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Trilhas
Poéticas
Waldir Freitas Oliveira
Duas vezes, ao longo de
um tempo de quase 25 anos, escrevi sobre o poeta Sérgio
Mattos. Em outubro de 1974, após haver lido seu primeiro
livro solo de poemas Nas Teias do Mundo, em
abril de 1995, comentando seu Asas para amar.
Na primeira vez, dele
disse me parecer um pássaro rebelde que cantava e enchia
o espaço de canções, mesmo quando em
torno as máquinas se mudavam em homens e os homens
esfregavam seus ventres no chão. Um mundo incerto e
traiçoeiro a todos nos envolvia, 20 anos atrás
vivia-se o fim do falso "milagre econômico",
insistentemente anunciado pelo governo Médici; alguns
poucos lendo O Pasquim, com sua crítica mordaz e ferina
aos governantes do país, quase todos, contudo, embalados,
em verdade, quase anestesiados pelos acordes rompantes do
"Eu tem amo, meu Brasil, eu te amo...", e ainda
eufóricos com a conquista do tricampeonato de futebol,
em 1970, no México.
Assistiu-se, então,
a passagem do governo Médici para o governo Geisel,
com a deslumbrante festa da posse do novo presidente, em março
de 1974, na qual foram gastos nada mais nada menos de 2 milhões
de cruzeiros em solenidades e comemorações,
das quais participaram 89 delegações estrangeiras.
Foi aquele tempo de glória do general Golbery do Couto
e Silva, mago terrível que por aqui viveu, antes dos
magos inventados por Paulo Coelho e de outros, dos quais não
queremos lembrar.
Sérgio Mattos escreveu,
então, em seu livro, que "...na névoa da
madrugada,/os pensamentos revoltados / são sepultados/
num orvalhado de prata/ pelo poeta que palpita/ em busca da
liberdade..."//.
Seriam estes versos um
desabafo, uma demonstração de insatisfação
de quem se considerava enredado Nas Teias do Mundo,
buscando delas escapar através da poesia, já
anunciando em um dos poemas desse seu livro, o título
que daria a um outro, que iria surgir quatro anos depois,
em 1977 O Vigia do Tempo. Nele disse Sérgio
Mattos que, vivendo num mundo sem custódias...o poeta
é O Vigia do Tempo.
Ele continuou a cantar
em 1980, publicou, em edição bilíngüe,
em português e inglês Já Não
Canto, Choro// I No Longer Sing, I Cry; em 1995, dois livros
Asas para amar e Estandarte; e agora nos apresenta
esta Trilha Poética.
Por uma segunda vez escrevi
sobre Sérgio Mattos, comentando Asas para amar,
dele tendo dito haver demonstrado a coragem de ter permanecido
de pé frente às ondas gigantes de um mar revolto,
"continuando capaz de enxergar o invisível e escutar
o silêncio, inconformado com a seqüência
monótona das horas iguais".
Estou de novo a falar
de Sérgio Mattos, saudando-o neste encontro de agora,
no lançamento desse novo livro. Pouco irei dele falar,
evitando um monótono repetir de opiniões e palavras.
Realçarei apenas alguns dos seus poemas aqueles
que mais me tocaram e sensibilizaram. Havendo-os escolhido
sem muito esforço, em meio a tantos outros que mereciam
ser lembrados. Devolvo-os, então, aos seus leitores,
retirando-os das páginas da sua Trilha Poética
e os relendo. Escolhi, então, Sonho II, com sua extraordinária
riqueza de sons, Escultura, hino de consagração
à mulher amada, e Relicário de amor, de um lirismo
intenso e puro. Convido-os, a escutá-los, para depois
de ouvi-los, aplaudir o poeta, em agradecimento pelo tanto
de belo que nos está a oferecer.
SONHO II
"No sonho, tristonho
recomponho,
na criança que sou, a lembrança da esperança
na prece que apetece e cresce.
Quando dormindo, não minto, sinto
que a mente, descrente, desmente,
o tino divino do destino.
No fundo, o meu profundo mundo
é um universo submerso, disperso,
ocioso, silencioso
perdido e indefinido."
(Fevereiro/1996)
ESCULTURA
"A depender da
intencionalidade
do poeta, a mulher-musa
pode ser um símbolo virtual,
uma figura híbrida
entre o ideal e o real.
A depender da cumplicidade,
a mulher pode ser recriada
poeticamente, como uma coreografia,
plena de sensualidade
e sem qualquer dissimulação.
A depender da semântica a mulher amada,
cheia de sutilezas,
pode ser transformada
numa escultura de palavras."
(Novembro/1996)
RELICÁRIO DE
AMOR
"Um bilhete de
amor
encontrei perdido
entre páginas de um livro lido.
Encontrei dissecada uma flor
que também falava de amor.
O livro esquecido
na estante, guarda um passado,
uma lembrança de tempos ido."
(Outubro/1997).
Waldir Freitas Oliveira,
professor, escritor, historiador
e membro da Academia de Letras da Bahia.
Artigo publicado no jornal A TARDE, de 09 de setembro de1998
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