Censura de Guerra
Da Criméia ao Golfo Pérsico

Da Criméia à Primeira Guerra

A história da participação da imprensa em guerras começa na Criméia, em 1854, com a presença de William Howard Russell, identificado como o primeiro correspondente de guerra. Ele trabalhava para The Times de Londres. Russell é responsável pelo primeiro esforço organizado com o objetivo de relatar uma guerra à população civil. Suas reportagens sobre a desorganização e desastres da guerra expunham o exército britânico, pela primeira vez, a críticas independentes, as quais culminaram com a destituição do Alto-Comando no campo de batalha e de todo o seu Estado-Maior. Como guerra gera demanda por noticias, os despachos críticos de Russell contribuíram também para aumentar as tiragens do The Times.

Segundo o historiador e jornalista Phillip Knightley, foi durante a guerra da Criméia, em 25 de fevereiro de 1856, que William Codrington, Comandante-em-Chefe inglês, expediu uma ordem geral proibindo a publicação de detalhes de valor para o inimigo. Com esta ordem, ele estabeleceu o que hoje conhecemos como censura militar. Nesta mesma instrução, os militares estavam autorizados a expulsar correspondentes que tivessem tomado públicos tais detalhes e ainda ameaçava com a mesma punição quem viesse a incorrer no mesmo erro. A partir daí, todas as vezes em que a Inglaterra esteve envolvida em guerras, a censura foi adotada como uma medida "justa e necessária". (7)

A Guerra Civil Americana atraiu inúmeros correspondentes de todo o mundo. Graças à utilização do telégrafo, o mais novo meio de comunicação da época, os leitores podiam acompanhar todos os acontecimentos da guerra realizados no dia anterior. Entretanto, por desqualificação dos correspondentes e devido à concorrência dos jornais, a cobertura da guerra civil foi distorcida, devido aos exageros, calúnias e relatos sensacionalistas e fictícios.

A censura militar também foi exercida na guerra civil americana. Inicialmente, foi por mera casualidade, quando o comandante das forças nortistas, Wienfield Scott, impediu a transmissão de um despacho da Associated Press, que registrava uma derrota, substituindo-a por uma vitória. Este ato levou os jornais a publicarem matérias registrando uma "gloriosa vitória".

Posteriormente, a censura passou a ser exercida pelo Ministério da Guerra. No início, com o objetivo de impedir apenas informações de valor para os inimigos. Depois, foi usada até para ocultar perdas materiais sofridas pelos nortistas. O ministro da Guerra, Edwin M. Stanton, por exemplo, utilizava-se de seu poder para diminuir os números das baixas e para transformar notícias de derrotas em vitórias. Os jornais que desobedeciam as regras de censura eram suspensos por Stanton, que também mandava prender editores, correspondentes e ameaçava os proprietários dos jornais com a corte marcial. (8)

Foi no período compreendido entre a Guerra Civil Americana e a Primeira Guerra Mundial que a imprensa se desenvolveu com a ajuda do telégrafo, que permitia aos correspondentes a. remessa de notícias de locais distantes, despertando o interesse de um público ávido por informações e que contribuía para que os jornais duplicassem suas tiragens, principalmente por não haver ainda uma censura organizada.

Apesar das experiências da Criméia e da Guerra Civil Americana, os militares levaram algum tempo para compreender o poder que a imprensa tinha junto à opinião pública.

Enquanto isto, os correspondentes remetiam todo tipo de noticias para seus jornais sem sofrer qualquer tipo de censura.

Quem primeiro percebeu o poder da imprensa para veicular mensagens de propaganda foi o chanceler alemão Bismarck, durante a Guerra Franco-Prussiana: "Nada será mais favorável para nossa posição política na Inglaterra e na América do que a publicação nos dois mais influentes jornais desses países... de relatos muito detalhados da ação de nossos exércitos no campo de batalha" (9).

Antes da Primeira Guerra Mundial, os correspondentes tiveram, ainda, uma forte participação na Guerra Boer (1899-1902), na África do Sul, quando a censura inglesa foi usada ao extremo para impedir que as atrocidades cometidas contra os Boers fossem transmitidas e publicadas. Em contrapartida, os jornais ingleses publicaram, durante a fase final da guerra, como matérias de seus correspondentes, uma série de denúncias contra os Boers que estariam assassinando feridos, massacrando civis pró-britânicos, açoitando nativos e executando aqueles que queriam render-se. Nenhuma linha sobre a política de retaliação de Kitchner, que mandava queimar as fazendas dos Boers, foi publicada na Inglaterra.

Durante esta guerra, um correspondente que depois ficou famoso, Winston Churchill, exerceu o papel de soldado-correspondente, ou seja, além de realizar seus relatos ele participava, às vezes, da luta/combate propriamente dito. Mas nem esta participação impediu a Inglaterra de perder a guerra que, a princípio, foi apresentada como fácil e rápida, mas que se arrastou por longo tempo.

Segundo Knightley, a Inglaterra perdeu a guerra porque nunca teve uma visão completa e exata do que estava acontecendo na África do Sul. Os correspondentes culparam os militares, alegando que a censura mantinha o público na ignorância. Os militares culpavam os correspondentes e o público: "O interesse do público em geral no relato de uma campanha, infelizmente, situa-se em proporção inversa ao seu valor histórico". Há pouca dúvida de que a Guerra Boer tenha oferecido aos correspondentes uma oportunidade notável. Poderiam ter visto que a imposição da administração imperial requer um montante sempre crescente de força e que, quando essa força enfrenta um sentimento nacional determinado, finalmente chega a ponto em que seu dispêndio não compensa mais Poderiam ter registrado o sucesso de uma estratégia militar não-ortodoxa - a guerra de guerrilhas."(10)