo, a Manchete, o SBT de São Paulo, que transmitem a sua programação para outras emissoras da rede ou para as chamadas emissoras afiliadas, como por exemplo, o caso da TV Aratu, da TV Bahia ou da TV Itapoan. Esse processo de rede permite que as emissoras possam dividir o custo de produção dos seus programas, porque, de alguma forma, essa programação é vendida às emissoras regionais. Se uma emissora baiana, por exemplo, se aventurasse, me permitam dizer isso, a produzir uma novela, ia vender para quem? Será que o Estado de Sergipe estaria interessado em comprar uma novela produzida na Bahia? Que garantia de mercado teria uma novela ou programa humorístico produzido na Bahia? Como a televisão baiana teria condições de arcar, ela sozinha, com todo o custo de produção de uma novela? Se em vez de fazer apenas dez ou quinze minutos de jornalismo local, uma emissora baiana achasse que devia fazer também o noticiário nacional e internacional, eu teria condição de ter uma grande equipe em Brasília, outra grande equipe em São Paulo, mais uma equipe menor no Rio e, mais, pelo menos um correspondente em todos os estados? Eu teria na TV Bahia ou na TV Itapoan ou Aratu condições de receber notícias, de receber informações de seus repórteres localizados nas principais cidades do mundo? Paris, Londres, Nova Iorque, Washington?

Uma televisão local poderia absorver esse custo? Por que não pode absorver esse custo? Porque não tem verba publicitária que lhe garanta sua manutenção nessa situação. Por que não tem? Porque também a verba publicitária está concentrada nas grandes agências, que têm sede no Rio e em São Paulo. Uma emissora baiana não tem patrocínio da Shell, não tem patrocínio da Coca-Cola. Tem patrocínio aqui do empresário local que não pode concorrer com a Shell , com a Coca-Cola ou com os grandes anunciantes em investimentos na área de televisão. Claro que para a emissora local interessa muito mais. Ela ganha muito mais com o anunciante local do que do anunciante nacional. Mas ela não tem como tirar do mercado local um patrocinador ou anunciante que lhe garanta um investimento necessário para contratar, por exemplo, grandes talentos artísticos. E a gente cai no negócio da produção cultural. Grandes artistas, grandes produtores de novelas. Dias Gomes está aqui em Salvador, mas segunda-feira ele vai pegar o avião e voltar para o Rio de Janeiro. Por que a gente não mantém ele aqui para produzir uma novela? Ou ter um programa aqui de Chico Anísio, ou contratar Jô Soares?

Como a TV Bahia, a TV Aratu não tem condições de ter aqui grandes repórteres da televisão. O nosso telejornalismo poderia ser de melhor qualidade, se as emissoras de televisão tivessem condições de investir em altos salários para atrair profissionais, grandes figuras da televisão que aparecem no jornal do SBT, no "Jornal Nacional" e nos outros jornais. Na realidade, nós convivemos com outra realidade. E aí eu volto à minha velha discussão: parece que eu trabalhei em jornal durante doze anos de minha vida, não tenho nada contra jornalistas que trabalham em jornal. Mas é outra cobrança que os jornais fazem da televisão. O coleguinha do jornal chega e diz: "Ora, mas eu vejo no ‘Jornal Nacional’ e quando chego no jornal da TV Bahia se sente a diferença. Eu vejo o jornal do SBT, quando entro no jornal da Itapoan é uma diferença muito grande". Claro! Aí eu pergunto para ele: "A Tarde" é igual à "Folha de S. Paulo"? A "Tribuna da Bahia" é igual ao "O Globo"? O "Correio da Bahia" é igual ao "O Estado de S. Paulo"? Claro que não é. Lá, no jornalismo impresso como na TV comercial, você também tem esse tipo de problema. Além disso, para fechar essas limitações e problemas que a televisão tem para a transmissão de uma programação que a gente gostaria que fosse mais cultural, mais educativa etc., temos de reconhecer que é uma situação que existe, que é um interesse da própria emissora. A própria emissora tem os seus interesses – econômicos, políticos etc.

Um fenômeno que se observa na televisão brasileira ou na área de comunicação do País é que cada vez mais os jornais, as emissoras de rádio e televisão pertencem não apenas a grupos tradicionais que atuavam nessa área, mas estão passando a pertencer a grupos empresariais que têm interesses que também precisam ser atingidos porque nunca estão dispostos a investir apenas na televisão sem nenhum tipo de retorno.

Só para concluir, nós vamos dizer que a televisão é parte desse sistema econômico, social e político vigente na sociedade. Seja na sociedade brasileira capitalista, seja na sociedade socialista, que ainda existe. Por exemplo, em Cuba. Ontem [11/5/94], o presidente Fidel Castro esteve em Salvador. Não vamos ser ingênuos a ponto de permitir ou a ponto de pensar que a televisão em Cuba possa funcionar como elemento de contestação ao regime vigente em Cuba. Ninguém vai admitir esse tipo de coisa. Claro que ela é condicionada ao sistema político vigente lá. Então, de alguma forma, mudar a televisão poderia significar ou poderia implicar numa mudança do sistema ou numa mudança do regime capitalista, do regime que a gente vive atualmente. E isso seria possível. Mas, às vezes, o problema é tão complexo que quando a gente pensa, por exemplo, que, pelo que você disse, a economia, o dinheiro mandam na programação da televisão. Não. Morre Ayrton Senna e a pressão popular, a pressão da audiência do público é tão grande que leva a televisão a esquecer um pouco o aspecto econômico.

As televisões pararam de transmitir a sua programação normal, pararam de transmitir a sua programação de anúncios para transmitir a morte de Ayrton Senna. Por quê? Porque a transmissão da morte de Ayrton Sena, embora a gente ache que foi um espetáculo de morbidez, de mundo cão etc. estava acusando números altos no IBOPE de todas as emissoras de televisão. Então se chegou a uma situação curiosa: no enterro de Ayrton Senna as emissoras de televisão ficaram disputando qual era a última que saía. O caixão já tinha descido, se jogava a terra em cima do caixão de Ayrton Senna e todo mundo estava lá transmitindo. Ninguém queria ser o primeiro a sair. Porque aquilo estava permitindo à emissora uma grande audiência, embora houvesse prejuízo na área econômica, porque não estavam transmitindo comerciais. As emissoras passaram dois ou três dias com a programação comercial totalmente abandonada. Aí vamos chegar à conclusão: é o público que manda na televisão? Quem sabe? É difícil.

