|
Retina
José Garcia Costa
Sem grandes barreiras,
entramos em contacto com a linha poemática adotada
por Sérgio Mattos, através de seus poemas apresentados
em Retina (coletânea de prosa e verso, recém
lançada em Salvador, reunindo trabalhos de Sérgio
Mattos, Vera Gondin, Vera Mattos, Lusmar Oliveira e Santos
Gonzaga).
Clareza, precisão
e sintetismo se nos afiguram imediatamente, como as mais salientes
tendências observáveis numa apreciação
extrínseca de seus poemas. O "eu" poético
extravasa-se através de uma linguagem que poderíamos
dizer, objetiva a fruição quase que imediata.
Porém, vale salientar a grande força insinuativa
dessa mesma linguagem pois ela vem espicaçar o leitor
com sua extrema simplicidade. Deste modo, o autor nos arremessa
a um segundo nível dos poemas, onde estariam contidos
o impulso e a essência poéticos.
Valendo-se sempre de grande
simplicidade, o autor não tenta seduzir o leitor com
o uso de rebuscamentos lingüísticos ou hermetismos
imagéticos. A quase instantaneidade na captação
dos versos é reforçada pelo grande sintetismo
dos poemas. O impulso poético realiza-se dentro da
liberdade formal preconizada pelo modernismo. É na
forma sintética dos poemas que Sérgio Mattos
busca conter o transbordamento de suas vivências interiores.
Nos poemas apresentados
em Retina, esta característica formal aparece em todos
eles, entre os quais o mais longo apresenta onze versos. Seus
poemas seriam então a síntese de intensos momentos
poéticos, irreprimíveis "flashes"
do "eu" do poeta. Por vezes, sua poesia apresenta
um caráter de prosa, disposta em versos assimétricos,
como em "Iniciação".
O autor freqüentemente
vale-se de clichês, e tenta deles arrancar uma maior
expressividade poética. O clichê, na estrutura
dos poemas funciona como uma apresentação do
mesmo, e será explorado nos versos seguintes. Diríamos
que, pela utilização de clichês, os poemas
perderiam muito em originalidade. Porém, na manipulação
do clichê como índice para a metáfora
do poema, estaria a originalidade. Esta parece ser uma das
constantes técnicas de criação do poeta.
Devemos aqui assinalar que o subjetivismo poético (intrínseco
do poeta) deve encontrar na forma índices que o revelem.
O signo literário é a palavra e a palavra escolhida
deve sempre remeter-nos em direção à
essência do poema.
Por vezes, na busca da
simplicidade da palavra escolhida, o autor esbarra no lugar
por demais comum ("Incoerência"), por não
encontrar talvez a expressão adequada para sua vivência
interior. Já tal fato não ocorre em "Verso
Diluído", onde a palavra satisfaz original e simplesmente,
a metáfora do poema.
A temática de Sérgio
Mattos é variada. O poeta abrange, entre outros temas
a problemática do homem citadino, desumanizado pelo
progresso e mero fantoche social, como no poema "Verticalidade".
Neste poema, o "eu" poético estravasa toda
sua angústia diante da pobreza das condições
humanas das grandes Cidades (... "chorei pingos de inspiração").
Ao abordar a problemática
urbana, o poeta subdivide-se em subtemas. O poeta assume uma
postura crítica diante da desumanização
do homem contra a ambição que leva até
a uma autodestruição ("Valor (in)verso",
"Suicídio Triste" e Verticalidade").
Uma Segunda postura seria
a do profundo lamentar do poeta imerso no caos urbano. Toda
a dor e a angústia do poeta transparecem claramente
em "Urbanizado" e "Verso Diluído",
onde há apenas "pressa" e "stress"
a cantar, e versos somem no "asfalto".
"Pureza Anônima",
o poema que empresta seu título a este grupo de poemas,
diversifica-se temáticamente. O "eu" poético
apresenta, neste poema, uma preocupação da ordem
transcendental, a nostálgica busca de uma pureza ideal
perdida no simples fato de existir, talvez a mesma pureza
esmagada sobre o asfalto, sepultada no "crescimento vertical
de uma cidade", abandonada "numa rua deserta",
ou perfeita "demais para existir".
José
Garcia Costa, professor de literatura portuguesa.
Em artigo intitulado "O Flash poético de Sérgio
Mattos",
publicado em A TARDE de 20 de dezembro de 1975.
|