Censura de Guerra
Da Criméia ao Golfo Pérsico

Vietnã (1954-1975)

De acordo com inúmeros depoimentos, nos primeiros anos do envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, tudo era escondido e negado. Aos correspondentes em Washington, eram apresentados dados que escamoteavam a verdade. Os jornais, sem poderem conciliar as informações de Washington com as que procediam de Saigon, preferiam publicar a versão oficial. Tal constatação é comprovada com o depoimento de John Shaw, correspondente do Time no Vietnã: "Durante anos, o corpo de imprensa no Vietnã foi minado pela Casa Branca e pelo Pentágono. Muitos editores americanos ignoravam as informações dos seus correspondentes no Vietnã, em favor da versão oficial de Washington. Entretanto, os Documentos do Pentágono provaram fartamente que as matérias enviadas pelos correspondentes em Saigon eram verdadeiras". (20)

A Guerra do Vietnã foi uma guerra diferente para os soldados americanos. Foi uma guerra sem linha de frente, onde o inimigo não era facilmente identificável e, acima de tudo, não representava nenhuma ameaça ao país, o que não exigia o fervor do patriotismo nacional. Era uma guerra que tinha que ser contabilizada, registrando-se os números de cadáveres, de incidentes, de deserções, armas perdidas, armas capturadas etc. Se isto não bastasse, o Vietnã foi a guerra da imagem devido à presença da televisão, que transmitia as imagens de choque e emoção. No início, parecia um filme, mas era real. A Guerra do Vietnã foi, na verdade, a primeira guerra na TV.

Na televisão, o Vietnã parecia o cenário de um filme, embora fosse real. Para os correspondentes, era uma verdadeira aventura. Eles saíam com as patrulhas obedecendo a mesma rotina, que só era quebrada com a emoção e pelo número de feridos. Até o ano de 1967, a televisão contribuiu para que o público americano apoiasse a guerra. Afinal contas era através da TV que 60% dos americanos tinham contato com as notícias do front.

No Vietnã, os Estados Unidos não tentaram impor a censura para solucionar seus problemas. Montaram, isto sim, uma verdadeira campanha de Relações Públicas para divulgar sua versão da guerra. Durante o período, jornalistas das mais variadas procedências eram convidados a visitar o Vietnã e a escrever sobre o que tinham visto. Tinham tantas mordomias que ficavam na obrigação "moral" de serem gratos e acabavam publicando exatamente o que a propaganda americana desejava. (Esta prática, como vimos antes, foi utilizada pelos alemães, durante a Segunda Guerra Mundial). Por sua vez correspondentes americanos eram sempre lembrados a atender aos apelos patrióticos e a servir aos interesses nacionais. Em síntese, pode afirmar-se que a Guerra do Vietnã foi mais bem noticiada do que qualquer outra e talvez tenha sido por isto que a imprensa passou a ser responsabilizada pelo fracasso dos militares.

A derrota americana no Vietnã teve início em 1968 e as imagens da televisão começaram a registrar a escalada dos ataques do inimigo e a mostrar inúmeros soldados feridos. De repente, a TV passou a mostrar como os americanos estavam perdendo a guerra e isto teve um efeito devastador sobre o moral do país, para o orgulho americano, que viu, através da TV, a rendição de uma divisão inteira de Marines.

Para o público americano acostumado com os super-heróis de Hollywood, a Guerra do Vietnã já não era guerra heróica. E tal constatação culminou com o filme da execução fria de um vietnamita que havia sido capturado. As imagens da execução foram reproduzidas em todo o mundo, constituindo-se numa das cenas mais brutais de todas as guerras.

O fato ocorreu durante a ofensiva do Tet e foi mostrado em todo o mundo. Um vietcongue, vestindo uma camisa quadriculada, foi levado à presença do general Nguyen Ngoc Loan, chefe da Polícia sul-vietnamita, que o executou com tiros de pistola na cabeça. O guerrilheiro estava amarrado e foi executado em plena rua.