A última edição da "Revista de Imprensa" [abril de 1994] traz uma declaração interessante de uma pessoa insuspeita que a gente não pode dizer que não conhece televisão: Chico Anísio. Passou sua vida toda na televisão. Olha o que ele está dizendo: "Quem manda na programação da Globo é a imprensa". A partir do momento em que ele acha que a imprensa dá muito mais cobertura a esse tipo de programa, "TV Pirata" etc., a "Escolinha do Professor Raimundo", argumenta que os programas dele têm um número de audiência muito maior do que esses outros programas, mas não têm a necessária cobertura da imprensa que ele achava que seria justo. Então ele reclama da direção da Globo. Que a Globo agora já não está indo mais pelo gosto popular, pela audiência ou pelos seus interesses, passando, de alguma forma, a condicionar sua programação pelo que a imprensa diz, sobre se este programa é bom ou ruim.

Só para encerrar, é que a televisão é um processo complexo e a gente precisa entendê-la como tal. Sempre batendo naquela tecla: televisão não é uma coisa isolada, televisão é reflexo, é espelho de determinada sociedade e em determinado período de tempo, que privilegia ou repudia determinados comportamentos sociais, determinados tipos de relacionamento com o poder político que, às vezes, é bem rigoroso, outras vezes é mais frouxo. Hoje, praticamente, o controle é pequeno em relação ao poder público, mas, no fundo, a televisão está condicionada a esses fatores. Por isso, na televisão comercial, no Brasil e nos países onde existe esse sistema, a gente dificilmente chegaria a uma situação igual à exposta pelo nosso colega da Alemanha, em que os programas culturais existem, que ele defende até a tese que esses programas devem aumentar de tempo e ganhar mais tempo na televisão, apesar da audiência ser pequena. Na televisão comercial no Brasil e nos países de processo semelhante, isso seria difícil, quase impossível, pelos argumentos que a gente levou aqui e outros que podem surgir numa eventual discussão.

Muito obrigado


  Comentários

Vera Martins

Eu já tive oportunidade de frisar que a televisão no Brasil, por ser um veículo tão poderoso, um veículo de massa, tem um alcance muito grande, e fantástico, implicando também num risco muito grande, que merece uma grande preocupação por parte de todos nós (profissionais de comunicação e professores), exatamente porque há toda essa implicação que o professor Carlos Libório colocou, como se fosse um círculo vicioso.

As emissoras são controladas por empresários, obviamente que visam ao lucro, pois sem lucro nada pode ser feito. Então, as emissoras ficam totalmente dependentes da audiência. Se não tiver audiência, o programa pode ser retirado do ar ou modificado. O telespectador pode ver o personagem de sua novela preferida ser assassinado, seja lá o que for. Enfim, isso aí cria uma situação difícil.

Na minha opinião, é implícito que a televisão visa ao lucro sim, mas há um compromisso educativo também. Claro que um empresário ao receber de presente uma concessão de um canal que é tão disputado, como foi a última vez: o Sílvio Santos disputou com a Abril, disputou com o Jornal do Brasil, também a Manchete disputou. Enfim, há também um compromisso implícito e explícito nesse aspecto. Então, não é simplesmente dar aquilo que o povo quer, porque, na verdade, a televisão reflete o que a população brasileira quer.

Os editores da Globo argumentam o seguinte: a programação da Globo é feita para uma grande massa, aqueles 50 milhões de pessoas que assistem à Globo. Não é feita para a gente, nós que estamos aqui. Quando Boni pensa na programação da Globo, Boni não pensa em atender aos nossos interesses. Ele pensa naquela grande massa de brasileiros, numa grande maioria que sequer tem dinheiro para comprar e ler o jornal, que às vezes vive até aquele sonho de ver a novela, ou acha que está consumindo algo importante. Embora, eu ache que esta situação tem mudado, à medida que também vai mudando a situação do País, pois os interesses populares também estão mudando. Aí é que vejo o grande desafio da televisão. Seja aqui, na Alemanha e até mesmo em outros países. Acho que não se conseguiu ainda essa sintonia com a aspiração popular e com o povo. Quando se conseguir essa sintonia, aí se conseguirá audiência também para um programa cultural, hermético, um programa que naturalmente devesse ter uma expectativa apenas de 5% de audiência.

Eu lembro que quando trabalhei em televisão, em várias emissoras, inclusive na Aratu, quando era afiliada da Globo, foi uma luta muito grande para convencer o diretor de programação que deixasse de programar um filme de fim de noite, às 11 horas, mais ou menos, para se colocar no ar o jornal da Globo, que na época chamava-se "Amanhã". Era um jornal novo que surgia e foi uma luta porque os números mostravam que o filme, por pior que fosse, um bang-bang à italiana qualquer, dava mais audiência que o jornal. Estou me referindo ao jornal que hoje foi transformado em "Jornal da Globo". Naquela época, era uma época fechada, o jornalismo era também anódino, era um jornalismo nada interessante porque a ditadura não permitia, o sistema político era bastante fechado.

No entanto, hoje é diferente. Muito pelo contrário, o jornalismo é, eu diria, o material nobre da televisão. Tanto que mais e mais programas jornalísticos estão sendo produzidos. Domingo estréia Marília Gabriela em novo formato, o padrão "global" que antigamente era exigido para as pessoas, para jornalistas, para telejornalistas, graças a Deus caiu. Antigamente, eu alcancei essa época, um repórter de televisão, para trabalhar em uma emissora afiliada da Globo, tinha que ser bonito ou bonita. Se tivesse olho azul, sotaque carioca, já tinha 80% de chance de ser contratado. Não precisava nem ser jornalista, ser competente, ou ser bem informado. Porque na época não se exigia tanto do profissional. A própria repórter já saía com as perguntas prontas e não podia questionar muito. Então, não precisava de jornalistas competentes. Hoje [1994] é o contrário. Esse padrão "global", mesmo o padrão de jornalismo, caiu. Hoje as pessoas querem credibilidade. As pessoas querem de um comentarista ou de um apresentador de televisão, não que seja jovem, bonitinho, charmoso, mas que demonstre e passe confiança. Que as pessoas ouçam e vejam aquela notícia e acreditem. Então, acho que há essa mudança também.

