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O
CONTROLE POLÍTICO E ECONÔMICO
| "Decidir
que opiniões devem ser permitidas ou proibidas
significa escolher opiniões para as pessoas. Quem
escolhe opiniões para o povo possui controle absoluto
sobre suas ações, e pode manipulá-las em benefício
próprio com perfeita segurança."
John
Stuart Mill
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Os
governos militares, resultantes do golpe de 1964, afetaram
os meios de comunicação de massa porque, no contexto
do crescimento econômico do País, centralizado na rápida
industrialização, baseada em tecnologia importada e
capital externo, coube aos veículos de comunicação de
massa, principalmente a TV, o papel de difusores da
produção de bens duráveis e não-duráveis.
Os
governos pós-1964 promoveram um desenvolvimento econômico
rápido, baseado num tripé formado pelas empresas estatais,
empresas nacionais e corporações multinacionais. Em
1980, o Estado possuía 82 das 200 maiores empresas não-financeiras
do País, que se caracterizavam também como grandes anunciantes
nos meios de comunicação. Desde o princípio dos anos
70, o governo tem sido identificado como o maior anunciante
individual do Brasil (Mattos,1984,1990). Se considerarmos
apenas os 20 maiores grupos nacionais, privados e públicos,
sob o ponto de vista da receita operacional líquida,
pode-se constatar que, de acordo com dados referentes
a 1991, sete dos 10 maiores são empresas públicas (Vide
Quadro I).
Promovendo
reformas bancárias e estabelecendo leis e regulamentações
específicas, o Estado aumentou sua participação na economia,
como investidor direto em uma série de empresas públicas
e passou a ter à sua disposição, além do controle legal,
todas as condições para influenciar os meios de comunicação,
através de pressões econômicas.
Assim
é que, no Brasil, o financiamento dos mass media
tem sido um mecanismo poderoso de controle estatal,
porque todos os bancos são administrados ou supervisionados
pelo governo. De acordo com o Balanço Anual-l992,
da Gazeta Mercantil, 18 dos 200 maiores
grupos privados do Brasil eram instituições bancárias.
Dentre os 100 maiores grupos, 13 eram bancos. Dois bancos,
Bradesco e Bamerindus, já despontavam também entre os
10 maiores grupos privados do País.
No
levantamento realizado pela Gazeta Mercantil,
em 1992, constatou-se, também, que entre as 10 maiores
empresas estatais, por receita operacional líquida,
destacavam-se cinco bancos, sendo que os quatro primeiros
lugares no ranking eram ocupados pela CEF, Banco do
Brasil, Banespa e BNDS. Vale destacar ainda que, em
1992, dentre os 30 maiores grupos estatais do Brasil,
21 eram bancos.
O
Balanço Anual 94-95 indica que dos 10
maiores grupos por receita operacional liquida, oito
são bancos e dois atuam no setor da construção civil.
Pela ordem, os 10 maiores são: Bradesco, Bamerindus,
Unibanco, Real, Safra, Econômico, Noroeste, Camargo
Corrêa, Multiplic e Andrade Gutierrez.
Além
disso, a concessão de licenças para a importação de
materiais e equipamentos e o provisionamento por parte
do governo de subsídios para estas importações têm levado
os meios de comunicação de massa a adotarem uma posição
de sustentação às medidas governamentais.
Exemplos
de como o governo pode controlar, política e economicamente,
os meios de comunicação de massa podem ser encontrados
tanto na mídia impressa como na eletrônica. Elas têm
recebido ajuda oficial para importação de materiais
necessários à impressão de jornais e revistas, subsídios
especiais para aquisição de equipamentos, tarifas postais
reduzidas, isenção de impostos e empréstimos obtidos
junto aos bancos oficiais.