O fotógrafo Eddie Adams, que presenciou a execução, passados 17 anos do ocorrido, descobriu as razões para o fuzilamento, no ano de 1985: O vietcongue havia matado um policial, amigo de Loan, e toda a sua família, mulher e seis filhos. (21)

A derrota americana foi constatada mesmo a partir de relatos feitos, in loco, por Walter Cronkite, da rede CBS e que ainda hoje é detentor de grande credibilidade nos Estados Unidos. Comentando sua atitude na época, Cronkite fez o seguinte depoimento para um documentário de TV sobre guerras:

"A ofensiva do Tet foi uma grande ofensiva. E sempre nos disseram que eles não seriam capazes de uma ofensiva como essa. Assim que tomamos conhecimento do fato, discutimos o assunto e decidimos fazer algo ousado. E arriscado, para a verdade. Mas eu deveria abandonar o meu papel de comentarista imparcial e ir até o Vietnã para fazer um relato das minhas impressões sobre a guerra."

Se é verdade que a TV ajudou a acabar a guerra, o processo começou com a transmissão do relato de Cronkite, em trajes de combate, a partir de Hue, Vietnã: "A intenção dos comunistas é tomar e capturar as cidades. Em três semanas eles aproximavam-se de Hue. O bombardeio continua até o novo lado da cidade. E vai do Rio Perfumado até a cidadela". Em seguida, ele analisou a situação de 5.500 marines que estavam isolados de maneira crítica em um local próximo.

Entretanto, foi o resumo de sua viagem, apresentado aos telespectadores, que causou maior repercussão. Cronkite disse: "Para esse repórter parece cada vez mais evidente que a única saída nacional seria negociar. Não como vítimas, mas como pessoas honradas, que tentaram cumprir a promessa de defender a democracia e fizeram o que estava ao seu alcance". (22)

Seis semanas após a cobertura feita por Walter Cronkite, o presidente Lindon Johnson apareceu na televisão para fazer um pronunciamento: "Estamos reduzindo substancialmente o nível atual de hostilidades no Vietnã. E isso está sendo feito de forma unilateral. Por isso, não desejo nem aceitarei a indicação do meu nome pelo partido para concorrer a mais um mandato".

O presidente Johnson acreditava que tinha perdido o apoio da classe média e, a partir do depoimento de Cronkite sobre o Vietnã, ele decidiu não se candidatar. Se a televisão realmente ajudou de fato a acabar a guerra, não sabemos. Mas o político americano Dean Rusk afirmou que o efeito da TV sobre o governo foi pequeno, mas que ela influenciou a opinião pública, tanto nos Estados Unidos como em Hanói. Segundo Rusk:

"A TV foi importante, na medida em que transmitiu para Hanói mensagens de senadores e manifestantes. Essas mensagens diziam: "Resistam e acabarão ganhando por meios políticos, o que não poderiam ganhar por meios militares". (23)

Na óptica do historiador Knightley, "o poder da televisão parece ter impressionado os observadores britânicos ainda mais que os americanos. O diretor geral da Royal United Service Institution, o vice-marechal-do-ar S.W.B. Menaul, acredita que a televisão "teve grande responsabilidade pelo colapso do moral americano com relação à Guerra do Vietnã". (24)

Oficialmente, a Guerra do Vietnã acabou no dia 31 abril de 1975, quando um tanque vietcongue derrubou o portão do palácio presidencial de Saigon, pondo fim à guerra.

Entretanto, o comandante das forças americanas no Vietnã, no período de 1964-1968, general William Westmoreland, prolongou sua própria guerra até 1985. Isto porque ele estava movendo, nos tribunais americanos, uma ação indenizatória de 120 milhões de dólares contra a rede de televisão CBS. Ele cobrava a indenização como reparação por danos morais, por ter sido acusado, pela emissora, de falsificar o número real de soldados inimigos no Vietnã. Ex-auxiliares de Westmoreland no Vietnã confirmaram a acusação, explicando que o general diminuía o tamanho do exército inimigo para que os políticos em Washington se animassem a continuar investindo na guerra, em homens, armas, e dinheiro. Diante do provável fiasco da sua causa judicial, ele desistiu da ação. (25)