Censura de Guerra
Da Criméia ao Golfo Pérsico

Segunda Guerra Mundial (1939-1945)

Segundo o depoimento do historiador Dr. Noble Frankland, concedido a um documentário de televisão, exibido no Brasil pela Rede de Televisão Educativa, os correspondentes de guerra tinham a missão de projetar para o público a versão oficial do que estava ocorrendo no front, pois informar a verdade não era importante, na ocasião.

O público tinha uma visão distorcida da guerra. No que se refere a imagens, elas eram Imprecisas. O público não sabia que o Exército inglês não tinha equipamentos atualizados para travar uma guerra moderna.

A missão da imprensa em tempo de guerra, portanto, segundo Dr. Noble Frankland, "é comprometida pela necessidade de manter elevado o moral do país; de negar ao inimigo qualquer notícia de dificuldade do nosso lado".

Esta análise de Frankland é exata e coincide com os preparativos dos aliados para a Segunda Grande Guerra, que outro historiador registrou da seguinte forma:

"Sem que os editores de jornais soubessem, os Estados-Maiores aliados, alarmados com o aperfeiçoamento do rádio de ondas curtas, tinham deliberado, em 1938, que a guerra, até onde lhes coubesse decidir, não seria noticiada e que o sistema para controlar os correspondentes de guerra seria exatamente o mesmo de 1914-1918. Haveria uma autoridade conhecida como "testemunha ocular" e um número limitado de correspondentes, acompanhados por oficiais de escolta seria tolerado nos quartéis-generais e teria permissão par enviar despachos cuidadosamente censurados sobre assuntos com pouca probabilidade de afetar o moral na frente doméstica". (15)

Criou-se, então, na Inglaterra, o Ministério da Informação. Com isso, o governo preparou-se para os problemas da imprensa durante a guerra. O ministério foi criado em apenas dois dias e tinha uma determinação: os jornalistas não seriam adulados. Eles fariam o determinado ou sofreriam as conseqüências. O Ministério da Guerra incumbiu-se de selecionar alguns correspondentes e de vetar outros. Os selecionado aprenderam os regulamentos que deveriam seguir. Era, na verdade, um esquema armado para exercer uma rigorosa censura.

Enquanto isto, o Ministério da Propaganda Alemão, 50 a orientação do Dr. Goebbels, procurava credenciar correspondentes de guerra neutros. Estes correspondentes recebiam privilégios especiais, tais como rações extras, concessão de gasolina e até uma taxa cambial especial para suas respectivas moedas. Com todas essas mordomias, os correspondentes acabavam sendo gratos e, nas primeiras etapas da guerra, privilegiaram e enalteceram as forças germânicas.

Nos primeiros seis meses da guerra, a imprensa não obteve nada do Ministério da Guerra inglês. Quinze dias após os alemães entrarem na Bélgica, o Exército inglês se retirou para o litoral, enquanto os jornalistas retornavam a Londres. Houve, na verdade, uma evacuação secreta, que ficou conhecida como a Retirada de Dunquerque (*), da qual nem os franceses foram comunicados nem o público britânico. A este fato segue-se um verdadeiro blackout de notícias. Só depois de alguns dias foi que o general Maison convocou os correspondentes para um encontro secreto, quando, na função de diretor da Inteligência Militar, informa aos jornalistas a gravidade da situação e passa uma missão para a Imprensa: funcionar como amortecedor, evitando que a opinião pública inglesa fique chocada com o acontecido. A imprensa cumpriu a ordem recebida e em vez de mostrar um Exército derrotado e de moral baixa, publicaram apenas o lado positivo. Os fatos do maior desastre militar da Segunda Guerra foram removidos e publicados apenas propagandas: a retirada foi apresentada a opinião pública como uma vitória estratégica. A verdade sobre Dunquerque só ficou esclarecida quando, em 1961, o escritor Richard Collier publicou os resultados de suas pesquisas, que, apesar de criticadas pelo governo, nunca foram contestadas.

