Censura de Guerra
Da Criméia ao Golfo Pérsico

Intervenções (Malvinas e Granada)

A síndrome do Vietnã afetou a todos. Qualquer comandante de esquadrão, se entrevistado, não hesitaria em dizer que a TV foi a culpada pela derrota no Vietnã. Na verdade não foi a CBS quem perdeu a ofensiva de Tet; foram os vietcongues que ganharam a guerra. Desta forma, como a guerra do Vietnã foi a guerra mais televisionada do mundo, transmitindo cenas sem qualquer censura, tanto os civis como muitos militares passaram a pensar, como uma verdade absoluta, que qualquer outra guerra que viesse a ser televisionada também seria perdida.

O primeiro conflito armado de proporções que testou as intenções militares em relação à televisão, ao sigilo, à censura e à imprensa, foi a Guerra das Malvinas. Quando o navio Sheffield, considerado como uma fortaleza, foi atingido por um míssil Exocet, a imprensa só teve acesso ao primeiro revés da guerra para os ingleses, três dias depois. Quando a imprensa retornou da visita ao navio, as fitas gravadas e os filmes fotográficos foram confiscados e os despachos jornalísticos submetidos à censura. O material só foi liberado um mês depois.

Após inúmeras negociações com os censores, equipes de filmagem da BBC puderam participar da invasão de Porto Stanley, mas as imagens só foram liberadas, na Inglaterra, várias semanas depois. Os jornalistas não tiveram a permissão nem para filmar a cerimônia da rendição dos argentinos para que a televisão não prejudicasse o ato da assinatura. (26) A censura militar na Guerra das Malvinas foi executada mantendo-se a imprensa à distância, confiscando-lhe as imagens e orientando o que os correspondentes deveriam escrever.

O governo de Ronald Reagan aprendeu a lição dada pelos ingleses durante a Guerra das Malvinas. O exército americano também não permitiu o acesso da imprensa na invasão de Granada, mantendo as equipes que tentavam aproximar-se da Ilha, no Caribe, sob a ameaça de aviões militares. O próprio exército filmou a invasão, editando apenas as imagens que queria que fossem mostradas. Ressalte-se que os militares realizaram as filmagens porque o governo ordenou que nenhum repórter ou câmara de IV cobrisse a invasão. Tal decisão provocou outra batalha, interna, nos Estados Unidos, cujo governo foi acusado de estar cerceando a liberdade de informação e indo de encontro à Primeira Emenda da Constituição.

A imprensa americana ficou furiosa, pois a sua responsabilidade perante a sociedade estava sendo questionada. E a imprensa queria saber "quem determina a responsabilidade em relação à sociedade: o governo que manteve a imprensa afastada, os jornalistas que queriam ir à ilha, ou a maioria dos cidadãos que apoiou o governo? Como poderia ela (a imprensa) se mostrar responsável para com a sua sociedade se estava impossibilitada de agir?" (27)

Segundo o professor Ted J. Smith III, quando os jornalistas foram rudemente barrados na Invasão de Granada, em outubro de 1983, o jornalismo perdeu a graça e "a imprensa americana explodiu com gritos de indignação. Nessa hora, porém, a opinião pública ficou do lado do governo dos Estados Unidos. Pior: um rápido levantamento das pesquisas mostrou um constante declínio do apoio popular à imprensa desde os tumultuados dias do Vietnã e do Watergate. Uma crise de confiança foi proclamada e uma profusão de críticas aos meios de comunicação varreu a nação" (28)

Criticando a decisão de Ronald Reagan, Walter Cronkite disse que a imprensa tinha que ser livre e respeitada porque "numa democracia o governo não age em nosso nome, a menos que saibamos o que está fazendo. Precisamos saber o que o governo está fazendo para controlar as suas atividades. É assim que deve funcionar".

Na verdade, no caso da Invasão de Granada, Reagan não queria era correr os mesmos riscos de Lindon Johnson. Idêntica atitude teve agora o presidente George Bush na Guerra do Golfo, consolidando-se como candidato à reeleição. Em 1989, quando os Estados Unidos invadiram o Panamá, a lição aprendida nas Malvinas já estava mais sofisticada. Era permitida à imprensa o que se convencionou denominar de "liberdade vigiada para os olhos e os ouvidos da opinião pública". A partir da invasão do Panamá, os jornalistas só podiam ver, ouvir e transmitir em "pool". Esta experiência também foi colocada em prática na Guerra do Golfo.