Estandarte
Gustavo Falcón
Para comemorar a passagem dos 30 anos
de poesia do escritor e jornalista Sérgio Mattos, a
GRD Editora põe à disposição do
público a coletânea Estandarte, seleção
de diversos livros anteriores, em fina edição
com papel pólem no miolo, que perpassa o trabalho de
três décadas de criação
Livre da condição de critico
me sinto à vontade para comentar com humildade esse
longo vôo da poesia de Sérgio Mattos, cuja lírica
persistente e incansável teve início precoce
e continua ativa e preocupada em captar o complexo relacionamento
dos seres e o transcorrer da vida.
O universo multifacetado da coletânea
que expressa um ciclo de longa duração, preserva,
contudo, a identidade necessária e característica,
bem como a forma como o mundo é abordado (sentido filosófico),
a unidade temática (densidade existencial), bem como
a forma de expressão estilística do autor: uma
poética descritiva, imagética, quase jornalística
e, ao mesmo tempo, preocupada em interromper o curso normal
e caudaloso do rio da vida para nele introduzir perplexidade
e questão.
Sintético, inquieto, contrito,
atento e moderno, Estandarte põe a poesia à
mostra, despida de apelos panfletários e recursos formais,
quase em estado de graça, sem elucubrações
e recorrências vanguardistas, enfim poeta sem exigências
críticas, despido do rigor da literatice, romântico
e despretensioso, descomprometido com regras e exigências
acadêmicas. Eis aqui o espaço onde o jornalista
e escritor adocica as suas horas de labor em nobre atividade
de entregar-se, vestir-se, para na sua integralidade, dar-se
ao leitor, à musa, ao mundo, devolvendo ao plano substancial
da vida a matéria-prima reelaborada da poesia, ícone
diverso que habita o mundano fazendo-se destacar pela sua
nova natureza de abstração construída.
Depois de tantos e tantos títulos,
alguns do meu conhecimento, como O Vigia do Tempo, Asas Para
Amar, Lançados ao Mar, Nas Teias do Mundo, entre os
que me lembro e muitas participações em coletâneas,
Sérgio goza de muito reconhecimento e já tem
um público cativo na Bahia. Gumercindo Rocha Dórea
farejando editorialmente o poeta pensa com Estandarte, certamente
numa investida além do mercado local.
Distante do beletrismo e longe, muito longe do rigor da métrica
levei a coletânea em primeira mão para minha
roça, em Cachoeira e ali, longe do ruído e do
burburinho, fiz o que faço sempre que me escondo do
mundo da competição e da luta, li poesia em
paz e acompanhei parte do mundo do poeta Sérgio Mattos,
colega que no cotidiano dos dias habita as páginas
dos jornais, teoriza sobre televisão, ajuda a formar
novas gerações de jornalistas, sempre preocupado
em visualizar sua ação como intelectual, jornalista,
poeta, enfim, como gente que não se enquadrou simploriamente
em bloco de contorno ideológico.
Sérgio Mattos faz a sua poesia
desinteressada e consegue o que persegue como profissional:
comunicação com o seu público que o devora
a cada edição. O resto, fica com a crítica,
a qual, por felicidade, não integro.
Gustavo Falcón é
Sociólogo, Jornalista e diretor da Editora da UFBA(EDUFBA).
Texto publicado em A Tarde Cultural, no dia 17 de setembro
de 1995,
sob O título de "Lírica persistente".
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