Nas Teias do Mundo
Nonato Marques

A Bahia como que está ressurgindo para a poesia. O que não é de admirar porque ela mesma é um poema da natureza feito de sal, de verde. De mar, de praias e de paisagens pinturescas e românticas. Não pode, pois por tudo isto, fugir ao seu destino telúrico de "verde ninho murmuroso de eterna poesia", na clássica expressão de Ruy. Talvez, por essa mágica predestinação, é que aqui tenham nascido tantos poetas, entre os quais sobressai Castro Alves, o condor da poesia americana, cujo vôo foi além das culminâncias, equiparando-se aos maiores gênios poéticos da Humanidade.

Embora, na Bahia de hoje, desponte e se incentive o espírito pragmático, ninguém poderá jamais desvinculá-la do seu fatalismo poético, através do qual ela exerce um fascínio excepcional sobre os artistas e um sortilégio profundo sobre todas almas.

São dignas, portanto, de incentivos e aplausos as iniciativas que constatamos no decorrer do ano pretérito, assinaladas, principalmente, pelos concursos realizados, entre os poetas da nova geração e a original Feira de Poesia que encheu o largo da Piedade de uma mocidade inteligente e ruidosa que exibia os seus versos, como se fossem novos cruzados de uma atividade intelectual heráldica e delicada reservada, apenas, a alguns eleitos das musas. O mesmo se poderá dizer dos lançamento de novos livros, entre os quais se insere, como merecido destaque, o de Sérgio Mattos, intitulado "Nas Teias do Mundo", teias entretecidas de originalidade e beleza, onde "o mundo de essências/ está nas mãos do poeta".

Seus poemas são curtos, breves, o que nos sugere pingos luminosos de uma inspiração que extrai da síntese o essencial para o nosso deleite emocional. É como se fosse um garimpeiro da poesia pura que joga o cascalho fora e recolhe apenas as pepitas. A um só tempo, ele cavalga "nas ondas do espaço e pisa os ventos para ouvir o primeiro som". Mas, como que pretende seguir um itinerário da sua caminhada ainda estreante e se delimita em etapas que o leva a sentir "vez por outra", "a lembrança da criança/ que um dia deixei de ser". Mas um dia ele sentiu a própria transmutação, porque o menino encontrou um poeta que era ele mesmo, e que afinal era um homem, "um homem que a tudo descobriu...era um poeta". E com ele andou "na noite sem lua/ no dia sem paz/ e no mundo sem Deus". E prosseguiu como um peregrino enumerando metáforas, e assim rondou e circulou entre "ditongo e hiatos/ graves e agudos acentos" e "como sempre/ acabou sonhando no/ círculo da vida".

E nesse círculo da vida o poeta há que se debater por muito tempo ainda, pois nele irá buscar o fio das suas teias, pois cada uma significará um momento definido da sua arte e das suas emoções. O círculo vicioso não se acabará jamais enquanto o poeta viver, porque ele terá sempre a necessidade vital de se exteriorizar em ritmos, em idéias, em versos, única maneira de enviar a sua mensagem ao mundo que o cerca.

O livro "Nas Teias do Mundo" revela um poeta e tudo nos faz crer que Sérgio Mattos se afirmará no meio intelectual baiano, continuando a dar-nos, nos seus poemas, as líricas manifestações do seu espírito.


Nonato Marques é Poeta e Escritor. Artigo intitulado "Um livro amável",
publicado em A TARDE, no dia 18 de janeiro de 1974.