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Estandarte e
O Controle dos Meios de Comunicação
Cid Seixas
Sérgio Mattos é um profissional
de imprensa estimado e respeitado pelos seus colegas. Iniciou-se
no jornalismo há mais de 20 anos, quando o exercício
da profissão ainda não era exclusivo aos diplomados
em comunicação. Naquela época, profissionais
ou universitários das várias áreas de
saber estagiavam nas redações até aprender
o essencial. Mas, em meio aos velhos repórteres e redatores,
uns poucos rapazes, ainda estudantes de colégio tornavam-se
"focas". Foi nesta época que conheci Sérgio
Mattos. A redação de jornal ao tempo em que
nos fazia sonhar mais alto, podava um pouco os sonhos mais
impossíveis.
É com prazer, portanto, que reencontro
em dois livros o velho colega Sérgio Mattos. O primeiro
é um livro de poesia, Estandarte, já em Segunda
edição, cuja primeira publicada no início
do ano esgotou-se depois de consecutivos lançamentos
em cidades do interior. Sérgio contradiz a crença
de que poesia não vende, Praticando um texto simples,
às vezes ingênuo, ele faz versos como se fizesse
prosa, estabelecendo um diálogo com o silencioso interlocutor,
o leitor. É talvez esta escrita dirigida a um público
mais amplo que assegura a receptividade junto a pessoas que
não têm hábito de ler poesia. A poesia
direta é colocada em palavras, como faziam alguns românticos,
no século XIX.. Mas, enquanto os românticos derramavam
a emoção respeitando algumas formas consagradas,
Sérgio parece querer abolir tal compromisso com a estrutura
do verso para praticar uma dicção prosaica.
É evidente que tal prática
o afasta dos poetas empenhados no cultivo do verso como forma
de expressão oposta à prosa. Veja-se por exemplo
o poema "Ideologia":
"Em tempo de patrulhamento,
político ou ideológico,
sempre mantive meu pensamento,
isento e lógico,
procurando o bom senso.
Afinal, não nasci máquina,
não nasci trem, como vocação para andar
em linha,
nem tampouco, acreditem,
vagão, para pensar em bloco."
Os versos acima não trazem nada
que diferenciem a linguagem do poema da linguagem da prosa,
do discurso ideológico ou da declaração
política. Manuel Bandeira colheu situações
do cotidiano, transformando uma notícia de página
policial em poema. Mas imprimiu um tom diferencial ao texto
colhido. Aqui, Sérgio se limita ao discurso direto,
incisivo. Dizendo o que pensa. Mas os lugares comuns deste
texto prejudicam a sua recepção enquanto texto
poético, transformando-o em texto pragmático,
de forma que eu o situaria entre os momentos mais fracos do
livro.
Mas outros lêem de modo diferente.
Jorge Amado,. Por exemplo, parece contradizer o ponto de vista
acima: "Não sou crítico literário
e se, às vezes, me animo a dar palpites sobre um romance
por ser oficial desse oficio, não me animo a comentar
poesia. Poesia, leio e gosto ou não gosto, é
tudo. No caso da poesia de Sérgio Mattos, leio e releio
com um prazer sempre renovado e sempre maior. Gostaria, no
entanto, de fazer referência especial ao poema "Ideologia".
Você escreveu, com beleza e exatidão o que eu
penso desde há muitos anos".
Veja-se que, mesmo um leitor refinado
como Jorge Amado, aceita o tom direto do discurso deste "Ideologia",
obliterando a apreciação da forma em favor da
identidade de conceitos.
O outro livro lançado por Sérgio
Mattos ( o terceiro deste ano!) é O Controle dos Meios
de Comunicação, um estudo útil e sobretudo
oportuno, quando se discute a conveniência de uma Lei
de Imprensa. Como jornalista e professor do curso de Jornalismo,
sempre atualizado, o autor tem suficiente autoridade para
discutir o tema. Sua contribuição destina-se,
portanto, aos profissionais da área e aos estudantes
que, desde já, participam do debate de idéias.
O livro faz uma abordagem segura dos diversos
modos encontrados pelos estamentos do poder de controlar os
meios de comunicação, de forma a atenuar o impacto
da informação independente. Em livro anterior,
Sérgio Mattos abordou a censura imposta em tempo de
guerra, quando mesmo países que se dizem guardiões
da democracia desrespeitam inteiramente o direito de acesso
aos fatos pelos cidadãos. Neste volume de agora ele
traz à tona formas mais perigosas de controle, porque
exercidas de modo menos evidente. É o que acontece
com o chamado controle econômico.
A questão ética levantada
no livro de Sérgio Mattos deve ser vista com o maior
relevo. Somente desenvolvendo uma ética profissional
exemplar, por parte dos jornalistas, se poderá evitar
a degradação da imprensa à condição
de mera assessoria de comunicação dos grandes
grupos. Quando o poder do capital fala mais alto é
necessário que a ética de uma classe se transforme
em sentinela quixotesca, porém intransigente.
Cid Seixas
Jornalista, poeta, crítico e titular da coluna "Leitura
Crítica",
sob o título de "Do Jornalismo Literatura",publicado
no jornal A TARDE no dia 29 de julho de 1996.
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