Estandarte
Telmo Padilha

Não conheço Sérgio Mattos, isto é, de onde veio – embora saiba para onde vai -, se é casado, se tem filhos (quem é poeta sabe o que isto significa, na acepção pessoana ou zweigeana), quais os seus autores prediletos – e os que o influenciaram -, como é na intimidade. Encontramo-nos apenas duas vezes – a última por ocasião do lançamento de dois livros seus em Itabuna. E, embora não tenha perguntado nada a ninguém, desconfio que não é baiano na acepção de bem falante, gargalhante, extrovertido, festeiro – tem mais jeito de grapiúna, calado, meio sorumbático, arredio. Suponho que tem mulher e filhos – mas deve ser assim mesmo em família, principalmente quando em estado de poesia... Quanto aos seus autores prediletos, aposto que leu e gostou de Walt Whitman – que é seu oposto -, Brecht e Maiakóvski – os que mais deve apreciar -, Baudelaire, Éluard, Borges, Pessoa, o mineiríssimo Emílio Moura e o maior de todos nós – Carlos Drummond de Andrade. Acertei? (A pergunta, obviamente, é dirigida ao poeta, com quem espero conversar um dia num comício a dois...). No que tange à sua intimidade, ele certamente desconversará, para não ser indelicado, e colocará na resposta uma dose de bem-humorada ironia: "Bem... quanto a isto, eu posso lhe falar quando você for meu biógrafo...". Deixei propositadamente para o final deste parágrafo a questão –colocada entre parêntesis – do para onde vai Sérgio Mattos. Ele não vai, ele já integra o elenco dos melhores poetas baianos de todos os tempos, o que não é pouca coisa numa poesia que já deu um Castro Alves, um Pedro Kilkerry, um Sosígenes Costa, um Godofredo Filho, um Carvalho Filho, um José Olympio, e mais recentemente um Antônio Brasileiro, um Ildázio Tavares, um Cid Seixas, um Jorge Araújo, uma Myriam Fraga, um Carlos Roberto Santos Araújo, um Jorge Medauar, um Florisvaldo Mattos, entre outros, para evitar omissões talvez imperdoáveis numa lista que é bem mais alentada e porque este artigo não tem pretensões antologizantes...

Matar a cobra e mostrar o pau, é agora o que me compete fazer, depois de uma introdução talvez um pouco alongada. O forte da poesia de Sérgio Mattos é a impressão de sinceridade que imediatamente nos passa, isto é, a gente acredita no que ele diz – e no que parece sentir ao dizê-lo. Para ele, a palavra é o veículo, não o fato. A palavra é linguagem, mas não o que ele realmente quer expressar. Ainda que ela seja elevada ao mais alto grau de tensão possível, como recomendava Ezra Pound. O conteúdo dos seus poemas – a maioria, pelo menos - deixa transparecer um humanismo solidário com os mais pobres, os mais infelizes, os mais tristes, sem panfletarismos ou proselitismos, sem perder de vista que sem linguagem não existe poesia. Tendo alcançado o pleno domínio dos seus meios de expressão, a sua técnica, a sua estética, a sua digital, ele não só nos convence como poeta – impõe-se. Querem um exemplo? "Escrevi em balões poemas/cheios de verdade/ e os soltei nas curvas do espaço/ para que fossem vistos./ A verdade voava pelo mundo,/ mas tiraram de mim as verdades./ Minhas mãos perderam as forças./ Meu grito não repercutiu,/ e o eco dele se esqueceu.../ (Já não existem balões no espaço)". Outro exemplo: "O mundo fatigado cai numa máquina de jornal/ onde uma angústia permanente em busca da verdade/ a todos cega: apenas a notícia existe". E o poema prossegue, até aquele fantástico final do destroçamento das manchetes.

Estas considerações me vêm a propósito de "Estandarte", o mais recente livro de Sérgio Mattos, que o maior editor baiano – e o mais injustiçado, Gumercindo da Rocha Dórea – acaba de editar. Dizer que se trata de um belo livro, seria apenas um lugar-comum. Por isso prefiro dizer desse livro que ele se incorpora, sem favor, ao melhor da poesia baiana de todos os tempos, e ao que de melhor se tem publicado no Brasil recentemente..

Um folder extremamente bem feito acompanha o livro, numa espécie de balanço da trajetória poética de Sérgio Mattos. Formato italiano, cores discretas, papel de excelente qualidade, tem-se, nele, um apanhado das opiniões críticas sobre os diversos livros do autor ao lado das suas obras publicadas. Embora o folder (que inclui dois poemas de SM, à guisa de entrada) dê a impressão de que tenha sido preparado para assinalar os 30 anos de vida literária do autor, a idéia é excelente como veículo de divulgação extralivro. Nenhuma novidade, tratando-se de Gumercindo da Rocha Dórea, a quem devo a edição de dois dos meus livros, graficamente impecáveis.



Telmo Padilha é Jornalista e Poeta.
Artigo intitulado "Um poeta que diz o que sente",
publicado em A TARDE, no dia 19 de novembro de 1996.