Nas Teias do Mundo
Ivan Dórea Soares

Lembro dos tempos de Experimental, 1968, meninos de 20 anos, companheiros d’ A Semana, e carregados de sonhos – entusiasmo inebriantes – que fazíamos responsabilidades imensas. Lembro as horas, lembranças de conversas – encontros e desencontros em algumas vezes – horas que nos tornaram amigos em essência. E caminhamos juntos. Lembro, também, a derradeira e única dor grandiosa que marcou aqueles nossos dias. E hoje, longe, superamos por completo a cicatriz.

Igualmente hoje, Sérgio Mattos – poeta – não conhece a ausência de inspiração, moldada e modulada sempre, explodindo em versos rápidos e fortes, rápidos – retrato mais despido de sua poética. Sérgio, em sua cavalgada "nas ondas do espaço", descobriu em emoções já dissecadas a linha aberta e clara de seus versos, perseverando constante e inapagável recordação da infância nas terras cearenses. E essa descoberta, imperiosa que desencadeou as teias – ou raios – deixa, em cada criado poema, as "árvores que crescem".

Existe a inquietação. Profunda e sentida, o poeta busca em cada paragem, cada canto absoluto de ausência, a necessidade do ser. Verdadeiro ser que é.

"Já não existem
a rua sem movimento
e o movimento nas praias
- Queria Ter paz para todos – ".

Mas o poeta não tem paz para todos. Sua face tornada calma pela dor, aceita a condição de estar em um ciclo – um gigantesco e asfixiante ciclo – onde o homem é o mais voraz de todos os seres. Então, o poeta cansa dos seus próprios sentidos: "Já não existem / lágrimas nos olhos / e paz nos corações / - Tenho lágrimas para todos- ".

Entretanto , Sérgio compreende fundo que o mundo de essências / está nas mãos do poeta" e, mesmo o homem sendo o mais voraz dessa crosta-mundo, existe ainda um homem, "um homem / que a tudo descobriu...". Essa alentadora certeza – inesgotável porque pensamento e pensamento é eterno – reabre as perspectivas (negras, talvez, em margens totais) mas atenuadas, agora pela fé, na sublimação do ser universo.

Também a saudade, como a inquietação – almas irmãs e amadas: "o mundo dos brinquedos / entardeceu no tempo". E Sérgio, "adormecido em lágrimas", absorve a violência da paz, porque a paz violenta aqueles que a procuram, que a amam – como os poetas.

Hoje, Experimental caminharia para os 6 anos. Paramos uma tentativa, para ingressarmos na vida. Ligados a dois jornais – não mais A Semana – continuamos as seqüências. Exatamente ciclos. Para poder eternizar o pensamento. De cada poeta. De cada verdade.


Ivan Dórea Soares, poeta, escritor e arqueólogo.
Em artigo publicado em A TARDE
do dia 20 de abril de 1995.