Nas Teias do Mundo

Terceira Etapa

Mundo de sombras
Seca
Sinfonia do amor
Desejo ancestral
Comunicação
Chuva de verão
Círculo vicioso
A ilusão pertenceu-me
Tudo que fui
Condenado
Burguês desamparado
Rebeldia
Tarde chuvosa
Confissão
Quando sinto
Sonhei horizontes
Nostalgia
Decepção
Registro
Caminho da esperança
Cinzas

 

"Criaremos uma pequena história
maligna e sombria, quando por sinônimos,
dissermos a verdade lôbrega com
barba de três dias"

(Jorge de Sena)


 

 MUNDO DE SOMBRAS
a Genival Freitas

Forjei um mundo de sombras desconexas
onde as flores eram regadas com lágrimas:
A solidão me fez companhia
e juntos afogamos todas as flores...
(1970)

 SECA

Cavalguei pesadelos em nuvens brancas
e cantei como cigarra no verão
Andei rios em terra de céu azul,
onde vida - e - morte é sol.
(1970)

  SINFONIA DO AMOR

Há pássaros noturnos que cantam
no alto das casas
Há nuvens brancas na noite
no alto dos céus
Há braços e pernas que dançam
sob uma luz de sombras
e um murmúrio de lágrimas:
- a dança do amor é densa
(1970)

  DESEJO ANCESTRAL

Desejei ser um fóssil
da criação
chorei larvas
e comi carvão.
Foi tudo ilusão...
(1970)

  COMUNICAÇÃO
a Quintino de Carvalho

O mundo fatigado cai numa máquina de jornal
onde uma angústia permanente em busca da verdade
a todos cega: apenas a notícia existe.
Sinto, não vejo, violência, injustiças e explosões...
Triturar o sentimento é uma fórmula
- a comunicação mágica está no corpo
destroçado das manchetes!
(1970) 

  CHUVA DE VERÃO

Raio
quente.
Chuva
fria.
Trovão
no coração
da amada.
O
raio
regou
regaço
da
amada.
O raio
partiu
pariu
pereceu
de saudades
numa noite
de trovoada...
(1970)

CÍRCULO VICIOSO

Num círculo de palavras
me feri e num círculo,
ou circo, me refiz.
Rodei, rondei - circulei
entre ditongos e hiatos,
graves e agudos acentos.
Como sempre,
acabei sonhando no
círculo da vida...
(1970)

  A ILUSÃO PERTENCEU-ME

A ilusão pertenceu-me em sonhos
e com vontade de herói entrelacei-me
entre as armas de tão bela batalha...
E a incandescente espada perdeu-se
entre espasmos, enquanto
a ilusão flutuava no espaço
e eu agitava o lençol manchado...
(1969)

TUDO QUE FUI
(dedicado aos que não existiram)

Fui desejo onde as peças nadam
sem um compasso marcar.
Fiz de um saco minha morada
e do sangue meu alimento;
da penumbra, minha companheira,
e do coração, um aliado.
Carregaram-me despido da verdade
e quando o sentido despertou:
sem rastro, nexo ou resto - nasci.
(1969)

  CONDENADO

Reguei flores
Flores da vida, flores da morte.
Queimei paisagens
e namorei a fumaça...
(1969)

BURGUÊS DESAMPARADO

Ao meu lado as palavras são dardos
que ferem e não matam
O meu sangue sobe às faces
e não desce.
Cheio de tristeza, procuro o silêncio
e na penumbra , ferido e despojado,
tento encontrar a TIGELA DE OURO.
Com a espinha torcida no dorso
espero a aurora com remorso,
pois gostaria de flutuar no espaço
preso a um CORDÃO DE PRATA,
numa cálida noite de lua.
(1969)

  REBELDIA

Despedacei uma rosa
e me deitei de costas para a lua...
(1969)

  TARDE CHUVOSA
a Raul Sá

Era uma tarde chuvosa
e na vidraça molhada
escrevi um poema...
(1969)

CONFISSÃO

Enamorei-me da imensidão.
O ritmo surdo da vida me embalou
Chorei em versos os meus pecados
e passei de um sonho para outro.
Flutuei no espaço como uma pluma
e fugi para o infinito.
(1970)

QUANDO SINTO

Quando sinto o desencanto, procuro tuas mãos
que trazem o conforto e me fazem palpitar.
Permaneço disperso, sentindo teu perfume
e tua presença, suspensa nas nuvens
da imaginação.
Do papel onde escrevo, tuas curvas tomam formas
e, como sombras, teu corpo nu, eu vejo.
Um sorriso vago enche-me o rosto
e na tentativa de acariciar-te, ouço longe,
muito longe, passos, vozes e o bater da
máquina de escrever.
Teu corpo nu desaparece, enquanto o tempo
volta a agir
e minhas mãos a trabalhar.
Um leve tremor invade-me a alma
e uma complacente esperança
consola-me, porque tenho certeza
de ao chegar em casa, sobre a cama,
encontrar teu corpo quente
(1971)

  SONHEI HORIZONTES

Sonhei horizontes
vivi entre vírgulas, um hiato.
Andei exclamando paixões
e interrogando amores
(dois pontos)
De repente,
quebrei lanças de solidão
na solidez de teu coração...
(1971)

  NOSTALGIA

Medindo o fado hipócrita
despertei minha entorpecida agonia
despojando minh'alma infinita
dos delírios de uma falsa alegria.
Uma revolta incontida desafia
no meu peito um gemido
sonoro, sem lágrimas, que desvia
meu incontido grito endurecido.
Desprezo a cândida falsidade
da ostentação enganosa de teu encanto
acomodado ao fingimento e vaidade.
Melhor correr perigo em pranto
vencer as fantasias e desonestidades
numa mesa , tomando um chope e tanto.
(1972)

  DECEPÇÃO

Logrei o êxito de uma paixão
carregando nos ombros, em prantos,
o peso exato da decepção
por não me ter afogado nos teus encantos.
(1972)

REGISTRO

Criamos um momento
de calma e esperança,
quando, sem enganos,
nos olhamos e ganhamos tempo.
Senti a ternura de sua mão
e o destino nosso encontro marcou,
abrindo, docemente, uma página da vida
onde nossas mãos se cruzam
e o amor floresce.
(1972)

  CAMINHO DA ESPERANÇA

No simétrico caminho da esperança
meu barco rodeia o espaço
e quando a luz escassa
atrai um tempo frio,
meu sonho se acende,
alheio à própria vida,
e me impele, sem artifícios,
para teus braços.
Minha dor se dilui
e, enquanto teus dedos deslizam
em meus cabelos,
renasce mais uma estrela infinita.
(1973)

  CINZAS

Da espiral da catedral
contemplei a praça
profundamente solitária
de gestos, de ritmo
e de loucos coloridos.
Os últimos acordes
ainda estavam no ar
quando o sino anunciou
o fim de mais um carnaval.
(1973)


Índice
A poesia de Sérgio Mattos / Primeira Etapa /
Segunda Etapa
/ Terceira Etapa