Outro comentário que eu queria fazer, rapidamente, é sobre a questão da produção local. Claro que você imaginar fazer novela ou fazer produção teatral ainda é um sonho. Há uma lei em curso, um projeto de lei no Congresso que destinaria 30% das produções das TVs locais para produções locais. A produção local fomentaria o mercado de trabalho. Mas o que se reivindica quando se pede produções locais, claro que analisando a realidade não seria tão conveniente. Agora, não seria possível fazer produções teatrais, novelas etc., mas se pede mais jornalismo local, por exemplo. Não seria o caso de fazer jornalismo internacional. Isso aí a agência faz, claro, faz até muito bem. Não precisaria disso não. Mas eu sei que há dificuldades, e não estou falando só da Globo não, eu falo também do SBT. Se no SBT alguém quiser propor um programa jornalístico, um programa de entrevistas à noite, num horário nobre, um programa de entrevistas local, com políticos locais, empresários, um programa jornalístico local no horário nobre ou no fim de noite, na TV Itapoan, que é afiliada ao SBT, vai ter dificuldades também. Provavelmente não vai ter horário, não vai ter uma janela disponível. As redes comandam. As redes realmente monopolizam a programação, e um exemplo muito claro disso acontece durante o carnaval. Lembro que era tradição da TV Itapoan fazer uma boa cobertura de carnaval justamente porque ela não estava atrelada a uma rede assim tão fechada, como era a Globo já naquela época. Então, a Itapoan podia botar suas câmeras nas ruas. Alcançava uma audiência também muito grande. A TV Aratu na época que era afiliada não conseguia tanta audiência. Perdia, porque colocava apenas flashes, curtos flashes do carnaval, de duas em duas horas, de quatro em quatro horas, nos jornais e nos telejornais. E a TV Itapoan ficava direto no ar. As pessoas ligavam para a TV Itapoan para ver o carnaval de rua. Nos últimos anos tem acontecido o contrário: a TV Itapoan não pode mais colocar, não sei se vocês têm observado isso, mas não pode mais transmitir carnaval porque a rede não permite, a rede não dá espaço. Há um problema aí do atrelamento das emissoras afiliadas locais às grandes redes que são cinco ou seis, fora algumas independentes, no máximo. Isso aí é um problema sério.

Para terminar, eu acho que essa questão de se fazer um programa cultural que atenda à população é um grande desafio.

Eu queria concluir falando também da minha experiência na TV Educativa. Fui coordenadora da TV Educativa e, por muito tempo, também da parte de jornalismo. Acho que é uma lástima até quando se pensa na TV Educativa também como uma TV comercial. Pois é isso que acontece no Brasil em geral. A TV Educativa deveria ser uma rede que desse espaço até para se fazer experiências e que não tivesse essa preocupação tão grande com o lucro. Lembro que, não em minha época, a TV Educativa daqui tinha um programa de esportes que dava audiência e às vezes podíamos assistir horas, horas e horas de transmissões esportivas. Me pergunte o que é isso? A TV Educativa é financiada pelo povo, pelo imposto que a gente paga, mas, transmitindo o mesmo que a TV comercial, acaba competindo com a TV comercial. Hoje está até diferente, vai melhorando, mas se vocês observarem bem a programação de uma TV educativa e a de uma TV comercial, vão constatar que não há muita diferença, porque elas acabam entrando nessa luta também pelo lucro. Acabam buscando também o lucro. E isso, na minha opinião, é um erro, um erro grave.

Não lembro se as pessoas ficaram surpresas com a exibição aqui de alguns programas da TV alemã, mas eu lembro que a primeira vez que vi televisão na Alemanha, fiquei um pouco surpreendida. Isto porque eu esperava uma programação para um público bem diferente do que a gente está acostumado a pensar em termos de Brasil, um público de Terceiro Mundo, e no entanto, lá, vi programas típicos muito parecidos com os nossos. Programas musicais, bem populares. Eu fiquei um pouco surpresa ao ver isso porque imaginava que seria diferente. Mas eu imagino que há uma explicação específica, quer dizer, no Brasil, a televisão desempenha um papel muitíssimo importante em nível de lazer, entretenimento, enquanto que nos países mais desenvolvidos essas pessoas têm outras opções de lazer. Vão ao teatro, vão ao cinema, e a televisão não é tão importante, tão monopolizadora das atenções e das horas de lazer, como acontece aqui no Brasil.

A televisão realmente ocupou o lugar dos estádios de futebol, de tudo. Acho que, a essa altura, até o futebol está ocupando um lugar abaixo da televisão. Enfim, acho que há essa diferença. Mas isso é surpreendente.

Obrigada!


Debates do dia 12 de maio de 1994


Pergunta
Fez-se uma pesquisa e constatou-se que, em uma TV que dedica 20,5% de sua programação à cultura, ocorrem apenas 10% de aproveitamento por parte do público. Há pesquisas já feitas que expliquem o motivo de tal paradoxo ainda mais em uma nação do Primeiro Mundo? O que leva apenas 12,6% da população alemã a ter interesse real por programas de cultura?

Dirk Kaemper – Vou começar a responder a segunda parte desta pergunta. Vou começar com os 12,6%.

Estes 12,6% são o público núcleo, são aquele público interessado em programas culturais da televisão e que igualmente vai ao teatro, ao cinema aos concertos etc., ou seja, um público que tem uma ligação forte com a chamada cultura alta. Eu não conheço nenhuma estatística do Brasil, mas para a Alemanha, eu acho uma percentagem bastante alta e quando saiu a estatística eu nem esperava uma percentagem tão alta.

A primeira parte da pergunta naturalmente foi investigada a razão. O problema consiste no fato de que nas redações, os jornalistas não conseguem se decidir bem, para quem estão fazendo aquele tipo de programa de cultura. Mas, mesmo assim, continuando nos nossos conceitos, talvez melhorando um pouco mais os conceitos visuais, fazendo mais pesquisas sobre os reais interesses do público, talvez pudéssemos até aumentar mais um pouquinho essa percentagem. Outra explicação é que nesses 20% de ofertas de programas culturais, tem-se que considerar o fato que há uma grande variedade de diferentes programações culturais. Ou seja, esses 20% incluem uma série de programas para as minorias. E é natural que um programa dirigido para minorias só seja aproveitado por minorias.

PerguntaO que justifica o fato de um povo tão sedento em relação a programações culturais bem elaboradas não dar audiência para esses programas? É o simples fato de que a maioria da população brasileira, grande parte analfabeta, não possuir o hábito de convívio com a cultura?

Carlos Libório – Na realidade, a população brasileira não parece tão sedenta assim por esse tipo de programa. A cultura do povo brasileiro não é essa cultura erudita ou, o que está impregnado na alma do povo, não é esse tipo de programação mais erudita, mais complexa. Vamos aceitar a nossa cultura como nós somos. A cultura também é carnaval. Cultura é música. Cultura é futebol também. Então, a gente tem que aceitar a cultura brasileira que se manifesta também nesse aspecto e leva a que esse tipo de programação pareça um pouco fora da realidade.

Dirk Kaemper [em aparte] – Eu gostaria de me referir à pressão econômica que existe em cima das televisões comerciais. Nós temos, na Alemanha, o mesmo fenômeno. Nós temos a televisão comercial na Alemanha. Mas, como eu já disse, esses canais comerciais, por lei, são forçados também a transmitir programas culturais. E isso com absoluta independência redacional. Então são programas culturais que têm audiência. E, mesmo assim, por exemplo, um dos canais comerciais da Alemanha com todos os programas culturais, inclusive, em apenas três anos se transformou na maior e mais rica estação comercial na Europa. Por isso eu acho que tanto uma programação orientada por suas finalidades comerciais quanto uma programação cultural podem existir dentro de um mesmo canal comercial.

