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O
Vigia do Tempo
Humberto Lyrio
Sérgio (Augusto
Soares) Mattos é natural de Fortaleza, Ceará,
que lhe deu berço a 1o de julho de 1948. Filho de José
de Castro Mattos e Maria Helena Soares Mattos. Fez, na terra
natal, o curso primário. Na Bahia, o ginasial, iniciado
no Seminário Central e o científico concluído
no Colégio estadual da Bahia (Central). Em 1971 foi
graduado pela Universidade Federal da Bahia.
Sua maior participação
em atividades culturais teve início no Colégio
Estadual da Bahia. Em 1968, ano de sua estréia como
estudante universitário, fundou e co-dirigiu, ao lado
de Ivan Dórea, a revista de poesia, modestamente denominada
"Experimental", cujo ciclo abrangeu cerca de 30
poetas, até então inéditos.
Travei conhecimento pessoal
com Sérgio Mattos em lançamento de "Conclave",
revista de poesia, coordenada pela poetisa Terezinha Cordeiro
Saraiva. Em síntese criticista, escrevemos, na ocasião:
"Sérgio Mattos
jornalista. Poeta. Integrante da ala jovem. Presente
com as composições: "Recaída",
"Ressurreição", "Lacuna"
e "Inibição". Seus poemas, de reduzida
extensão, possuem esse máximo de expressividade
que nos leva à estesia e à meditação.
"Ancorado em membros e mente, permaneço encerrado
entre o céu e o inferno" confidencia o
poeta. Tivessem os dardos a carícia no impacto e poderíamos
definir a poesia de Sérgio Mattos, incisiva e penetrante,
como um dardo.
Confirmo, ainda hoje,
aquelas palavras sobre Sérgio. Eram verdadeiras. Por
isso, continuam vivas. Na época, Sérgio Mattos
ainda participava em diversos suplementos e revistas literárias.
Mais recentemente, colaborou em "O Saco".
"Nas Teias do Mundo",
sua estréia em livro, apareceu em 1973, lançamento
da Empresa Gráfica da Bahia, antiga Imprensa Oficial.
Em 1974, compareceu em "Cinco Poetas Contemporâneos",
Edições Contemporâneas. Em 1975, "Retina",
outra antologia, recebeu sua colaboração.
No campo jornalístico, Sérgio Mattos tem semeado
robustamente: atestam-nos a revista "Liderança",
os jornais "Tribuna da Bahia" (de que foi um dos
fundadores) e Ä TARDE" (onde foi editor de suplementos
inclusive do utilíssimo JU _ "Jornal de Utilidades").
Prestou, igualmente sua colaboração aos jornais
"O Globo", "Jornal do Brasil", bem como
às revistas "Manchete", "Fatos e Fotos"
e "Veja". Desde 1976 serve à Escola de Biblioteconomia
e Comunicação como Auxiliar de Ensino.
Esta, em resumo, a trajetória
de Sérgio Mattos. Trabalho constante. Sentido positivo.
Direção ascendente, culminando, em 1977, data
destas linhas, da obra poética "O Vigia do Tempo".
Esse o título do livro, explicando na introdução:
"Porque vivemos / num mundo sem custódias/ e o
poeta é o vigia do tempo".
Sérgio tem razão:
cumpre ao poeta, se poeta, e ao escritor, se legítimo,
vigiar vigilando. Nada de concessões. E condenou, em
apenas três versos, todo um tratado de ética
para quantos vivam das letras (ou morram delas).
Também assim entendemos:
quem vigia não reza, sob a cúpula das "igrejinhas",
a oração da inveja; prefere, ao invés
das ilhas que estiolam, a amplitude continental da cultural,
no trato das belas-letras; participa da vida de toda a humanidade,
com ela se alegrando ou sofrendo, sem tempo para subir deprimindo
adjacências; e, no culto ingratíssimo das letras,
apenas cumpre destino histórico, mais com vistas à
verdade e à justiça que à glória.
Quem vigia o tempo é parte inalienável do processo
social.
Nesse contexto está
Sérgio Mattos. Integro como pessoa e como artista:
"Os versos provincianos / um dia conhecerão o
mundo/ Lançarei todos eles ao mar".
Legítimo desejo
de amplidão. Anseio de universalidade. O mar levará
os versos do poeta a todos os pontos da Terra e seu canto
pertencerá a todos os povos. Rirão com os que
riem e se rebelarão com os humilhados e ofendidos.
Exaltarão os humildes e humilharão tiranos.
Cumprirão o fadário da verdadeira poesia: "Há
PAZ em 24 horas? Não, mas em cada segundo/ nasce um
menino no mundo".
Sérgio Mattos pertence
ao movimento modernista. Desde o início de seus cantares.
Sem metro nem rima. Pensamento e música. Metafórico
sem ser hermético. Graças a Deus. Porque o hermetismo
é, não raro, máscara obscena, no carnaval
da literatura cabotina. Ou, ainda, exploração
torpe da ignorância vaidosa e da vaidade ignorante,
que se desmancham em louvores ante quadro pintado pela cauda
de algum símio...
A metáfora denuncia
o trato aprofundado das letras: "Senti o poema/ somei
sentimentos/ mas não o escrevi:/ Era perfeito demais
para existir."
Dedicado a Guido Guerra,
- jovem que se vem agigantando na prosa em que, não
raras vezes, deixa entrever o excelente poeta que ficou inédito,
- o acima transcrito minipoema, forma predileta de Sérgio,
deixa patente a grandeza de sua alma, pela humildade do homem
ante a perfeição, predicado divino. Sérgio
Mattos existe.
Humberto Lyrio é Professor e Poeta.
Artigo intitulado "Sérgio Mattos, poeta",
publicado em
A TARDE do dia 18 de fevereiro de 1978
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