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CONCLUSÕES
"Onde
entra a ética? O que o jornalista não deve fazer
que o cidadão não deva fazer? O cidadão não pode
trair a palavra dada, não pode abusar da confiança
do outro, não pode mentir. No jornalismo, o limite
entre o profissional como cidadão e como trabalhador
é o mesmo que existe em qualquer outra profissão.
É preciso ter opinião para poder fazer opções
e olhar o mundo da maneira que escolhemos. Se
nos eximimos disso, perdemos o senso crítico para
julgar qualquer coisa.
O jornalista não tem ética própria. Isso
é um mito. A ética do jornalista é a ética do
cidadão. o que é ruim para o cidadão é ruim para
o jornalista"
Cláudio
Abramo
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Temos
discutido e defendido(Mattos 1982a, 1984 e 1985) que
toda e qualquer perspectiva para estudar e melhor compreender
o crescimento dos meios de comunicação de massa, principalmente
em países do Terceiro Mundo, deve levar em consideração
o contexto nacional, sob os aspectos político, social,
econômico dentro dos quais aquele desenvolvimento se
processa. O controle e a censura exercidos sobre os
meios de comunicação de massa, portanto, serão melhor
entendidos quando analisados dentro desse contexto.
Neste trabalho examinamos o desenvolvimento dos veículos
de massa em relação aos contextos histórico, sócio-econômico
e político do País, visando identificar alguns instrumentos
através dos quais o Estado tem exercido controle sobre
o sistema brasileiro de comunicações desde a sua implantação.
As evidências apresentadas demonstram, claramente como
o controle político-econômico tem sido exercido pelo
Estado. Demonstram ainda como a censura deixou profundas
e irrecuperáveis seqüelas na imprensa brasileira, abalando
sua credibilidade.
Apesar
do desenvolvimento econômico dependente do País, as
evidências indicam que, historicamente, o sistema brasileiro
de comunicações sempre sofreu uma grande influência
estrangeira, além da exercida pelo Estado. Mattos (1982a
e 1984) e Straubhaar (1981) constataram também que a
adoção de políticas protecionistas, visando o desenvolvimento
das empresas de comunicação nacionais, contribuiu para
minimizar as influências estrangeiras, mas aumentou
as do Estado. Aumentando sua participação como investidor
na economia brasileira, o Estado passou a ter um importante
meio de ação para influenciar os meios de comunicação
de massa, principalmente a televisão, não somente através
de pressões econômicas como também através do controle
legal.
A
partir de 1964 o Brasil tentou se desenvolver por seus
próprios meios. Para tanto, adotou um modelo de desenvolvimento
sócio-econômico baseado principalmente no capital, na
incorporação e na adaptação de tecnologias estrangeiras.
Esse modelo dependente tem afetado os veículos de comunicação
de massa e a indústria publicitária devido à estreita
relação existente no crescimento dos dois, visto um
ser quase que totalmente mantido pelo outro.
Como
um reflexo direto do modelo de desenvolvimento econômico
adotado, a indústria publicitária do País cresceu tão
rapidamente que, hoje, o Brasil está entre os 10 maiores
países do mundo em investimento publicitário. E, como
resultado da política do governo do presidente Geisel
de entregar suas contas de publicidade apenas para agências
de publicidade nacionais, em 1980, sete das 10 maiores
agências do País passaram a ser domésticas. Uma simples
decisão política do governo reverteu a situação de dominação
das multinacionais que ditavam as regras do setor, desde
que as agências de publicidade norte-americanas, J.
W. Thompson e McCann-Erickson, chegaram ao País na década
de 30 (Mattos, 1982a).
Para
se ter uma idéia da participação da indústria publicitária
na economia brasileira e do poder de barganha que o
setor tem junto aos veículos de comunicação, basta verificarmos
o volume dos investimentos publicitários no País. A
indústria publicitária brasileira movimentou recursos
da ordem de 2,3 bilhões de dólares em 1988; em 1989
apresentou faturamento 22,9% superior ao ano anterior:
2,8 bilhões de dólares. Este montante é equivalente
a 0,8% do nosso Produto Interno Bruto(Meio e Mensagem,
1990, no. 391). Segundo informações da Nielsen Serviços
de Mídia, em 1990 foram investidos US$ 3,5 bilhões em
campanhas publicitárias no Brasil. Em 1991 houve uma
queda para US$ 3,2 bilhões, enquanto nos seis primeiros
meses de 1992 houve um crescimento real de 36% das verbas
aplicadas em publicidade em relação ao mesmo período
do ano anterior (Balanço Anual-1992:204).
A
influência do Estado no desenvolvimento da indústria
publicitária tem sido efetuada através da legislação
(contra e a favor), e pela participação direta na economia.
