Censura de Guerra
Da Criméia ao Golfo Pérsico

Coréia (1950/1953) e Argélia(1954/1962)

O início da Guerra da Coréia foi marcado pela inexistência da censura militar. Existia apenas um "Código Voluntário", visando preservar o sigilo militar. Os correspondentes trabalhavam com liberdade, denunciando os erros, a falta de equipamentos, o pânico dos pracinhas e o mau exemplo dado pelos oficiais. Estes temas foram tão freqüentes que os correspondentes começaram a ser acusados de traição e de estarem colaborando com o inimigo. Aliás, a prática de acusar os correspondentes de traição começou na Guerra da Criméia, quando William Russell, o primeiro correspondente de guerra, também foi nominado como traidor. Esta tendência não se modificou com o passar do tempo e o desenvolvimento tecnológico. Uma prova disto é que mais recentemente, durante a Guerra do Golfo Pérsico, o repórter da CNN, Peter Arnett, também foi chamado de traidor e de estar fazendo o jogo de Saddam Hussein.

Entretanto, na Coréia, a censura sistemática só foi realmente utilizada nos últimos 18 meses, quando os comandantes, no campo de batalha, resolveram ampliar o "Código Voluntário" e durante o período da troca de prisioneiros, quando todas as reportagens ou entrevistas realizadas com prisioneiros tinham que ser submetidas aos censores.

Durante o último ano da Guerra da .Coréia (oficialmente a guerra terminou no dia 27/7/53), a censura militar foi forte e nada melhor para entendê-la do que o desabafo, durante um encontro de editores, de um dos correspondentes da United Press, Robert C. Miller, que além de reconhecer a péssima cobertura jornalística realizada, justificou-a dizendo: "Não estamos oferecendo-lhes os verdadeiros fatos a respeito da Coréia;. não o fizemos durante os últimos 16 meses e haverá pouca melhora na cobertura da guerra, a menos que haja mudanças radicais na política de censura militar. Há certos fatos e matérias na Coréia que os editores publicaram e que eram pura invenção. (...) Muitos de nós, que enviamos as matérias, sabíamos que eram falsas, mas tínhamos de escrevê-las, porque se tratava de "releases" oficiais, emitidos por quartéis-generais militares responsáveis e que foram liberados para publicação, ainda que as pessoas responsáveis soubessem que não eram verdadeiras". (18 )

A Guerra da Argélia, que começou no dia 10 de novembro de 1954 e estendeu-se até o ano de 1962, foi uma guerra sangrenta, brutal e racista, onde inúmeras atrocidades e o assassinato em massa de civis foram excluídas dos despachos dos correspondentes, por força de uma censura radical que distorcia os fatos em favor dos franceses, que lutavam contra a ingratidão dos nativos. Os correspondentes que tentavam descrever as atrocidades cometidas foram hostilizados, presos e torturados. O público francês só foi tomar consciência do que realmente ocorreu na Argélia 10 anos após o término da guerra, devido ao forte esquema de censura e propaganda instalado pelos militares.

Durante toda a Guerra da Argélia os correspondentes foram intimidados e pressionados a esconder a verdade. Os jornais franceses foram acusados de falta de patriotismo e traição à França. Jornalistas foram presos e proibidos de exercer a profissão enquanto empresas jornalísticas tinham inúmeras edições apreendidas. Consta que só o jornal France-Observateur teve um prejuízo orçado em 20 milhões de francos em um só ano, com as edições apreendidas.

Quando o jornal L 'Humanité denunciou a execução de 50 civis (mulheres e crianças argelinas), na Vila de Zef (um episódio semelhante ao de My Lai no Vietnã), por 50 dos franceses, todos os exemplares da edição foram apreendidos. O correspondente, que não havia submetido seu texto aos censores, foi expulso da Argélia. As atrocidades com os civis eram sempre apresentadas aos correspondentes como tendo sido obra praticada pelos rebeldes. A propaganda francesa distorcia a realidade em seu favor. (19)