Em
1992, a título de exemplo, a Rede Globo de Televisão
foi contemplada com um empréstimo da Caixa Econômica
Federal, a juros de 12% ao ano, numa época em que as
taxas de juros oscilavam de 25 a 30% ao mês. No Ceará,
também em 1992, o governador Ciro Gomes decretou a isenção
do ICMS - Imposto sobre Circulação de Mercadorias e
Serviços, no Estado, para as empresas jornalísticas
de radiodifusão e editores de livros que importassem
máquinas, equipamentos, aparelhos e acessórios necessários
à implantação e modernização das empresas de comunicação
(ABERT, 1993). Estes incentivos são instrumentos de
pressão que o Estado pode usar, e o tem feito, para
controlar a imprensa.
A
imprensa brasileira tem se beneficiado também da existência
de legislação que regulamenta outros setores da sociedade.
Por exemplo, o Decreto Lei no 2.627, de 26 de
setembro de 1940, obriga todas as empresas a fornecerem
informações aos seus respectivos acionistas. Estas informações
devem ser publicadas nos diários oficiais da União e
dos Estados e em pelo menos um jornal de grande circulação
do local onde a empresa tem instalada a sua sede.
São
quantitativamente significativos os assuntos específicos
que as corporações comerciais ou industriais devem publicar
em pelo menos um jornal de grande circulação. Dentre
outros podemos listar: convocações, editais, atas de
assembléia geral, aumento de capital através de subscrição
pública, estatutos sociais das empresas, balanços anuais
e os relatórios anuais das diretorias.
Durante
o período de 1964 a 1985, os governos militares aplicaram
vários tipos de pressões econômicas aos meios de comunicação
de massa. Paolo Marconi (1980:127) cita como exemplos
de instrumentos de pressão econômica: a concessão da
publicidade oficial para este ou aquele veículo; o exercício
de pressões oficiais sobre o anunciante privado, forçando-o
a conceder anúncios ou deixar de veiculá-los em jornais
não-simpáticos ao governo, ou induzindo-o a concentrar
suas publicações em veículos que estivessem apoiando
suas decisões políticas.
Marconi
realizou uma importante pesquisa sobre a censura policial
exercida no Brasil durante o período de 1968 a 1978,
quando coletou inúmeros exemplos de pressões políticas
e econômicas contra a imprensa brasileira. Dentre outros,
ele revela que, em 1974, quando o Jornal do Brasil
denunciou o apoio governamental em favor da importação
de produtos químicos pela Dow Química, o governo, em
represália, começou a restringir a quantidade de anúncios
oficiais para aquele jornal. Quando o mesmo jornal criticou
o programa brasileiro de energia nuclear, a publicidade
oficial, que já era escassa, desapareceu completamente
das suas páginas. A edição do dia 11 de março de 1977
do jornal O Globo (principal concorrente
do Jornal do Brasil) veiculou dezesseis
páginas inteiras de editais e anúncios diversos do governo;
em contrapartida, o Jornal do Brasil dessa
data não apresentava uma única publicidade oficial (Marconi,
1980:132).
O
jornal O Estado de S. Paulo também sofreu
pressões econômicas durante o governo do presidente
Médici (1969-1974). Antes da comemoração do seu primeiro
centenário de existência, O Estadão decidiu construir
sua nova sede e adquirir novos equipamentos de composição
e de impressão. Submeteu, então, à Caixa Econômica Federal
um projeto visando obter financiamento para a execução
das obras. O projeto foi aprovado, mas o financiamento
nunca foi concedido porque, como o próprio jornal reconheceu,
houve um veto político. Como resultado, O Estado
de S. Paulo foi compelido a requerer um empréstimo
estrangeiro junto ao Banco de Boston (Marconi, 1980:134-135).
