Já Não Canto, Choro

 

QUE MUNDO É ESTE

O medo está presente nas esquinas,
atrás das barbas por fazer
e das maquilagens berrantes.
O homem já teme a própria sombra.
Que medo é este, poeta?

Como será este bicho papão, para que possamos
armar uma barricada, juntar as mãos
e enfrentá-lo confiando na coragem do vizinho?

Que medo é este que aterroriza o homem,
a inteligência e esmaga o que de mais
sublime existe que é a liberdade?

Será que os homens se perderam entre os monstros
criados pela própria imaginação?
Até quando suportarão os grilhões
que sufocam a criação
e nos obrigam a negar o que acreditamos
e a dizer o que não queremos?

(junho/1977)


POEMA DE TRÊS ATOS

I
Numa época de modelos
recuso-me a aceitar como regra
uma exceção qualquer.

II
Não temo as crises, mas aos donos da verdade.
Os profetas não me assustam,
mas os deuses-industrializados ameaçam.

III
As clausuras perderam o significado.
Watergate foi revelado
e os bailes de fantasia caíram de moda:
Por que todos não as máscaras?

(Pittsburgh, agosto/1978)


TROPEÇOS

Meus versos tropeçam
no desamor e na privação,
no lamento e subserviência,
nas mordomias e na limitação
de um tempo sem coexistência.

Meus versos tropeçam
na covardia, na emoção
e na decepção de não transformar
cada poema numa luta de libertação
onde cada versos pudesse celebrar
o amor em expansão.

(junho/1977)


SUFOCADO

No descompasso da vida
as aparências me sufocam.
Corrupção e arbitrariedade
violentam minha dignidade.
A integridade já não
serve de aval e "palavra de honra"
é recebida com desconfiança.
Quando meu dia chegar,
partirei com a esperança
de que possam evitar
o sufocamento dos poetas de amanhã.

(fevereiro/1978)


A SOLIDÃO OU O ESPÍRITO DO MAL?

 No misticismo,
o espírito do bem ou do mal
assume o corpo do homem.
Nas grande cidades,
a solidão, como espírito do mal,
predomina em todas as idades.

E a solidão tem gerado
o ódio, a inveja, a corrupção
e também a hipertensão.

(novembro/1977)


QUANDO A POEIRA ASSENTAR

Quando a poeira assentar
tudo será diferente:
o sol voltará a brilhar
e o amor reprimido transbordará.
– Ninguém será dono de ninguém –
A solidariedade governará
impunemente
e nada haverá para separar.
– Vamos aglutinar e perdoar -
Quando a poeira assentar
tudo será diferente.

(Austin/1979)


AI QUE SAUDADE

Ai que saudade
do tempo do candeeiro,
do namoro da praça da matriz,
das brincadeiras de criança
e das morenas da vizinhança.

Poetas e seresteiros
já não cantam a madrugada,
sendo a lua testemunha
e o violão um companheiro.

Ai que saudade
do amor sem dinheiro,
do cheiro forte de terra molhada,
da paquera da rua Chile,
do "café society" e da cerveja bem gelada.

Já não sei o que será da vida,
deste outro mundo, tão imundo.
Já não sei o que será do homem,
esta outra máquina de cidade,
na redoma da radioatividade.

O que será desta sociedade,
criada para a consumação,
escrava da ambição,
e que não sabe mais amar,
ouvindo o quebrar das ondas do mar?

(Austin/1979)


O ESPELHO E O VAPOR

No espelho embaciado,
pelo vapor do chuveiro elétrico,
esbocei, com a ponta do dedo
- como quem tenta sentir
o veludo da pétala de uma rosa -,
dois olhos críticos.

Antes que pudesse o desenho completar
o vapor aos primeiros traços apagou.
– Meu desenho nenhuma resistência ofereceu.
Não desejo aos meus poemas
igual existência.
Que digam! Que lutem! Quem chorem!
Que sejam da vida a essência.

(junho/1977)


POÉTICA

Na vida poética,

nenhuma preguiça ou inércia
pode haver: Cada palavra sentida,
devassa o mistério
da verdade contida nos versos.

(junho/1977)


PALAVRA ANIMADA

Um dia animarei
meus sonhos com um sopro
criador.
Um dia moldarei
as palavras e os poemas
só vão tratar de amor.

(junho/1977)


PROCURA

No disfarce da vida
tenta o homem reencontrar-se.
E, na multidão, esconde
sua própria solidão.

