Censura de Guerra
Da Criméia ao Golfo Pérsico

Guerra do Golfo Pérsico (1991)

O brasilianista norte-americano Thomas Skidmore, analisando o início da Guerra do Golfo, declarou ao jornal Folha de S. Paulo que "o presidente George Bush precipitou uma solução militar no Golfo para reforçar sua autoridade de governante, que estava abalada pela reputação de hesitante na política interna dos Estados Unidos". (29)

Logo após o início da guerra, os assessores de Bush começaram a trabalhar na campanha presidencial para 92, impulsionados pelos resultados das pesquisas do Gallup, apontando que 87% dos americanos estavam apoiando as atitudes do presidente. A Guerra do Golfo também foi ótima para o presidente da França, François Mitterrand, que, segundo o jornal Fígaro, melhorou sua popularidade. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Sofres registrou que 65% da população apoiava as atitudes do presidente francês.

Se a guerra e o seu resultado final foram bons para Bush o mesmo não se pode dizer em relação à imprensa. Isto porque a primeira vítima da Guerra do Golfo foi a imprensa que, submetida a uma radical censura, dos dois lados, foi manipulada para exercer as funções de relações-públicas, tanto das forças coligadas como das de Saddam Hussein.

Vale lembrar que, além de ser boa para Bush, a operação "Tempestade no Deserto" serviria, também, para redimir uma geração de militares americanos que tinham servido no Vietnã, a exemplo do general Norman Schwarkopf. Norman, que liderou a Invasão de Granada, já sabia como tratar com a imprensa e executou com perfeição as normas de censura.

Duas semanas após o início da guerra, ninguém sal exatamente o que estava acontecendo: o êxito das mj55õq o custo das operações, as perdas de materiais e as baixas. Este conflito foi batizado de videoguerra, uma guerra cheia de operações cirúrgicas que, quando mostrada na televisão parecia ser uma guerra limpa, pois os mortos praticamente não existiam nem eram mostrados. A videoguerra desumanizou a guerra, pois todos os alvos e população eram transformados em meros pontos luminosos de computadores.

Os jornais brasileiros denunciaram o sistema de censura militar implantado na Guerra do Golfo. Segundo A Folha, "os informes militares divulgados pelos 28 países que integram a frente antiiraque, bem como os noticiários emitidos pelo Iraque e por Israel, estão sendo submetidos à censura pelos respectivos governos ou comandos militares. Os jornalistas e enviados especiais só podem fazer a cobertura em sistema de "pool" (grupos previamente selecionados) submetidos à orientação militar". (30)

Apesar do "pool", a mídia americana e a inglesa mantinham o monopólio das informações (sob censura). Os correspondentes franceses na Arábia Saudita denunciaram o monopólio até o Pentágono voltar atrás e permitir a presença outros correspondentes estrangeiros no "pool" reservado para americanos e ingleses. Segundo os jornalistas franceses, a mídia americana não só estaria tirando proveito da censura, como já tinha acesso direto e exclusivo às fontes do Pentágono. Era como se os jornalistas americanos tivessem se transformado em agentes a serviço dos militares, denunciando, inclusive, qualquer tentativa de outros correspondentes furarem o controle de informação.

Depois dos protestos e da concordância para que os franceses participassem do "pool", o jornal Liberation criticou as imagens liberadas para a televisão, dizendo que as mesmas pareciam cenas do filme "Top Gun". E denunciaram que a guerra que os militares americanos queriam mostrar mais se assemelhava a um vídeo game: "Uma guerra abstrata, limpa, sem ruínas, sem feridos e sem vítimas". (31)

Em nome do sigilo militar, a mídia foi impedida de veicular notícias sobre a localização da queda de mísseis, evitando correções balísticas por parte de Saddam. Para evitar a repetição do Vietnã, os Estados Unidos estabeleceram a censura prévia para tudo que dissesse respeito ao Golfo. Bush chegou ao extremo de proibir até as imagens da chegada dos corpos dos soldados americanos nos Estados Unidos, a fim de impedir a comoção nacional.

A Guerra do Golfo é muito recente e os dados sobre a mesma foram acompanhados através da televisão e jornais. Muitos não sabiam que o que viam ou liam era fruto da censura, pois poucos foram os jornais e as emissoras de televisão que tiveram o cuidado de informar às suas respectivas audiências que o que estavam assistindo ou lendo e ouvindo era apenas a versão dos militares, de ambos os lados e que não representavam, necessariamente, a verdade.

As agências de notícias que forneciam as informações da guerra para seus assinantes (jornais, rádios e televisões) de todo o mundo, pelo menos fizeram um alerta. A agência de notícia britânica "Reuter" transmitiu um despacho comunicando que estava sendo forçada a acatar a censura militar imposta a seus enviados especiais à Arábia Saudita:

"Por ordem de oficiais norte-americanos e ingleses, está proibida a divulgação sobre o número de combatentes, navios, aviões e armamentos mobilizados para o combate. A censura também vale com relação às baixas sofridas e avarias provocadas em combate". (32)

Como nas demais guerras, os correspondentes que tiveram oportunidade de dizer alguma coisa que não tivesse passado pelas mãos dos censores eram logo acusados de traidores. A BBC de Londres, por exemplo, foi acusada de divulgar propaganda iraquiana. Aliás, a CNN e seu correspondente em Bagdá, Peter Arnett, também foram acusados de traição. Vale lembrar que, segundo depoimento de Arnett, a única transmissão que ele fez que não foi censurada foi a que mostrou o abrigo antiaéreo bombardeado, no qual foram mortos 400 civis iraquianos. A reportagem não foi censurada porque interessava a Saddam mostrar a tragédia ao mundo, fazendo a sua propaganda indiretamente.

Os meios de comunicação foram usados e manipulados durante esta guerra, pelos dois lados, que deixaram os jornalistas no meio das ações sem condições de fazer qualquer opção.