Não
foram apenas os jornais de porte nacional que sofreram
pressões políticas e econômicas durante os governos
pós-64. A imprensa regional também foi perseguida a
exemplo do jornal O Combate, de Porto
Velho, que foi fechado pelo governador de Rondônia por
ser "inútil e desprezível". Possivelmente, inspirando-se
em Getúlio Vargas - que durante o Estado Novo mandava
lacrar as redações sem apresentar qualquer desculpa,
e usando arbitrariamente o poder que exercia -, o tenente-coronel
João Carlos Marques Henrique, governador do Território
de Rondônia determinou o fechamento de O Combate
no dia 4 de fevereiro de 1972. Para tanto, ele alegou
que o veículo vinha atacando autoridades legalmente
constituídas. À porta do jornal mandou afixar a seguinte
e lacônica notificação: "Fechado por ordem do Exmo.
Sr. Governador deste Território". Alguns dias depois,
o jornalista Celby Mendes, proprietário do jornal, mediante
mandado de segurança, conseguiu liminar permitindo a
circulação do veículo.
Medidas
de retaliações política e econômica continuaram em prática
no Brasil, ferindo o direito à liberdade de expressão
assegurada na Constituição de 1988. O exemplo mais recente
ocorreu no Amazonas, onde o governador Amazonino Armando
Mendes retaliou o jornal A Crítica, por
ter veiculado, no dia 30 de março de 1995, reportagem
reproduzindo denúncias do deputado estadual Eronildo
Bezerra de que o governo local teria contratado empresas
fantasmas para realização de obras na BR-174. A partir
da denúncia, o jornal A Crítica, segundo
seu presidente Umberto Calderaro Filho, deixou de receber
qualquer anúncio do governo(até mesmo editais de licitações),
além do governador ter proibido seus secretários - sob
pena de exoneração - de facilitarem o acesso dos repórteres
do jornal às informações sobre os atos do Executivo.
No
caso da mídia eletrônica, este controle é mais direto
e evidente do que na impressa porque tanto as estações
de rádio como as de televisão, até 1988, estavam operando
canais concedidos pela administração federal, os quais
podem ser cassados, enquanto os veículos da mídia impressa
necessitam apenas de um simples registro para começar
a funcionar. A concessão de licenças para exploração
de freqüências reforçou o controle exercido pelo Estado,
pelo simples fato de que tais permissões só eram
concedidas
a grupos que originalmente apoiavam as ações do governo.
O
trabalho realizado por Marconi (1980) também nos proporciona
uma série de exemplos das pressões políticas e econômicas
sobre as estações de televisão. Segundo ele, um dos
mais fortes boicotes econômicos já registrados no Brasil
a estações de televisão ocorreu no Estado do Paraná,
quando o ex-governador Paulo Pimentel rompeu politicamente
com Ney Braga, então ministro da Educação do governo
Geisel. Como resultado do rompimento político, o sistema
de comunicação do Sr. Pimentel (formado por jornais
e emissoras de rádio e de televisão) deixou de receber
verbas publicitárias e todo e qualquer tipo de subsídio
proveniente do governo do estado do Paraná, de alguns
Ministérios e de empresas estatais (Mattos,1985:68).
As
pressões econômicas também foram estendidas às grandes
redes produtoras (na época, TV Globo e Diários Associados)
para que não fornecessem seus programas às estações
do Sr. Pimentel. E, tanto a Globo como os Diários Associados,
apesar disso representar prejuízo financeiro para eles,
participaram do boicote. Não se sabe, entretanto, até
hoje, se foram recompensados pelo que fizeram. O certo
é que, sem os programas dos dois grandes pólos produtores,
as estações de Pimentel perderam audiência, verbas publicitárias,
quase fechando as portas. Depois de três anos de pressões
e de muitos acordos políticos, em 1978, Pimentel recebeu
permissão para retransmitir os programas dos Diários
Associados (Marconi 1980:129; Mattos 1982a; Mattos 1985:69).
Segundo
depoimento de Alberto Dines, em uma mesa-redonda sobre
a censura, realizada em 1986, durante a Nova República,
no Governo de José Sarney, apesar da censura oficial,
formal e regimental ter acabado, continuaram a existir
formas de controle. Estas formas são variadas. Algumas
podem ser detectadas com facilidade, outras são mais
sutis. Às vezes é o fluxo da informação que é controlado.
