Estandarte
Marlene Vaz

Cheia de todos os cansaços, abri i livro Estandarte, do poeta Sérgio Mattos. E eu que pensava saber de mim... Este livro me abriu completamente. Li num silêncio, mas os poemas fizeram barulho dentro de mim. Há uma riqueza de momentos, momentos tão próximos de nós que dão a impressão de termos vivido todos os poemas. E estes momentos que vivi ("O Tempo Passa"), que vivo ("Natal por Segundo") e que viverei ("Sufocado"), o autor previu no poema "Concepção": "O mundo de essências está nas mãos do poeta, com as mãos ele articula o destino de todos os seres".

Somente os poetas têm esta capacidade de destruir a realidade e recriá-la no espaço do realismo mágico ("Encontro"), de alterar o pêndulo e nos pôr fora do ritmo ("Nunca Seria Demais"). Não é à toa que morro de inveja dos poetas – não sei fazer poesia para mudar a ordem das coisas como Sérgio Mattos faz em "Publicidade".

Posso e quero viver mais alguns poemas, na esperança de poder levar o passado para o futuro, como a "coruja que só consegue enxergar na escuridão da noite, quando uma forma de vida já envelheceu"(Hegel), fazendo-me sábia como o poeta ao arrastar os seus sonhos para o futuro ("Lição de Vida") ou arrastando-os além da vida, nos pondo "Asas para amar", porque "o poeta é o vigia do tempo", apontando "Tudo que eu fui", "Desejo Ancestral" e construindo o "Destino". E mais na frente, me fez ver o céu tão próximo que estiquei as mãos com um punhado de sonhos, tentando pegar uma estrela na carona de "Sentidos do Amor", poema surgido de um momento mágico de "invenção do amor"".

E agora, com o cansaço já sossegado e como hoje ainda não é amanhã, FECHO O ESTANDARTE e sinto saudades de todas as vidas que o poeta me fez viver.



Marlene Vaz é Socióloga.
Artigo publicado em A TARDE, no dia 15 de dezembro de 1995.