Estandarte
Francisco Carvalho

Caro poeta Sérgio Mattos:

Li os poemas de Estandarte. Você faz uma poesia que é uma espécie de celebração do cotidiano. Através de uma linguagem simples, sem falsos apelos de sublimidade, você nos fala do homem e de suas aflições, do amor, dos sonhos, das aspirações de todos nós. Sua escritura poética não abusa de recursos metafóricos nem de adjetivos desnecessários. Dá objetivamente o seu recado, o seu testemunho lírico a respeito do nosso tempo, dos nossos equívocos, nossas utopias, nossos sentimentos, nossos vícios de grandeza e, sobretudo, de nossa impotência diante do inexorável. Em "Meditação", você nos dá uma definição de sua cosmovisão poética: "Meu pensamento/ transborda como um verso cheio./ É impetuoso como uma cascata/ cuja força amansa o homem./ Procura a plenitude do infinito/ e não se envaidece como o pavão. É exatamente o que se espera de um poeta da modernidade: não imagina que o seu umbigo é o centro do universo, e que se chove ou faz sol é por causa de seus poemas. Os seus poemas de amor sã0 desprovidos de certa grandiloqüência celebrativa costumeira na dicção de alguns poetas de ontem e de hoje. São textos enxutos, permeáveis às ideologias e sentimentos fragmentários do mundo contemporâneo. "O meu sonho e o meu amor/ sobrevivem nesta sociedade artificial". Em seu discurso lírico persiste a convicção de que a poesia é algo essencial, algo inarredável da natureza humana. "Porque vivemos num mundo sem custódias? E o poeta é o vigia do tempo".

Cordialmente, o

Francisco Carvalho



Francisco Carvalho é Poeta, cearense.
Em correspondência endereçada a Sérgio Mattos, datada de 23 de março de 1998