PerguntaVocê afirmou que mesmo nas TVs comerciais as programações culturais visam atingir um público de massa. Como você explica a veiculação de programas culturais nos horários menos assistidos? Devemos acreditar que a TV brasileira procura apenas obter lucro? O que você acha de se produzirem programas culturais de alto nível e se buscar a audiência?

Carlos Libório – Eu não disse que mesmo nas TVs comerciais as programações visam atingir um público de massa. Eu disse que a televisão comercial visa, sobretudo, atingir o público de massa. Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Claro que como profissional de televisão eu sou favorável que se produzam programas culturais que possam ser assistidos por uma maior parte da audiência em horários maiores, mas seria absolutamente contraditório em relação ao que eu confirmei anteriormente se eu achasse isso. Digamos, é fácil, é possível de um momento para outro. A gente volta àquela velha história: a televisão tem que obedecer às suas regras, aos seus limites. A televisão não é uma coisa perfeita, se fosse perfeita, o que seria dos outros veículos? Há muita gente que diz: "A televisão é superficial, eu vejo o telejornal e não soube tudo". Espera aí, você não quer ler um jornal no dia seguinte, não? A televisão apresenta. É hoje o principal veículo informador de primeira mão das notícias, mas não esgota todo o assunto. Existe o rádio, existe o jornal, existe a revista, no dia seguinte, para complementar essa informação. Essa é uma limitação que a televisão tem. Para que a gente tenha essa televisão que permita, por exemplo, a transmissão da chegada do homem à Lua ou da morte de Senna no momento em que ele dirigia o carro, para que a televisão tenha essa capacidade, tenha condições econômicas de fazer isso, a gente tem que se submeter a esse tipo de regra. Não é que se vise exclusivamente ao lucro, mas o lucro é parte componente do negócio da televisão e não podemos perder isso de vista sob pena de ficar aquele pensamento de que a televisão é uma coisa isolada, que a televisão é assim ou assado porque os dirigentes da televisão só pensam em ganhar dinheiro. Pode até ser, mas não é exclusivamente por isso. Há fatores que condicionam a produção, a programação da televisão, e exatamente isso atinge essa programação cultural. Então, a televisão faz cultura? Como eu disse: dentro de determinadas garantias. Vamos colocar num horário menos problemático. O que aconteceria, por exemplo, se saísse a novela das oito e meia e entrasse um programa de concertos? Que diretor de televisão poderia bancar esse tipo de alteração na programação? E eu vou dizer uma coisa por experiência própria: talvez seja preferível a televisão atual com todos esses problemas e condicionamentos, mas, uma televisão, digamos, em condições de operar, de transmitir, de produzir esse tipo de programação que a gente tem do que a televisão sem condições financeiras, sem condições econômicas. Essa situação é que é dramática, quando não leva ao fechamento do canal e ao desemprego, como aconteceu nos Diários Associados, leva a um funcionamento precário, à falta de condições de trabalho, a um desestímulo, a uma situação em que a empresa anda se arrastando. E, essa sim, essa televisão é que não tem condição de oferecer nenhum tipo de programação de boa qualidade, seja ela cultural, informativa ou de que natureza seja. Por isso é que eu sou um pouco cauteloso com esse negócio. Entre uma coisa e outra, entre essa televisão "lucrativa" e uma televisão que não visasse lucro, mas que não tivesse condições de transmitir uma programação que pudesse ser consumida pela população, qual seria a melhor opção? Eu tenho muita dúvida se seria optar simplesmente pela programação cultural, mas sem condições econômicas por trás para permitir uma boa operação, uma boa transmissão, uma mensagem de boa qualidade de alguma forma.

Sérgio Mattos – Só completando o que Libório disse, gostaria de lembrar. A gente não pode esquecer que a televisão em si é um veículo de massa, quer dizer, independentemente de ser comercial, privada ou pública, seja lá o que for, a televisão é um veículo de massa.

PerguntaÉ radicalismo demais o estereótipo de utopia em relação a uma programação cultural na TV privada que atraia e mantenha viva a motivação da grande massa. Visto que tal fato não ocorre somente nos países rotulados de terceiro-mundistas, como o Brasil, mas também nos países desenvolvidos como a Alemanha, onde reina aos quatro cantos o paradigma de um povo alfabetizado, culto e, por conseguinte, mais sensível e atento à valorização de suas raízes históricas como de suas produções sócio-culturais e que supostamente se deveria constituir um público-alvo maior neste país?

Carlos Libório – Essa pergunta envolve muitos aspectos, mas eu queria dizer que a gente chegou, falou de normas, de regras, de limitações da televisão, mas é evidente que nós não estamos tratando de uma ciência exata, de regras definitivas etc. O que é exatamente cultura é essa coisa de discutir, de questionar, de provocar mudanças. Então hoje eu diria que a televisão opera dessa forma, mas não significa que isso vá continuar permanentemente.

A televisão estará sujeita a esses condicionamentos, mas por pressão da própria sociedade, por mudanças sociais, por mudanças de ordem política que venham eventualmente a acontecer no País, a televisão vai mudar. Portanto, permaneço coerente com o que afirmei anteriormente: a televisão não é uma coisa isolada, não é uma coisa separada. A televisão é o reflexo, é o espelho de uma determinada sociedade em um determinado tempo. Mudando-se a sociedade, quem sabe se a televisão não vai mudar também e vai fazer esse tipo de programação que, de alguma forma, parece ser uma aspiração das classes mais beneficiadas culturalmente, mas que, infelizmente, ainda não é uma aspiração, ainda não é uma vontade da maioria da população do País?

PerguntaPor que a televisão não divulga mais eventos culturais, aumentando assim sua participação no que diz respeito à programação cultural?

Carlos Libório – Fazer programa cultural de eventos culturais é muito fácil. Tem uma grande vantagem sobre qualquer outro assunto: tem data, local e hora marcada. Isso para qualquer pauteiro de televisão é ideal. Manda fazer a estréia da peça tal, manda fazer o lançamento do livro de poesia da poetisa fulana de tal, manda fazer a palestra do sr. fulano de tal. Mas será realmente que é esse tipo de programação que interessa ao nosso telespectador? É uma coisa que a gente não pode perder de vista, quando se fala em mudanças ou programação cultural na televisão.

PerguntaO processo jornalístico passa por um processo público dos fatos. Em que se enquadra o telejornalismo da TV Bahia? Onde se evidenciam os feitos políticos de seus proprietários?

Carlos Libório – Se enquadra no que eu disse aqui: nas limitações, na realidade em que operam as emissoras de televisão. Tanto a TV Bahia como qualquer outra emissora. O profissional de comunicação que trabalha hoje na televisão tem que conviver com essa realidade. Claro que ele deve atuar dentro de padrões éticos. Mas essa é uma realidade que eu não posso chegar amanhã na TV Bahia e dizer: fulano de tal não manda mais aqui, agora vou assumir e fazer o tipo de programa que eu quiser. Isso é uma coisa que não existe na realidade. Agora, o profissional pode trabalhar dentro dessas limitações, dentro dessas condições, dentro de determinados padrões éticos. Ter um tipo de informação ou tipo de posições políticas que a TV Bahia não privilegia ou até não dá cobertura, mas outras emissoras dão.

