Retina
Ildásio Tavares

Os jovens que compõem a coletânea de versos Retina apresentam um saldo positivo na contribuição que deram ao movimento literário da Bahia, dentro de suas limitações de idade e de artesanato. Nota-se em todos os poetas que compõem esta antologia a preocupação de manifestar-se sobre o mundo que os rodeia, às vezes num lirismo por demais pessoal em que o poeta busca dentro de si os motivos e razões de sua crise individual, e com mais freqüência numa tentativa de analisar a crise do mundo contemporâneo e as influências q eu este nefasto estado de coisas exerce sobre os indivíduos. Assim, nota-se a repetição em quase todos deles de temas em foco na atualidade. Quase todos preocupam-se com a poluição, seja como elemento simplesmente atuante no mundo externo, seja como dado sensível que influi até um grau maior de subjetividade.

No lirismo de expressão mais puramente pessoal está talvez o calcanhar de Aquiles destes jovens poetas. Aponto-o para que o repensem em termos mais reais, e possam perceber que problemáticas tipicamente individuais estreitam o apelo comunicativo. É muito difícil dar uma dimensão universal ao eu, estendê-lo até que encontro outros eus que comunguem dos mesmos problemas. E como forma é fundo aparecendo, é sempre difícil desbastar o que há de meramente sentimental na linguagem poética, fator que tende a diluir o pensamento por estabelecer uma dissociação da sensibilidade em que uma escala de valores coloca a emoção acima da razão, quando na verdadeira poesia emoção e razão estão perfeitamente casados. Como dizia Fernando Pessoa, o poeta deve sentir pensando e vice-versa. A linguagem é sempre um espelho do conteúdo e quando prevalece a emoção, ela se expressa, para citar um exemplo, em tonalidades super-afetivas, como é o caso no português do diminutivo em –inho, que encontrei com freqüência em um desses jovens poetas, emprestando um tom a mais de sentimentalismo a um tema já de per si bastante sentimental.

Vera Mattos abre a coletânea e dela podemos dizer que se os seus poemas ainda carecem de um certo amadurecimento e labor artesanal, por outro lado ela tem a preocupação de se situar perante o mundo e vê-lo por uma ótica personalizada, tanto mais objetiva quando deixa o eu de lado e se prende aos signos do mundo que a rodeia. Como também seus textos em prosa denotam uma maior fluência de pensamento, um maior apego ao cotidiano que busca, de certo modo, redimensionar.

Já com Santos Gonzaga encontramos mais decisivamente esta intenção de análise da conjuntura atual, que estilisticamente se consubstancia numa menor evidência do eu, dissolvido no contexto poético. O poeta prega, porém consegue colocar-se a uma certa distância dos fatos.

Lusmar Oliveira também se encontra melhor nos trechos em prosa, e naqueles poemas em que deixa entrever o peso do mundo a atuar sobre seu universo existencial como no poema Tédio. É válido para ela o que disse de caráter geral. Nota-se que o processo de seleção vocabular ainda sofre de literatice. Convivem nos seus versos palavras que são claramente suas ou de sua geração com palavras meramente literárias e que poderiam, ser de qualquer poeta. Se por um lado esta disparidade tolhe a perfeição do estilo, pelo outro anuncia a possibilidade de por uma gradativa libertação do "literário" ela vir a ser encontrar na medida em que se firme no seu universo vocabulário próprio.

Sérgio Mattos, o mais amadurecido de todos os que compõem este livro, já consegue firmar um estilo bastante depurado. Nota-se que os seus poemas conseguem dizer bastante em poucas palavras, o que revela um cuidadoso labor artesanal num caminho já descoberto e que se for perseguido com amor e dedicação lhe dará um lugar seguro no ambiente literário da Bahia. De todos é o que tem mais poder de síntese e melhor seleção e combinação vocabular, base segundo Jakobsen da verdadeira confecção literária. O que não vem em detrimentos dos outros, que se encontram em estágios diferentes de evolução.


Ildásio Tavares é Poeta, Escritor, Jornalista e doutor em Literatura.
Trecho da resenha sobre Retina, publicado no Jornal da Cidade, no
dia 4 de abril de1976 sob o título: "Os jovens Poetas de Retina".