Outras
é o conteúdo. O fluxo também pode ser constrangido ou
todo o processo da informação ser inibido. Entre as
formas de controle Dines caracteriza, também, novos
tipos de censura: 1) A censura da manipulação (que é
mais sutil); 2) "quando a imprensa perde a capacidade
de estabelecer diferenças e trabalha com fatos na base
da tábua rasa, de generalizações, de totalitarismos;
3) A terceira maneira de controle, de constrangimento,
é a omissão.
Alberto
Dines explica que omissão também faz parte da atividade
censória, pois quando o jornalista omite uma notícia
ele está praticando a censura:
"Quando
os militares diziam "não pode colocar", eles estavam
pedindo que nós omitíssemos e muito jornal concordou
em não publicar. Era um crime de omissão. Este crime
continua ocorrendo pela incapacidade de a imprensa realmente
se renovar e se apresentar como intermediária entre
governantes e governados" (Medina, 1987:20).
Omissão
é autocensura, que por sua vez se caracteriza como uma
extensão da própria censura. Explicando o que vem a
ser autocensura, o jornalista Juarez Bahia definiu-a
de maneira prática e concreta:
"Da
mesma forma que o Estado policial concentra sua capacidade
na geração do medo, o poder que o detém se sente gratificado
quando a autocensura dispensa determinados embaraços
à censura. Afinal, veículos confiáveis ocasionalmente
dispensados de controle são mais eficientes que veículos
impertinentes submetidos a controle constante. A autocensura,
ao contrário do medo, não é imanente. A autocensura
é uma extensão da censura e quase sempre pode atuar
no jornalismo como parte invisível do corpo censorial
ostensivo" (Bahia, 1990:329).
QUADRO
I - OS 20 MAIORES GRUPOS NACIONAIS POR RECEITA OPERACIONAL
LIQUIDA
| EMPRESA |
CR$
- MILHÕES |
| C.E.F. |
29.082.951,0 |
| Banco
do Brasil |
14.583.777,0 |
| Banespa |
8.578.864,0 |
| BNDS |
5.977.408,0 |
| Petrobrás |
5.268.041,0 |
| Bradesco |
4.608.288,0 |
| Itaúsa |
4.509.413,0 |
| Eletrobrás(*) |
3.399.019,0 |
| Vale
Rio Doce(**) |
2.659.620,0 |
| Bamerindus |
2.607.881,0 |
| Unibanco |
2.217.234,0 |
| Nacional |
2.113.413,0 |
| Telebrás(***) |
1.908.973,0 |
| Odebrecht |
1.772.086,0 |
| BCN |
1.413.102,0 |
| Banestado |
1.304.518,0 |
| Real |
1.263,006,0 |
| Camargo
Corrêa |
1.262.580,0 |
| Andrade
Gutierrez |
1.207.356,0 |
| CESP |
1.193.904,0 |
Fonte:
Balanço Anual-92,pp. 41-95.
(*)Eletrobrás
é a holding do sistema estatal de energia elétrica.
(**)O
Tesouro nacional detém 76% das ações ordinárias e 6,3%
das ações preferenciais da Cia. Vale do Rio Doce. O
restante das ações está com o público.
(***)A
Telebrás é o segundo maior grupo estatal, com um patrimônio
contábil equivalente a US$ 2,5 bilhões referentes a
dados de 1991.
INTRODUÇÃO
/OS
INSTRUMENTOS DE CONTROLE DOS MEIOS
/ O CONTROLE POLÍTICO E ECONÔMICO /
A CENSURA POLICIAL / O
DESENVOLVIMENTO DOS MEIOS
DE COMUNICAÇÃO / CONCLUSÕES
ANEXOS:
I. Uma
Carta para a Imprensa Livre II.
Manifestações contra a censura
III. Código de ética dos
jornais e dos jornalistas IV .Código de ética da radiodifusão
BIBLIOGRAFIA
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