Como resultado desta participação, o governo se transformou
no maior anunciante individual do País. Como anunciante,
o Estado tem contribuído de várias maneiras para o crescimento
do setor publicitário, mas tem, também, aumentado o
seu poder de pressão e controle sobre os meios de comunicação(Mattos
1982a e 1984). Como anunciante, o Estado tem se destacado
como um dos que mais investe na televisão. Dados referentes
ao ano de 1994, publicados pelo Jornal da ABI,
de abril de 1995, evidenciam que o Governo Federal (Ministérios
e empresas estatais), ao lado de algumas multinacionais
(Gessy Lever, Dorsay, Nestlé entre outras) também prefere
anunciar através da televisão. O ministério do Trabalho,
por exemplo, investiu toda a sua verba publicitária
de 1994, US$ 1.175 milhões, no veículo TV. O ministério
do Exercito, por sua vez, investiu 99% de sua verba
destinada a propaganda também na televisão.
As
evidências apresentadas neste trabalho nos levam a concluir
que, no Brasil, não apenas os objetivos econômicos,
mas também as considerações e as práticas políticas
do Estado têm exercido, ao longo de nossa história,
uma função dominante no desenvolvimento dos meios de
comunicação de massa e da indústria publicitária, bem
como na seleção e tratamento dos conteúdos que veiculam.
A
prática da censura, apesar de condenável em todos os
seus níveis, influiu significativamente para o surgimento
da imprensa alternativa, para a maturidade do jornalismo
de um modo geral e para a maturidade do profissional
de imprensa, no particular. Por outro lado, no período
pós-64, a censura contribuiu também para o fechamento
de vários veículos de comunicação e é responsabilizada
pela criação do chamado "intermediário da notícia" e
pela disseminação do "press release", que, no entender
dos mais radicais, acabou deformando a visão crítica
e os objetivos profissionais de toda uma geração de
comunicadores.
Podemos
concluir afirmando que as pressões políticas e econômicas,
em conjunto com a censura, exerceram e continuam a exercer
uma grande influência no desenvolvimento dos meios de
comunicação de massa no Brasil. Alguns veículos, que
adotaram uma postura amigável e de sustentação às ações
governamentais, têm se beneficiado com empréstimos,
subsídios, isenção de impostos, além de receberem publicidade
oficial. Outros, que têm assumido uma postura crítica
perante as políticas governamentais, não têm recebido
o mesmo tratamento. Exatamente por isso, não podemos
perder a noção de que a censura também pode ser motivada
indiretamente. Ela pode induzir a autocensura, estimulando
um sentimento de compromisso político que gera o medo
de contar a verdade.
A
censura a qualquer meio de comunicação de massa é uma
violação à liberdade que o cidadão tem de procurar,
receber e publicar informações, garantida pelo Artigo
19 da Declaração dos Direitos do Homem. A Constituição
brasileira de 1988 também assegura este direito conforme
o disposto no inciso IX do Artigo 5 : "é livre a expressão
de atividade intelectual, artística, científica e de
comunicação, independentemente de censura ou licença";
e mais especificamente no primeiro parágrafo do Artigo
220: "Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir
embaraço à plena liberdade da informação jornalística
em qualquer veículo de comunicação social, observado
o dispositivo no Artigo 5, incisos IV, V, X, XIII e
XIV", nenhum dos quais prevê a proibição de edição ou
circulação de livros, jornais e revistas.
Apesar
disto, é preocupante o ressurgimento da censura prévia
no Brasil. Estamos nos referindo não à censura formal
e policial, abolida pela Constituição, mas a uma nova
forma de censura, de aspecto hipócrita, que sem contar
com a repressão policial, envolve todos os tipos de
pressões e constrangimentos possíveis. O romancista
francês Michel Tournier, por exemplo, além de identificar
algumas das novas formas de censura, acusa os intelectuais
ocidentais de se terem tornado "menos honestos e fiéis
em seus esforços para retratar o mundo" do que seriam
se não existissem tantos prêmios e recompensas. Tournier
afirma que "os prêmios literários, as academias, os
cargos oficiais e, ainda mais significativas, a confiança
e a lealdade de um público leitor específico" são elementos
de pressão e que podem funcionar para cercear a liberdade
de pensamento (Bernstein, 1984).
A
partir desta denúncia, podemos inferir, concluindo que
na busca de obter sucesso na vida social normal, os
artistas, escritores e jornalistas, sob as mais variadas
formas de pressões, podem ser levados a praticar a autocensura
a fim de atender às regras ditadas pelas normas políticas,
econômicas e sociais do momento, seja num País de regime
democrático ou totalitário.
As
formas de censura/pressão são tantas que se torna quase
impossível enumerá-las. Além de todas as que abordamos
ao longo deste livro, existem outras, muito mais disfarçadas,
que podem ser exercidas isoladamente por qualquer cidadão,
contra o direito de outros. A título de exemplo dessa
censura disfarçada, podemos citar o caso, ocorrido,
no inicio do ano de 1993, em Curitiba-Paraná, onde um
livreiro, Aramis Chaim, proprietário de uma das maiores
livrarias do País, decidiu proibir a venda de dois livros
em sua loja, simplesmente porque ele não concordava
com o conteúdo dos mesmos: "Zélia, uma paixão", de Fernando
Sabino, e "Mil dias de solidão", do ex-porta-voz do
ex-presidente Collor de Mello, Cláudio Humberto Rosa
e Silva. O Sr. Chaim decidiu proibir os livros por acreditar
que os mesmos não passam de um lance oportunista para
ganhar dinheiro e que "é preciso dizer um basta a este
circo que se instalou no País". Para tanto ele pretende
iniciar "uma cruzada nacional de resgate à honra e à
moral do País" (Correio da Bahia, 1993).