(abril/1978)


DOMINGO

Hoje é uma triste tarde de domingo.
Já não vejo moça bonita
na praça ou no banco da Igreja.
As janelas estão fechadas,
as pessoas isoladas
e a rua deserta.
Os bancos da praça
estão vazios.
Já não vejo jovens trocando beijos
e passeando de mãos dadas à luz do sol.
O amor é mais quente sob a fria luz
da lua do Jardim dos Namorados,
onde o quebrar das ondas do mar
marca o compasso dos corpos.
Suados, apertados, confinados
no parco espaço
dos carros, na procura do aprender amar.

(Austin, fevereiro/1979)


PEDRA DOS PÁSSAROS

Já não vejo gaivotas
nas pedras do Rio Vermelho.
Meus olhos já não descansam
com aquele vôo sereno
e com o mergulho indicador
de boa pescaria. Emigraram.

Os jornais anunciam
a morte de gaivotas
em Arembepe e na Bretanha.
Ora o titânio, ora o petróleo
lançado nas águas do mar.

De que vale o progresso
se já não posso
contemplar as gaivotas
na Pedra do Pássaros
de minha infância?


(março/1978)


SONHO ENCANTADO

Chaplin a todos encantou
e sonhando partiu,
com a mesma simplicidade
do filme sem sonoridade.

(dezembro/1977)


EPITÁFIO

Da umidade
da terra fértil
tentarei ouvir
o som da trombeta
e o apogeu da humanidade.
Tentarei fertilizar
o solo onde rosas
haverão de florescer
para serem dadas
aos casais de namorados
que tentam redescobrir o amor.

(fevereiro/1978)


O DESPERTAR DO FUTURO

Para Rafael, meu filho

Em teus olhos vivos de criança,
em teu rosto sério,
meu filho, projeto minha esperança
de um mundo melhor
no dia de teu primeiro aniversário.
Tenho medo, confesso, do futuro
que se constrói para tua geração.
Gostaria de moldá-lo seguro
e sem sofrimentos, a fim de que teu amanhã
seja como no meu pensamento:
tranqüilo como o sol poente.

(janeiro/1978)


ASAS PARA AMAR

Um dia colocarei asas
em teu vestido branco
e como anjo poderás
flutuar no espaço e
bordejar, como colibri, sugando
das bocas que queiras
o néctar que necessitas
para alimentar teu amor.

(fevereiro/1978)


O SENTIR E O APALPAR

 Foge-me o ar dos pulmões
enquanto mãos comprimem meu peito.
A cada passa dado, a cada minuto passado,
mais próximo estou do encontro
marcado entre o real e o sonhado.

O que vem a ser o real senão
o dia-a-dia, a vaidade
do querer ser, a alegria de momentos,
o sentir e o apalpar?

O que seria o sonho senão
o desejo de perpetuar-se,
do encontro com a felicidade
e do poder, sem restrições, amar?

(fevereiro/1978)


A POSSE

Senti, em meu peito,
o rufar de um tambor:
Prefiro a paixão que cega
à hipocrisia desfeita.
Prefiro teu calor,
a cantar feitos
(entre amigos)
enquanto a alma nega
as resistências quebradas
e o momentos sofridos.
Sou teu amor,
mesmo cheio de defeitos.

(junho/1977)


PERDÃO, AMOR

Amor,
eu sinto pela rosa que não lhe dei
pelo sorriso que soneguei.
Peço perdão por não mais saber chorar
pelos momentos em que não soube sorrir
por minhas fraquezas e
por não saber amar como devia.

(Pittsburgh, junho/1979)


SOLIDÃO

Na melancolia da madrugada
senti toda a poesia de tuas mãos
e a promessa de teus olhar
de mulher amada.

Sob a chuva fria
andamos descalços e de mãos dadas
na areia fina
porque em nossos corações
lugar não há para a solidão.

(Austin, março/1979)


EXORCISMO

Exorcizei de meu íntimo
todo amor acumulado
numa sensação espasmódica,
oscilando as vértebras
num bailado de alcova
capaz de remover montanhas.
Semeei as profundezas
orgânicas e perpetuei
em segundos de felicidade, a espécie.

(fevereiro/1978)


ÍNDICE

O Poeta e seu Tradutor / Que Mundo é Este / Poema de Três Atos / Tropeços / Sufocado / A Solidão ou o Espírito do Mal? / Quando a Poeira Assentar / Ai Que Saudade / O Espelho e o Vapor / Poética / Palavra Animada / Procura / Domingo / Pedra dos Pássaros / Sonho Encantado / Epitáfio / O Despertar do Futuro / Asas Para Amar / O Sentir e o Apalpar / A Posse / Perdão Amor / Solidão / Exorcismo / Sobre o Autor e o Tradutor