CONSTRUINDO A HISTÓRIA DA TV
A televisão no Brasil: 50 anos de história

A Televisão no Brasil: 50 Anos de História, do jornalista Sérgio Mattos, traça um retrato da trajetória deste veículo em n osso País.

A história da TV brasileira se confunde com a dos últimos 50 anos da própria História do Brasil. Esta é a sensação deixada pela leitura de A Televisão no Brasil: 50 anos de história(1950-2000), do jornalista e pesquisador Sérgio Mattos. Para fazer compreender esse complexo objeto de estudo foi preciso revelar capítulos decisivos da vida política, social e econômica do País, cuja identidade, muitas vezes, é definida e ditada pela programação de uma única empresa de comunicação e seu padrão de qualidade.

Mattos separou momentos importantes da trajetória da TV brasileira, desde quando esta era um privilégio da elite, passando pelo período de popularização, seguindo o aprimoramento tecnológico, a expansão internacional, até a globalização da TV paga e o que chamou da “fase de convergência e da qualidade digital”.

O autor salienta o forte controle do Estado sobre a indústria cultural brasileira, em parte devido à dependência dos veículos de massa em relação aos subsídios oficiais. Para ele, a centralização é reforçada através de decretos, medidas provisórias e portarias. A TV, e seu controle oficial, em alguns momentos foi decisiva na redemocratização do País, mas, em outros, pode comprometer a cultura brasileira, tão rica.

“Ao estimular o consumo massivo (e ao proporcionar o entretenimento), a televisão reflete as políticas nacionais de desenvolvimento econômico adotadas desde 1964. Essas políticas são em si uma contradição: a geração de consumo e de bem-estar social simultaneamente”.

A distribuição da publicidade na TV, em 1988, chegou a representar 60,9% do total de propaganda no País, um investimento em torno de US$ 7,5 bilhões. A rede Globo, que atraiu sozinha 40% da audiência nacional, absorveu 55% do total. “A televisão é o veículo que recebe a maior fatia do bolo publicitário, o qual gira em torno de 1% do PIB nacional”, descreve o livro.

A Globo não seria a maior rede de televisão do Brasil – deixa claro – se não desobedecesse ao Artigo 160 da Constituição de 1964, que não permitia que companhias estrangeiras tivessem direito de propriedade sobre meios de comunicação. “Inicialmente, a TV Globo teve o respaldo financeiro e técnico do grupo americano Time-Life. O envolvimento foi subseqüentemente eliminado, embora isso só viesse a acontecer depois que ela usufruiu das vantagens dos dólares e da experiência gerencial estrangeira”.

TV DISSECADA

Para refazer a trajetória da TV, foi preciso dissecar o “Milagre Econômico”, a censuro no Governo Militar, a Nova República e a manipulação das concessões de rádio e TV patrocinadas por uma política protecionista escancarada, que ainda marca a democracia brasileira, sem deixar de fora o poder da publicidade estrangeira. O livro apresenta indícios, baseados em notícias de jornais, de que a manipulação das concessões de televisões teria sido usada para barrar o impeachment de Fernando Collor, prática que já havia dado certo na época de José Sarney, que teria ganhado um ano a mais de seu governo, distribuindo concessões.

FHC, através do controle da inflação e a estabilidade da macroeconomia do País(94-98), conseguiu quase a duplicação do número de aparelhos de televisão do País. Foram vendidos cerca de 28 milhões de televisores, calculando-se que cerca de seis milhões foram comprados por famílias que estavam adquirindo o primeiro televisor”, relata Mattos, mostrando o surgimento de um contigente de 24 milhões de telespectadores das camadas mais baias da sociedade. Diante disso, os programadores e diretores de televisão passaram a investir em programas popularescos, como Ratinho Livre.

Com a fuga das classes A e B para a TV paga, a tendência apontada pelo especialista é de a TV aberta ficar cada vez mais “idiotizante”. Outra tendência seria a TV se fundir com a Internet, criando uma maior interatividade e livrando os navegadores da Web das limitações e dos tormentos da conexão telefônica. Em sua pesquisa, Sérgio Mattos revela que as empresas de televisores já estão anunciando a criação da Web TV, com teclados e controle remoto, associando conteúdo de televisão , rádio e Internet.

Entre outros assuntos, o livro traz provocações para novas pesquisas, a cronologia da história da televisão e um capítulo bastante útil para estudiosos de comunicação, descrevendo e classificando várias pesquisas sobre o veículo. Capítulos que, somados às implicações políticas, econômicas e sociais por si só, não deixam duvida de que vale a pena ver de novo para compreender o que está acontecendo por trás das linhas de varreduras do principal veículo de comunicação que invade nossas casas, ora deixando o “rei nu”, ora determinando os destinos deste imenso País.


Éden Nilo
(Publicado no suplemento Revista da TV, do jornal A TARDE, no dia 14 de janeiro de 2001, p.9)