O Vigia do Tempo
Jorge Amado

Para a floração mágica da poesia, neste Natal, contribui Sérgio Mattos com O Vigia do Tempo, seu segundo livro. Começou cedo, cheio de inquietação, como faz notar Antônio Loureiro de Souza no elucidativo prefácio que abre o volume. No decorrer de dez anos, de seus primeiros poemas em letras de forma, em revistas e antologias, passando pelo primeiro livro (Nas Teias do Mundo, 1973), até o volume atual, o poeta manteve-se fiel à inquietação ("O poeta é O Vigia do Tempo", afirma ele) mas sua poética ganhou experiência e nitidez. "Os mistérios foram sugados" pois Sérgio Mattos busca e obtém "as formas simples". Nunca vulgar, no entanto, sabendo conservar certas nuances de sombras, recônditas, que concedem à sua clareza fundamental uma condição literária de real qualidade.

Sérgio Mattos tem muito a dizer e o diz num verso que pretende não somente comover mas também alertar os homens, poemas que são sementes ("Poeta da Província"). Lírico e terno, obtém a emoção com precisa medida: "E eis que, pela vidraça/ sem nenhum disfarce/ eu a vi cheia de graça" ("A Musa"). Mas o mesmo "anjo que anuncia o amor", anuncia a liberdade. Já andou o poeta um bom caminho, muito caminho tem ainda diante de si, a percorrer. Quanto a mim, não tenho dúvidas: nada o deterá, nada poderá impedir sua caminhada vitoriosa.



Jorge Amado, romancista, membro da Academia
Brasileira de Letras e da Academia de Letras da Bahia.
Trecho do artigo intitulado "Poesias de Natal",
publicado em A TARDE de 27 de desembro de 1977.