Ainda
com referência ao livro de Cláudio Humberto, "Mil dias
de solidão", vale registrar que o advogado Saulo Ramos,
ex-Consultor Geral da República, tentou, em março de
1993, através de uma medida cautelar, apreender e impedir
a distribuição da obra por calúnia contra seu cliente,
o deputado federal Nan Souza. A medida cautelar foi
indeferida pelo juiz Antônio Seabra da Cruz Netto, da
Primeira Vara Civil de São Paulo, alegando que "não
há que se falar em crime de calúnia antes de transito
em julgado de decisão a respeito". O juiz alegou também
que a concessão da liminar para apreensão do livro iria
contra os artigos 5 (parágrafos IV e IX) e 220 da Constituição
federal, que asseguram a livre manifestação do pensamento,
independentemente de censura (Correio da Bahia,
1993). Apesar disto, no dia 13 de abril de 1993, o desembargador
Yussef Cahali, terceiro vice-presidente do Tribunal
de Justiça, de São Paulo, concedeu liminar ao advogado
Saulo Ramos para apreensão de todos os exemplares do
livro de Cláudio Humberto.(A TARDE, 13/04/93).
Apesar da batalha travada nos tribunais, o livro continuou
sendo vendido.
Outra
atitude de censura, que se pode considerar inusitada,
teve como protagonista o Tribunal de Contas da União
que resolveu censurar, em março de 1993, dois livros
do escritor Dau Bastos, que eram distribuídos em escolas
públicas de Brasília, por considerá-los pornográficos.
Além dos dois livros de Dau Bastos, "Das Tripas Coração"
e "Snif", O TCU julgou pornográficos outros dois livros
adquiridos pela Secretaria de Educação de Brasília:
"Aqui começa a dança", de Bernadett Lyra, e "Na passarela
da vida", de Elias Fajardo". A situação é inusitada
porque não compete ao TCU julgar o conteúdo dos livros
adquiridos, mas verificar se o processo de licitação
e compra do material solicitado atendeu ou não às disponibilidades
financeiras e aos preços de mercado. As contas referentes
à compra de livros podem ser recusadas por não atender
requisitos básicos, nunca por causa do conteúdo. Ao
passar a considerar o conteúdo, o Tribunal julgou as
obras adquiridas por critérios morais, sem considerar
os valores literários. (A TARDE, 02/04/93)
Não
estamos aqui discutindo o mérito dos livros citados,
nem tampouco questionando o direito do Sr. Aramis Chaim
de não querer vendê-los, ou a decisão do Tribunal de
Contas da União, mas exemplificando que tanto a atitude
do livreiro paranaense como a do TCU são também formas
de censura. E esta é uma forma de censura perigosa,
que pode se alastrar por todo o País, levando associações,
grupos político-ideológicos, religiosos, sociais ou
outros tipos de instituições constituídas a decidir
sobre o conteúdo dos trabalhos artísticos, científicos,
jornalísticos e literários que são apropriados para
seus associados ou seguidores, condenando o restante
ao ostracismo.
O
desenvolvimento tecnológico e o fortalecimento das estruturas
burocráticas governamentais poderão contribuir para
o surgimento de novos métodos de controle dos meios
de comunicação de massa. Métodos muito mais eficazes,
pois a tendência, que se pode observar, é que a censura
está se tornando cada vez mais sutil e complexa, desde
que Herbert Marcuse desenvolveu a tese que ele denominou
de "tolerância repressiva". Segundo Marcuse qualquer
idéia perturbadora pode ser simplesmente ignorada ou,
quando tolerada, ela é sobrelevada e obscurecida, gerando
com a permissividade "uma espécie de censura ao contrário"(Bernstein,
1984). A indiferença é, portanto, uma forma de censura
tão eficaz quanto o assassinato, que na visão de George
Bernard Shaw, "é a forma extrema de censura".
INTRODUÇÃO
/OS
INSTRUMENTOS DE CONTROLE DOS MEIOS
/ O CONTROLE POLÍTICO E ECONÔMICO /
A CENSURA POLICIAL / O
DESENVOLVIMENTO DOS MEIOS
DE COMUNICAÇÃO / CONCLUSÕES
ANEXOS:
I. Uma
Carta para a Imprensa Livre II.
Manifestações contra a censura
III. Código de ética dos
jornais e dos jornalistas IV .Código de ética da radiodifusão
BIBLIOGRAFIA
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