Televisão e Cultura no Brasil e na Alemanha
José Moura Pinheiro

Qual a importância da mídia especialmente da televisão na sociabilidade contemporânea, em termos de produção cultural e oferta de informações? Que aspectos positivos e negativos se verificam no papel desempenhado pelos meios de comunicação de massa, enquanto elementos essenciais na formação político-cultural de um país? Basicamente, são questões dessa natureza que permeiam o livro Televisão e Cultura no Brasil e na Alemanha, organizado por Sérgio Mattos, jornalista, professor da FACOM/UFBA, editor de A TARDE Municípios e Ph.D. em Comunicação. Trata-se da transcrição de seis palestras (incluindo-se comentários de debatedores e intervenções do público), proferidas durante o seminário "Cultura e Política e Política Cultural na Televisão do Brasil e da Alemanha", promovido pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pelo Instituto Cultura Brasil Alemanha (ICBA), em maio de 1994.

Os palestrantes ou expositores são: Dirk Kaemper, historiador e jornalista alemão; Carlos Libório, jornalista e professor da FACOM; Washington de Souza Filho, jornalista e professor da FACOM; e Sérgio Mattos. Participam também Vera Martins, jornalista e professora da FACOM, como debatedora, e Roland Schaffner, um dos organizadores do seminário. Embora seja uma obra produzida no âmbito acadêmico, caracteriza-se pela leveza e objetividade do texto, desobrigando o leitor de recorrer às dezenas de notas de rodapé e referências bibliográficas, geralmente incluídas em ensaios e artigos originários de instituições acadêmicas. As concepções teóricas sobre a comunicação de massa e a contextualização histórica estão presentes em várias passagens do livro, mas de forma subsidiária. O que sobressai mesmo nesse trabalho é a experiência vivenciada pelos autores, seja nas atividades de pesquisa ou na labuta do jornalismo. O texto é enriquecido com os questionamentos feitos pelos debatedores e pela platéia.

É um livro que chega na hora certa, pois discute as formas de atuação da mídia, principalmente da televisão, neste final de milênio, em que a sociedade industrial vai cedendo espaço à nova "sociedade da informática", baseada na informação e, sobretudo, no conhecimento. Nessa nova forma de vida, os costumes locais cada vez mais são influenciados ou invadidos pela cultura global, originária dos países ricos do Ocidente e reproduzida pela mídia. "Como parte da sociedade da informática, os veículos de comunicação de massa, dentre os quais a televisão se destaca, caracterizam-se como os elementos de maior significação cultural e política desta era, notadamente pela capacidade que possuem de influenciar na formação da consciência, tanto particular quanto pública", diz Sérgio Mattos.

Discorrendo sobre a televisão alemã, Dirk Kaemper levanta um problema importante para se entender o conceito de "cultura na TV". Ele se refere a uma "forma de cultura que, por sua obviedade, não se mostra atraente para a massa". Essa questão envolve a premissa de que existe incompatibilidade entre a chamada "cultura de elite" e o público de massa que assiste à televisão. Segundo dados apresentados por Kaemper, 45% dos telespectadores alemães se interessam basicamente por divertimento e 11% se dizem "desinteressados por cultura". A audiência de programas culturais transmitidos pela TV atinge no máximo 13%. Esse quadro é bem parecido com o do Brasil e demais países da América Latina. Quer dizer, em que pesem as diferenças entre as culturas alemã e brasileira, a preferência por temas culturais é mais similar do que se pensa. Entre outros temas, Kaemper discute também a relação entre cultura e política na mídia alemã.

Ao tratar da cultura na televisão brasileira, Carlos Libório lembra o fato de,. No Brasil, existir a convivência entre as emissoras estatais (TV Educativa) e as emissoras particulares, regidas por interesses comerciais e lucrativos, representando 90% do total. Para ele, o "público-alvo da televisão é a audiência de massa. A televisão é, por excelência, por sua própria natureza, o veículo de comunicação de massa".

Lembrando que a programação de uma emissora de TV normalmente se concentra em lazer, entretenimento, informação e cultura, Libório assinala que "a programação cultural existe na televisão brasileira, existe nas emissoras privadas, mas é importante salientar que essa programação cultural está sujeita às mesmas regras, às mesmas normas, às mesmas limitações do restante da programação.

Washington de Souza Filho discorre sobre o jornalismo na televisão. Em sua exposição, entre outras abordagens, ele trata do modelo de elaboração e produção de notícias no Brasil. Segundo esse autor, "a notícia de maior valor é a de maior repercussão, uma condição reconhecida pela possibilidade de ser identificada pela variação de audiência. Isto significa que, muitas vezes, no jornalismo da televisão brasileira, não é exatamente a notícia que representa interessa e sim o que representa audiência. Embora o autor esteja se referindo ao caso brasileiro, o que acontece na verdade é que o parâmetro da audiência para a divulgação da notícia é seguido pela mídia de, praticamente, todos os países capitalistas. Sousa Filho analisa também as causas que levaram o telejornal a ser a principal fonte de informação no Brasil.

Ao falar sobre a interatividade e desenvolvimento das mídias no Brasil, Sérgio Mattos traça um breve histórico dos meios de comunicação de nosso país, desde a inauguração do primeiro jornal, em 1808, passando pela primeira transmissão de rádio nos anos 20 deste século, até a implantação da TV em 1950. Mattos ressalta que, historicamente, o surgimento de uma nova mídia não elimina as já existente: "A televisão tem o sucesso que tem sem ter eliminado o rádio, sem ter eliminado a revista, sem ter eliminado os jornais? Se segmentaram em termos de mídia. Mídia eletrônica e mídia impressa permanecem e vão ocupar o espaço ainda por muito tempo, definitivamente segmentadas".

Enfim, há uma coisa interessante para se ler nessa nova obra sobre comunicação e cultura contemporâneas, lançada no dia 9 de dezembro passado(1997). A nosso ver, é um texto que merece ser lido não apenas pelos que trabalham na mídia ou se dedicam ao estudo na área de comunicação social, mas por todos os que se interessam em entender o misterioso significado dos bens simbólicos produzidos e reproduzidos pelos meios de comunicação de massa.


José Moura Pinheiro, professor, escritor e
doutorando em Comunicação na Facom / Ufba.
Resenha publicada sob o título de "Mídia e Cultura: o espaço dos bens simbólicos"
em A TARDE de 27 de dezembro de 1997, no suplemento A TARDE Cultural.