Durante a guerra, nenhum correspondente credenciado quis desafiar os censores e, apesar dos bombardeios e incêndios que ocorriam em Londres, a imprensa os ignoravam, como também não registrava a relação dos prédios destruídos nem a lista de vítimas.

Winston Churchill proibiu toda e qualquer notícia sobre a Batalha do Atlântico, em 1941, na qual os navios de abastecimento foram afundados pelos alemães. O que Churchill queria era sensibilizar a opinião pública americana para que os Estados Unidos entrassem na guerra do lado da Inglaterra e, para tanto, maximizava certos fatos e minimizava outros.

Na Frente Oriental, Rússia, havia um silêncio total. A censura era rígida. Só os veículos russos alardeavam a covardia dos alemães e faziam a propaganda exagerada das perdas do inimigo. Os números apresentados pelos russos sobre as perdas dos alemães ultrapassavam o total das tropas e equipamentos concentrados pelos invasores na Frente Oriental. Os correspondentes eram tão censurados que abandonaram a Rússia e se dirigiram para a África do Norte.

A única chance que os correspondentes tiveram de realizar uma cobertura digna, na Rússia, foi em fevereiro de 1943, quando o 6º Exército Alemão se rendeu em Estalingrado.

Quando os Estados Unidos entraram na guerra, a propaganda passou a ser tratada de modo mais cientifico. O Departamento de Informações de Guerra, com um orçamento de US$40 milhões, foi criado para ser o meio de divulgação dos esforços de, guerra dos Estados Unidos, com a finalidade de atuar para o público interno e externo.

Enquanto isso, o Departamento de Censura fazia com que os jornais e emissoras de rádio obedecessem ao Código de Práticas de Tempo de Guerra. Apesar de sua tarefa ser "ocultar do inimigo informações que pudessem colocar em perigo a causa aliada", sabe-se que até as correspondências particulares eram vasculhadas, no intuito de impedir que um quadro desfavorável à guerra pudesse ser esboçado, prejudicando o país. (16)

A Censura Militar dentro dos Estados Unidos era exercida na fonte, impedindo os jornalistas de terem acesso a dados indesejáveis. Nas frentes de batalha era mais simples, mas só tinham acesso aos fatos aqueles previamente credenciados e que submetiam seus textos à censura prévia. A pior censura foi exercida pelo general MacArthur, no Pacifico, pois seus censores adulteravam o conteúdo das matérias para incluir propagandas que beneficiassem a imagem daquele general.(17)

No Japão, o sigilo preocupava os militares japoneses tanto quanto os americanos. A censura era exercida por uma Junta das Forças Armadas e representantes dos Ministérios do Interior e dos Transportes. Quanto aos correspondentes japoneses, não havia problemas, pois eles sabiam que "eram auxiliares do esforço de guerra" e nada iriam fazer que viesse prejudicar o país.

Durante a Segunda Guerra, a propaganda preconceituosa, visando instigar os soldados contra o inimigo, foi usada ao extremo. As propagandas americanas e inglesas, por exemplo, retratavam os japoneses como pessoas. sádicas, desprovidas de emoções, como estupradores e os soldados deviam ser vistos como macacos de uniforme". Esse tipo de propaganda difundida sistematicamente no seio das próprias forças aliadas incentivava o ódio ao inimigo, estimulando, em conseqüência, a prática de atrocidades de ambos os lados devido à figura desumanizada do inimigo. As próprias atrocidades cometidas por americanos, ingleses, franceses, alemães ou japoneses nunca foram divulgadas. Mas os sistemas de propaganda, de cada lado, procuravam denunciar e alardear cada ato praticado pelo inimigo.

(*) Dunquerque. cidade francesa, ficou na história da Segunda Guerra Mundial devido à famosa retirada de 225 mil soldados britânicos e 112 mil franceses e belgas, após a ocupação nazista da França.