Estandarte
Nonato Marques
Queimadas- Quando
eu soube que meu amigo o poeta Sérgio Mattos
viria a Queimadas, firmei comigo mesmo
o compromisso de abraça-lo e de felicitá-lo,
pessoalmente, aqui, no meu torrão natal, ao ensejo
do lançamento do seu novo livro de versos intitulado
Estandarte.
Fiz íntima questão
de comparecer aqui ao lançamento desse Estandarte
vitorioso pálio que se desdobra sobranceiro sobre trinta
anos de atividades literárias de Sérgio Mattos.
Isto porque a ele ligam-me velhos e fortes laços de
amizade e de admiração urdidos há muitos
lustros, quando juntos trabalhávamos no jornal A TARDE,
onde ele até hoje permanece, continuando a emprestar
àquele prestigioso órgão da imprensa
baiana o brilho do seu talento e a eficiência do seu
esmerado preparo profissional. Para corroborar estas minhas
palavras, aí estão os excelentes cadernos editados
sob sua responsabilidade jornalística: A TARDE Rural
e A TARDE Municípios. Ambos prestando inestimáveis
serviços às comunidades interessadas nesses
assuntos técnicos e informativos.
Quanto ao poeta
permitam-me os que me ouvem- que eu o apresente em breves
e sinceras palavras. A bibliografia de Sérgio Mattos
já é um atestado inconteste do seu reconhecido
valor intelectual: seis livros de versos já editados
inclusive este que aqui está sendo lançado
festivamente já lhe conferem pela quantidade
e qualidade de sua produção- o direito de figurar
com destaque na galeria dos poetas maiores de nossa terra.
Sua poesia suave e bela já foi além dos limites
de nossa língua, traduzida, como tem sido, para outros
idiomas. Já transpôs nossas fronteiras. E tem
sido, também, acolhida em diversas antologias.
Sobre a poesia de Sérgio Mattos manifestei-me pela
primeira vez em 1974, logo após a publicação
do seu livro: Nas Teias do Mundo, o qual segundo creio
deve Ter sido o primogênito de sua prole poética.
Daí por diante foram surgindo outros num ritmo admirável
de fecundidade.
Não me equivoquei,
portanto quando naquela tão distante oportunidade,
previ que Sérgio Mattos se haveria de afirmar como
excelente poeta no meio intelectual baiano, para dar-nos,
nos seus poemas, as líricas manifestações
do seu espírito. Não me enganei. Aí estão
suas obras e do poeta ainda temos muito o que esperar.
Há pouco tempo Sérgio Mattos brindou-nos com
um delicado livro de versos, sugestivamente intitulado Asas
Para Amar. O livro se apresenta numa edição
primorosa e veio enriquecer a bibliografia do autor
bastante, expressiva como á acentuamos. Teve a mesma
acolhida dos livros que lhe antecederam, sendo que neste
a meu ver mais se alteia a inspiração
do poeta sob o comando da sua emotividade criadora. É
que nela o amor é o tema absoluto. E ao longo dos tempos
tem sido o eterno tema da poesia. O amor gera as emoção
e a poesia e, essencialmente, "a arte de causar emoções
através do manejo das palavras. Onde não existe
emoção não pode existir poesia".
Para Camões
notável vate português: "O amor é
fogo que arde sem se ver// é ferida que dói,
e não se sente,/ é um contentamento descontente,/
é dor que desatina sem doer.// É um não
querer mais que bem querer,/ é um andar solitário
entre a gente, é nunca contentar-se de contente/ é
um cuidar que ganha em se perder".
O conde de Rochester disse
que o amor em um país de ateus faria adorar a Divindade.
Segundo Voltaire, o homem recebeu o Dom de aperfeiçoar
tudo que lhe concedeu a natureza e por isso o homem aperfeiçoou
o amor.
Sérgio Mattos nos
adverte em um dos seus poemas em miniatura: "Convém
amar/enquanto vivo/frágil mortal...".
E ele mesmo o próprio
poeta criou asas para amar e o fez com seus vôos sutis
e serenos, andejando de flor em flor vale dizer de
mulher em mulher pois foi a bíblica Eva quem
inventou o amor e o pecado original. E assim ele nos induz
a pensar quando diz, categoricamente: "Um dia colocarei
asas/ em teu vestido branco/ e como anjo poderás/ flutuar
no espaço e/ bordejar, como colibri, sugando/ das bocas
que queiras/ o néctar que necessitas/ para alimentar
teu amor."
E Sérgio Mattos
assim define o seu amor: "Meu amor não segue normas/
de gramática./ Não tem regras nem exceções/tudo
dá certo/ como na matemática."
Confessa que seu amor
não "é medido". É sentido intensamente,
livremente. Os seus poemas são sínteses emotivas
dos seus recônditos sentimentos. São dotados
de conteúdo lírico e romântico
características estas que recriam a realidade. Seus
versos são modernos, livres como soem ser as asas do
amor nos seus voejar constante. Versos que sugerem idéias,
visões, imagens, num ritmo livre e num tom melódico
e envolvente. Estruturalmente, a poesia de Sérgio Mattos
se apresenta em poemas breves, assemelhando pepitas de ouro
fino extraídas do filão da sínteses de
sua inspiração primorosa.
Nonato Marques é Escritor e Poeta.
Artigo intitulado "Inspiração Primorosa",
publicado em
A TARDE, do dia 17 de outubro de 1995.
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