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JANELA VERTIGINOSA
A televisão no Brasil:
50 anos de história
Um novo e poderoso instrumento. Foi assim
que a imprensa considerou a televisão, quando ela surgiu
no Brasil, precisamente em 18 de setembro de 1950, quando
houve a transmissão do primeiro programa de TV no Brasil.
Essa transmissão foi marcada pela improvisação,
pois, na estréia da TV Tupi, uma das três câmeras
queimou, causando um atraso de 90 minutos na sua entrada no
ar. O interessante é que, assim como a fotografia,
que gerou uma série de interpretações
na época em que começou a se popularizar, a
televisão também era vista por alguns como um
aparelho em que as pessoas que estavam dentro da máquina
poderiam ver as outras que assistiam. Com a fotografia, as
pessoas temiam olhar nos olhos do retratado, pois tinham a
sensação de estar sendo observadas também.
A história da TV é muito
curta, se considerarmos o início da tecnologia das
imagens técnicas que podiam ser reproduzidas em larga
escala, que começou com a fotografia em meados do século
XIX, vindo logo depois o cinema. Se a geração
de hoje vê a televisão como algo natural,
como parte constitutiva de seu cotidiano, na época
em que a TV surgiu, o elemento natural era o rádio,
e os jornais impressos é que faziam a cabeça
do público escolarizado.
A televisão veio para modificar
radicalmente essa situação. As crianças
não dormem mais embaladas por canções
de ninar, mas pelos jingles de produtos comerciais
veiculados pela TV; as novelas alteram hábitos e afetam
o cotidiano das pessoas; os telejornais ajudam a derrubar
presidentes, governadores, prefeitos e parlamentares. Contar
a história do desenvolvimento da TV no Brasil é
contar a história do desenvolvimento de um país,
que passou de agrário para urbano numa velocidade espantosa
e que se integrou a um mercado mundial de consumo também
muito rapidamente.
Relatar esse processo, desde as primeiras
transmissões, passando pelas diversas fases de internacionalização,
censura e expansão da TV brasileira ao longo desse
último meio século é o que se propõe
o professor e jornalista Sérgio Mattos, no livro A
televisão no Brasil: 50 anos de história, publicado
pela Editora PAS/Edições Ianamá. São
312 páginas de história e, no final, o leitor
é brindado com 29 páginas de uma vasta bibliografia
sobre o assunto, muito útil para quem quer se aprofundar
mais sobre o tema. Sérgio, inclusive, no corpo do trabalho,
apresenta uma pequena síntese dos estudos sobre televisão
no Brasil.
O livro tenta organizar o material histórico
disponível sobre televisão, tanto do ponto de
vista estrutural como funcional, identificando as relações
existentes entre o crescimento da televisão nos últimos
50 anos com o próprio desenvolvimento do Brasil. O
autor considera que, principalmente no período de 1964
a 1985, a televisão foi usada como poderosa ferramenta
política, tanto na mobilização social
como de formação de opinião pública.
O trabalho, na verdade, dá continuidade e amplia um
estudo anterior do mesmo autor, Um perfil da TV brasileira:
40 anos de história.
No novo livro, Sérgio traça,
em linhas gerais, as condições econômicas
do Brasil durante o período de implantação
da televisão, que coincidiu com as mudanças
do perfil do País, que passou do ciclo agrícola
de exportação para o incremento da industrialização
urbana. Basta dizer que, em 1950, 20% da população
era urbana, enquanto 80% vivia na área rural. Com a
mudança de perfil, 25 anos depois, 60% da população
já viviam nas cidades, enquanto 40% permaneciam no
campo. Os governos pós-Golpe de 64 promoveram um rápido
crescimento do Brasil, criando estatais, atraindo multinacionais
e endividando o País. A televisão percorreu
um caminho similar de dependência e foi usada pelo regime
militar para promover a chamada integração
nacional.
Com o passar dos anos, a relação
da televisão com as empresas multinacionais foi ficando
cada vez mais estreita, não só em relação
aos anúncios, mas também no que diz respeito
a programas, filmes e, principalmente, tecnologia. Sérgio
Mattos destaca ainda que as redes de TV, com o correr dos
anos, passaram a atuar em outras frentes de informação,
como Internet, revistas, jornais, rádios e TV a cabo,
cercando seu público de todos os lados, aumentando
o faturamento e criando redes integradas de informações
e entretenimento. Nesse aspecto, a televisão hoje não
é nem sombra do que foi há 50 anos, quando transmitia
programas de auditório improvisados, ao vivo e sem
uma infra-estrutura adequada. A TV, hoje, absorve a maior
parte do investimento publicitário, e um minuto no
chamado horário nobre custa uma pequena
fortuna para o anunciante.
Mattos enxerga seis fases de desenvolvimento
para a TV brasileira: a elitista (1950-1964), quando a televisão
era um luxo para a elite; a fase populista (1964-1975), quando
a TV era considerada um exemplo de modernidade; a fase de
desenvolvimento tecnológico (1975-1985, caracterizada
pela produção de programas próprios e
pela exportação de programações;
a fase de expansão internacional (1985-1990), quando
se intensificaram as exportações de programas;
a fase da globalização e da TV paga (1990-2000),
quando a TV se moderniza e se adapta aos novos rumos da redemocratização;
e, finalmente, a fase de convergência e qualidade digital,
com a tecnologia apontando a TV para uma interatividade cada
vez maior com a Internet e outras tecnologias de informação.
O livro apresenta ainda uma cronologia
com os principais fatos que marcaram a história da
TV, ano a ano, de 1950 até 2000, mostrando o crescimento,
por exemplo, da televisão por assinatura, que em 1999
cresceu 56% em relação ao ano anterior, representando
uma nova fase para a TV no Brasil, segmentada e com uma maior
variedade na programação, incluindo não
só canais nacionais, mas também programas ao
vivo de grandes redes internacionais, músicas, cinema
e esportes, todos de forma ininterrupta, durante 24 horas.
A TV brasileira, importante, apesar de
nova, experimentou um crescimento vertiginoso e são
as marcas dessa expansão que o livro de Sérgio
Mattos tenta seguir, não deixando nunca de analisar
seus desdobramentos e condições sociais e políticas
que propiciaram tal desenvolvimento. Para quem se interessa
pelo tema, a leitura é indispensável.
Adelmo Borges
(Mestre em Comunicação pela UFBA, Adelmo Borges
é jornalista integrante da equipe de A TARDE
Publicado no suplemento A TARDE Cultural, de 27 de janeiro
de 2001, p 10).
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