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Nas
Teias do Mundo
Adalberon Cavalcanti Lins
Nas minhas andanças por estas veredas
do Brasil vim esbarrar na muito leal e generosa cidade de
Salvador. Belezas naturais, acolhimento fidalgo e poesia aqui
não faltam. Então em se falando de poesia, nem
sei qualificar a grandeza desse ninho imenso de intelectuais,
quase todos poetas de nascença. Poetas que, desde o
berço, iniciaram chorando poesia. Terra fértil
de talentos.
Travei conhecimento com um dos poetas
jovens, residente em Salvador, Sérgio Mattos. Por coincidência
forma o ninho de poetas baianos, mas é do Ceará.
Nasceu em Fortaleza. Há uma significativa propriedade
vocabular quando me refiro a "ninho de intelectuais".
É que me pareceu ver em Sérgio Mattos, no seu
interessante livro de poemas, a pequena ave implume que vai
iniciando os seus primeiros vôos indecisos, inseguros
e vai aumentando os remígios na proporção
em que a plumagem lhe dá segurança para os vôos
arrojados. O livro deveria ter-se dividido em três fases:
aquela em que o poeta faz as suas primeiras tentativas, já
demonstrando o talento e a vocação; a outra,
em que o poeta se afirma na elaboração de conceitos
mais seguros, e, por fim, a fase do amadurecimento, em que
o instrumento da palavra contém um sentido empolgante,
envolvido Nas Teias do Mundo, e bem firma na expressão
hermética das imagens simbólicas do seu trabalho.
Nunca fui poeta nem posso me dar ao luxo
de alimentar a esperança de versejar. Vez por outra
baixa o espírito de algum deus estranho, e me põe
no cérebro um verso, uma quadra, um poema sem significação.
Não duvido que algum espírito me esteja agora
incentivando o ânimo de escrever um pequeno poema dedicado
a Sérgio Mattos, talvez inspirado naquele poema admirável
Quando Sinto. Aliás os melhores poemas de Sérgio
são os últimos do seu livro. Sente-se neles
o poeta amadurecido na simbologia transparente quase sem hermetismo,
de uma suavidade lírica, impregnada de amor e comunicação
humana. Como é lindo isto:
"Quando sinto o desencanto, procuro
tuas mãos
que trazem o conforto e me fazem palpitar.
Permaneço disperso, sentindo teu perfume
e tua presença suspensa nas nuvens da imaginação".
Sérgio Mattos escreveu outro poema
em que fala em nuvens do pensamento. Aproveito o ensejo para
lhe oferecer um "quase" poema, escrito logo após
a leitura do seu livro Nas Teias do Mundo :
Sementes de Amor
Para Sérgio Mattos
"As nuvens do pensamento"
Se esgarçam
No espaço.
Depois se juntam
Se aglomeram,
Chovem gotas de ternura
No papel...
Papel que é terra onde nascem
Sementes de Amor
Que se transformam
Nas árvores do mundo,
Ilhas inconsúteis.
Umas dão sombra amiga,
Frutos doces.
Outras matam culpados inocentes.
Nuvens de pensamento,
Só poetas podem ver...
Adalberon Cavalcanti Lins é Romancista.
Artigo publicado no jornal Gazeta de Alagoas, no dia 18 de
outubro de 1974, com o título de "Nas Teias do Mundo".
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