Censura de Guerra
Da Criméia ao Golfo Pérsico

  Este ensaio foi apresentado pelo professor e jornalista Sérgio Mattos durante o V Ciclo de Estudos de Estratégia da ECEME - Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, no Rio de Janeiro. Integrou o painel intitulado "O Papel da Imprensa em uma situação de conflito: o sigilo das operações versus a Liberdade de Informação"; realizado no dia 3 de junho de 1991, contando ainda com as participações do coronel Newton Bonumá dos Santos e do jornalista Ronald Dias Pinto de Carvalho.

 

Introdução

Para que possamos ter uma idéia mais concreta do papel que a imprensa pode desempenhar em uma situação de guerra, é necessário primeiro que tenhamos uma visão histórica da participação dos meios de comunicação de massa nos principais conflitos de que temos notícia.

Antes, porém, é necessário esclarecer que hoje não podemos falar de situação de guerra e seu relacionamento com a imprensa sem abordarmos as questões da propaganda, guerra psicológica e da censura à liberdade de informação.

Para melhor compreensão do assunto que vamos tratar, faz-se necessário apresentar algumas definições e conceitos. Para efeito deste trabalho, adotamos a definição de Clovis Bevilacqua sobre o que vem a ser uma guerra: "Guerra é a luta entre dois ou mais Estados para resolver um conflito levantado por eles "(1)

Propositadamente escolhemos o conceito de imprensa adotado pela Escola Superior de Guerra: "A imprensa, como meio de comunicação social, compreende as formas de divulgação de notícias, sua interpretação e crítica. E valiosíssimo instrumento de esclarecimento e formação de opinião pública, podendo contribuir para a Paz Social" 2

Por sua vez, a propaganda é "o conjunto de técnicas de ação individual utilizadas no sentido de promover a adesão a um dado sistema ideológico (político, social ou econômico).3

No entender de Joseph E. Brant, a Guerra Psicológica "consiste essencialmente no manejo da palavra falada e escrita, com o propósito de abalar o moral do inimigo e abreviar as operações bélicas. Levada a cabo com destreza, poderá poupar muitas vidas. Caso contrário, repercutirá negativamente sobre o adversário, irritando-o e robustecendo a sua capacidade de resistência." 4

Com relação à liberdade de informação, da mesma maneira que a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos assegura a liberdade de expressão, a nova Constituição Brasileira, promulgada em 5 de outubro de 1988, no seu Artigo 220, reafirma que a manifestação do pensamento não sofrerá qualquer restrição e, nos parágrafos 1º e 2º, veda, totalmente, a censura, impedindo, inclusive, a existência de qualquer dispositivo legal que "possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística, em qualquer veículo de comunicação social.

Os meios de comunicação, portanto, têm responsabilidades em relação ao público que deles dependem para a obtenção de informações. Desta forma, tendo inteira liberdade de atuação, a imprensa pode servir como um instrumento de controle sobre governos fortes, mas tal poder dos meios de comunicação de massa também pode se constituir num perigo. Segundo John Stuart Mill, um dos maiores defensores da liberdade de expressão e de imprensa, todos os argumentos utilizados em relação a um governo forte também podem ser aplicados aos veículos de massa igualmente fortes:

"Decidir que opiniões devem ser permitidas ou proibidas significa escolher opiniões para as pessoas, uma vez que não podem adotar aquelas que não são apresentadas para seu exame. Quem escolhe Opiniões para o povo possui controle absoluto sobre suas ações e pode manipulá-las em beneficio próprio com perfeita segurança." 5

Assim sendo, pretendemos, ao longo deste ensaio, que tem o objetivo principal de levantar questões para reflexão, traçar um perfil histórico das desavenças existentes entre os interesses militares em situação de guerra e as funções sociais desempenhadas pelos jornalistas através das mídias impressa e eletrônica. Isto porque, como diz Deni Elliott:

"Os meios de comunicação de massa têm responsabilidades em relação à sociedade, não importa em qual sociedade estejam operando. Cada sistema de comunicação de massa tem responsabilidade em relação ao grupo de pessoas que dele depende para a obtenção de informação. Esta responsabilidade se mantém, pouco importando se eles são públicos ou privados, ou se o controle e o julgamento do que é divulgado é feito internamente ou por alguma agência externa " (6)