História da Televisão Brasileira
2ª Edição
 

 

 

Neste momento crítico, em que a área da Comunicação reflete sobre si mesma e busca constituir seu lugar (acadêmico), mas deve evitar posturas excludentes – próximas quando é tentado estabelecer limites, mais do que estabelecer conexões, numa sociedade capitalista em que a cultura é negociada num mercado global oligopolizado – uma obra que aborda a principal mídia do mundo, a televisão, em suas complexidade dimensional (os planos econômico, social e político), deve ser saudada. Isto porque o livro do professor doutor Sérgio Mattos, História da televisão brasileira: uma visão econômica, social e política, traz implícita a compreensão de que os fenômenos comunicacionais não se estabelecem, funcionam e determinam transformações a partir de lógicas unicamente intrínsecas, por constituírem-se em potentes lugares relacionados amplamente com o chão econômico-político-cultural onde se inserem. A obra recupera, com alterações e atualizações, o livro A televisão no Brasil: 50 anos de história (1950-2000), que Mattos publicou em 2000, pela Editora PAS, de Salvador.

Professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Unidade Baiana de Ensino, Pesquisa e Extensão (UNIBAHIA), mestre e doutor em Comunicação pela Universidade do Texas (Austin – Estados Unidos), vencedor do Prêmio Luz Beltrão de Ciências da Comunicação (categoria Maturidade Acadêmica), pesquisador e poeta, Sérgio Mattos é uma referência internacional, em termos de periodização da televisão brasileira, pela formulação própria que criou, para este tópico essencial para os estudos comunicacionais. É por isto que o ponto mais forte de História da televisão brasileira é o aprofundamento de seu clássico trabalho sobre o desenvolvimento desta tecnologia no país, indo além da análise já empreendida em outro livro de sua autoria, Um perfil da TV brasileira: 40 anos de história – 1950/1990 (Salvador: ABAP, 1990), onde já apresentava quatro períodos do mercado televisivo, as Fases Elitista (1950-1964), Populista (1964-1975), do Desenvolvimento Tecnológico (1975-1985) e da Transição e da Expansão Internacional (1985-1990).

Estes quatro períodos são complementados, no livro lançado pela Vozes, pelas Fases da Globalização e da TV Paga (1990-2000) e da Convergência e da Qualidade Digital (2000-hoje), onde a televisão aberta interage concorrencialmente com modalidades de distribuição audiovisual por assinatura e tecnologias próximas, as quais, em muitos casos, imbricam-se com o modelo tradicional. A contribuição renovada de Sérgio Mattos à questão da periodização é oportuna, por se tratar um tema polêmico – alvo de muitos outros estudos, como os de César Bolaño (que possui profundas pesquisas sobre a formação e expansão deste meio) e de Sérgio Caparelli (cuja obra mais difundida parte da chamada Teoria da Dependência), além deste próprio pesquisador, que tem denominado o período atual de Fase da Multiplicidade da Oferta –, que requer um diálogo pontual entre seus pesquisadores, gerador de pontes e dissonâncias reais, por isso pauta rica para futuros eventos na área.

De qualquer forma, já se pode observar que a proposta de Sérgio Mattos, assinalada enfaticamente por variáveis de ordem política e econômica, fornece compatibilidade interna, já que seus cortes remetem, antes de tudo, a determinações institucionais e da própria tecnologia, na relação que mantém com os agentes regulamentadores, o público, o anunciante e decisões internas. “Além do mais, a periodização em voga pode ser coadunada com análises centradas diretamente na Economia Política da Comunicação, como os de Bolaño e deste professor”. A periodização de Mattos é traçada em coerência com o movimentos de mudança (em regra, para não mudar) do país nos períodos, o que resulta em um importante quadro do Brasil nos últimos 53 anos, ante a dinâmica estabelecida com a mídia mais consumida e impactante. Isto é feito desde uma profunda revisão bibiliográfica, passando por outros estudos anteriores de sua autoria, como The impact of the 1964 Revolution on Brazilian television (San Antonio: Klingensmith Independent Publisher, 1982), fundamental por ter sido durante o longo período de ditadura militar que se estruturou o sistema televisivo do país.

O ponto negativo, na passagem da edição da PAS para a da Vozes, é que neste último perde-se o levantamento originalmente disponibilizado aos leitores, relativamente aos estudos envolvendo televisão, reunindo não só obras de fácil identificação, mas também dissertações, teses, textos apresentados em congressos e artigos publicados em periódicos científicos. Pela busca, identificação, classificação e descrição do material, uma tarefa de mapeamento do conhecimento sobre TV relevante para todo investigador do fenômeno televisivo, independentemente do eixo de abordagem, este segmento constituía-se em praticamente outra obra, mas este desfalque não afasta toda a contribuição de História da televisão brasileira para o pensamento comunicacional. Em substituição a essa lacuna, uma alternativa é manter a classificação – organizada conforme a matriz principal da referência fosse histórica, social, política, econômica ou de informações complementares – atualizada e publicizá-la periodicamente através de sua página na internet.

Embora o autor constate escassez de pesquisas sobre aspectos originais da televisão, os dados exibidos atestam um elevado grau de maturidade dos estudos sobre esta tecnologia no país, acumulado em mais de 50 anos de sua inserção social. O livro encerra com uma cronologia sobre os principais fatos que assinalaram a TV brasileira, precedida de um breve resumo quanto à sua evolução mundial. Este item – englobando, com rara precisão, dados como lançamento de emissoras, programas, tecnologias correlatas, decisões regulamentares, acontecimentos marcantes e inovações em geral – constitui-se em uma confiável fonte de consulta quanto a fatos e datas sobre a trajetória da televisão nacional, útil para dirimir dúvidas com rapidez. Por estes caminhos, Mattos lega uma obra que estimula a pesquisa midiática, contribui para que o caráter histórico dos meios seja assumido integralmente pela área da comunicação e projeta mudanças possíveis nos sistemas televisuais, tendo em vista as inovações tecnológicas e as reordenações provocadas pelo quadro político-econômico.

Valério Cruz Brittos
Doutor em Comunicação