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Lançados
ao Mar
Ivan Dórea
Recordo-me
dos já distante tempos da nossa adolescência
dizendo melhor, começo da juventude quando
criamos a revista "Experimental"...
Recordo-me dos passados anos das intermináveis conversas
construtoras de uma amizade que o tempo e as distâncias
não conseguiram destruir...
Recordo-me dos nossos primeiros poemas, publicados no saudoso
jornal "A Semana", sob a égide do bom Germano
Machado, um dos protetores das inspirações iniciais...
Recordações
e saudades...
São duas palavras e um sentimento que me transportam
às épocas de vinte anos atrás, quando
nos conhecemos no Mosteiro de São Bento; são
saudades das mais queridas, um sentimento profundo de realizações
mescladas com o crescer, com o caminhar, enfim, com a vivência
de cada um...
Saudades
de vinte anos, de doze anos, saudades de um passado que não
passou de todo pois deixou a sua belíssima marca registrada:
a certeza de que ainda existem amizades sinceras.
Recordações de um ontem que o poeta guardou
na retina dos seus olhos, nas mãos vazias mas puras,
nos passos andados por tantos caminhos...
Recordações e saudades...
Hoje, tenho em minhas mãos mais um livro de Sérgio
Mattos esse poeta vigoroso, poeta que joga com as palavras
em poucas linhas possuidor de um profundo Dom de sintetizar
o pensamento sem, contudo, quebrar a beleza e a grandiosidade
do seu ser de poeta, em conseqüência, da própria
Poesia.
Tenho em minha mente,
acalantos de Poesia, envolvimentos de sonhos carregados de
busca da PAZ, mergulhados no mar década verso escrito
e criado pela sensibilidade do poeta dono de um ser
impregnado de inspiração maior.
Tenho as mãos
purificadas pelas páginas dos poemas "lançados
ao mar": "os versos provincianos do poeta/ um dia
conhecerão o mundo:/ lançarei todos eles ao
mar..." Tenho os olhos a colorir imagens radiosas
de uma beleza indescritível mas suave características
das visões dos verdadeiros poetas... Tenho os passos
muito abertos, andados nos caminhos repletos de encruzilhadas,
porém, honestos...Sérgio Mattos, poeta e amigo,
conhece bem-profundamente bem o caminhar das horas,
o amanhecer na escuta do badalar do relógio cerebral,
o sentido amplificado de ser gente: "Enamorei-me da imensidão./
O ritmo surdo da vida me embalou/Chorei em versos os meus
pecados/ e passei de um sonho para outro./ Flutuei no espaço
como uma pluma/ e fugi para o infinito."
Sérgio Mattos, homem, jornalista, às vezes ferido
pelos reveses da vida (não são reveses que ferem,
Sérgio, são as ingratidões, é
a sordidez da mentira, é a hipocrisia com cara de anjo),
medita: "Apesar da alucinante traição,/
o ideal de agora/ é o mesmo de outrora:/ Em meu coração/
lugar não há para omissão/ submissão
e corrupção". E, em seus momentos
que são todos de homem-poeta, Sérgio
Mattos coloca tijolo sobre tijolo nos alicerces da arte que
lhe é um precioso Dom, na alvenaria segura do continuar
poeta, no ofício às vezes, absurdo
de ser gente.
O poeta de "Nas
Teias do Mundo" e do "O Vigia do Tempo", tem
os seus poemas ""Lançados ao Mar"; entretanto,
não é um jogar fora, não é um
desfazer-se. Não. Enquanto ele os lança às
ondas, elas os conduzem a um espalhar sempiterno em lugares
que se resumem em um só nome: o Mundo.
Sérgio Mattos,
poeta, certamente vence os arbitrários limites que
as incompreensões humanas estabeleceram (e estabelecem)
à sua vida de jornalista. Apesar da libertação
pela Poesia, a dor o atinge e fere o mais fundo do seu âmago.
Mas a dor fere qualquer homem... Todavia, o poeta é
, apesar de homem, poeta, e a dor maior é a do poeta
ferido...
Enquanto sonho com as origens da minha paz e com a serena
presença, dentro da minha vida de rabiscador de versos
soltos por aí, descubro imensas emoções
nesse caminheiro da Poesia que é Sérgio
Mattos poeta de verdade, poeta de fé, meu amigo
e companheiro.
(Um dia, quem sabe, Sérgio, todos os poemas e todos
os poetas do Mundo terão "asas para amar"
e viverão cada um com a musa da "pureza
anônima"? Quem sabe, os seus poemas "lançados
ao mar" andarão "rios em terra de céu
azul" e aportarão na "pedra dos pássaros"?
Quem sabe, poeta?).
Ah, um dia, o poeta dirá exatamente o contrário
da afirmativa de hoje:
Já não choro, canto...
Ivan Dórea
é Antropólogo, Contista, Poeta e Professor.
Publicado no jornal A Tarde, de Salvador-Bahia, no dia 17
de março de 1986.
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