Televisão e Cultura no Brasil e na Alemanha

 

Introdução


Sérgio Mattos


Com a automação industrial, resultado dos avanços tecnológicos, passamos a viver o que pode ser denominado de uma nova fase evolutiva. Somos integrantes da nova sociedade da informática, que passou a ditar os modelos, normas e hábitos sociais que já começam a provocar mudanças e transformações em todos os setores da vida humana.

A sociedade da informática é responsável pela produção, coleta, elaboração e distribuição de informações, através da microeletrônica, semicondutores, computadores e, principalmente, pela sociedade da mídia, seja ela impressa ou eletrônica. Como parte da sociedade da informática, os veículos de comunicação de massa, dentre os quais a televisão se destaca, caracterizam-se como os elementos de maior significado cultural e político desta era, notadamente pela capacidade que possuem de influenciar na formação da consciência, tanto particular quanto pública. Isto porque é através dos veículos de comunicação que se processa a circulação das informações, que se dá a formação da opinião pública, que se propaga a cultura ideológica e se forma a identidade cultural das nações. E esta identidade político-cultural de cada país está sendo cada vez mais determinada, junto à opinião pública internacional, pela capacidade de produção da sua indústria cultural (principalmente pela capacidade de produção da indústria cinematográfica e da indústria televisiva).

Vale ressaltar que os modernos conceitos de cultura e de televisão não podem ser considerados como antagônicos, apesar da insistência de alguns, por causa da influência inegável que a televisão tem exercido sobre a história cultural de todos os países. A televisão assumiu a liderança entre os veículos de entretenimento e, em alguns países, como no Brasil, é a principal fonte de informação, senão a única, da maioria da população. Pela sua capacidade de disseminar informações e de atingir grandes audiências, a televisão se transformou numa das mais efetivas fontes de produção cultural de cada nação.

Com o processo acelerado da globalização, uma nova ordem de informação está contribuindo para acirrar a concorrência, estimulando simultaneamente uma maior diversificação e segmentação de mercados para as indústrias cinematográfica e televisiva. Este processo de internacionalização da televisão tem provocado uma concorrência cada vez maior entre as emissoras de direito público e as emissoras comerciais, exigindo a adoção de novas políticas culturais para a mídia.

Foi com o objetivo de debater esta realidade que a Universidade Federal da Bahia, através da Pró-Reitoria de Extensão e do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação, decidiu, juntamente com o ICBA – Instituto Cultural Brasil Alemanha –, promover o seminário intitulado "Cultura e Política e Política Cultural na Televisão do Brasil e da Alemanha" e que, sob minha coordenação e do Dr. Roland Schaffner, diretor do ICBA, foi levado a efeito no período de 9 a 14 de maio de 1994. Durante uma semana, com mais de 25 horas de exposições, depoimentos de profissionais brasileiros e alemães, seguidos de debates e exibição de vídeos exemplificativos, buscou-se conhecer e comparar os sistemas televisivos do Brasil e da Alemanha. A cultura e a política na televisão e a política cultural dos dois países, bem como o desenvolvimento e o relacionamento dos meios de comunicação foram debatidos e comparados, deixando um saldo positivo de informações. Naturalmente, informações não-conclusivas, mas de extrema importância para o acúmulo de conhecimentos sobre os sistemas televisivos dos dois países e que nos abrem perspectivas para entender melhor a evolução, a participação e as influências sócio-culturais deste veículo tão importante que é a televisão.

Lamentavelmente, este livro não reproduz todo o material gravado no seminário, uma vez que as fitas dos primeiros dias, quando foi discutida a política na televisão, foram extraviadas. Entretanto, considerando a importância do conteúdo das fitas recuperadas, exatamente a metade delas, que trata da parte cultural, decidimos editar este volume, contendo uma visão perfeita dos trabalhos apresentados nos três últimos dias do seminário, mais precisamente, 12, 13 e 14 de maio de 1994.

As diferenças culturais e as diferenças da evolução dos sistemas televisivos dos dois países são claras, permitindo-nos identificar seus respectivos pontos positivos e negativos.

Reunindo todas as exposições e debates realizados nos três últimos dias do seminário, pretendemos dar uma contribuição aos estudos sobre a televisão, permitindo ao leitor, inclusive, inferir e tirar suas próprias conclusões sobre, por exemplo, se o sistema de televisão de direito público (exemplo alemão) é melhor do que o sistema comercial (exemplo brasileiro); se o conceito de programação cultural da televisão pública da Alemanha é melhor que a programação cultural da TV comercial brasileira, e assim por diante.

O leitor poderá, também, ser instigado a responder outros questionamentos tais como: qual é a política cultural de cada um dos dois países para a televisão? A concorrência frenética pela maior audiência prejudica o produto final da TV ou os lucros obtidos ajudam a produzir programas mais competitivos e de melhor qualidade técnica? Perguntas como estas ficam no ar e merecem uma atenção mais aprofundada, que esperamos seja motivo de novos estudos ou seminários, como este, visando esclarecer esses pontos.

Enfim, esta introdução é apenas um convite ao leitor (seja ele um profissional da comunicação, um estudioso dos veículos de massa ou um consumidor dos conteúdos televisivos), para que leia as informações aqui contidas e comece a descobrir como a televisão se transformou no maior meio de informação e de entretenimento da atualidade e como interfere na produção cultural de um país. Como cidadãos, participantes que somos da nova sociedade da informática, precisamos procurar entender como a transmissão de informações pelos veículos de comunicação atua na formação da consciência, tanto dos indivíduos como das instituições, sejam públicas ou privadas.

Salvador, maio de 1997.


SUMÁRIO
Apresentação
/Introdução/Capítulo 1 – Público-alvo da cultura na TV: minorias ou audiências em massa?/Capítulo 2 – Jornalismo cultural e produção cultural: critérios de seleção e de transmissão/Capítulo 3 – Mídia impressa e mídia eletrônica: política atual e reflexo cultural