Aí eu pergunto: se a gente tivesse apenas uma emissora oficial, que desse apenas uma única verdade, essa situação seria melhor do que várias emissoras, mesmo pertencentes, mesmo ligadas a correntes políticas diferentes? Você não acha que é mais democrático ter emissoras que têm essa ou aquela posição do que ter uma única voz oficial? Do que ter uma televisão oficial e estatal que, além de chata, esse sim é o monopólio da fala, é um monólogo? Pelo menos você tem uma possibilidade que o telespectador às vezes esquece. A televisão é tão poderosa que o telespectador às vezes esquece que ele pode mudar de canal, ele pode desligar sua televisão. Se você ver na TV Bahia, na TV Aratu, na TV Itapoan, aquilo que você não gosta, aquilo que você não concorda, você tem um recurso, desligue, mude.

Pergunta O programa "BA-TV" é uma detonação óbvia da manipulação política na Bahia? Vale questionar até quando merece respaldo, autenticidade, a postura ideológica de um jornalista que participa da elaboração desse tipo de programa. Desejaria o seu comentário a respeito de tal questão.

Carlos Libório – Eu já estou numa fase que não preciso passar atestado de minhas posições ideológicas, políticas etc., isso já ficou para trás há muito tempo. Eu não tenho essa preocupação. Vim aqui para transmitir uma experiência que acumulei durante meu tempo de televisão. Se eu não fizer o "BA-TV", outro jornalista vai fazer. Acho que se estou lá fazendo é porque acham que, de alguma forma, faço bem. Se algum telespectador ou alguma pessoa discorda do posicionamento da TV Bahia, é um direito que a pessoa tem. Como eu discordo do posicionamento de muitos veículos de comunicação na Bahia ou no Brasil. Eu não discuto muito essa questão.

PerguntaQual é a participação dos alunos da Faculdade de Comunicação no mercado de trabalho? Eles sabem que o mercado é assim como foi exposto pelos conferencistas?

Vera Martins – Se eu entendi bem, você quer saber qual a participação que os alunos da Faculdade de Comunicação, que é quem se habilita para Jornalismo, têm no mercado e se eles sabem que o mercado de trabalho é isso.

Nós temos uma lei de regulamentação da profissão que proíbe pessoas não-habilitadas, que não têm diploma de exercer essa função, a função de jornalista, mesmo que em televisão. A situação aqui é diferente da Alemanha. Lá é exigido um diploma universitário, aqui não, tem que ser formado em Jornalismo. Essa relação tem melhorado bastante porque antigamente essa lei era completamente burlada e quando não se exigia também competência, não se exigia informação dos profissionais, principalmente dos que faziam Jornalismo. Na época dos tempos mais fechados, mais sombrios, quando se exigia basicamente o visual, beleza plástica e tal para se trabalhar na televisão, raras pessoas eram jornalistas provenientes da Faculdade de Jornalismo. Lembro-me perfeitamente que trabalhei na TV Aratu: eu era subchefe do departamento e a única jornalista formada era eu. Tinha o chefe de jornalismo que era jornalista profissional por tempo de serviço. Quer dizer, ele tinha conseguido ser regulamentado por trabalhar em jornal há mais tempo, antes da lei. Então, era uma situação bem pior. Só que não existia outra pessoa e eu brigava muito até para que contratassem jornalistas. Na época, as pessoas não se interessavam porque trabalhar na televisão não era interessante. Os estudantes e jornalistas iam questionar mais e não era conveniente naquela época. Agora, não. Agora, a maioria passa ou passou pela escola, embora ainda uma grande parte esteja em situação irregular porque não é permitido estagiário. Esta é uma questão de mercado de trabalho, uma questão econômica e que também ainda é encontrada nos jornais impressos. A utilização de muitos estagiários e estudantes por uma questão de economia é um ponto negativo. O ponto positivo que eu vejo nesta relação da escola com as emissoras de televisão é que as emissoras realmente têm preferido e têm dado mais espaço para pessoas vindas da Faculdade de Comunicação. Sinal de que a Faculdade, bem ou mal, com todas as suas deficiências, tem servido de alguma forma.

O professor Libório poderia dar sua opinião também, porque lá no Departamento de Jornalismo da TV Bahia, a maioria, pelo que me parece, vem da Faculdade de Comunicação. Eu particularmente sempre defendi isso e sempre dizia também às pessoas que eram contra: eu prefiro trabalhar com gente que vem da escola porque eu vejo, realmente eu sinto a diferença. Têm suas deficiências, mas eu sinto uma diferença muito grande. Quando eu chefiava uma equipe, montava uma equipe de televisão, a diferença era muito grande entre uma pessoa que não passava pela faculdade e a outra que passava. Isto porque, no mínimo, essa pessoa, se ainda não dominava a técnica jornalística, tinha pelo menos a percepção exata do que significava a ética jornalística e a função social do jornalista. Isso é fundamental. O jornalista precisa saber que ele tem uma função social, que ele não está ali na televisão para aparecer, porque ele não é ator, ele não é artista, não está ali para dar autógrafo nem nada. Ele está para servir a comunidade. E isso é muito importante. Quem passa pela escola pelo menos aprende isso.

PerguntaComo fica a experiência da RBS no Rio Grande do Sul sob a ótica de dominação das grandes redes? Será que toda programação procura atingir uma audiência de massa? E a segmentação específica, cada tipo de público, inexiste nas redes comerciais? Tudo é "global"?

Carlos Libório – Citaram aí um exemplo de uma organização que tem uma grande importância e que de alguma forma é um modelo para as emissoras regionais. É a RBS. Realmente é uma organização competente, uma organização em que certos aspectos de informatização chegaram em determinados períodos a estar adiante da Globo. Basta lembrar que a RBS fez a totalização da apuração, paralela à que a Globo fez nas últimas eleições. Todos nós que trabalhamos em televisão regional gostaríamos de ter como exemplo a RBS do Rio Grande do Sul. Mas vale considerar um aspecto: o Rio Grande do Sul é um mercado atípico, é um mercado diferente do mercado baiano. No Rio Grande do Sul existe um tipo de industrialização de produto final, de sapatos, de roupas etc. Esse tipo de fabricante, esse tipo de produtor anuncia na televisão, tem verba publicitária para investir na televisão. O nosso industrial, basicamente concentrado no Pólo Petroquímico, infelizmente não é anunciante dos meios de comunicação, porque ninguém vai anunciar: "Compre aqui o seu quilo de buteno, propeno" etc. e tal. Então, lá no Rio Grande do Sul existe um mercado que permite à RBS fazer um tipo de programação de excelente qualidade. Mas é bom lembrar que a programação da RBS não é uma programação exclusivamente regional. Ela tem mais do que as outras emissoras regionais têm, mas não é exclusivamente regional. Pelo contrário, todos os programas-chaves da programação da Rede Globo são retransmitidos também no Rio Grande do Sul, principalmente no horário crítico que vai de seis horas da tarde, naquela novela das seis, até a novela das oito e meia. Aí ninguém fura esse bloqueio porque essa é a espinha dorsal da programação que garante a audiência.

