O Vigia do Tempo
Ligia Monteiro

Radical na sua missão de poeta, Sérgio Mattos dá a sua poesia um toque universal, produto de sua sensibilidade e de sua visão do mundo. Trata a poesia de uma forma moderna, aberta e sem hermetismo. Livre de normas e dogmatismos. "Porque vivemos num mundo sem custódias e o poeta é o vigia do tempo", essa é a principal característica da obra de Sérgio Mattos. Através dessa linha de pensamento ele se conserva sempre fiel ao seu estilo simples.

Apesar de ser um poeta novo, no sentido cronológico, Sérgio tem uma consciência de seu papel, a sua responsabilidade de revelar a verdade, através da poesia, fazendo com que seus versos soem como denúncias e, ao mesmo tempo, lança perguntas como um homem desesperado perante toda a patologia social:

"Sou o anjo da meia-noite
ou o demônio da madrugada?
O anjo que anuncia o amor
e a liberdade
ou o demônio dilacerador
de corações e agente da maldade?
Sou um homem à procura de libertinagem
ou um poeta em busca de liberdade?

A primeira parte de O Vigia do Tempo mostra a posição do poeta no atual estado das coisas, o desafio enfrentado pelo homem para o reconhecimento de si próprio como pessoa:

"Os mistérios foram sugados
e minha pena é minh’alma.
Quem poderá deter a vida
que corre em minhas mãos?"

Aqui ele se situa como o criador de sua obra, transformando-a, manuseando conforme os seus propósitos:

"O poema nasceu na província
- E agora, poeta , que te resta?
- O desafio de uma escolha somente:
Sepulta, envergonhado, teus versos
ou lance, no mundo, a semente".

A Segunda parte do livro é uma seleção de poemas que integram as antologias poéticas Cinco Poetas Contemporâneos e Retina. Nesta ele se revela mais sintético, porém de intensa profundidade. E na sua sinteticidade revela o quanto é difícil para o homem urbanizado se expressar, se auto-realizar verdadeiramente como ser humano:

"O poeta urbano
já não canta, chora.
Chora o sino, o apito,
o grito e o hino,
a quermesse e a prece,
a pressa e o stress".

O professor José Garcia Costa, no jornal A Tarde, comentou: Seus poemas seriam então a síntese de intensos momentos poéticos, irreprimíveis flashes do eu do poeta. Um desses momentos poéticos, que dispensam o uso de palavras encontra-se no poema "Perfeição":

"Senti o poema
somei sentimentos,
mas não o escrevi.
Era perfeito demais para existir..."

Aqui o poeta crê apenas que não conseguiu transmitir, mas as verdades estão ocultas no próprio sentimento incomunicável, que brota num instante único da alma do poeta.

Sérgio Mattos é cearense, porém cursou o ginásio no Seminário Central da Bahia, tendo concluído o curso no Ginásio de São Bento. Seu curso colegial foi realizado no Colégio estadual da Bahia onde participou de vários movimentos culturais ali desenvolvidos. Sua contribuição para a poesia data desde 1968 quando fundou e co-dirigiu a revista de poesia Experimental, a qual chegou a lançar cerca de trinta poetas inéditos. A partir daí, tem colaborado com revistas literárias, tais como Conclave e O Saco. Seu primeiro livro, data de 1973, Nas Teias do Mundo, foi lançado pela Empresa Gráfica da Bahia. Como jornalista Sérgio Mattos participa ativamente no jornalismo baiano, onde foi repórter, colunista, chefe de reportagem e editor da Tribuna da Bahia e do jornal A Tarde, prestou também colaborações para os Jornais O Globo e Jornal do Brasil, e nas Revistas Manchete e Fatos e Fotos e Veja.



Lígia Monteiro, jornalista e colunista de Livros
do jornal A Gazeta, de Vitória-ES.
Resenha publicada no dia 14 de março de 1978, sob o título de
"O poeta e sua eterna preocupação de dizer as verdades do homem".