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Um
Perfil da TV Brasileira
Thales de Azevedo
A grande realização brasileira
destes tempos é sem dúvida, a televisão.
Projeta-nos lá fora, faz nosso prestígio, difunde
nossos costumes, cria a fama de artista, dá imagens
do que somos. Não é imune de falhas, de erros,
de defeitos, porém isso é outra coisa. O que
importa neste registro são o extraordinário
crescimento, a qualidade técnica e estética,
a estrutura empresarial e comercial desse empreendimento,
o modo como se realiza e capta multidões a começar
pelo próprio País, ocupando um espaço
invejável nos meios de comunicação ainda
quando dependa dos demais: curioso é que sendo uma
potência serve-se da publicidade, do noticiário,
da crítica e do comentário da imprensa escrita
para esse êxito. Cada dia é mais evidente essa
dependência. Mas, afinal, o que é a televisão
brasileira? Não é a única no mundo, experimenta
a competição da mexicana, da japonesa, de quanta
outra mais. Mas, sem dúvida, tem muito de si mesma,
criativa, expansiva, poderosa. Não podia, assim, deixar
de impressionar aos que observam e analisam nossas realidades.
Alguns escrevem sobre a mesma. O mais orgânico e ordenado
dessas notas surge na Bahia, da observação,
do exame, da ponderação de diferentes aspectos,
da condição jurídica e legal, do contexto
organizacional. É o livro em que o jornalista baiano
Sérgio Mattos percorre metodicamente, com objetividade
e segurança, os 40 anos do desenvolvimento desse meio
de comunicação em nosso amplo contexto. Fixa,
desenha e caracteriza quatro fases processo com segurança
de dados e de juízos, valendo-se de materiais históricos,
das opiniões e pontos de vista de outros pesquisadores,
com independência de modos de ver e convincente argumentação.
Aprecia os estudos até agora aparecidos, dando a conhecer
aspectos de importância, gerais, institucionais, sociológicos.
Nesse Perfil da TV Brasileira(40 anos de história:
1950-1990), traça um quadro de sua autorizada concepção,
original, provocante à continuação e
alargamento: nenhum novo estudo pode dispensar-se dessa contribuição.
Aspectos políticos, econômicos, artísticos,
jornalísticos compõem essa sugestiva imagem,
que o estudioso da comunicação completa com
atualizada bibliografia. O essencial desse livro é
que inaugura, com riqueza de elementos e bom aproveitamento
de dados, a história e a sócio-economia do tema.
"Esse balanço, enxuto e equilibrado", como
o considera Jorge Calmon no prefácio, fica como uma
contribuição marcante ao tema, indispensável,
sem favor, a quantos pretendam fazer idéia de como
se explicam a realização, o sucesso, a consistência
da tevê brasileira.
Claro que uma iniciativa complexa como essa não se
esgota em tal pesquisa, por muito que esta seja fundamental
para entender como se firma e consolida o conjunto das emissoras
do gênero no próprio território nacional
e se faz procurado fora. Traz esclarecimentos de natureza
diversas ao caso outra obra recente, Prime-Time Society, lançada
também em 1990, da autoria do antropólogo norte-americano
Conrad Philip Kotak. É como indica o subtítulo,
"uma análise antropológica da televisão
e cultura", uma verificação empíricas
de como a televisão influi ou, ao menos, concorre para
comportamentos culturais, para atitudes, posições
dos usuários. E como penetra nos ambientes e promove
mudanças de conduta. O impacto e a dimensão
do processo são uma das análises levadas a efeito
em pesquisas numa série de comunidades de São
Paulo, Rio de Janeiro, S. Catarina, Pará e Bahia. Trabalhando
com seu conhecimento dos modos de ser brasileiros que examinara
noutras monografias, uma delas Assault on Paradise (1983)
e na tese, para doutoramento, sobre a economia da pesca, as
relações raciais, o sistema de classes em Arembepe
(fiz breve registro dessa obra no artigo "Arembepe, paraíso
assaltado"( em A TARDE de 1/3/91) e utilizando dados
de pesquisas de colegas brasileiros nas mencionadas comunidades
num plano de trabalho de campo por três anos, reúne
um material indispensável ao conhecimento do que é
e o que faz nossa TV sobre os modos de pensar, de apreciar
os fatos do dia, os valores sociais, a realidade cotidiana,
a política... Ocupa-se da violência, do crime
em geral, do sexo, da religião, de quanto as telas
da TV revelam. Muito significativa, a pedir que esse livro
seja traduzido, é a comparação da cultura
brasileira com a norte-americana, "Televisão e
modernidade" é um dos seus temas, como a imagem
das personagens, os enredos de novelas, o caráter do
noticiário.
Em suma, minudente avaliação
do impacto do popular meio de comunicação sobre
a mentalidade, os costumes, as instituições,
a família brasileira.
As duas obras são contribuições
sérias à identificação e ao perfil
da nossa televisão, interessando aos especialistas
do assunto e, muito, ao grande público que dedica
mais que outros povos tantas horas diárias às
telenovelas e a tudo que cativa tanto milhões.
Tales de Azevedo é
Professor, Escritor e membro da Academia de Letras da Bahia.
Artigo intitulado "Televisão, a grande realização
brasileira",
publicado em A TARDE Cultural, no dia 6 de maio de 1991.
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