O jornalismo, como foi dito aqui e ressaltado pela professora Vera Martins, hoje tem um papel importante na programação jornalística. O jornalismo na televisão era uma espécie de sanduíche. Entre duas novelas ficava o jornal. Hoje o jornalismo tem uma importância considerável na programação da televisão. Tanto que você vê que nos momentos de grandes acontecimentos no País, o "Jornal Nacional" aumenta o seu tempo, invade o horário que seria antes da novela, mas logo depois se retoma a programação. A RBS, embora sendo uma organização poderosa que tem uma série de emissoras no interior do Rio Grande do Sul, de alguma forma, faz parte da rede e os programas básicos ela retransmite.

Tem outro detalhe de sua pergunta que eu acho que seria um caminho, se não a solução por um caminho: a segmentação da programação. Só que eu acho que essa segmentação para permitir um maior tempo para os programas culturais deveria ser não através das grandes redes. Essa segmentação pode ser feita através do aumento do número de emissoras, das emissoras comunitárias, das emissoras pertencentes a entidades sem fins lucrativos, das entidades do serviço público etc. Esse talvez fosse um caminho para a televisão. Colocar mais centros produtores da mensagem televisiva e aí nós chegaremos à segmentação que já existe de alguma forma nos tipos de televisão a cabo. Hoje você contrata a transmissão do filme que você quer ver, do tipo de programação que você acha mais interessante. Já é uma segmentação. A Globosat só transmite notícia o tempo todo, para quem gosta, CNN direto no ar. Oferece programas de lazer e entretenimento, oferece filmes e oferece, em outro canal, programas culturais. É evidente que isso ainda não é um processo popular, ainda exige um alto investimento de quem vai adquirir, mas você hoje já pode ter. E se morar em São Paulo, você tem à disposição o tipo de programação que você desejar, inclusive, para quem gosta, uma programação toda cultural se você assim preferir.

PerguntaLembro-me de programas como "Vila Sésamo", que me ensinaram a matemática com os personagens Ênio e Beto cortando bolo e me ensinando a fração. Estou hoje com 28 anos e nunca mais vi coisas semelhantes. Era possível naquela época tal benefício para o povo e agora será que temos que conviver com Xuxa, "TV CollOsso", Angélica e outros que nem conseguem passar o nosso lado brasileiro extremamente musical? Creio que precisamos de uma resposta logo. O senhor fala de um povo analfabeto, mas que quer ver algo melhor.

Carlos Libório – Esse é um tipo de programa que de vez em quando se pergunta: por que não se retorna aquele tipo, especificamente "Vila Sésamo" e o outro das histórias de Monteiro Lobato. Eu acho que esse tipo de programa vai retornar ou pode retornar à televisão. Só que realisticamente eu acho que eles só vão retornar quando acontecer, quando houver aquelas condições a que nós nos referimos aqui: a possibilidade de que eles atinjam uma audiência que garanta o retorno dos investimentos feitos pela emissora na produção do programa e que os anunciantes participem patrocinando esse tipo de programa. Quando isso acontecer, não tenha dúvida, eles vão voltar à televisão.

Sérgio Mattos – Eu complementaria Libório, dizendo que o programa "Vila Sésamo" saiu do ar em vários países do mundo porque tinha uma conotação estrangeira. Era uma experiência americana influenciando um método. Então, o Brasil substituiu "Vila Sésamo" pelo "Sítio do Pica-pau Amarelo", que, por sinal, foi considerado pela Unesco como o melhor programa educativo do mundo.

PerguntaO senhor não acha que as telenovelas às vezes contribuem para maior alienação do povo levando-se em consideração a grande massa, ainda que se diga que alguns temas versam sobre fatos do cotidiano?

Carlos Libório – Eu acho que houve uma mudança considerável na temática das telenovelas. Não é minha especialidade, não sou um dos telespectadores mais assíduos de novela. Se a gente se lembrar de uma das primeiras novelas que começaram a fazer sucesso no Brasil, era tipo novela chique, de adagia etc. Escrita pela mulher do nosso querido Dias Gomes, a falecida Janete Clair. Houve uma mudança considerável na temática da novela. As novelas hoje são bem mais reais e mais atuais. Acho que nós não devemos desprezar a novela como um gênero, porque é um gênero que a televisão brasileira se afirmou a ponto de no momento a televisão portuguesa estar exibindo atualmente quatorze novelas produzidas no Brasil. As novelas da Rede Globo já correram o mundo, da China aos Estados Unidos. Então eu acho que a novela não é uma coisa assim que a gente deva abominar, embora haja um pouco de excesso de novela na televisão. Hoje a gente pega "Vale a pena ver de novo", novela das seis, novela das sete, novela das oito e entra pelas minisséries, que terminam sendo um gênero de novela. Embora a gente tenha que reconhecer que para a Globo seria muito melhor importar filmes do que produzir uma série das chamadas "Séries Brasileiras" que exigem um investimento muito alto.

A Globo é considerada hoje a quarta maior rede de televisão do mundo. E dentre essas quatro redes, a Globo é a emissora que tem a maior programação local, no caso programação nacional. Quem quiser vá aos Estados Unidos para ver que tipo de programação a televisão de lá oferece. Uma grande quantidade de filmes. Filmes velhos, cowboy, aquelas comédias lá do "tempo do ronca". Eu estive recentemente nos Estados Unidos e vou confessar uma coisa para vocês: o que a televisão americana tem melhor do que a brasileira é o jornalismo. Fora o jornalismo, a televisão americana, para mim, não é melhor do que a televisão brasileira, incluindo aí os musicais, as novelas etc. A televisão americana tem muito gameshow, talkshow etc. Por sinal, quando chega lá, você começa a ver certas coisas que acontecem nos programas de televisão. Tem um programa de talkshow na televisão americana que tem um copo parecido com o copo de Jô Soares. Só que lá a diferença é que o copo fica na mesinha do entrevistado e não na mesinha do entrevistador.

Vera Martins – O formato do programa do Jô Soares, inclusive, foi todo calcado em cima do talkshow americano. Uma vez eu disse isso em sala de aula e acharam um absurdo. Desde que eu era criancinha já ouvia falar que Jô Soares era inteligentíssimo, que ele tocava não sei quantos instrumentos naquela época. Mas "Jô onze e meia" é um programa que realmente foi todo calcado nos programas de talkshow americanos.

Carlos Libório – A maioria dos programas é copiada. O programa "Aqui, agora" foi copiado da televisão argentina. É um estilo de sair com a câmera atrás dos bandidos e atrás da polícia que você vê na televisão argentina. É uma importação. Tem muitos quadros do programa de Gugu que parecem quadros dos programas de auditório da TV americana. Isso aí a gente tem que reconhecer. A novela é o único gênero que o Brasil não copia. Por que o padrão do jornalismo brasileiro é reconhecido, todos sabem que é importado do americano? Até essa maior quantidade de intervenções ao vivo dos repórteres na televisão brasileira, que passa cada vez mais a ser feita ao vivo, já é coisa que vem acontecendo no jornalismo americano.

PerguntaPor que a existência da televisão, informática, cibernética, tecnologia de ponta etc. quando na Alemanha, que é do Primeiro Mundo, existe cultura viva, cinema, teatro, museus, dança, folclore, ópera, restaurantes etc.?

Dirk Kaemper – Todas as tecnologias mencionadas nessa pergunta são tecnologias que aparentemente facilitam as coisas. Isso também em relação aos próprios eventos culturais. Naturalmente é muito mais fácil ligar a televisão e olhar uma peça de teatro do que pegar o bonde, o ônibus para assistir a um teatro originalmente. Eu acho que a televisão produz uma fascinação além dos fascínios de outros fenômenos culturais. Um bom exemplo seria os Estados Unidos onde a televisão foi inventada, onde tem uma dominação tão grande, uma audiência tão imensa que evidentemente esse fascínio funciona. A grande diferença para mim é de que forma a televisão faz parte da cultura de um país e como neste meio cultural a cultura acontece.

PerguntaSe é muito mais fácil a gente assistir a uma peça de teatro em casa em vez de pegar um carro para ir ao teatro, por que essa conferência não foi televisionada? Assim sendo eu a assistiria melhor dentro de minha casa?

Dirk Kaemper – Aí você não teria a possibilidade de fazer perguntas.

PerguntaQual o papel do "Bahia Eventos" na programação cultural da TV Bahia? É coincidência que os eventos que não são promovidos pela TV ou Rádio Globo não tenham cobertura jornalística da Globo, mesmo que tenham participado de oba-obas? Você não acha que tem momentos em suas colocações que você é contraditório? No primeiro momento você afirma que a TV comercial visa basicamente ao lucro e, num segundo momento, o público interfere na programação, como no enterro de Senna. Será que o interesse daquele folclore todo em torno da morte dele não seria interesse de perda de audiência das corridas de fórmula-1? Até que ponto podemos chamar isso de interferência do público, grande massa numa rede nacional como a Globo? Não seria abrir um espaço para o público para reverter essa situação em benefício próprio? É possível ao seu alcance tomar uma postura como cidadão brasileiro?

O que o senhor acha do monopólio da Rede Globo e de o Sr. Roberto Marinho ser o maior empresário do País e ter amigos em todos os poderes: Legislativo, Judiciário e Executivo? É possível reverter esse quadro de monopólio com uma pessoa tão influente assim? Será que essa postura da TV brasileira em atender aos interesses de massa, anulando quase por completo qualquer transmissão cultural não é apenas uma forma de burlar a real intenção do sistema e utilizá-la como instrumento mediador em prol de uma hegemonia de dominação?

Você não gostaria de criar um jornal clandestino para poder publicar as informações censuradas?

PerguntaNo caso da televisão, é um reflexo do querer da sociedade. Mas o senhor não acha que ela também se influencia diretamente neste querer? E não seria possível que a televisão educasse, acostumasse a população a querer programas educativos? O senhor não acha que ela tem hoje em dia essa possibilidade?

Carlos Libório – Eu concordo com você que a televisão é influenciada e influencia a sociedade. Não na medida em que muitos homens de televisão acham que podem mandar na sociedade, podem fazer ou desfazer candidatos ou até mesmo a população talvez atribua um poder exageradamente grande aos meios de comunicação de massa, que são poderosos, mas que têm suas limitações, mas que não podem tudo. Mas, nós temos que atentar também que na programação da televisão brasileira a novela que nós produzimos é um gênero que a televisão brasileira não tem concorrente no mundo, um gênero que a televisão brasileira se realiza por excelência. Nós temos de reconhecer. Não podemos deixar de reconhecer que isso também é cultura, que isso também passa informação etc.

Aqui mesmo [exibe um número da revista "Imprensa"] na entrevista, o Chico Anísio diz que a "Escolinha do Professor Raimundo" é um programa educativo. Está aqui [aponta para a revista], ele diz isso. Porque se vocês repararem, de alguma forma na galhofa, na brincadeira, na gozação, ele passa informação. Quando ele faz uma pergunta que ninguém sabe como responder, como normalmente acontece, ele dá um tipo de explicação. Então, o jornalismo que se faz na televisão brasileira também tem um aspecto cultural. Não vamos entender programa cultural como uma coisa assim, colocada numa moldura: esse programa é cultura, esse programa é educativo. Vamos entender também que tem determinados tipos de programas que se faz na televisão tipo "Globo Ecologia"; "Documento", do SBT; e muitos programas da Manchete, que têm esse caráter educativo, esse caráter cultural.

Eu não vou botar um programa dito cultural às oito horas da noite. Isso é um risco que nenhuma rede comercial vai correr, mas vai veicular cultura, vai transmitir, vai participar ou se preocupar com a educação do povo através da sua programação normal. Essa, aliás, talvez fosse uma forma, uma saída, uma etapa pelo menos intermediária para que se chegasse à televisão ideal. Que eu só acredito que se chegue no momento em que ela seja ideal para a população.

Esse divórcio que alguns setores podem pretender entre o que a televisão produz e transmite e o que a população consome, eu acho que não vai acontecer tão cedo. Aí a gente teria que mudar, não apenas a televisão, mas mudar o sistema, mudar o regime e isso é um pouco mais difícil.

Participação de um ouvinteVou mandar cortar as horas de Roberto Marinho.

Carlos Libório – Se você for cortar as horas de Roberto Marinho, vai aparecer outro empresário que vai atuar da mesma maneira, mas que não teve o sucesso de Roberto Marinho por outros fatores. Roberto Marinho existe aqui no Brasil. Na Itália existe o Bertolucci, que se elegeu chefe do governo italiano à frente de um canal de televisão. Esse tipo de problema, o telespectador e até o profissional que trabalha na televisão tem que conviver com ele.

PerguntaO que o senhor acha do monopólio da Rede Globo e do Sr. Roberto Marinho ser o maior empresário do País e ter amigos em todos os poderes?

Carlos Libório – Quanto ao monopólio da Rede Globo, pode ser que você discorde, mas eu acho que é questão de competência. Os Diários Associados já tiveram o monopólio da televisão no Brasil e faliram. Se a rede consegue se manter é porque tem algum mérito, sabe de alguma forma operar os veículos e os instrumentos que tem à sua disposição. Eu já trabalhei no Diários Associados e eles já tiveram a maior rede de televisão, de rádio e de jornais do País. Aqui na Bahia os Associados já tiveram dois jornais, uma emissora de rádio e uma emissora de televisão. Foram os pioneiros da televisão no País e na Bahia. No entanto, a empresa foi à falência. A gente viu que a Manchete já foi muito mais poderosa do que é atualmente. Por que isso não acontece na Rede Globo? É uma questão para se discutir. Será que independentemente da gente gostar ou não da Rede Globo, não existe por trás dessa máquina uma administração competente? Vamos também reconhecer esse aspecto. Se disse muito que a TV Globo teve assistência do Grupo Time-Life americano etc. No primeiro momento, isso é verdade, mas hoje a presença do Time-Life na Rede Globo seria totalmente inconveniente. Não haveria nenhum interesse da rede de ter a presença do Time-Life aqui, orientando. Por quê? De alguma forma, a Globo desenvolveu uma indústria brasileira de fazer televisão. Tanto isso é verdade que faz sucesso no exterior. A Globo já chegou a vender novela para cem países do mundo. Isso não acontece à-toa.

Participação de um ouvinteSó para lembrar: o acordo do Time-Life, que terminou sendo formalizado aqui com a Globo, seria inicialmente com os Diários Associados. E o grupo Time-Life desistiu de fazer o acordo após verificar a incompetência administrativa do conglomerado para realizar o projeto que interessava ao Grupo Time-Life.

Carlos Libório – Pois é. Você conhece bem a realidade do que foram os Associados. Viveu o bom período e viveu já uma fase de decadência. Eu, inclusive, passei por um período bom lá nos Associados e depois vivi a fase da decadência, que chegou ao ponto da gente ter que escrever o jornal atrás da lauda que recebia dos releases do governo e da prefeitura. Aproveitando a parte de trás porque não tinha papel para se escrever. A gente chegou a viver esse tipo de problema.

PerguntaSendo considerada uma potência, a televisão não poderia ajudar no desenvolvimento social? Oferecendo melhor educação através da televisão? É preocupante para mim saber que meus filhos não vão ter uma educação igual à minha, porque na época meus pais tinham condição de me dar mais atenção em casa, fora a televisão. Mas nós temos telespectadores de televisão. Babás eletrônicas que estão ali na frente das crianças.

Carlos Libório – A respeito da sua observação: eu particularmente não acredito que uma rede de televisão que tenha tido esse sucesso, como é questionado sobre a Rede Globo, tenha esse descaso para com a população. Eu acho que de alguma forma existe um tipo de ligação forte entre, digamos assim, o desejo, as ambições, as aspirações da população e o tipo de programação que é transmitido pela Rede Globo. E vou lhe dar um exemplo: o jornal "Folha de S. Paulo", todo mundo sabe que não tem uma posição simpática com a Rede Globo (eles têm lá seus problemas empresariais, aliás, tradicionalmente o jornal nunca se deu muito bem com a televisão; ambos disputam um mercado que não é tão grande assim), mas, por exemplo, quando Ayrton Senna morreu, a "Folha de S. Paulo" fez um comentário dizendo que "naquele momento, num momento de grande comoção no País, nos grandes acontecimentos, o ‘Jornal Nacional’, melhor do que qualquer outro veículo, soube interpretar o sentimento nacional". Isso é uma coisa positiva. Quando um jornal passa a dedicar toda uma edição a um evento dessa natureza.

Então eu concordo com você que são esses condicionamentos, esses limites da televisão que às vezes deformam e prejudicam. Às vezes me sinto até constrangido de assistir a uma novela ao lado de minha filha. Também tenho filha pequena. Apesar de não parecer. Mas fico meio constrangido porque a novela das seis já está meio violenta. O "Vale a pena ver de novo" transmite novela que anteriormente foi veiculada às dez horas da noite e agora é transmitida a uma e meia da tarde. Mas, é o tipo de negócio, a gente vai cair sempre nessa discussão. Mesmo achando errado, será que não é esse tipo de programação que a população aceita e acha que é bom? Deve achar, porque se não fosse assim isso não ia ser traduzido nesse nível de aceitação, de audiência da programação.

Claro que eu também não concordo. Se você examinar a programação da Globo, você vai achar uma série de programas que absolutamente não têm nada de mundo-cão nem coisa nenhuma. Se a gente pegar um programa como "National Geographic", identificará que é um programa educativo, um programa cultural. O programa "Vídeo Show", de alguma forma, é um programa cultural também. Se a gente pegar o "Globo Ciência", "Globo Ecologia", "Globo Rural", não vai achar que não é programa cultural. Não é aquele negócio de rotular um programa. Talvez a Globo saiba vender esse tipo de coisa melhor do que as outras redes.

Sérgio Mattos – Quero que vocês entendam o seguinte: televisão realmente é apaixonante, que a angústia que a gente tem em relação a este veículo é grande. A gente estuda isso o tempo todo, a gente procura ver seus pontos negativos e positivos. Claro, existem estudos que buscam entender a audiência, os aspectos educativos, históricos e até mesmo aqueles que estudam a legislação que está em vigor e seus efeitos sobre a televisão.

Foi falado aqui, neste seminário, sobre a necessidade da renovação das leis que vão reger, que vão determinar como vai ser o conteúdo, como é que vai ser a produção da televisão. Isso é coisa que a sociedade tem que começar a discutir e identificar os pontos a serem modificados. Depoimentos, todos são válidos. A gente está fazendo levantamento de tudo e a Globo também está atenta a tudo que se fala, se discute e se escreve sobre ela em particular e sobre a televisão brasileira em geral. Exemplo disto é o fato de a Globo saber de tudo que se publica sobre ela. Se qualquer um de vocês escrever uma carta para o jornal "A Tarde" ou para qualquer jornal baiano, denunciando abusos da televisão, apresentando queixas ou fazendo críticas à programação, podem ter certeza, o recorte da carta vai parar na mesa de Roberto Marinho. O serviço de informação da Rede Globo é perfeito. Eles pegam as críticas, as queixas etc. e vão analisar. Vão buscar respostas. Eles são capazes de entrar em contato com você pessoalmente para explicar as coisas. Existe isso na Rede Globo. Em qualquer parte do País que você publique uma crítica, eles recebem, vai para a mesa de Roberto Marinho. Agora não adianta, nesse seminário, a gente querer resolver todas as questões, a gente não vai poder resolver todos os problemas nem este é o fórum adequado para tal.


SUMÁRIO
Apresentação
/Introdução/Capítulo 1 – Público-alvo da cultura na TV: minorias ou audiências em massa?/Capítulo 2 – Jornalismo cultural e produção cultural: critérios de seleção e de transmissão/Capítulo 3 – Mídia impressa e mídia eletrônica: política atual e reflexo cultural